9 de dez de 2011

Os melhores discos de 2011 segundo Ricardo Seelig, editor da Collector´s Room

sexta-feira, dezembro 09, 2011


A minha pré-lista com os melhores discos do ano tinha 45 álbuns. Por esse número dá pra ver o quanto 2011 foi um ano excelente para a música. Sem exagero e sem pensar muito, é possível afirmar que tivemos ao menos dois grandes discos sendo lançados todos os meses.

Por isso, devido à fartura de bons álbuns, foi difícil decidir quais seriam os 10 que entrariam na lista final. Ouvi todos novamente, coloquei na balança, e cheguei nessa lista final. Alguns eram presença certa, mas outros acabaram entrando na última hora, tirando o lugar de trabalhos até então intocáveis.

Mas chega de papo furado e vamos aos 10 melhores discos de 2011.

Machine Head – Unto the Locust

Sou fã de heavy metal desde os meus 12 anos. Nesses 27 anos, pouquíssimos foram os discos que fizeram eu me sentir como Unto the Locust fez. Um trabalho espetacular, o melhor álbum da carreira do Machine Head é impressionante do começo ao fim. Não apenas o melhor disco de 2011, mas, na minha opinião, um dos grandes álbuns de heavy metal de todos os tempos.

Destroyer – Kaputt

Com uma sonoridade refinada e elegante influenciada enormemente pela fase Berlim de David Bowie – de álbuns como Low e Heroes –, o décimo trabalho deste grupo canadense é um primor. Melodias celestiais cativam profundamente, proporcionando uma experiência única. Vai passar batido pela maioria, porém é um trabalho excepcional!

Mastodon – The Hunter

A banda mais inovadora do heavy metal simplificou o seu som e gravou o seu disco mais acessível. The Hunter é um álbum direto, pesado, com uma pegada stoner muito bem-vinda e as influências psicodélicas e progressivas características de sempre. O metal lisérgico do quarteto, vivo e pulsante, em um de seus melhores trabalhos.

Ghost – Opus Eponymous

Provavelmente a banda mais falada e comentada do metal em 2011, o Ghost foi buscar no passado os elementos para construir uma sonoridade cativante e repleta de personalidade. Opus Eponymous é daqueles discos impossíveis de ouvir apenas uma vez: é dar play e escutar do início ao fim, de novo, novamente e mais uma vez.

The Decemberists – The King is Dead

Agreste, meio caipira, The King is Dead poderia ser descrito como uma espécie de álbum perdido do R.E.M.. Com grandes canções, performance vinda da alma e inspiração sem limites, a banda liderada por Colin Meloy gravou um disco arrebatador, capaz de agradar ouvintes de todos os estilos.

Graveyard – Hisingen Blues

Um álbum de 2011 que passaria fácil por um LP gravado nos anos 70. Hisingen Blues confirma o potencial do Graveyard, e é uma das grandes surpresas do ano. Só a presença de uma jóia com “Uncomfortably Numb” já valeria o disco, mas ele tem muitas outras pepitas a serem descobertas. Experimente!

The Black Keys – El Camino

Essa dupla norte-americana é, aparentemente, incapaz de gravar um disco ruim. El Camino é tão bom quanto o trabalho anterior, Brothers, que esteve na maioria das listas de melhores de 2010. Unindo a crueza do rock com o apelo do pop, tudo embalado por um delicioso sabor setentista, El Camino tem tudo para repetir tal feito. Todas as suas 11 faixas tem cara de single, e devem tornar a banda reconhecida de vez pelo grande público.

Opeth – Heritage

O disco mais corajoso da carreira do Opeth é uma viagem sonora surpreendente. Riquíssimo musicalmente, traz a banda ousando ao mergulhar sem medo na prog setentista. A escolha de Mikael Akerfeldt em cantar apenas com a voz limpa pode ter chocado os fãs em um primeiro momento, mas se revelou acertadíssima. Um belíssimo trabalho, que abre novos horizontes para uma das bandas mais inquietas da atualidade.

Anthrax – Worship Music

O CD que marcou a volta de Joey Belladonna é um petardo! Empolgante do início ao fim, com canções redondinhas e maravilhas como a já clássica “In the End”, é o melhor trabalho do grupo em 20 anos. Que seja apenas o começo de uma nova, e duradoura, fase.

The Devil's Blood – The Thousandfold Epicentre

Em seu segundo álbum, esta banda holandesa deixou um pouco de lado a melodia onipresente de seu primeiro trabalho e investiu mais na psicodelia, alcançando um resultado surpreendente. Perturbador, etéreo e cativante, comprova o porque de o Devil's Blood ser considerado um dos nomes mais interessantes do metal atual.

Além desses discos citados acima, não posso deixar de destacar outros dez álbuns excelentes, que não entraram na lista por limitação de espaço mas merecem ser ouvidos com atenção, comprovando o quanto 2011 foi um ano especial para a música:

Adele – 21
Beth Hart & Joe Bonamassa – Don't Explain
Chickenfoot – Chickenfoot III
Foo Fighters – Wasting Light
Iced Earth – Dystopia
Iron & Wine – Kiss Each Other Clean
Krisiun – The Great Execution
Noel Gallagher – High Flying Birds
Rival Sons – Pressure & Time
Von Hertzen Brothers – Stars Aligned

Enquete da semana: o melhor álbum de metal de 1995

sexta-feira, dezembro 09, 2011

Finalmente, o Death alcançou a primeira posição. Depois de figurar em diversas enquetes apenas em posições medianas, a banda de Chuck Schuldiner teve o seu álbum Symbolic eleito pelos nossos leitores como o melhor lançamento de heavy metal de 1996.

Confira o resultado:

Death – Symbolic - 32%
Blind Guardian – Imaginations From the Other Side – 22%
Paradise Lost – Draconian Times – 15%
Gamma Ray – Land of the Free – 13%
Moonspell – Wolfheart - 7%
Iced Earth – Burnt Offerings - 5%
Dissection – Storm of the Light's Bane - 3%
Deicide – Once Upon the Cross – 2%
Immortal – Battles in the North - 1%
Dark Tranquillity – The Gallery – Nenhum voto

A partir desta semana, implantei uma alteração importante. Não serão listados apenas 10 discos, mas sim quantos forem necessários, e vocês poderão votar em mais de um álbum. Isso deixará as enquetes mais abrangentes e completas.

Diga o que achou dos resultados, e das mudanças, nos comentários.

Os melhores livros sobre heavy metal lançados em 2011

sexta-feira, dezembro 09, 2011

Por Chad Bowar
Publicado originalmente no site About.com
Tradução de Ricardo Seelig

A quantidade de livros sobre hard rock e heavy metal lançados este ano foi impressionante, muitos deles excelentes. A escolha da primeira posição foi fácil, e ficou com o incrível Metalion: The Slayer Mag Diaries, uma leitura divertida e historicamente muito importante. Mas confesso que, pela fartura de bons títulos, escolher os outros quatro desta lista foi uma tarefa muito difícil.

Jon Kristiansen – Metalion: The Slayer Mag Diaries

Metalion é um volume enorme, contendo cada edição do lendário e seminal zine em sua totalidade. Kristiansen vem da Noruega, e tinha um assento na primeira fila na época em que a cena black metal daquele país teve início. Ele fez amizade com muitos dos músicos de lá, e de outras partes do mundo, como Euronymous, Jon Nödtveidt, Faust e inúmeros outros.

Com um estilo de escrever singular e extremamente direto, Kristiansen não tem medo de expressar as suas opiniões. A franqueza e a honestidade (tanto do escritor quanto do entrevistado) é algo que tem diminuído muito ao longo dos anos, com o metal ficando menos perigoso e mais experiente em relações públicas. Jon Kristiansen dedicou a sua vida ao heavy metal, e alcançou uma trajetória e reputação impecáveis. Milhares de leitores descobriram inúmeras bandas por sua causa, enquanto as bandas necessitam de divulgação para se tornarem conhecidas. Sem dúvida, este livro se transformará em material de primeira necessidade para quem pretende explorar e entender a história do metal.

Joel McIver – Crazy Train: The High Life and Tragic Death of Randy Rhoads

Joel McIver já escreveu uma tonelada de livros, e era o escriba ideal para essa biografia de Randy Rhoads. Ele também publicou uma bio de Cliff Burton, que também morreu muito jovem. Há uma série de semelhanças entre essas duas histórias. Ambos foram prodígios musicais, amados por legiões de fãs, e morrerem em acidentes sem sentido.

Crazy Train conta a história de Rhoads desde o início. O livro relata a sua juventude, como ele começou a tocar guitarra, os seus dias como professor e, finalmente, sua entrada no Quiet Riot. Seus dias com Ozzy são descritos extensivamente, incluindo a composição e gravação dos clássicos discos Blizzard of Ozz (1980) e Diary of a Madman (1981). McIver conta a história da vida de Randy Rhoads através de várias perspectivas diferentes, entrevista familiares, amigos e colegas de banda, obtendo uma imagem completa dele como músico e como pessoa.

Butch Walker – Drinking with Strangers

Butch Walker começou a sua carreira como um artista de hair metal. Você deve se lembrar de sua banda SouthGang, que lançou um par de álbuns no início dos anos 90. A banda implodiu, mas ele se recuperou com o Marvelous 3, que teve um hit de certa repercussão com o single power pop “Freak of the Week”, em 1999. Ele eventualmente produz algo, e já trabalhou em inúmeros álbuns e singles de sucesso.

A minha parte favorita de Drinking with Strangers é a que fala dos primeiros dias de Walker, a partir da sua juventude na Georgia até o SouthGang. Há algumas história interessantes e anedotas, e Walker é muito honesto sobre os erros que cometeu, tanto do lado pessoal quanto nos negócios da banda. A Sunset Strip do final dos anos 1980 era um lugar muito competitivo, e o SouthGang surgiu pouco antes do grunge tornar-se popular e destruir o hair metal como gênero. Eu nunca conheci Butch Walker, mas ele parece ser um cara que você gostaria de sentar e tomar umas cervejas. É assim que o livro é: uma conversa informal, repleta de histórias muito interessantes.

Mick Wall – Enter Night: A Biography of Metallica

Com Enter Night, uma biografia não-autorizada do Metallica, Mick Wall consegue sair do lugar comum ao falar sobre a banda. O conteúdo é engraçado, perspicaz e divertido, e existem alguns boatos que mesmo os fãs mais die hards provavelmente não têm conhecimento. As 480 páginas estão em um livro de capa dura brilhante, semelhante à simplicidade da capa do Black Album.

Wall escreve as coisas como elas realmente são: Lars fala alto como uma criança europeia rica e mimada; o homofóbico bebedor de cerveja Hetfield adora armas; a atitude honrosa de Newsted, constantemente ricularizado enquanto esteve na banda; o amor do temperamental Mustaine pelas drogas e pelo álcool. Está tudo aqui. A abordagem imparcial de Mick Wall permite elogios quando a banda merece, mas é extremamente crítica quando se faz necessário.

Eddie Trunk – Eddie Trunk's Essential Hard Rock and Heavy Metal

O apresentador de rádio e TV Eddie Trunk compilou em um livro 35 diferentes nomes influentes do hard rock e do heavy metal. Cada banda recebeu um capítulo com a sua história e fotos raras a cargo de Ron Akiyama. Há também boxes com a discografia e playlists recomendados por Trunk. Alguns artistas são escolhas inquestionáveis, como Black Sabbath, Metallica e Judas Priest, enquanto outros podem desencadear alguma dicussão, como Billy Squier, Cheap Trick e Rainbow.

O apelo do livro não é a informação biográfica, que pode ser encontrada em qualquer lugar, nem os playlists, que existem basicamente para ocupar espaço. O que torna a obra interessante são as histórias de Eddie Trunk. Ele interagiu diretamente com todas essas bandas durante a sua longa carreira, e conta alguns grandes causos aqui. De sua famosa entrevista com Axl Rose a um concerto privado do Judas Priest, passando pela morte de seu amigo pessoal Ronnie James Dio, as histórias variam de engraçadas a absolutamente bizarras, mas são sempre muito cativantes.

8 de dez de 2011

O “classic rock” no dial e no divã

quinta-feira, dezembro 08, 2011

Por Ronaldo Rodrigues

Não saberia (e acho até estéril tentar) dizer a origem do tão abrangente termo “classic rock”. Já tentei arriscar algumas definições possíveis, baseadas na observação do que dizem ser – seria algo próximo do igualmente abrangente “rock básico”, aquele estilo de rock equidistante tanto do hard/heavy metal quanto do rock progressivo/psicodélico (ou de sua longa lista de sub-variações) quanto do punk e outros estilos considerados mais extremos.

Já pensei que seria algo similar ao que se usa com a música clássica – música erudita, de orquestra, feita no período clássico (algumas décadas do século XVIII e XIX em que se abrigaram os mais célebres compositores). Rock clássico então poderia ser o rock feito no chamado período clássico do rock. Para alguns, esse período pode ser a dobradinha 60-70, época de maior sucesso, impacto e relevância do rock enquanto fenômeno social e artístico. Para outros, pode abrigar também os anos 50, quando existia predominantemente o rock pioneiro, ou o que ficou chamado de rock n’ roll. Para outros, também os anos 80, época de estrondoso sucesso de Iron Maiden, Judas Priest, Metallica, Guns N’ Roses e outros. Extrapolando ainda, caberia dizer (depois de uma certa distância histórica) que no rock clássico caberia também os anos 90 – Pearl Jam, Nirvana, Soundgarden, Oasis, etc.

Tudo isso serve para dizer que não há consenso do que viria ser esse chamado “classic rock”. As maiores evidências me soam como um frágil reducionismo que tem por objetivo embalar as mesmas coisas de sempre numa caixa diferente, padronizando e tirando o contexto e as nuances dos momentos históricos em que o rock foi produzido. Um rótulo envolto numa crise de identidade.

Imagino como é difícil conceber uma programação de rádio que conseguisse abarcar, com um mínimo de critério, um som tão díspar e amplo que iria de Elvis Presley a Elvis Costello. Não que eu não defenda puramente a segmentação da música. Porém, cabe explicar a concepção torpe das rádios atuais, que parecem se acomodar com as funções “shuffle” ou “random” dos aparelhos que tocam CDs. Ou pior ainda. Usar essas funções para materiais do tipo coletâneas, “Best of”, “Greatest hits”, “The Story of”, etc.

Parece surreal entrar em um estúdio de uma rádio e ver uma imensa discoteca com centenas de títulos e escutar a mesma meia dúzia de sons de sempre. Também parece surreal haver gente sem um mínimo de curiosidade de tentar descobrir outros sons da banda que produziu o hit que tanto se ouve por aí.

O encanto do rádio surge do inesperado, da capacidade da programação surpreender e fisgar a atenção de quem ouve. Sendo uma rádio contemporânea, que se digne a tocar música produzida no aqui e no agora, é natural e salutar a diversidade de ritmos e estilos distintos, que se unirão pela coerência de carregar o mesmo espírito de época, na sua sonoridade e atitude.


Já para uma rádio voltada ao passado, como são as chamadas rádios de “classic rock”, é mais do que necessário um mínimo de critério. Rádio sem critério é coisa fria, é o randômico da máquina. É a juntada de um monte de arquivos de músicas famosas, tocadas na base do piloto automático por um computador. Essas rádios parecem tentar emplacar novamente os sucessos já emplacados há 30 ou 40 anos atrás, repetindo à exaustão temas como “Smoke on the Water” do Deep Purple, “My Generation” do The Who, “Rock n’ Roll” do Led Zeppelin, “Another Brick on the Wall” do Pink Floyd, “Changes” do Black Sabbath, “Light my Fire” do Doors, “Born to be Wild” do Steppenwolf, e tantos outros.

Neste cenário, porém sem se ater somente ao “classic rock”, a chamada “era da informação” parece que ainda não bateu na porta dessas rádios. Depois do advento dos CDs (e a vastidão de relançamentos de bandas menos conhecidas), e mais ainda da internet (onde muito desse material pode ser obtido gratuitamente), é no mínimo um equívoco continuar massacrando os mesmo hits de sempre. É claro que existem materiais que são raros pelo simples fato de que não tiveram bons predicados musicais ou de produção. Uma seleção natural do selvagem mercado musical. Mas qual seria a barreira pra colocar na vitrola Captain Beyond, Soft Machine, Tempest, Hawkwind, Mountain, Camel, Rory Galagher, Van der Graaf Generator e outras bandas que fizeram fama em sua época? Não atravessaram a barreira do tempo como Deep Purple ou Black Sabbath, mas qualidade não lhes falta para figurar ao lado dos medalhões vez ou outra. Não que se espere, em um senso de realismo, ligar o dial (ou acessar uma web rádio) e deparar-se com o som de Josefus, Crosscut Saw, Lincoln St. Drive, T2, Ginhouse, Day of Phoenix ou outras obscuridades. É reconhecível que esse é um universo de poucas pessoas, um mergulho muito fundo na produção roqueira dos anos 60 e 70. Mas se negar a sair do mundinho dos super sucessos é digno de um ode à preguiça e ao comodismo.

Seria essa preguiça um sinal de nossos tempos? Um único filme de sucesso logo se reproduz em uma série. Livros de sucesso viram filme quase que instantaneamente. Uma personalidade morre e semanas depois sua biografia já figura nas lojas e depois vira filme. Os Beatles ainda continuam vendendo mais discos do que a maioria dos artistas contemporâneos, remakes, tributos e adaptações de todo o tipo – de filmes, de musicais, de discos. Realmente, podemos estar numa baixa de criatividade, que só a distância histórica vai permitir avaliar melhor. Tem muita gente lutando contra isso, criando, desenvolvendo, inovando, mas o cenário de pós-tudo tem mesmo a cara de pós-tudo. Uma cara de que quase tudo já passou ou tem cara de passado. Talvez a velocidade com que a humanidade se desenvolveu no século XX, em todos aspectos, tenha nos colocado sempre a exigir muita rapidez também das artes, que não são como máquinas em linhas de produção. Porém, se hoje temos a disposição a arte daqui e a produzida há milhares de milhas de lá, porque não se valer dela?

Diante de tanta música, boa e pronta pra ser descoberta, é um atentado à inteligência se prender a tão limitado repertório. 

Deep Purple: crítica do documentário 'Phoenix Rising' (2011)

quinta-feira, dezembro 08, 2011

Nota: 9

Phoenix Rising é um documentário diferente e único. Diferente por mostrar um ângulo do Deep Purple até então inédito: os bastidores da derradeira formação da primeira fase da carreira do grupo, a chamada MK IV, com David Coverdale, Tommy Bolin, Jon Lord, Glenn Hughes e Ian Paice. E único por expor sem meias palavras uma banda em plena decomposição, com uma sinceridade poucas vezes vista em uma banda com o status do Purple.

Dirigido por Tony Klinger, Phoenix Rising traz entrevistas inéditas com Jon Lord e Glenn Hughes, e elas servem de fio condutor para a história. Após conquistar o mundo com Machine Head e Made in Japan – ambos lançados em 1972 -, o Deep Purple teve as suas estruturas abaladas pela saída do vocalista Ian Gillan e do baixista Roger Glover. O posto de Glover foi rapidamente assumido pelo talentoso Glenn Hughes, vocalista, baixista e principal integrante do trio Trapeze, um dos melhores nomes do hard inglês no período. É interessante ouvir da boca do próprio Hughes como ele pensava que assumiria também os vocais no novo Purple, mas logo percebeu que isso não aconteceria, já que o chefão Ritchie Blackmore queria uma voz com uma pegada mais blues para o grupo.

O escolhido acabou sendo um jovem vendedor de uma loja de roupas chamado David Coverdade. A banda pensava em Paul Rodgers para o posto, mas Rodgers já dava os passos iniciais no Bad Company e recusou o convite. A entrada de Coverdale como frontman daquela que era uma das maiores bandas da época é uma história impressionante, pois não era comum um grupo da magnitude do Purple apostar as suas fichas em um músico totalmente desconhecido.

A química deu certo, e a banda lançou em fevereiro de 1974 um de seus melhores discos – para muita gente que conheço, o melhor -, Burn. Renovado e com uma sonoridade brilhante, que apostava um pouco menos no peso e mais no groove, Burn manteve o Deep Purple no topo e mostrou que Coverdale e Hughes poderiam ser as novas forças motrizes da banda. Em dezembro de 1974 o quinteto colocou nas lojas o também ótimo Stormbringer, que acentuou ainda mais as influências soul e funk de Glenn Hughes, fato que incomodou enormemente Blackmore. Insatisfeito, o guitarrista deixou a banda ao final da turnê e foi fazer história com o Rainbow. Um fato que chama a atenção e era até então desconhecido é que Jon Lord também pensou em deixar o grupo no período, e conta isso no documentário. O motivo era que, para ele, apesar de ser um bom disco, Stormbringer não soava como o Deep Purple.

Os quatro músicos restantes não sabiam quem colocar no lugar de Blackmore. Como Hughes fala, “o Led Zeppelin nunca pensou em substituir Jimmy Page, e nós também nunca pensamos em substituir Ritchie”. O grupo chegou a testar Clem Clempson, guitarrista do Humble Pie, para o posto. Clempson foi até Los Angeles, onde a banda residia, e tocou com o Purple, mas não foi aprovado. Segundo Hughes, “Clempson tocou maravilhosamente bem, mas faltava algo”.



O que o Purple procurava era um músico que, além de tocar de maneira quase divina, tivesse uma personalidade forte que fizesse frente ao mítico Blackmore, um dos músicos mais lendários da história do rock. Por sugestão de David Bowie, amigo muito próximo de Hughes no período, foram atrás de um jovem chamado Tommy Bolin. Jon Lord recorda que já conhecia o trabalho de Bolin através do álbum Spectrum, lançado pelo baterista Billy Cobham em 1973, e onde o guitarrista tocou.

Bolin foi chamado para um teste e impressionou a todos não só pela técnica absurda, mas também pela personalidade magnética. Glenn Hughes, já bastante envolvido com cocaína na época, sacou que Bolin também era dos seus ao bater os olhos no guitarrista, porém foi só ao hospedá-lo em sua casa em Beverly Hills durante as primeiras semanas do guitarrista no Purple que percebeu o quanto Tommy Bolin estava afundado em drogas pesadas, principalmente em heroína. Lord recorda que ficou muito impressionado com o talento de Bolin, e, simultaneamente, triste ao perceber o quão doente Tommy estava ao ingressar no Purple.

A banda se trancou em estúdio e começou a compor Come Taste the Band. Porém, antes disso, durante uma turnê européia, teve que intervir à força em Glenn Hughes, mandando-o de volta para a Inglaterra para fazer um tratamento contra a cocaína, pois o baixista estava totalmente fora do ar. Hughes conta que, por causa disso, não tocou na faixa de abertura do álbum, “Comin' Home”, que teve o baixo e os backing vocals a cargo de Bolin.

Implodindo, o grupo saiu em turnê para promover o disco – um trabalho injustamente incompreendido, pois, apesar de ser muito diferente do que o Purple havia gravado anteriormente, é, sem dúvida, um grande álbum. Após shows na Austrália, onde foram aclamados, a banda partiu para uma desastrosa apresentação em Jacarta, capital da Indonésia, onde tudo deu (muito) errado. Lá ocorreu um dos episódios mais nebulosos da carreira do grupo, a morte do guarda-costas Patsy Collins, até hoje não solucionada. Para Hughes e Lord, Collins foi assassinado, mas nada foi provado. A banda teve que pagar milhares de dólares para sair do país, e ainda levou na bagagem um Tommy Bolin debilitado, pois o promotor dos shows naquele país havia dado morfina para o guitarrista, que apagou e dormiu durante horas sobre o seu próprio braço.



Foi neste estado que o Purple chegou ao Japão para alguns shows. Incapacitado de tocar plenamente, Bolin só conseguia alcançar poucas notas com a sua mão esquerda, totalmente adormecida. Por causa disso, tocou com várias guitarras afinadas em diversos tons diferentes. Essas apresentações deram luz ao álbum ao vivo Last Concert in Japan (1978) e estão presentes em cinco faixas registradas em vídeo neste DVD, que são as únicas imagens oficiais de Tommy Bolin como integrante do Purple. Ainda que tenham tocado de forma incrível, com Lord fazendo as partes de Bolin e Paice segurando tudo lá atrás, com Coverdale cantando de maneira sublime, os shows são o retrato dolorido de um grupo em estágio avançado de deterioração. Bolin está muito abaixo de suas capacidades, e Hughes em órbita em um planeta distante.

Phoenix Rising é um documentário excelente, principalmente pela sinceridade bruta de Jon Lord e Glenn Hughes em seus depoimentos. Lord, que faz questão de dizer que não era santo, não esconde o seu descontentamento pelo descontrole químico de Bolin e Hughes, que levaram a banda ao seu fim prematuro. Já Hughes conta nos mínimos detalhes o seu mergulho na escuridão do vício, mostrando o quanto aquilo o fez mal e o quanto é um homem melhor hoje em dia. Sobrevivente apenas por acaso, o baixista relata a sua vergonha por atos que cometeu no período, com os quais tem que conviver até hoje.

Indicado não apenas para fãs do Deep Purple, Phoenix Rising é de uma beleza dolorida, e por isso mesmo tão fascinante. A edição nacional lançada pela ST2 vem com um longo encarte de 28 páginas repleto de informações, mas comete um erro gravíssimo ao não trazer legendas em português. Quem não domina a língua inglesa terá que se contentar com a legendagem em espanhol, que até quebra o galho. Isso é um enorme desrespeito com o consumidor que, em pleno 2011, tem que engolir que um vídeo com essa qualidade seja lançado em nosso país sem legendas em nossa língua natal. Mancada feia da ST2, que espero não se repita novamente.

Mesmo assim, Phoenix Rising é espetacular, e lança um feixe de luz sobre a fase menos comentada da carreira do Deep Purple, uma das bandas mais importantes e influentes da história do hard rock. Enfim, imperdível!

7 de dez de 2011

Os melhores discos de 2011 na opinião de Fabiano Negri, da Collector´s Room

quarta-feira, dezembro 07, 2011

Vocalista do infelizmente extindo Rei Lagarto e envolvido em diversos novos projetos, Fabiano Negri é também um dos colaboradores da Collector´s Room, onde compartilha o seu conhecimento primoroso sobre música com os nossos leitores.

Um cara gente boa, simples e pra lá de prestativo, Fabiano não poderia ficar de fora das nossas listas de melhores do ano. Veja abaixo quais foram, na sua opinião, os 10 melhores discos de 2011, e diga o que achou das suas escolhas nos comentários.

Adele – 21

Um álbum pop perfeito. Todas as canções tem potencial para hit. Produção maravilhosa e uma voz que veio para ficar. Não é por acaso que ainda está sendo um estouro de vendas. 21 é o Thriller da atual geração.

Vintage Trouble – The Bomb Shelter Sessions

Soul rock de primeira grandeza. Uma grata surpresa. Disco leve, dançante e cheio de energia. Não sai do meu som de jeito nenhum. E pelo jeito vai demorar pra sair!

Anna Calvi – Anna Calvi

Exótica e altamente pop. Um álbum cheio de nuances e surpresas, precisa de algumas audições para se fazer presente. Depois disso é só alegria!

Rival Sons – Pressure & Time

Já que o Led Zeppelin não volta mais, mato minha fome com um lançamento como esse. Uma viagem para a década de 1970 com direito a tudo o que essa época gerou de melhor. Discaço!

Foo Fighters - Wasting Light

Melodias altamente grudentas e uma banda com a faca nos dentes. Para mim, o melhor e mais equilibrado trabalho deste bom grupo.

The London Souls – The London Souls

Vocês já devem ter lido em algum lugar sobre a tal urgência do rock, né? Pois bem, se você não sabe o que isso, basta ouvir o London Souls. Rock direto, cru, quase rústico, mas sensacional.

Carro Bomba – Carcaça

Carro Bomba é o Black Sabbath brasileiro. Um trabalho lúcido e pesado, com um caminhão de riffs que fariam Tony Iommi muito orgulhoso. O melhor lançamento nacional do ano!

Mastodon – The Hunter

Poucas vezes ouvi um disco de Heavy Metal tão devastador quanto esse. The Hunter é um assombro sonoro com requintes de crueldade. Só ouça se você tiver caixas de som que aguentem. Soberbo!

Iron & Wine - Kiss Each Other Clean

Samuel Beam sabe como fazer um álbum leve e de extremo bom gosto. Com um acento levemente mais pop do que em seus antecessores, Kiss Each Other Clean é o disco perfeito para relaxar no fim do dia ouvindo boa música.

Beady Eye - Different Gear, Still Speeding

Se eu falar que botava fé no Liam Gallagher sem o Noel eu estaria mentindo. Pois é, eu estava errado. O disco de estreia do Beady Eye é repleto de ótimas canções! Tá certo que Liam está soando cada vez mais como uma cópia do mestre John Lennon, mas desde quando isso pode ser ruim?

Tomada: entrevista exclusiva com a banda

quarta-feira, dezembro 07, 2011


Na minha opinião, o Tomada é uma das melhores bandas de rock do Brasil. O som deste quinteto paulista cativa de imediato, e os motivos são muitos: a energia das composições, as letras inteligentes, as melodias que não saem da cabeça tão cedo. 


Bati um longo papo com o vocalista Ricardo Alpendre, com o guitarrista Marcelo Pepe Bueno e com o tecladista Lennon Fernandes, onde falamos da história do Tomada, do ótimo novo disco, das influências da banda e planos para o futuro, além da realidade para quem faz rock em nosso país. 


Acomode-se na cadeira, aumente o volume e boa leitura!


Turma, pra começar o nosso papo contem um pouco da história do Tomada. Como a banda surgiu?


Pepe Bueno - Em 1998 eu tinha uma banda chamada Soulshine com Marcello Schevanno (Carro Bomba), Pedro Ayoub e Fernando Ninchilo (baterista que gravou o disco Nervoso, do Carro Bomba). Ensaiávamos no estúdio do P.A. (baterista do RPM) na Vila Mariana. Ali saíram muitos sons legais. Várias destas músicas estão no primeiro disco do Tomada e também no álbum Missão na Área 13, da Patrulha do Espaço. Foi uma época muito legal, onde aprendemos a compor sons autorais e nos divertíamos a beça. Depois disso, o Marcello acabou seguindo para a Patrulha e eu formei o Tomada no fim de 2000. Então lançamos Tudo Em Nome do Rock and Roll em 2003, Volts em 2005 e O Inevitável em 2011. Tocamos à beça nesses anos todos! 


Achei o novo disco, O Inevitável, bem diferente dos anteriores, com uma sonoridade mais rica e refinada. Qual o motivo para essa mudança?


Ricardo Alpendre - A disposição para evoluir em todos os sentidos: tecnicamente, para compor e executar melhor; em termos de abrir os horizontes e começar a sair de um nicho; e liricamente, porque pelo menos uma parte do público sabe distinguir uma letra boa de uma ruim.


Como funciona o processo de composição? Cada um vem com uma ideia, ou elas surgem nos ensaios e jams?


Pepe Bueno - Cada música tem sua história. Todos no Tomada somos compositores e isso é legal, porque você acaba percebendo características distintas em cada canção. “Luzes” nasceu de uma jam, outras como “Catarina” eu já tinha a base de violão feita e o Ricardo e o Fábio Cascadura colocaram letra e melodia em uma noite, tendo como inspiração o furacão Katrina. Ou seja, cada música nasce de uma história, e isso é ótimo.


O último disco de vocês tem algumas canções onde percebe-se, claramente, a influência de Guilherme Arantes. Isso me surpreendeu bastante. Que outros artistas brasileiros influenciam a banda?


Pepe Bueno - Eu fui no show de Guilherme Arantes esse ano e consegui encontrá-lo no fim e entregar o disco pra ele. Falei pessoalmente que foi uma referência importante no disco, pois é um compositor e letrista de primeira. Fiquei muito feliz por isso. Além disso, fiquei sabendo que seu filho Pedro é um ótimo produtor. Quem sabe pra frente ele não produz um disco do Tomada? (risos)


Ricardo Alpendre - O cara é um dos grandes artistas nacionais. No tempo do nosso segundo disco eu insistia com o pessoal na ideia de tocarmos “Descer a Serra Sorocabana”, mas nunca levamos a ideia adiante. É uma grande influência mesmo! O Robertão, por exemplo, é também uma grande influência. Pra mim, todo o trabalho dele até o início dos anos 80 é maravilhoso. Tim Maia, o pessoal do rock e da MPB. Agora tô lendo o livro do Paulo Cesar de Araújo sobre a música “cafona” e a ditadura militar, e essas coisas passam a ser interessantes.


Como tem sido a recepção, tanto dos fãs quanto da crítica, para o disco? 


Lennon Fernandes - Ótima! Estamos felizes com o disco.


Ricardo Alpendre - Fico particularmente feliz com o reconhecimento recebido pelas letras. Quanto à parte musical, o fato de que continuamos sendo associados frequentemente a apenas um estilo mostra que nossa evolução artística e estética está apenas iniciando, o que de certa forma é estimulante.  


Falando em influências, o que vocês andam ouvindo atualmente e tem influenciado o som da banda?


Lennon Fernandes - Além de todas as bandas clássicas, gostamos de nos ligar com as bandas que estão no cenário atual. Eu gosto de muitas, e que me influenciam diretamente, como, por exemplo, Mopho, Nevilton, Transmissor, Go Tango, Druques, Atalhos, etc.


Ricardo Alpendre - De uns anos pra cá, o Cascadura tem sido pra mim uma enorme influência. Assim como as bandas que a gente tem por perto, como o Baranga, Carro Bomba e Pedra (que se separou), por exemplo. Gosto muito do rockabilly de bandas legítimas, como o Crazy Legs.



Curti muito a arte do último disco de vocês, O Inevitável. Cada vez mais as bandas têm que oferecer algo a mais que a música para os ouvintes, ou isso é papo furado?


Ricardo Alpendre - Tem que oferecer, sim. Mesmo que a arte seja minimalista, como aquelas de hardcore, por exemplo, hoje isso não é mais pela falta de estrutura, e sim por opção estética. No nosso caso, com o Tiago sempre associado ao Tomada desde o início, fica mais natural, e temos confiança de que graficamente o trabalho será sempre de alto nível.


O rock brasileiro tem uma identidade definida, ou isso não existe?


Lennon Fernandes - Pra mim, a identidade do rock brasileiro é o idioma. Raul Seixas, Rita Lee, por exemplo, devem muito ao português (risos).


Ricardo Alpendre - Houve um tempo em que fazer rock no Brasil, por si só, já era uma atitude de rebeldia. Era o tempo dos artistas “malditos”. Pra mim, esse contexto está voltando. O povo tem aquela terrível tendência de se comportar como gado, consumindo, repetindo frases, se comportando como a TV manda. Cabe aos artistas independentes (e ao rock, em particular) ficar sempre sinalizando que existe a chance de se desgarrar do rebanho, e que vale a pena.


Dá pra viver de rock no Brasil?


Ricardo Alpendre - Fico com a frase do Paulão, do Baranga: “Dá pra morrer de rock no Brasil”.


Faltam espaços para tocar, ou do jeito que está dá pra levar?


Pepe Bueno - Espaços existem, mas precisamos mudar a mentalidade de produtores e casas de shows, valorizarmos mais os artistas nacionais, valorizarmos economicamente as bandas, pois assim teremos mais qualidade em termos técnicos. As casas precisam entender que em 2011 é mais fácil ter equipamentos bons e técnicos qualificados. Precisamos focar nisso. Uma casa boa, por exemplo, é a Vila Dionísio (Rio Preto e Ribeirão Preto). Tem ótimos técnicos de som, ótimo equipamento e está sempre lotada - ou seja, podemos exigir qualidade e isso pode se tornar padrão no Brasil, acredito nisso.

Como vocês definiriam o cenário rocker brasileiro hoje? Há espaço para bandas autorais como o Tomada, que não estão presentes na programação das grandes rádios?


Pepe Bueno - “Quero ter” é uma música forte, toca na programação da Ipanema FM de Porto Alegre, ela é um rockão e rola lá. Tem mais alguns sons rolando em programas específicos espalhados pelo Brasil, mas nada de uma forma maçante para virar um hit. Ou seja, precisamos de gente com coragem de apostar em música autoral. E te falo mais: existem muitas pessoas que têm essa coragem, mas são impedidas por estarem presas a um formato burocrático ou por chefes cabeças pequenas, que ainda trabalham com jabá. Tivemos um problema com a rede NGT esse ano, que enviou um e-mail para o Tomada falando que temos um clipe maravilhoso, que foi aprovado pela emissora, só que precisaríamos fazer o pagamento mensal de 500 reais para rodar o clipe na emissora.


Percebo que a maioria das bandas brasileiras sobrevive tocando em nichos regionais, saindo pouco de seu estado de origem. Isso acontece com vocês também?


Ricardo Alpendre - Sim, saímos pouco. Esse é um problema a ser solucionado em um país enorme como o Brasil. O mercado independente de rock ainda não conseguiu se estruturar para que artistas viajem para outros estados e regiões e o esquema todo resulte numa turnê lucrativa.


Como todos sabem, o mercado fonográfico mudou radicalmente. Vender discos não é mais suficiente. Sendo assim, como o Tomada lida com essa situação? 


Lennon Fernandes - Resolver esse problema não é fácil ainda, não é tão claro ainda. O principal produto de uma banda, além de sua música e do seu show, é o seu disco. Mas lidamos da forma mais contemporânea possível (risos). Quem compra um disco é porque curte o encarte e toda aquele clima e etc. Mas quem quiser copiar ou fazer download, maravilha! (risos)


Ricardo Alpendre - Soltar a música de forma avulsa na internet também é interessante. A gente tem feito isso nos períodos entre discos. São os chamados “singles virtuais”. Eles mantêm a banda em uma certa evidência, ao menos.


Se vocês pudessem escolher qualquer banda, de qualquer época, para dividir o palco com o Tomada, qual seria?


Lennon Fernandes - The Beatles.


Ricardo Alpendre - Os Stones também não fariam feio (risos).


É impressão minha ou há um resgate da sonoridade setentista, não só no Tomada, mas em diversas outras bandas brasileiras, como Baranga, Carro Bomba e no infelizmente extinto Pedra? Não existem bandas atuais que chamem a atenção de vocês?


Pepe Bueno - Existem ótimas bandas nacionais, além dessas que citou. Gosto muito do Mopho, dos Lenzy Brothers, Cascadura, Cracker Blues, Cachorro Grande e do projeto Agridoce de Martin e Pitty. Vê que todas essas bandas que citei são de estados diferentes. O Brasil é rico de som pra caramba, a cena independente só precisa ser inteiramente profissional.


Ricardo Alpendre - Não só existem atualmente, como também nos proibidíssimos anos 80 e 90. Eu, particularmente, ouço todos os Hüsker Dü e New Model Army da vida, além do pop oitentista, em que havia ótimas composições. Curto muito uma banda garageira dos anos 90 chamada Flat Duo Jets. Alice in Chains eu considero a melhor do movimento que ela representa. Atualmente estou meio vidrado no trabalho da Janelle Monáe e em tudo o que o Jack White tem feito.


Além do Tomada, que outras bandas brasileiras, na opinião de vocês, andam fazendo um som interessante?


Lennon Fernandes - No Brasil existe muita banda boa. Mopho, Nevilton, Transmissor, Go Tango, Druques, Atalhos, The Salad Maker, Sabonetes, Los Porongas, Crocodilla, Outro Sim, Volver, Crazy Legs, Macaco Bong ... são tantas bandas!


Fazendo uma brincadeira agora: quais são os cinco discos preferidos de cada integrante da banda?


Pepe Bueno - Exile On Main Street (Rolling Stones), Fruto Proibido (Rita Lee & Tutti Fruit), Sitting on the Dock of the Bay (Otis Redding), White Album (The Beatles) e Racional (Tim Maia).


Lennon Fernandes - Revolver (The Beatles), Lights Out (UFO), Pet Sounds (The Beach Boys), Nevermind (Nirvana) e Battle for the Sun (Placebo).


Ricardo Alpendre - No Sleep ‘Til Hammersmith (Motörhead), O Inimitável Roberto Carlos (Roberto Carlos), A Hard Day’s Night (The Beatles), The Wildest (Louis Prima) e Stray Cats (Stray Cats). O legal é que seria uma lista diferente se feita alguns minutos depois.


Obrigado pela entrevista. Na minha opinião, o Tomada é uma das melhores bandas que temos aqui no Brasil, e espero que vocês continuem na estrada por muitos anos, levando grande sons para as nossas vidas. Valeu!


Ricardo Alpendre – Obrigado, Cadão! É muito importante as pessoas com senso crítico e iniciativa, como você e os bons jornalistas em geral, pra aguçar a vontade do público de ir atrás de música que não está na mídia. Abraços aos leitores da Collector´s Room.

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