31 de jul de 2009

Discos Fundamentais: Thin Lizzy - Jailbreak (1976)

sexta-feira, julho 31, 2009

Por Régis Tadeu
Colecionador e Jornalista
Matéria publicada originalmente na edição #155 da revista
Cover Guitarra

Em pouco mais de 36 minutos, apenas nove canções. Em cada uma delas retratos emocionais da jovem classe média operária do Reino Unido (mas que poderiam facilmente se enquadrar em qualquer cidade do mundo ocidental), nas quais agressividade, lirismo, candura e poesia expunham uma beleza inesperada, como uma rosa encontrada no meio do lixo. Assim é composto um dos mais extraordinários discos já lançados por um grupo de seres humanos.

Mas o Thin Lizzy era muito mais que uma banda de rock. Era uma espécie de antro de inteligência literária dentro de um universo que não necessariamente primava pela destreza poética - vide as fraquíssimas letras que emolduravam grandes clássicos do Deep Purple e do Led Zeppelin, só para citar os exemplos mais famosos da época. Ao contrário de seus pares, o grupo liderado pelo carismático e genial baixista/vocalista Phil Lynott praticava a união entre a urgência hard rock e a trova social e emocional de Bob Dylan e, porque não dizer, de um jovem chamado Bruce Springsteen. Com isso, o grupo atraía a atenção de todo mundo que enxergava no rock muito mais que simples canções para balançar a cabeça. O Thin Lizzy transformava tudo a seu redor, como se falasse de necessidades básicas para nossas emoções.

Ainda hoje é difícil não descrever este disco sem sentir um aperto no coração e algumas lágrimas nos olhos, principalmente para quem - como eu - era um adolescente nos anos 70, uma época em que ser jovem não era a moleza que é hoje. É difícil não sentir um arrepio na espinha ao ouvir a perfeita harmonia entre as guitarras de Brian Robertson e Scott Gorham - que estenderam as lições ministradas anos antes pelo Wishbone Ash -, ambas solando e se entrecortando com uma genialidade que terminou por ser denominada como twin lead guitars, influenciando toda uma geração de instrumentistas - não me esqueço da emoção de Steve Harris quando perguntei a ele, em uma entrevista, sobre a importância deste Jailbreak em sua vida.

A abertura com a faixa-título era um primor de eficiência na hora de derreter nossas orelhas com riffs inesquecíveis, solos espetaculares e uma atmosfera apocalíptica até então inédita nesse estilo, que servi para o lirismo estampado nos acordes e os harmônicos espertíssimos de "Angel From the Coast", que por sua vez antecediam a delicadeza de "Running Back" e "Romeo and the Lonely Girl". A primeira era pontuada por um piano Fender Rhodes e um sax ocasional, que ofereciam a cama perfeita para que Robertson e Gorham expusessem licks não menos que faiscantes, enquanto que a segunda poderia facilmente ter sido incluída com destaque em algum álbum clássico de Bruce Springsteen.

A influência de Bob Dylan nunca foi manifestada de forma tão perfeita e pesada como na antológica "The Boys Are Back in Town", com Gorham e Robertson disparando uma saraivada de licks em terças de uma maneira que levaria até mesmo Hitler às lágrimas. A atmosfera "trovadoresca" era mantida, apesar de revertida para sonoridades muito mais leves e sutis, na bela "Right or Fall", canção que certamente influenciou no surgimento do Dire Straits.

Se o explícito momento rock and roll estampado em "Cowboy Song" trazia uma típica - e improvável para os padrões irlandeses - paisagem desértica americana, a sequência final com "Emerald" dava ao disco uma dimensão que extrapolava os sentidos, com Gorham e Robertson duelando ferozmente, como que buscando a redenção daquilo que Lynott havia estampado em suas letras nas canções anteriores.

Mas o caldo não tardava a adquirir tonalidades densas e raivosas com os primeiros acordes da inacreditável "Warriors", um verdadeiro tratado "guitarrístico" sobre como tocar o instrumento com criatividade e bom gosto - repare como a dupla de guitarristas usou a lenta e gradual abertura do wah-wah em seus solos como se fosse um outro instrumento. Firme, forte e forjando no incosciente a necessidade imperiosa de desenhar um cenário de conflito bélico, a canção vaticinava a guinada apocalíptica que permearia o heavy metal anos mais tarde.

Qualquer guitarrista - ou instrumentista ou leigo - que ignorar a riqueza de Jailbreak deve estar preparado para as dores dos infortúnios que estarão por vir ...


Faixas:
A1 Jailbreak 4:04
A2 Angel From the Coast 3:06
A3 Running Back 3:16
A4 Romeo and the Lonely Girl 3:58
A5 Warriors 4:12

B1 The Boys Are Back in Town 4:30
B2 Fight or Fall 3:48
B3 Cowboy Song 5:18
B4 Emerald 4:04

Começando a coleção: Ramones

sexta-feira, julho 31, 2009

Por Ale Cubas
Colecionador

Começando a coleção é a sessão que eu mais gosto de escrever aqui na Collector’s Room, mas devo admitir que existem algumas bandas que nos deixam em um beco sem saída na hora de escolher apenas três álbuns para representar sua discografia. O Ramones é uma delas. Mesmo dividindo sua carreira em fases distintas, alguns álbuns mais do que indispensáveis acabam ficando de fora, como foi o caso de Animal Boy (1986), Pleasant Dreams (1981), Brain Drain (1989), Too Tough to Die (1984) e End of the Century (1980), que tive que acabar deixando de lado.

A banda Ramones foi fundada em Nova York, Estados Unidos, e influenciou várias gerações, com músicas simples e com poucos acordes. Seja com a formação tradicional, que contava com Jeffry Ross Hyman (Joey), John Cummings (Johnny), Douglas Glenn Colvin (Dee Dee) e Marc Bell (Marky) ou também com Richard Reinhardt aka Beau (Richie), Tamás “Thomas” Erdélyi (Tommy) ou Christopher Joseph Ward (CJ), o quarteto é sem dúvida nenhuma uma das bandas mais queridas do rock e, com esse seu estilo totalmente descompromissado, conseguiu reconhecimento e admiradores muito além do público do rock.

Bom, então ficam aí minhas sugestões de alguns belos registros gravados por esta verdadeira entidade do rock and roll.

Ramones (1976) ****1/2

Apesar da dificuldade em escolher apenas três discos como citei anteriormente, este debut não tinha como ficar de fora. Além de ter sido o álbum que apresentou os Ramones pela primeira vez, este registro também pode ser considerado como o primeiro disco punk da história. Sem solos, poucos acordes, letras simples, músicas curtas, mas com muita, muita energia.

Apesar da simplicidade, e porque não da agressividade, as músicas eram basicamente baseadas no rock dos anos 50 - inclusive o quarteto gravou uma versão para "Let’s Dance", de Jim Lee.

São muitos os clássicos que formam este LP, como "Blitzkrieg Bop", que é uma das principais composições da banda e que imortalizou a frase “Hey ho let’s go”, que identifica o grupo e virou uma espécie de grito de guerra de seus fãs. O tracklist continua com grandes faixas como "Beat on the Brat", "Judy is a Punk", "Now I Wanna Sniff Some Glue", "I Don’t Wanna Do Down to the Basement", "Havana Affair", "56rd & 3rd", "Today Your Love Tomorrow the World", entre outras pérolas.

A formação original contava com Joey Ramone no vocal, Johnny Ramone na guitarra, Dee Dee Ramone no baixo e Tommy Ramone na bateria.

No ano seguinte, 1977, o grupo lançou o também excelente
Leave Home, que eu considero uma perfeita continuação deste primeiro álbum.

Só em termos de curiosidade o nome do conjunto foi inspirado em uma alcunha fictícia que o Beatle Paul McCartney utilizava em hotéis para não ser identificado tão facilmente pelos fãs e jornalistas de plantão.

Uma verdadeira referência para as próximas gerações do punk e do rock.

Rocket to Russia (1977) *****

Rocket to Russia é um dos álbuns, se não o álbum, que mais nos traz clássicos dos Ramones, e é o trabalho favorito da grande maioria dos fãs do conjunto nova-iorquino. Encontramos neste disco sonzeiras como "Rockaway Beach", a balada "Here Today Gone Tomorrow", "I Don’t Care", "Sheena is a Punk Rocker", "We’re a Happy Family", "I Wanna Be Well", "Teenage Lobotomy", além dos covers para "Surfin’ Bird" e "Do You Wanna Dance?". Essas composições serviram durante muitos anos como base nos sempre empolgantes shows da banda pelo mundo afora.

Este álbum também foi a despedida do baterista Tommy Ramone, que foi substituído por Marky Ramone, que veio do grupo de hard rock setentista Dust e que se tornou um nome muito importante dentro do conjunto, fazendo sua estreia no próximo disco, intitulado de
Road to Ruin (1978).

Adios Amigos (1995) ***1/2

Como o próprio título já entrega, Adios Amigos foi o último disco de estúdio gravado pelos Ramones, e a escolha do idioma para o título foi uma homenagem aos fãs sul-americanos, pois países como Brasil, Argentina e Chile, além de serem os lugares onde a banda mais tinha fãs, eram primeiramente locais onde eles gostavam de tocar e estar.

Obviamente com uma produção muito mais moderna do que os citados anteriormente,
Adios Amigos ainda traz uma banda afiada como nos velhos tempos. Apesar de não tocar mais no grup, a maioria das músicas e letras ainda são de composições de Dee Dee Ramone.

O álbum abre com o cover de "I Don’t Wanna Grow Up", canção de Tom Waits e que ficou muito boa na versão dos Ramones, parecendo até que a música havia sido composta por eles, transformado-se assim no grande destaque do disco. Ainda temos faixas como "It’s Not for Me to Know", que Dee Dee já havia gravado em um álbum solo; "She Talks to Rainbows", composta por Joey e que o restante da banda não gostava, pois achavam a letra meio hippie demais; "Take the Pain Away"; "Have a Nice Day"; "Born to Die in Berlin", entre outras, mas outro ponto alto do play são as faixas cantadas também pelo baixista CJ, que tem uma grande performance neste álbum, como em "Makin´ Monsters for My Friends", "The Crusher", "Cretin Family" e "Scattergun". Até poderia parecer que CJ cantou tantas músicas pois Joey já estava ficando doente, mas esta teoria já pode ser descartada, pois na sequência a banda ainda lançou alguns álbuns ao vivo em que Joey continuou detonando.

Talvez a escolha deste disco para esta sessão se deva ao fato de ele ter marcado minha vida, pois veio em uma época de muitas festas e curtição, mas o que não pode ser negado é que
Adios Amigos foi uma despedida em grande estilo.


Discos Fundamentais: The Who - Tommy (1969)

sexta-feira, julho 31, 2009

Por Régis Tadeu
Colecionador e Jornalista
Matéria publicada originalmente na edição #158 da revista Cover Guitarra

O mundo em que vivemos não se cansa de nos quebrar a todos, mas alguns costumam ficar mais fortes exatamente nos pontos quebrados. É preciso ter tal pensamento em mente ao encarar a experiência de ouvir um disco como Tommy. Não, um simples "disco" não dá a real dimensão do que se ouve aqui. O termo correto seria "obra-prima", um trabalho musical que está no mesmo nível de importância de Sgt Peppers Lonely Hearts Club Band e Pet Sounds.

Considerada como a primeira ópera-rock a ser composta - embora tal rótulo demonstre uma certa imprecisão (o mais correto seria uma "cantata roqueira") -, Tommy simplesmente inspirou 80% do rock e do pop feito a partir de 1969 (data de seu lançamento oficial), principalmente na maneira como a guitarra passou a ser encarada como instrumento principal dentro de uma composição. Ao cunhar uma série de acordes não menos que perfeitos para cada uma das músicas, Pete Townshend nadou na corrente contrária do então nascente virtuosismo de caras como Jimi Hendrix e Jeff Beck. Solos? Muito raros, apenas quando tal elemento era imprescindível para a canção. O que importava mesmo era a força harmônica e melódica dos acordes.

A partir do instante em que a belíssima "Overture" começava a soar, pontuada por violões e guitarras executando acordes escolhidos a dedo e trompas magníficas, era impossível não ser transportado ao mundo do garoto que ficou cego, surdo e mudo depois de presenciar o assassinato do pai pela mãe e o amante, e que mais tarde se tornou um campeão de fliperama e acabou virando uma espécie de Messias quando adulto - uma história que, na verdade, era uma parábola sobre a opressão e o abuso infantil como fatores primordiais nos descaminhos de um ser humano em busca de sua própria verdade. A tensão presente em "Sparks" chegava a ser claustrofóbica, desaguando na surpreendente inclusão de "Eyesight to the Blind" (do bluesman Sonny Boy Williamson), aqui totalmente rearranjada para que a letra ficasse inserida dentro do padrão sonoro do álbum, com Townshend trabalhando suas guitarras com a mesma abordagem que um compositor erudito ao empregar toda uma seção de cordas em uma obra, que por sua vez se encadeava com a magistral "Christmas", esta recheada com acordes poderosíssimos. Os mais de dez minutos de "Underture" mostravam como violões e o contrabaixo de John Entwistle poderiam se unir e formar uma massa sonora poderosíssima, tensa e psicótica.

Funcionando como uma sucessão de árias e passagens instrumentais, Tommy explicitava a maneira como Townshend já vinha estruturando harmonicamente suas canções - vide "1921", "Acid Queen" e "Amazing Journey" -, em que a sutileza da base feita com violões encontrava surpreendente harmonia na poderisíssima bateria de Keith Moon e nos riffs envenenadíssimos do guitarrista. A condensação de momentos-chave da obra em "Go to the Mirror!" reflete justamente um momento de catarse, que acaba acontecendo em canções emblemáticas da obra, como as espetaculares "Pinball Wizard", "I´m Free" e "Christmas".

Embora já tivesse lançado um disco conceitual dois anos antes (Who Sell Out) e Townshend já tivesse dado seus primeiros passos roqueiro/operísticos em "A Quick One (While He´s Away)", nada sugeria o impacto que Tommy causou em todos. Sem soar pomposo em nenhum instante, Tommy não apenas foi o responsável pela popularização do The Who em todos os países do mundo ocidental, mas também elevou o rock a um patamar de excelência literária (é, é isso mesmo que você leu!) que só encontra paralelo musical na poesia de Bob Dylan.

Além disso, este disco ensinou que um guitarrista tem que ser um bom compositor. Sem essa qualidade, tocar o instrumento se torna apenas um ato mecânico.


Faixas:
A1 Overture 5:21
A2 It's a Boy 0:38
A3 1921 2:49
A4 Amazing Journey 3:24
A5 Sparks 3:46
A6 Eyesight to the Blind (The Hawker) 2:13

B1 Christmas 4:34
B2 Cousin Kevin 4:07
B3 The Acid Queen 3:34
B4 Underture 10:09

C1 Do You Think It's Alright? 0:24
C2 Fiddle About 1:29
C3 Pinball Wizard 3:01
C4 There's a Doctor 0:24
C5 Go to the Mirror! 3:49
C6 Tommy Can You Hear Me? 1:36
C7 Smash the Mirror 1:35
C8 Sensation 2:27

D1 Miracle Cure 0:12
D2 Sally Simpson 4:12
D3 I'm Free 2:40
D4 Welcome 4:34
D5 Tommy's Holiday Camp 0:57
D6 We're Not Gonna Take It 7:08

30 de jul de 2009

11 discos para começar a gostar de soul

quinta-feira, julho 30, 2009

Por Régis Tadeu
Colecionador e Jornalista
Matéria publicada originalmente no site Yahoo!

Pois bem, aqui está uma outra seleção, desta vez com sugestões que julgo imprescindíveis para quem quer começar a gostar de soul music. Para variar, tive muita dificuldade em escolher os onze discos, pois muitos são os álbuns essenciais do gênero e eu tive que deixar de fora trabalhos excepcionais de artistas verdadeiramente únicos.

Propositalmente não coloquei nada do James Brown porque, como você já sabe a esta altura do campeonato, é primordial ouvir todos os discos do cara. Também com dor no coração tive que deixar de fora discos maravilhosos de Solomon Burke, Bobby Bland, Billy Paul, Diana Ross & The Supremes, Ray Charles (muito mais porque o seu lance era uma mistureba de r&b com outros estilos) e mais uma cacetada de gente talentosíssima. Bem, vamos lá!

1) Marvin Gaye - What´s Going On (1971)

Sem dúvida alguma este é o mais importante disco da soul music de todos os tempos. A preocupação em fugir do romantismo clichezento fez com que Marvin mostrasse letras engajadas em termos políticos e sociais, falando sobre a decadência do sonho americano, de racismo, de como as pessoas estavam destruindo o planeta, de crianças abandonadas. Sua voz aveludada, mais um fenomenal grupo de músicos de apoio - com destaque para o lendário baixista James Jamerson, em meio a guitarras, baterias e percussões angelicamente suingadas -, fez com que o cantor se tornasse uma espécie de porta-voz de uma nova revolução, calma e tranquila, mas não menos incisiva e corrosiva. Cada faixa ainda soa assustadoramente atual nos dias de hoje. Alternado decepção e raiva contida com sinais de esperança, é um daqueles discos que deveria ser enviado para outras galáxias como prova de vida inteligente aqui na Terra.

Gostou? Ouça também Let's Get It On (1973).

2) Al Green - Let´s Stay Together (1972)

Com uma produção quase simplória em termos de timbres, Green conseguiu fazer com que a genialidade das canções presentes no disco fosse o suficiente para cativar a audição de quem quer que seja. Se a faixa-título é um dos momentos mais sublimes da história da música mundial, em "How Can You Mend a Broken Heart" (composta e gravada pelos Bee Gees) está um raro caso em que uma regravação ficou melhor que a versão original. Já o balanço insinuante de "Judy", "I Never Found a Girl (Who Loves Me Like You Do)" e "It Ain't No Fun to Me", esta com um leve acento blues, mostram como a voz de Green exalava paixão sem qualquer trinado virtuosístico.

Gostou? Ouça também I'm Still in Love With You (1972).

3) Stevie Wonder - Innervisions (1973)

Desde a mais tenra idade - nove anos -, Stevie Wonder já mostrava que era mais que um garoto prodígio que sabia tocar um monte de instrumentos: era um gênio, isso sim. Se um dia algum bucéfalo duvidou disso, este disco não deixa o menor traço de dúvida a respeito. Assim como Marvin Gaye havia feito no LP citado anteriormente neste espaço, Wonder aplicou um discurso multifacetado e igualmente crítico a repeito do cotidiano social e político dos Estados Unidos na época (1973) em canções absurdamente geniais, como "Living for the City", "Too High", "Higher Ground" (uma implícita continuação de outro grande clássico de sua lavra, "Superstition") e a estonteante balada "All in Love is Fair".

Gostou? Ouça também Talking Book (1972).

4) Smokey Robinson & The Miracles - Make It Happen (1967)

Apesar de apresentar um repertório magnífico, este disco recebeu muito menos atenção do que merecia na época de seu lançamento. Dançante na medida certa - ainda hoje é impossível ficar parando ouvindo canções como "The Soulful Shack" e "It's a Good Feeling" - e romântico sem esbarrar no excesso de sacarose ("My Love for You", "You Must Be Love), o álbum se apoiava na voz levemente afeminada de Smokey Robinson, um craque em forjar lindas melodias vocais. Na hora de comprar este disco, preste atenção: uma das faixas - a ótima "The Tears of a Clown" - acabou rebatizando um relançamento deste álbum, com o mesmíssimo repertório.

Gostou? Ouça também Going to a Go-Go (1965).

5) Otis Redding - The Dock of the Bay (1968)

Morto precocemente aos 26 anos de idade, um pouco antes deste álbum ser lançado, Otis Redding deixou um legado musical quase impossível de ser superado. A maneira emocionada e sofisticada com a qual se entregava em cada canção fizeram com que se tornasse uma influência marcante em 99% dos cantores das gerações posteriores dentro do gênero. Neste disco - na verdade, um "catado" de faixas inéditas e lados B de compactos, reunidos pelo produtor Steve Crooper (guitarrista do Booker T & The MGs) - estão presentes canções fabulosas, como a doce "I Love You More Than Words Can Say", a vibrante "Don't Mess With Cupid" e, claro, um dos maiores e mais belos clássicos de todos os tempos, "[Sittin' On] The Dock of the Bay").

Gostou? Ouça também Complete and Unbelievable: The Otis Redding Dictionary of Soul (1966).

6) Sam Cooke - Night Beat (1963)

Para muitos críticos ele foi o maior cantor de soul de todos os tempos. Controvérsias e discussões à parte, é inegável que Sam Cooke, dentro do gênero, foi um pioneiro a agradar negros e brancos, além de ter sido um dos primeiros artistas a buscar formas de gerenciar sua própria carreira. Mas era nos discos que a estupenda voz de Cooke se tornava algo próximo do divino. Neste álbum, gravado em 1963, ele já formulava todas as bases e fórmulas musicais do soul, notadamente nas linhas vocais inacreditáveis que colocou em "Lost and Lookin'", cantada quase à capella, em "Mean Old World" e no tratamento suingante dado à conhecidísima "Shake, Rattle and Roll", eternizada por Bill Haley.

Gostou? Ouça também Live at the Harlem Square Club, 1963 (1985).

7) Aretha Franklin - I Never Loved a Man the Way I Love You (1967)

Na área feminina da soul music não tinha para ninguém: Aretha Franklin foi a maior diva do gênero. Sua voz incrivelmente potente, forjada nos templos das igrejas onde cantava na adolescência, fez dela um ícone da emancipação feminina dentro da música, não apenas pelo absurdo sucesso de "Respect", mas também por colocar sua indefectível personalidade dentro de canções de outros autores, como no caso de "Drown in My Own Tears" (de Ray Charles) e duas pérolas de Sam Cooke, "Good Times" e "A Change is Gonna Come". Com um punhado de canções impecáveis e uma produção que soube trabalhar a rusticidade de Aretha frente a um microfone, este disco é não menos que sublime.

Gostou? Ouça também Lady Soul (1968).

8) Etta James - Tell Mama (1967)

Uma das poucas cantoras a dominar completamente as linguagens do soul, blues, jazz, r&b e o que mais lhe aparecesse pela frente, Etta James alcançou o sublime Olimpo do soul neste disco extraordinário, com resultados tão cativantes que chegam a causar arrepios na espinha dos mais incautos. Com uma energia acachapante, a malucaça diva manda altas doses de eletricidade na contagiante faixa-título, na linda balada "I'd Rather Go Blind" e dá um tratamento surpreendente a ótimas recriações de "Security" (Otris Redding) e "Don't Lose Your Good Thing" (Jimmy Hughes).

Gostou? Ouça também Call My Name (1967).

9) Isaac Hayes - Hot Buttered Soul (1969)

Maestro, arranjador e compositor a serviço de inúmeros artistas da Stax, Isaac Hayes demorou para deslanchar em carreira-solo. Quando o fez, demoliu sem piedade alguns dos mais inabaláveis dogmas da soul music, estendendo o tempo de duração de suas composições para muito além do padrão "hits-radiofônicos-com-não-mais-do-que-quatro-minutos". Neste sensacional disco, o cara reuniu apenas quatro músicas que mais pareciam suítes de black music, mas que em nenhum momento soavam enfadonhas. Desde os doze minutos de "Walk on By" (mais tarde sampleada pelo Portishead) até os quase dezenove (!) minutos de "By the Time I Get to Phoenix", o que você ouve é um disco não muito fácil de deglutir logo de cara, mas que se torna apaixonante à medida que sua "narrativa" é decifrada.

Gostou? Ouça também Shaft (1971).

10) The Temptations - Cloud Nine (1969)

Verdadeiros gênios das harmonias vocais, os Temptations fizeram por muito tempo um r&b adocicado e inocente, que era o padrão típico da Motown nos anos 60. Mas quando resolveram injetar um pouco mais de peso instrumental ao seu som, aí sim os caras conseguiram fazer com que a soul music que desejavam fazer tomasse um corpo consistente e relevante. Este disco traz uma malemolência tão grande que muita gente o considera como um álbum funk, o que é um evidente exagero. Mesmo assim, faixas como a ótima versão de "I Heard It Through the Grapevine" e pérolas como "I Need Your Lovin'", a faixa-título e "Gonna Keep on Tryin' Till I Win Your Love" levaram o gênero a um outro patamar.

Gostou? Ouça também Wish It Would Rain (1968).

11) Curtis Mayfield - Superfly (1972)

Compositor de mão cheia, Curtis Mayfield teve na trilha sonora deste filme - um dos maiores exemplos da chamada
blaxploitation (filmes com atores negros endereçados à platéias negras) - o ápice de sua criatividade, um retrato nu e cru daquilo que se via nas ruas das grandes cidades americanas. Cada canção é tão emblemática disso que você nem precisa assistir ao filme para captar a energia daquilo que Mayfield quis expressar, qualquer que fosse a sua natureza. As levadas são densas e hipnóticas, com a voz de Mayfield passeando por tonalidades sombrias e, ao mesmo tempo, repletas de ... soul. É um disco que você talvez não entenda logo de cara, mas se tiver um pouco de paciência vai considerá-lo como uma obra-prima.

Gostou? Ouça também Curtis (1970).

Lançamentos interessantes chegando

quinta-feira, julho 30, 2009

The 69 Eyes - Back in Blood
Lançamento: 28 de agosto
Gênero: Gothic Rock

Jorn - Dukebox
Lançamento: 28 de agosto
Gênero: Heavy Metal

Siena Root - Different Realities
Lançamento: 27 de agosto
Gênero: Hard Rock

Jet - Shaka Rock
Lançamento: 25 de agosto
Gênero: Rock

Tim Buckley - Live at the Folklore Center 1967
Lançamento: 25 de agosto
Gênero: Folk Rock

Vader - Necropolis
Lançamento: 21 de agosto
Gênero: Death Metal

U.D.O. - Dominator
Lançamento: 21 de agosto
Gênero: Heavy Metal

Artic Monkeys - Hambug
Lançamento: 19 de agosto
Gênero: Indie Rock

Woodstock - 40 Years On: Back to Yasgur´s Farm
Lançamento: 10 de agosto
Gênero: Classic Rock

Behemoth - Evangelion
Lançamento: 07 de agosto
Gênero: Black Metal

Smokey Robinson and The Miracles - The Early Albums
Lançamento: 04 de agosto
Gênero: Soul

The Meters - Live at Rozy´s
Lançamento: 04 de agosto
Gênero: Funk

Robert Wyatt - Box Set
Lançamento: 03 de agosto
Gênero: Jazz-Rock, Progressivo

Entrevista exclusiva - Coco Montoya: "Albert Collins foi a minha maior influência, tanto na música como na vida"

quinta-feira, julho 30, 2009

Por Ugo Medeiros
Colecionador e Jornalista
Coluna Blues Rock

Em carreira solo desde 1993, o guitarrista norte-americano Coco Montoya é hoje um dos grandes representantes do blues. Após passagens pela banda de Albert Collins e pelos Bluesbreakers de John Mayall, Coco viaja pelo mundo com sua inseparável Stratocaster e impressiona o público com sua pegada blues-rock e feeling. Após a apresentação no 7º Rio das Ostras Jazz & Blues Festival, ele bateu um papo bem descontraído conosco sobre o começo da sua carreira.

Ugo Medeiros – Nos anos 70 você tocou bateria na banda do Albert Collins. A partir da relação com o bluesman você passou a tocar guitarra. Você o considera o seu grande mestre na guitarra?

Coco Montoya – Com certeza! Ele foi a maior influência na forma que eu toco e na minha vida, foi como um pai para mim. Apesar de eu ter escutado outros grandes guitarristas, como Eric Clapton e os “Kings” (B.B., Albert e Freddie), Albert Collins foi o músico que mais me marcou.

UM – Você decidiu ser músico após assistir o Albert King em 1969. O que você pode dizer sobre ele?

CM – Um ícone único. Ele é um daqueles guitarristas, assim como Albert Collins, que é impossível imitá-lo, pois ele tem um estilo próprio. Ao escutar uma nota da sua guitarra o ouvinte já reconhece. Esse é o sonho de todo músico, ser reconhecido de primeira pela música, mesmo que seja para dizer: “Ah não, esse tal de Coco Montoya é insuportável (risos)”.

UM - Depois, você integrou os Bluesbreakers por dez anos. O que você aprendeu com John Mayall?

CM – Ele me deu muita auto-confiança, pois eu era muito inseguro. Por Deus, eu estava na banda que Eric Clapton participou! Ele sempre falou para eu tocar o melhor que pudesse, independente do que os outros achassem.

UM – Durante a passagem pelos Bluesbreakers você tocou com Walter Trout. Como foi essa parceria?

CM – Posso dizer uma coisa sobre o Walter: ele vem daqui (apontando para o coração). Um guitarrista incrível e um cara sensacional, que faz tudo de coração. Às vezes nos vemos e tocamos em alguns festivais, como nos tempos dos Bluesbreakers. Somos muito amigos

UM – Você tem uma pegada típica de blues-rock. Além dos mestres do blues, quais as bandas de rock que mais te influenciaram?

CM – Eu sempre gostei dos guitarristas de blues-rock. Eric Clapton foi uma grande influência, pois eu gostava muito do Cream. Jimi Hendrix também, mas um pouco menos. Eu escutava outras bandas, casos de Wishbone Ash (grupo que contou com excelentes músicos), Mike Bloomfield e Jeff Healey (um grande amigo que tocava como ninguém). Nossa, tinha muita coisa para escutar ...

UM – O seu disco Can’t Look Back (2002) foi produzido por Jim Gaines. Como foi trabalhar com o cara que produziu músicos do calibre do Carlos Santana e Stevie Ray Vaughan?

CM – Ele é sensacional, um grande professional e, ainda sim, muito simples. Eu aprendi muito com ele, já que ele é das antigas. Todos que gravaram com ele tiveram grandes trabalhos. Eu, realmente, adoro aquele cara.

UM – Você começou a sua carreira solo em 1993. Você acha que o seu som mudou ao longo desses anos?

CM - Espero que sim, pois eu gosto sempre de tentar coisas novas. Tem certas sonoridades que eu gosto de manter, mas no geral gosto de inovar. Estou gravando um disco novo, espero que vocês gostem do que estou fazendo.

Castiga!: a obrigatória estreia solo de Jack Bruce

quinta-feira, julho 30, 2009

Por Marco Antonio Gonçalves
Colecionador

Cantor de timbre vocal marcante, compositor de capacidade única e, acima de tudo, um dos maiores baixistas surgidos na face da Terra. Se você pensou em Jack Bruce, acertou em cheio. Um músico carregado de atributos que virou lenda não só pela sua passagem por combos sensacionais como Graham Bond Organization, Manfred Mann, John Mayall & The Bluesbreakers e West, Bruce & Laing, entre outros, mas evidentemente por ser parte do maior power trio inglês da história do rock, o Cream.

Ao longo de seus 66 anos de idade e com uma carreira solo bem desenvolvida, Jack Bruce ostenta uma discografia com pelo menos duas dezenas de álbuns individuais. Alguns deles são obrigatórios, como é o caso deste Songs for a Tailor, sua estreia solo. Lançado pela Polydor Records em 1969, é um disco que pode causar certa estranheza nas primeiras audições, muito por conta da sonoridade dissonante e da alternância de compassos de algumas canções, mas que com o tempo vai sendo melhor absorvido.


Bruce se sente em casa, extraindo timbres e linhas melódicas brilhantes de seu baixo elétrico Gibson EB3. Sua voz distinta passeia por arranjos sinuosos, devidamente incrementados com sua destreza ao piano, órgão, violões e violoncelos. Nas composições, a parceria dos tempos de Cream permanece intacta, com o virtuoso baixista elaborando os arranjos e o poeta e músico Pete Brown escrevendo as letras.

Produzido pelo infalível Felix Pappalardi (que já havia trabalhado com o Cream no clássico
Disraeli Gears, em 1967), mostra a busca incessante de Bruce por novas sonoridades. Para tanto, foram convocados o baterista Jon Hiseman e o saxofonista Dick Heckstall-Smith (membros da banda britânica de jazz-rock Colosseum), além do guitarrista Chris Spedding. Entre outras participações, a mais curiosa é a de L’Angelo Misterioso (alguém já ouviu falar em George Harrison?) na faixa de abertura, a intensa “Never Tell Your Mother She’s Out of Tune”. Nesta música e em outras duas (“The Ministry of Bag” e “Boston Ball Game, 1967”), os arranjos ganham corpo com as presenças de Harry Beckett e Henry Lather nos trompetes e Art Themen no saxofone.

Tudo funciona muito bem em “Tickets to Water Falls”: vocal, linhas de baixo, fraseados de piano e guitarra fascinantes, criando uma maravilhosa concepção harmônica. Outro ponto alto é “To Isengard”: começa calma, com vocal suave de Bruce e guitarras acústicas. Na metade da música, o vocal torna-se rude, dando início a um duelo entre o baixo de Bruce e a guitarra de Spedding. Com pouco mais de cinco minutos, é a faixa mais longa do disco e traz Pappalardi dando uma forcinha nos vocais e na guitarra rítmica.


Maravilhosa também é “Rope Ladder to the Moon”, onde o ambiente sonoro é construído em torno de uma instrumentação acústica, com Bruce tocando quase todos os instrumentos (vocal, violoncelo, guitarra, piano e baixo), assessorado por John Marshall na bateria e Felix Pappalardi na percussão e nos vocais de apoio. Mas o destaque vai mesmo para a clássica “Theme for an Imaginary Western”, regravada pelo Mountain e pelo Colosseum no ano seguinte e aqui conduzida com toque de classe pelo trio Bruce/Spedding/Hiseman. Sem comentários.

Em 2003 a Polydor soltou uma versão remasterizada de
Songs for a Tailor contendo quatro faixas bônus; duas versões alternativas para “Ministry of Bag” e mais duas para as energéticas “Weird of Hermiston” e “The Clearout”. Vale cada centavo investido.

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