06/02/2009

Discoteca Básica Bizz#008: João Gilberto - Amoroso (1977)


(Nelson Motta, Bizz#008, março de 1986)

Se tivesse sido gravado no Brasil, eu não hesitaria em apontar o "Amoroso" de João Gilberto como o melhor disco brasileiro de todos os tempos. Como não foi, posso apenas declarar que é, desde que saiu, meu disco mais querido e ouvido, permanentemente. Tanto que a cópia atual já é a quarta ou quinta, com as anteriores vencidas pela paixão e o uso.

"Amoroso" - como todos os discos de João - é perfeito, mas é mais, porque é mais brasileiro e mais internacional. João canta Gershwin em inglês, Consuelo Velasquez em espanhol e Bruno Martino em italiano. E Tom Jobim, Chico Buarque, Haroldo Barbosa, Newton Mendonça, o Brasil.

Quando canta "´S Wonderful" e se ouve, pela primeira vez, o sotaque baiano de João, é quase engraçado. Mas logo se descobre que nada ali é acaso ou limitação. Ou alguém é capaz de imaginar que, sofisticado como é, com o mitológico ouvido que tem, João não seria capaz de reproduzir com precisão absoluta as sonoridades da letra original?  Mas não: ele preferiu uma maneira de dizer a letra onde as palavras inglesas soassem como se brasileiras fossem - em rigorosa harmonia com o ritmo e o clima rigorosa e sinteticamente brasileiros que ele criou com sua voz, violão e gênio: uma das expressões máximas das práticas (teorias) de antropofagia cultural de Oswald de Andrade. E da "universalidade do regional" de Mário de Andrade. Assim, um clássico do melhor jazz americano, uma canção já mil vezes cantada de mil formas, não só resulta e soa como nova na interpretação de João como indiscutivelmente brasileira, inclusive a letra em inglês.

"Estate" é, talvez, entre todas as canções que amo de meu artista mais querido, a mais amada. Escrita na década de 50 pelo italiano Bruno Martino, a música virou outra depois de João, como o autor e os críticos italianos reconhecem. O que era uma música de piano-bar como tantas do estilo
night-club que marcou a música italiana da época, com João ganhou uma harmonização sofisticada, elegante e surpreendente, como as já belas sonoridades da letra italiana valorizadas ao máximo através do "abrasileiramento" sonoro integrando ao ritmo e ao som do violão. E mais: João eliminou da letra original a desamorosa expressão ti odio (te odeio), que precedia as palavras de Martino sobre o verão (estate, em italiano), numas de "te odeio, ó verão, pelos beijos perdidos, amores, ilusões etc ...".

Com João, o verão de Martino perde o ódio por tudo de bom e bonito que fez nascer, terminar e se transformar em clássico universal contemporâneo - nas vozes que melhor ouvem, segundo dizem e escrevem.

"Wave", a original, está em "Amoroso", junto com a
hitchcockiana versão de "Retrato em Branco e Preto", de tirar o fôlego. E o não menos clássico "Triste", como veio primeiro à luz do som.

O disco, a obra-prima, foi penosamente produzido por um doce amigo americano, craque do music world, chamado Tommy Li Puma, produtor de Miles Davis para cima e legionário do
joão-gilbertismo militante. Arranjos de Claus Ogerman, o mestre que jobino-gilbertizou o jazz com precisão germânica e mãos de seda.

Um disco onde nada é de mais ou de menos, e a extrema complexidade soa amorosamente clara e simples, junto, dentro e em volta da voz de João.

P.S.: se for um disco gravado no Brasil, o favorito é "Brasil" - o disco -, com Caetano, Gil e Bethânia sintetizando a música e a mágica da Bahia e do Brasil - o país. Obra-prima absoluta em design, repertório, arranjos (de Johnny Mandel) e interpretações, cada um exercendo sua luminosa individualidade a partir, em volta e além do gênio.

Faixas:
A1. 'S Wonderful - 4:07
A2. Estate - 6:30
A3. Tin Tin por Tin Tin - 3:37
A4. Besame Mucho - 8:43

B1. Wave - 4:35
B2. Caminhos Cruzados - 6:12
B3. Triste - 3:35
B4. Zingaro - 6:23


05/02/2009

Discoteca Básica Bizz#007: Velvet Underground - The Velvet Underground & Nico (1967)


(José Augusto Lemos, Bizz#007, fevereiro de 1986)

Dizem que 1967 foi o ano em que "tudo aconteceu" - "tudo" sendo a linha divisória do psicodelismo, decretando o fim da música pop como reduto das fantasias ingênuas e adolescentes. No vinil, a marca incicatrizável é composta pelo tripé básico - "Sgt. Pepper's" dos Beatles, o primeiro dos Doors e a estreia do Velvet Underground.

Os Beatles, fundindo contrapontos
bachianos com filosofia oriental, não estavam (muito) distantes dos contrapontos jazzísticos com tragédia grega dos Doors. Em ambos está a aspiração a fazer arte a partir do velho rock and roll. Já o "subterrâneo de veludo" (nome tirado de um barato livrinho pornô) trazia a metamorfose mais radical. Em miúdos: agressividade gratuita convivendo com o mais agridoce lirismo, e o mais preto-branco realismo urbano. O que era LSD para John Lennon e Jim Morrison, era a heroína ("minha esposa /  minha vida", na faixa "Heroin") para Lou Reed. Nenhum papo de "all you need is love" nem "light my fire". "Botas de couro preto reluzindo no escuro / Experimente o chicote", cantava Lou, ele também de couro preto e óculos escuros (na faixa "Venus in Furs", inspirada no romance homônimo de Leopold Sacher-Masoch). Qualquer semelhança com o punk ou com o David Bowie pré-"Ziggy Stardust" não é mera coincidência.

Compositor cativo de (tentativos) hits bobinhos - contratado para isso pelo Pickwick -, Lou Reed conheceu um galês muito estranho no ano de 64. Eles tinham em comum a formação erudita - Lou como pianista e John Cale como discípulo de vanguardistas como LaMonte Young.

Na concepção Velvet, Lou faria letras e vocais enquanto John cuidaria do baixo, dos teclados, dos arranjos e instrumentos esdrúxulos, como violinos e violas. Além disso, Lou e Sterling Morrison tocavam guitarra rítmica com tamanha demência e descompasso que, até hoje, 99% dos produtores jamais admitiram a dupla dentro de uma gravação "séria". Está aí a chave de um dos momentos mais picantes de "Velvet Underground & Nico". É a faixa "Run Run Run", que culmina num duelo de guitarras saturadas e distorcidas, raspadas com toda a força do punho - ou seja, a guinada anti-Hendrix que os punks "criaram" em 76 e que David Byrne, dos Talking Heads, enxugou e dilapidou para transformar em estilo.

Em torno de Cale e Reed, arregimentaram-se as seguintes peças: o já citado Morrison e, suprema audácia, uma mulher baterista. Munida apenas de caixa, bumbo e um chimbau com pandeiro, Maureen "Mo" Tucker limitava-se a marcar o tempo com a seca displicência que faria Billy Cobham e similares darem meia-volta e fugir pela culatra.

Meses depois - no começo de 66 - o grupo passou a tocar toda semana no
Café Bizarre, no bairro nova-iorquino de Greenwich Village. Foi aí que apareceu o artista plástico e catalisador em geral, Andy Warhol, que os integrou a seu show multimídia itinerante, o lendário Exploding Plastic Inevitable. Mais que isso, Warhol obrigou o Velvet a incorporar uma atriz e modelo alemã - a espectral e imóvel Nico - como cantora.

As quatro músicas que Nico canta no LP dão o perfeito contraste para o mundo das sombras descrito obsessivamente por Lou Reed. Na superfície, parecem até baladas da mais solar e melódica doçura. Chegue mais perto que dá para ver a lâmina. Como em "Sunday Morning", que Lou compôs quando Warhol o provocou para fazer uma letra sobre a paranóia - o velho albino a considerava o tema mais quente e universal do momento (isso no auge do flower power!). Um violão é delicadamente dedilhado, e o sotaque teutônico de Nico sussurra: "
Cuidado! O mundo está atrás de você / Há sempre alguém a sua volta."

Faixas:
A1. Sunday Morning - 2:56
A2. I'm Waiting for the Man - 4:39
A3. Femme Fatale - 2:39
A4. Venus in Furs - 5:12
A5. Run Run Run - 4:23
A6. All Tomorrow's Parties - 5:58

B1. Heroin - 7:12
B2. There She Goes Again - 2:42
B3. I'll Be Your Mirror - 2:14
B4. The Black Angel's Death Song - 3:12
B5. European Son - 7:48


21a Feira do Vinil de Floripa


Por Ricardo Seelig
Colecionador

Acontece nesse final de semana mais uma edição da tradicional Feira do Vinil de Floripa. Organizada pela galera da Roots Records, a feira é uma ótima oportunidade para encontrar discos raros e desejados há tempos.

Tá dada a dica, então não percam!


04/02/2009

Discografia Comentada: Blaze Bayley


Por Marcos Garcia
Colecionador, Professor de Física, 
Baixista e fã de Blaze Bayley
Collector´s Room

Não é de hoje que este talentoso vocalista nos surpreende com cada um de seus CDs lançados, com cada uma de suas músicas, com cada momento de prazer que ele, humilde e caridoso, nos concede a cada ouvida em sua discografia.

Aqui, não pretendo fazer comentários extremamente profundos ou análises quase clínicas e minimalistas de sua obra, já que cada um de seus álbuns fala por si mesmo, e faço questão que os caros leitores ouçam todos atentamente e de coração aberto, pois terão momentos agradáveis raros em nossos dias.

Sua excelente carreira, iniciada ainda nos anos 80 no Wolfsbane, com uma passagem meteórica e muito boa pelo Iron Maiden (embora as tietes de Bruce Dickinson queiram sempre dizer o contrário e tentam denegri-lo, mas opiniões apaixonadas devem ser desconsideradas), que dura de 1994 àa1999, Blaze ergue a cabeça, arregaça as mangas, vai à luta e lança o excelente ...

Silicon Messiah (2000) ****1/2

Para todos seus detratores e aqueles que achavam que Blaze não se ergueria e que seria incapaz de fazer um bom disco, eis que este mostra justamente o contrário. Esbanjando categoria com suas raízes bem fincadas no heavy tradicional, mas lançando mão de sonoridades mais pesadas de estilos mais atuais, este CD vai ser apontado pela crítica especializada como um clássico do heavy metal como um todo. A temática, como é de conhecimento de todo o público e evidenciado pela capa e pelo título (Messias de Silicone) faz referências à IA (Inteligência Artifical, algo que se pesquisa muito nas áreas de robótica, computação e mesmo física) e outros lances tecnológicos.

Mas o mais importante é o som, certo? Isso, meu caro, é um deleite. Ouça as faixas "Ghost in the Machine" (que abre o CD), "Evolution", "Silicon Messiah", "Born as a Stranger", "The Hunger" (esta mais cadenciada e climática, à lá Sabbath, mas bem elegante) e "The Brave".

A banda é matadora, composta de músicos ingleses, tendo nas guitarras Steve Wray e John Slater, Rob Naylor no baixo e Jeff Singer na bateria. Tours e mais tours para divulgar o CD, e sempre na mente de Blaze que ele queria muito vir ao Brasil, mas não seria desta vez, então, após dois anos, surge ...

The Tenth Dimension (2002) ****

Mais uma vez, Blaze surpreende fãs e crítica com um CD cuja temática fala sobre a nossa percepção do universo que nos cerca (onze dimensões ele teria, segundo a
Teoria das Supercordas. Sugiro ao leitor que dê uma olhada no livro "O Universo em uma Casca de Noz", de Stephen Hawking, para uma melhor explicação do assunto).

Musicalmente, o disco segue a linha do anterior, firmando ainda mais o estilo extremamente pesado, mas tradicional, de se tocar o bom e velho metal made in England. Destaques vão para as faixas "Kill and Destroy" (um dos hits do álbum), "End Dream" (peso pesado, mas extremamente de bom gosto), e as maravilhosas "Speed of Light" (deleite puro, com aqueles belos duetos de guitarra tão característicos do metal bretão) e "Stranger to the Light" (um hard/heavy de respeito do meio para frente).

Mas depois que este CD sai a banda começa a se desfazer, com a saída de Jeff Singer, que é substituído por Phil Greenhouse. Três meses depois sai Rob Naylor, e é Wayne Banks quem entra em seu lugar. Vale lembrar que estes dois são músicos são contratados até que a tour se encerre e outros membros permanentes possam ser encontrados.

Mas mesmo com estes problemas na formação, a banda excursiona e logo sai o fruto dessa tour.

As Live as It Gets (2003) ****

Este é um duplo ao vivo com material vindo dos CDs anteriores, somado a faixas da passagem de Blaze pelo Maiden e também algo do Wolfsbane, e cuja produção é feita por Andy Sneap. Mas a maior das surpresas é a versão mais pesada e atualizada para "Dazed and Confused", do Led Zeppelin.

Não vou estender meus comentários sobre este álbum, já que falar sobre compilações tipo
The Best Of ou discos ao vivo é chover no molhado, mas gostaria de destacar que o CD é bem fiel ao seu show ao vivo (eu confirmo, já que estive em sua passagem pelo RJ e pude comprovar a força de suas apresentações in loco).

Com a banda restabelecida, eles entram em estúdio para começar a compor o terceiro trabalhode estúdio.

Blood & Belief (2004) ****

Um disco matador, sem sombra de dúvidas! Blaze acerta mais uma vez, e nos brinda com um álbum cujos temas são bem mais íntimos e pessoais, com alguns até muito obscuros, mas o CD mantém a linha de seus antecessores. Talvez a grande marca deste momento da banda sejam as mudanças de formação: Jason Bowld grava a batera, mas deixa a vaga da tour para David Knight. Joey Slater, por não poder fazer muitos shows, sai e entra em seu lugar Jason Banks; Steve Wray também vai, e junto com Joey forma o Rise to Addiction.

A ótima faixa-título, junto com "Alive", "Will to Win" e "Soundtrack of My Life" são destaques. A banda, apesar das tours, continua tendo problemas de formação, o que acaba fazendo os planos de um novo CD de estúdio para 2007 ser adiado para 2008, com uma surrpesa: o grupo não mais se chama Blaze, por conta de não mais existir ninguém da formação original, exceto o próprio Blaze, e assume de vez o nome Blaze Bayley, como uma carreira solo.

Mas este bretão educado e de voz grave ainda guardava algumas surpresas para os fãs, e logo, em julho de 2008, sai o quarto disco de estúdio.

The Man Who Would Not Die (2008) *****

Este é um CD mais que perfeito, e até o momento a obra-prima de Blaze. Com Nico Bermudez e Jay Walsh nas guitarras, Dave Bermudez no baixo e Lawrence Peterson na bateria, além do próprio Blaze Bayley no vocal, este play é perfeito de ponta a ponta, sem pontos fracos. Mais uma vez o disco é exageradamente pesado, com riffs matadores e bem chegados ao thrash, a base rítmica bem pesada e o vocal grave de Blaze dando personalidade, melodia e agressividade a cada música.

Não me atrevo à destacar esta ou aquela faixa, já que o disco vale uma ouvida de ponta à ponta, sem pulos e sem deixar qualquer faixa de fora, mas se querem uma boa referência, "The Man Who Would Not Die", "Robot", "Samurai", "Voices from the Past", "Serpent Hearted Man" e "Smile Back at Death" são as mais indicadas para sentir o disco na pele.

Pelo que sei, os shows desta tour estão sendo gravados para virar um DVD, e obviamente, já estou guardando uns trocados para tanto ...

Não sou muito de dar voz a certos pensamentos meus, mas uma frase deve ser dita para ilustrar o que a carreira solo de Blaze tem a mostrar:
se o Maiden não quis ficar Blaze, azar do Maiden ...


Discoteca Básica Bizz#006: King Crimson - In the Court of the Crimson King (1969)


(Alex Antunes, Bizz#006, janeiro de 1986)

É noite de 03 de julho de 1969, e o corpo de Brian Jones, o inconformado fundador dos Rolling Stones, é encontrado boiando na piscina da sua mansão. O início do fim de uma era; dali a dois anos exatos, morreria também Jim Morrison, em sua banheira. E, entre os dois, Jimi e Janis ...

De volta a 69. Cinco de julho, Hyde Park, Londres. Realiza-se um show dos Stones (o primeiro em dois anos), marcado havia tempos, em homenagem a Brian. Seiscentos e cinqüenta mil fãs presentes. E, no entanto, quem rouba a cena é uma banda nova, mas nem por isso menos pretensiosa. King Crimson, rei rubro de sangue, o som da nova era. Um som reflexivo, "autoconsciente", na definição do guitarrista, um certo Robert Fripp. Um sujeito que tinha sido cumprimentado pelo próprio Hendrix ("Toca aqui com a esquerda, cara, que é a mão mais próxima do meu coração") após uma apresentação.

A Island Records não descuidou dos rapazes. Muito rápido, a 10 de outubro, o LP "In the Court of the Crimson King" estava gravado e distribuído. Sucesso pleno de crítica e de público. E nem eram tão originais assim - as faixas longas, amarradas por um único tema, os flertes com o jazz e com a música erudita (principalmente com os autores românticos, mas com espaço até para pinceladas de música concreta, em "Moonchild") não eram propriamente novidade. Moody Blues (quanto às suítes românticas), Soft Machine (quanto à fusões com o jazz), Pink Floyd (quanto à música esparsa e climática), entre outros, já se lançavam nesses caminhos. De resto, abertos pelos Beatles desde "Revolver" e "Sgt Pepper's". Tudo bem, "In the Court ..." atirava em todas as direções. E a capa, essa tornou-se uma das images mais marcantes do rock. Mas o fio que costurava aquilo tudo era uma corda de guitarra.

O time era simpático, eficiente, e frequentemente inspirado: o jovem baterista de conservatório Michael Giles; o tecladista e soprista Ian McDonald, o mais experiente deles; o garotão Greg Lake, colega de Fripp, no baixo e na voz. E as más letras de Peter Sinfield, de um surrealismo ingênuo e xoxo. Seria a vez do desenchabido rock classe média sucedendo a pauleira proletária?

Não. Havia Fripp, e a guitarra de Fripp alimentava-se de um fluxo subterrâneo, obcecante, capaz de eletrizar mesmo as passagens mais líricas. Confira-se, pela negativa, no LP (anterior) de Giles, Giles & Fripp, onde o monopólio dos irmãos continha o guitarrista. Ou no LP (posterior) de McDonald & Giles, com a dissidência do Crimson. Superficialmente a música se parece, e no entanto é diferente.

O álbum abre às pauladas com "21st Century Schizoid Man", um tema guitarrístico, heavy mesmo. Um, dois versos cantados por uma voz embutida na mixagem, claustrofóbica, e o instrumental rouba a liberdade do jazz, derramando-se por várias passagens sem tirar o pé. Os metais soam como uma
big band enlouquecida, em meio à tempestade de texturas providenciada por todos os ancestrais dos sintetizadores. Mais um verso, e conclui com uma explosão, retrato sonoro do tal esquizóide, uma prévia do que há hoje entre o hardcore e a no wave. Puff. O resto é belo. Ponto.

Pecam, às vezes, e é pela pompa excessiva da voz de Lake e dos trechos mais melosos. O retrato do que viria a ser o rock progressivo, com todas as virtudes e, já, alguns vícios. Aqui, os inúmeros movimentos ainda formavam um todo orgânico, com crescendos, solos coletivos e finais falsos como alternativa ao formato-canção. Depois, o próprio Crimson se confundiria, fazendo "trilha para anúncio de desodorante íntimo", segundo a Rolling Stone. Mas até se recuperaria: o LP "Larks Tongues in Aspic" é assunto para outra
Discoteca Básica.

Faixas:
A1. 21st Century Schizoid Man (Including Mirrors) - 7:21
A2. I Talk to the Wind - 6:08
A3. Epitaph (Including March for No Reason and Tomorrow and Tomorrow) - 8:52

B1. Moonchild (Including The Dream and The Illusion) - 12:15
B2. The Court of the Crimson King (Including The Return of the Fire Witch and The Dance of the Puppets) - 9:25


Tomada apresenta novo line-up em novo single


Por Ricardo Seelig
Colecionador
Why Dontcha

A banda paulistana Tomada mostra sua nova formação em um single com as músicas "Catarina" e "Triste e Distante". Este lançamento conta com um time de ponta, com a produção, gravação e mixagem por Martin, Duda Machado e Alejandro Marjanov (Pitty), e masterizado por Renato Coppoli. 

A campanha, que se inicia na internet com as músicas para download, conta também com vídeo making of das gravações (por Nina Cavalcanti), e com as fotos de Juana Diniz. Todo esse material estará disponível também em CD multimídia com arte gráfica de Tiago Almeida. As duas músicas são os primeiros registros para o terceiro álbum da banda, que deve ser lançado em 2009, e mostram a versatilidade do Tomada com o rock energético e temas mais sutis.

Ouça o novo som aqui e assista o vídeo aqui.


03/02/2009

Entrevista exclusiva: Ugo Medeiros bate um papo com Otávio Rocha, guitarrista do Blues Etílicos


Por Ugo Medeiros
Colecionador
Coluna Blues Rock

Ugo Medeiros – O Blues Etílicos lançou recentemente o 10º álbum da carreira, "Viva Muddy Waters", pela Delira Blues. Para uma banda que sempre fez um blues com sotaque brasileiro, por que gravar um CD de Chicago Blues?

Otávio Rocha – Nós sempre sentimos a música como uma coisa única. Procuramos sempre tocar o que deixasse a banda confortável musicalmente. De uma maneira geral, tudo é música, o blues é uma música ampla. Se você tiver uma boa base de blues, pode colocar um pouco de reggae, por exemplo. Na realidade, sentimos que as pessoas estão deixando as raízes de lado. Todos temos que ter raízes. Sentimos a necessidade de buscar no Muddy Waters, que sempre foi uma de nossas principais influências, essa volta às raízes. Infelizmente muitos da geração mais jovem não conhecem Muddy Waters. Através do Blues Etílicos passam a conhecê-lo e outros mestre do blues, é muito importante.

O repertório de Muddy é muito extenso. Como foi a seleção das faixas? Quem escolheu as músicas? Houve algum critério, por exemplo evitar as mais manjadas? Não há "Got My Mojo Workin’", "Hoochie Coochie Man", "I Just Want to Make Love With You" ...

Todos da banda sempre escutaram Muddy Waters, sendo um dos poucos nomes que era um consenso. Nós procuramos evitar as mais manjadas. Cada um fez uma audição individual mais detalhada, separando as músicas com a sonoridade da banda e do Greg Wilson (vocalista). Após essa primeira fase, cada um deu sua lista. A grande surpresa é que havia cinco ou seis músicas que eram comuns. A partir daí vimos as outras que o Flávio Guimarães (vocalista e gaitista) queria realmente cantar, outra que eu achava que essencial ...

Teve alguma música que você gostaria de ter gravado e que ficou de fora do CD?

"Louisiana Blues". Ela tem um tempo quase ímpar. Quem escuta John Lee Hoocker e Muddy, percebe que os compassos não são certos. Tocam em cima da voz, justamente o atrativo deles. Essa ficou muito interessante, mas infelizmente não deu tempo de desenvolvê-la melhor. Se houver um volume 2, estará presente. O repertório de Muddy é muito rico, possibilita fazer volume 1, 2, 3, sem colocar as mais “manjadas”.

O Charles Musselwhite deu uma música para a banda. Como foi isso?

Desde 1995 ele é muito amigo do Flávio. Eu já havia gravado uma sessão com ele e o Flávio, e ano passado tive a honra de acompanhá-lo no Festival de Rio das Ostras. Para mim foi o divisor de águas na minha vida, pois acompanhá-lo na guitarra, sozinho, é muita responsabilidade; cresci muito musicalmente. Quando contamos o nosso projeto, nos disse que tinha essa letra pronta, mas havia gravado como um blues tradicional (praticamente não tinha utilizado). Ele nos deu a letra com total autonomia na parte instrumental. Fizemos um arranjo num estilo Delta moderno.

Além do Blues Etílicos, você formou o Blues Groovers com Ugo Perrota (baixo) e Beto Werther (bateria). Talvez seja a única sideband de blues do Brasil, ou seja, que só toca acompanhando outros músicos: Big Gilson (com o nome de Rio Dynamite), Flávio Guimarães, Maurício Sahady e Álamo Leal. Vocês já pensaram em também fazer shows só em trio, iniciando uma carreira própria da banda?

Volta e meia pensamos nisso sim, mas é uma sideband. Acho legal podermos acompanhar esses músicos e fazer um som de qualidade. O Flávio gosta de um tipo de som, já o Gilson gosta de outra coisa, o Maurício também ... Gosto de aprender constantemente com esses caras. Pode ser que um dia nós façamos. Mas a questão é: quem iria cantar? Apesar de o Beto Werther ter uma voz muito boa, acredito que o papel do Blues Groovers seja acompanhar artistas variados.

Cada artista tem seu estilo. Não é difícil para uma banda ter que tocar de quatro formas diferentes para se adequar ao estilo de cada solista?

Se você não tiver um bom fundamento de blues fica bem difícil. Nós três temos uma boa base e experiência, assim facilita. É justamente a diferença de cada solista que deixa o trabalho interessante, pois tentamos dar pra cada um uma sonoridade diferente. O blues é uma música que tem elementos típicos, portanto tem que saber a fundo para poder variá-lo e não ficar repetitivo. É um grande desafio.

Vocês excursionaram com o Big Gilson e o cantor The Wolf pela Inglaterra. O que mais te marcou na viagem?

O Ugo não foi nessa turnê, o baixista foi o Pedro Leão. Poder tocar na Inglaterra, a terra dos Beatles, foi muito especial. A própria atmosfera cultural e musical é de arrepiar. Foram shows pequenos, mas a chance de me apresentar na Inglaterra foi única.

O Blues Etílicos está completando 20 anos. Qual o balanço que você faz da carreira da banda? Como você compara o Blues Etílicos de hoje com o do início?

Individualmente e como banda somos mais maduros. O blues é uma música na qual você precisa de vivência. É injusto falar que era melhor do que antes. As pessoas aprenderam a fazer blues nos anos 80 a partir da prática, aos poucos. Foram “obrigadas”. É natural que tenhamos cometido erros. Nós fomos aprendendo com o tempo. Naquela época não havia internet, não tinha como ter acesso à discografia de blues. Quando se conseguia um disco de blues, era ocasião pra se comemorar. Hoje em dia o volume de informação é muito maior. As bandas novas têm menos desculpas para tocar mal. Mas é como te falei, é um estilo musical no qual a maturação é fundamental. Dizem que o blues é a música mais fácil de tocar; mas também a mais fácil para errar (risos). O Blues Etílicos finalmente está preparada para tocar.

Você foi um dos primeiros no Brasil a tocar guitarra slide. Como se interessou por essa técnica?

Essa história é curiosa. Eu tinha primos exilados na época da ditadura. Eles conseguiam discos do Johnnie Winter, isso em 1973. Desde os meu 10 anos escutava e me dava vontade de tocar. Eu tinha facilidade pra tocar slide. No primeiro disco do Blues Etílicos eu não sabia tocar guitarra, mas sabia tocar slide! A guitarra slide tem afinações abertas, o que facilita. Eu consegui gravar um disco sem saber tocar guitarra. Foi estranho. Se eu fosse espírita falaria que na outra encarnação eu fui tocador de slide.

Você se sente realizado como músico, ou ainda tem alguma meta a ser alcançada?

Sempre acho que posso melhorar enquanto músico. Estou sempre olhando pra frente. Eu fico feliz de conseguir ter uma carreira com altos e baixos no Brasil, totalmente fora do mainstream. Sempre fiz um som fiel, com variações, ao meu desejo. Sinto-me bem, mas acho que o melhor sempre está por vir. Estou sempre aprendendo e acredito que amanhã estarei tocando melhor que hoje.


Discoteca Básica Bizz#005: The Doors - The Doors (1967)


(Pepe Escobar, Bizz#005, dezembro de 1985)

Venice, Califórnia, julho de 65. Ray Manzarek, 30 anos, tecladista, encontra na praia seu amigo James Douglas Morrison, 21, estudante da Universidade da Califórnia, amante da poesia de Blake e da filosofia de Nietzsche. Jim diz a Ray que anda compondo poemas, e canta uma estrofe: "
Vamos nadar para a lua/ Vamos montar a maré/ Penetrar no fundo da noite/ Que o sono da cidade esconde." Ray perde a respiração. Conversam. E naquele dia, na praia, surge o conceito/ idéia/ banda The Doors, em cima de uma expressão de um poema de Blake e do livro de Huxley sobre a mescalina, "As Portas da Percepção". 

Louvado seja aquele dia. E maldito. Porque com os Doors nasceu uma das mais espantosas viagens, na história da música popular, em torno de temas perenes: medo, terror, pavor, violência, a culpa sem possibilidade de redenção, os desencontros do amor e a inevitabilidade da morte.

O magnetismo animal e manipulações do inconsciente coletivo de Morrison excitavam homens e mulheres à níveis da absoluta selvageria. Era uma atmosfera lisérgica, um eterno "retorno do reprimido", uma catarse ritualística, uma política carregada de eletricidade.

"The Doors", lançado nos EUA em janeiro de 67, com a psicodelia rachando os neurônios da garotada planetária, já continha todas as sementes da destruição posterior. Ainda hoje, pode ser considerado o grande álbum daquele ano mágico, mais devastador do que o antológico "Sgt Pepper's" e um dos cinco maiores LPs de rock em todos os tempos.

O melhor álbum dos Doors é sempre o que está tocando na nossa cabeça, seja a coletânea de hits "The Doors", o clássico "L.A. Woman" ou um pirata australiano como "The Doors Archive" (o som é ruim, mas as performances são do balaco). A obra-prima de 67, que fundiu todos os circuitos do produtor Paul Rothschild, tem o mérito de apresentá-los em estado bruto: a guitarra fluída de Robbie Krieger, a bateria segura - porém jazzística - de John Densmore, o teclado de fundo-de-garagem-cósmica em que Manzarek dedilha contrapontos, e os urros, gritos primais, deboche, sofrimento e poesia das esferas de Morrison. Tudo isso gravado em quatro canais!

O negócio dos Doors era hard rock com sobretons psicodélicos. Nos improvisos, viraram uma banda de blues elétrico que ficaria à vontade em qualquer madrugada de bar. Jim tirava algumas de suas letras de Nietzsche, o lúcido mais louco da história do pensamento humano. Combinava Nietzsche com um pouco de psicologia e uma série de grandes images - mar, sol, terra, monte. Esta era a terapia que recomendava ao público fascinado: vamos ser mais reais (uma de suas primeiras canções é "You Make Me Real"), cortar os laços com o
establishment, nadar nas emoções, sofrer uma morte e renascimento simbólicos, e prosseguir como novos seres, livres do pesadelo da história e dos traumas pessoais.

"The Doors" tem desde um feroz blues de homem branco ("Back Door Man") ao hino de uma geração inteira ("Light My Fire"), com seu imaginário baseado nos elementos vitais e a antológica progressão clássica do órgão de Manzarek, passando pelas intimações poéticas de "Moonlight Drive". Mas o bombardeio de napalm na psique é mesmo "The End".

"The End" é o drama edipiano de Morrison expurgado em vinil. É o fim de todas as regras, planos elaborados, o fim da escuridão e das luzes suaves, quando Morrison toma uma carona no ônibus azul da psicodelia, mata o pai e transa com a mãe, enquanto os Doors, no fundo, constróem uma paisagem sonora alucinógena orientalizante. 

Depois do fim, seu inferno. Morrison viveu o purgatório: caiu no álcool pesado, virou paródia de si mesmo, produziu outras obras-primas em flashes de lucidez, foi a Paris perseguir uma fantasia literária e acabou morrendo em uma banheira aos 27 anos. 

Triste final. Mítico final. Heróico final.

Faixas:
A1. Break on Through (To the Other Side) - 2:29
A2. Soul Kitchen - 3:34
A3. The Crystal Ship - 2:34
A4. Twentieth Century Fox - 2:33
A5. Alabama Song (Whisky Bar) - 3:20
A6. Light My Fire - 7:08

B1. Back Door Man - 3:34
B2. I Looked at You - 2:22
B3. End of the Night - 2:52
B4. Take It as It Comes - 2:17
B5. The End - 11:41


02/02/2009

Discoteca Básica Bizz#004: Rolling Stones - Exile on Main St (1972)


(José Emilio Rondeau, Bizz#004, novembro de 1985)

Naquele tempo eles já carregavam o título de
A Maior Banda de Rock do Mundo, como um peso-pesado que exibe seu cinto de campeão. Não havia mais Beatles, não havia mais Jim Morrison, não havia mais Hendrix. A única competição real era o rock operístico do Who e o então ascendente Led Zeppelin. E, mesmo assim, ao vivo os Stones eram imbatíveis - Jagger piruetando pelo palco, comandando um rugido rock que era afiado e perigoso como o fio de uma navalha. 

Em disco, passavam por seu melhor período, parindo clássico após clássico - de "Brown Sugar" a "Street Fighting Man", de "Let It Bleed" a "Simpathy for the Devil". Embora o Sr. M. tivesse levado Brian Jones - que, enamorado demais pelas possibilidades "místicas" das drogas, já se mostrava incapaz de produzir um décimo de seu input habitual na banda -, os Stones da virada dos anos 60 para 70 progrediam, artística e popularmente, como uma bola de neve. Agora sob o comando de Mick Jagger e Keith Richards, mais do que nunca os Stones mereciam o título de A Maior.

Com a entrada do lírico Mick Taylor no lugar de Jones, os Stones saíam de uma trilogia de álbuns absolutamente brilhantes - "Beggar's Banquet" (ainda com Brian), "Let It Bleed" e "Sticky Fingers" -, mas enfrentavam um novo/velho problema: drogas. Desta vez era Keith quem flertava com a morte, via heroína. Escondera-se numa villa no sul da França, Nellcote, para poder injetar um pouco de sanidade em sua vida. Mas sanidade era difícil de se achar numa atmosfera rock e, ao invés dela, Keith acabou encontrando mais rock e mais heroína.

Como Keith não saísse de Nellcote para coisa alguma, os Stones mudaram-se para lá para poder gravar seu novo disco, cujo título balançava entre "Eat It" e "Jungle Disease". Chamaram o saxofonista Bobby Keyes, o trompetista Jim Price e os tecladistas Nicky Hopkins, Billy Preston e Dr. John. Ficaram trancados em Nellcote de julho a novembro de 1971. Quando saíram de lá para Hollywood, onde complementaram e mixaram o disco, os Stones traziam nos braços material para preencher três álbuns.

Acabaram optando por um álbum duplo e por um terceiro título - "Exile on Main Street" - e ofereceram ao mundo o disco mais denso, mais pessoal, mais intrigante e mais controverso de toda a sua carreira.

Quem ouviu "Exile ..." em 72 amou ou odiou o disco imediatamente. A maioria odiou, reclamou de "falta de foco", "mixagem lamacenta" e "encheção de lingüiça". Erraram e acertaram. Primeiro, porque tudo isso era intencional - a massa sonora de "Exile ..." só podia ser penetrada a facão. Os vocais de Jagger foram enterrados mais do que o costume. Os agudos foram saturados. E, segundo, porque a maioria das músicas era uma sucessão de
polaroids rock - images de decadência, dor, perigo, desilusão. E de sobrevivência.

Acima de tudo, "Exile ..." era um
portrait dos Stones no topo de sua forma - faixas como "Tumbling Dice", "Rocks Off", "Soul Survivor" e "Rip this Joint" eram o testemunho de que, quando os Stones resolviam se reunir num estúdio para fazer rock and roll, faziam o melhor rock and roll. Jagger explodia suas tripas em vocais insuperáveis até mesmo por ele. Richards e Taylor trocavam riffs como guerrilheiros na selva. Bill Wyman e Charlie Watts sedimentavam uma construção crazy com uma argamassa indestrutível.

Após "Exile ..." tornou-se impossível reunir todos os Stones num mesmo estúdio ao mesmo tempo. E os álbuns subseqüentes retratavam este insidioso fracionamento. Depois de "Exile on Main St", salvo faixas excepcionais, como "Start Me Up" e "Undercover", os Stones eram um arremedo dos Stones. E "Exile ..." era seu melhor testamento, e o derradeiro epitáfio.

Faixas:
A1. Rocks Off - 4:33
A2. Rip This Joint - 2:22
A3. Shake Your Hips - 2:59
A4. Casino Boogie - 3:34
A5. Tumbling Dice - 3:47

B1. Sweet Virginia - 4:26
B2. Torn and Frayed - 4:18
B3. Sweet Black Angel - 2:58
B4. Loving Cup - 4:25

C1. Happy - 3:05
C2. Turd on the Run - 2:38
C3. Ventilator Blues - 3:24
C4. I Just Want to See His Face - 2:53
C5. Let It Loose - 5:18

D1. All Down the Line - 3:50
D2. Stop Breaking Down - 4:34
D3. Shine a Light - 4:17
D4. Soul Survivor - 3:49



O Jazz e Sua Formação - Parte 4


Por Fábio Pires
Pesquisador e Colecionador

Podemos dizer que o jazz que conhecemos desde sua formação em Nova Orleans obteve seu desenvolvimento, ou uma segunda fase, em Chicago, e por um bom tempo concentrou toda uma esfera do conhecimento jazzístico nessa cidade .As bandas locais começaram a ceder espaço para as bandas itinerantes vindas de Nova Orleans, com músicos que procuravam um espaço maior numa cidade mais agitada culturalmente e de maior reconhecimento para quem se dedicasse à carreira musical, como era o caso dos negros que lá se firmariam.

Artistas pianistas como Jelly Roll Morton e Tony Jackson já haviam tocado lá, bem como os artistas do vaudeville da época. Chicago não somente recebeu os negros do sul e grandes orquestras (como as de Count Basie, Benny Goodman, Roy Eldridge, Bob Crosby) e os transformou em estrelas, mas tinha também seus "filhos", como Bix Beiderbecke e seus Wolverines, os instrumentistas da Austin High School Gang, originados do New Orleans Rhythm Kings e que contribuiríam para estilo Chicago de jazz. Em 1921/22, tocaram em Chicago bandas já importantes no contexto histórico, como Joe Oliver, June Cobb, Roy Palmer, Clarence Jones e Bix, citado acima.


Em 1920 King Oliver viria à formar a Original Creole Jazz Band, que convidaria, em 1922, após uma turnê em San Francisco, um rapaz que tivera experiências nas orquestras de Kid Ory e Fate Marabble: nada menos que o jovem trompetista Louis Armstrong.

O termo jazz tem ainda sua origem bem curiosa. Os negros que chegavam a Chicago, numa intensa disputa com outros músicos, chamariam a nova música de
jazz music ou mesmo jass (palavra que designa o ato sexual e suas variações). Mais alguns grandes aspectos para a época de Chicago:


- as primeiras gravações que contribuíram para o "novo" no jazz: os discos dos grupos Hot Five e Hot Seven, de Louis Armstrong, de 1927-29;

- gravações de 1930 de Duke Ellington;

- Fletcher Henderson, em 1936;

- Count Basie, em 1937;

- Benny Goodman, gravações de 35 à 37 com sua primeira
big band, depois substituído pela big band de Jimmy Dorsey, Red Norvo e Bob Crosby.

Já a partir de 1943 o jazz de Chicago começou à decair em qualidade paulatinamente, até passar seu reinado para Nova York.