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Bouncer – O Ouro Maldito & A Espinha do Dragão: tradição e brutalidade em um faroeste sólido e implacável (2026, Comix Zone)


Poucas séries contemporâneas conseguem manter uma identidade tão forte ao longo dos anos quanto Bouncer. Criada por François Boucq ao lado de Alejandro Jodorowsky, a HQ sempre se destacou por seu faroeste brutal, seco e carregado de atmosfera. Nos volumes 10 e 11, reunidos em uma única edição de 160 páginas, capa dura e formato europeu pela Comix Zone, Boucq assume sozinho o controle da narrativa e entrega uma história fechada que reforça as qualidades da série.

A trama se constrói em torno de uma clássica caça ao tesouro ligada ao imperador austríaco Maximiliano, que governou o México por três anos durante a década de 1860, e conduz Bouncer por paisagens áridas, traições e encontros com figuras tão perigosas quanto fascinantes. É uma estrutura bastante tradicional dentro do gênero, mas conduzida com ritmo ágil e pontuada por reviravoltas que mantêm o interesse do leitor do início ao fim.

O grande trunfo continua sendo o universo de Bouncer. A violência crua, quase desconfortável em alguns momentos, segue como elemento central, reforçando a sensação de um Velho Oeste implacável e sem romantização. Boucq também demonstra habilidade ao construir personagens coadjuvantes marcantes que parecem sair diretamente de um pesadelo empoeirado, cada um com motivações próprias e presença forte em cena.

Artisticamente, a HQ permanece impressionante. O traço de Boucq, além de possuir uma personalidade única, é expressivo, dinâmico e cinematográfico, alternando enquadramentos amplos com closes carregados de tensão. Mesmo quando o roteiro opta por caminhos mais convencionais, a arte sustenta o impacto da leitura e eleva o material a um nível acima da média.

Por outro lado, a ausência de Jodorowsky é sentida em certos momentos. O roteiro aqui é mais direto, menos filosófico e com menor grau de complexidade. Ainda assim, O Ouro Maldito e A Espinha do Dragão funcionam muito bem como uma porta de entrada para novos leitores, já que formam um arco fechado e acessível. Para quem já acompanha a série, representam a consolidação de uma nova fase que pode soar ligeiramente menos ousada, mas ainda fiel ao espírito  original.

Bouncer segue sendo um dos faroestes mais intensos dos quadrinhos europeus. As duas histórias reunidas neste volume mostram que François Boucq é plenamente capaz de conduzir a série com pulso firme, entregando uma história violenta, envolvente e visualmente marcante, exatamente o tipo de leitura que fez da obra uma referência dentro do gênero.


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