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Private Music (2025): um Deftones mais coeso, introspectivo e longe do impacto imediato


Depois do maior intervalo entre discos da carreira, o Deftones retorna com Private Music (2025) em meio a mudanças internas, como a saída do baixista Sergio Vega, mas mantendo um elemento-chave: a produção de Nick Raskulinecz, responsável por alguns dos álbuns mais consistentes da fase recente da banda norte-americana. A conexão com Diamond Eyes (2010) é evidente, mas aqui tudo parece mais contido e menos urgente.

Isso fica claro logo nas primeiras audições. “My Mind Is a Mountain”, por exemplo, se constrói sobre um riff arrastado e pesado, mas nunca explode de fato. A música cresce em camadas, com a voz de Chino Moreno mais sugerindo do que impondo. Já “Milk of the Madonna” aposta em uma ambiência mais densa, quase hipnótica, com guitarras que oscilam entre textura e peso, criando uma sensação de suspensão constante.

As guitarras de Stephen Carpenter continuam pesadas, mas frequentemente se dissolvem em camadas mais abertas e texturizadas. Em “Souvenir”, isso aparece de forma mais clara: a faixa se apoia em uma base mais etérea, com poucos picos, deixando espaço para uma interpretação mais contida e melancólica de Moreno. Não são músicas que se impõem de maneira automática. Em vez de refrães imediatos, o que fica é a sensação, como um clima que se prolonga mesmo depois que o disco termina.

Comparado aos clássicos da virada dos anos 1990 para os 2000, como Around the Fur (1997) e White Pony (2000), Private Music troca impacto imediato por sutileza. Se aqueles discos se apoiavam em contrastes mais bruscos e momentos explosivos, aqui tudo parece filtrado e menos agressivo na superfície, embora a densidade continue presente. Mesmo em relação a trabalhos mais recentes como Koi No Yokan (2012) ou Ohms (2020), há uma redução perceptível na urgência, como se a banda optasse por uma abordagem mais contemplativa.


A produção reforça essa proposta com um som limpo e espaçoso, onde cada instrumento respira. Nada sobra, nada parece fora do lugar. Por outro lado, essa mesma coesão pode jogar contra em alguns momentos. Há trechos em que as músicas se aproximam demais em clima e andamento, o que pode dar a impressão de um disco uniforme além do necessário. Ainda assim, essa escolha parece consciente, pois Private Music busca construir uma experiência contínua. O álbum funciona melhor como um todo do que em partes, e talvez seja esse o seu ponto principal.

A recepção crítica reforça essa leitura. O álbum foi amplamente aclamado pela imprensa internacional e apareceu em diversas listas de melhores de 2025, frequentemente apontado como um dos trabalhos mais consistentes da fase recente do Deftones e, para alguns, como um dos pontos altos de sua discografia.

Private Music é um álbum que troca intensidade imediata por profundidade gradual. Pode não ter o mesmo efeito de trabalhos mais explosivos da discografia do Deftones, mas compensa com consistência e um senso de identidade raro para uma banda com quase quatro décadas de estrada.


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