Pular para o conteúdo principal

Mangás dominam vendas e super-heróis perdem espaço: o que os dados recentes revelam sobre o mercado brasileiro de quadrinhos


Os números mais recentes sobre o mercado editorial de quadrinhos no Brasil confirmam uma transformação que já vinha sendo percebida por leitores, lojistas e editoras: o eixo comercial do setor mudou. Levantamento divulgado pelo BookInfo mostra que os mangás concentram 46,7% das vendas de quadrinhos no país, enquanto os títulos de super-heróis, que por décadas foram o principal símbolo do mercado, hoje representam menos de 5% do total.

Mais do que um simples ranking de popularidade, os dados ajudam a entender como o perfil do consumidor brasileiro mudou e revelam também uma forte concentração editorial, além de evidenciar a existência de nichos importantes, porém com menor impacto comercial.

Durante grande parte do século XX e início dos anos 2000, falar em quadrinhos no Brasil era praticamente sinônimo de Marvel e DC. Esse cenário mudou de forma significativa. Segundo o levantamento, os quadrinhos de super-heróis representam apenas 4,9% das vendas totais.

Isso não significa necessariamente uma perda de relevância cultural. Pelo contrário: o gênero continua dominante no cinema, no streaming e na cultura pop em geral. O que os números indicam é uma mudança no formato de consumo. Parte do público que antes acompanhava essas histórias no impresso passou a consumir o conteúdo em outras mídias, enquanto o modelo tradicional de revistas periódicas perdeu força frente ao formato de volumes encadernados, muito comum nos mangás.

Se os super-heróis perderam protagonismo comercial, dois segmentos assumiram o papel de sustentação do mercado. Os mangás lideram com 46,7% das vendas, enquanto os quadrinhos voltados à literatura infantil aparecem em segundo lugar, com cerca de 35%.

Juntos, esses dois segmentos respondem por mais de 80% do mercado brasileiro de HQs. O dado revela um setor fortemente apoiado em leitores jovens e em narrativas seriadas, que estimulam a fidelização e a compra recorrente.

O sucesso dos mangás também está diretamente ligado à integração com outras mídias, especialmente os animes e o streaming, que funcionam como portas de entrada para novos leitores.


Outro dado que chama atenção é a concentração editorial. A Panini aparece com aproximadamente 68,8% de participação no mercado brasileiro de quadrinhos, um domínio raramente visto em setores culturais.

Embora seja frequentemente associada aos super-heróis, a liderança da editora não vem das vendas dos títulos da DC Comics e da Marvel, como se supunha. O catálogo robusto de mangás e a atuação forte na área infantil são fatores decisivos para sua hegemonia. Isso demonstra que o poder comercial da empresa está diretamente ligado à sua capacidade de atuar em múltiplos públicos e formatos.

A JBC surge como segunda maior editora, com cerca de 14% do mercado, também impulsionada majoritariamente pelo segmento de mangás, enquanto a NewPOP aparece na sequência, com participação bem menor, mas igualmente baseada em títulos asiáticos.


Um dos pontos mais reveladores do levantamento é a baixa participação, ou até ausência, de editoras bastante respeitadas entre leitores e colecionadores, como Pipoca & Nanquim, Comix Zone e Mythos Editora.

A Pipoca & Nanquim e a Comix Zone consolidaram sua reputação com edições de alto padrão gráfico, resgate de clássicos e curadoria cuidadosa, características muito valorizadas pelo público colecionador. Ainda assim, o impacto comercial dessas publicações é limitado quando comparado ao volume de vendas gerado por séries populares e recorrentes.

Já a Mythos, responsável pela publicação da maior parte do catálogo da Sergio Bonelli Editore no Brasil, também não aparece entre as principais participações de mercado. Isso reforça a ideia de que os quadrinhos italianos mantêm uma base fiel de leitores, mas operam dentro de um nicho relativamente restrito.

Os dados sugerem a existência de dois eixos distintos dentro do mercado brasileiro de quadrinhos. De um lado, estão os segmentos que movimentam grandes volumes de vendas, impulsionados por séries longas, forte presença midiática e público jovem. De outro, existe um circuito mais voltado ao colecionismo e à valorização editorial, com menor alcance comercial, mas grande relevância cultural.

Essa divisão não é necessariamente negativa. Ela indica um mercado plural, capaz de abrigar tanto produtos de grande circulação quanto obras mais autorais e voltadas ao leitor especializado.


É importante destacar que o levantamento divulgado pela BookInfo não detalha publicamente todos os canais de venda considerados na composição dos números. A empresa atua com inteligência de mercado baseada em dados fornecidos por parceiros do setor editorial, especialmente livrarias físicas e plataformas de venda online que integram sua base.

Isso significa que os resultados devem ser interpretados como um retrato consistente do mercado editorial monitorado pela plataforma, mas não necessariamente como um panorama absoluto que contemple todos os pontos de venda do país, como bancas de revistas independentes, lojas especializadas ou vendas diretas realizadas por editoras. Ainda assim, pela abrangência e relevância da base de dados utilizada, o levantamento oferece um indicador bastante representativo das tendências atuais do consumo de quadrinhos no Brasil.

O cenário atual aponta para a continuidade do protagonismo dos mangás e da literatura infantil como motores comerciais do setor. Ao mesmo tempo, editoras menores tendem a reforçar sua atuação em nichos curatoriais, apostando em projetos editoriais diferenciados e na valorização do objeto físico como item de coleção.

Mais do que uma simples mudança de preferências, os dados revelam uma transformação estrutural na forma como os quadrinhos são consumidos no Brasil, um mercado cada vez mais conectado a narrativas seriadas, ao consumo multiplataforma e à segmentação de públicos.

Comentários