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Rising (1976): o disco em que o Rainbow transformou o heavy metal em fantasia épica


Poucos discos conseguiram capturar de maneira tão definitiva a essência do heavy metal épico quanto Rising (1976), segundo álbum do Rainbow. Em apenas seis faixas e pouco mais de meia hora de duração, a banda liderada por Ritchie Blackmore entregou uma obra que transcendeu o hard rock setentista e ajudou a moldar o vocabulário sonoro que seria adotado por inúmeras bandas de metal nas décadas seguintes.

A saída de Blackmore do Deep Purple aconteceu em um momento em que o guitarrista buscava algo diferente da direção mais funkeada e bluesy que sua antiga banda vinha adotando. O Rainbow nasceu justamente dessa necessidade de explorar um som mais pesado, teatral, fantasioso e grandioso. Se o debut de 1975 ainda carregava certo espírito de transição, Rising representa a verdadeira consolidação da identidade do grupo. A formação com Ronnie James Dio nos vocais, Cozy Powell na bateria, Jimmy Bain no baixo e Tony Carey nos teclados encontrou aqui uma química praticamente perfeita.

Desde os primeiros segundos de “Tarot Woman”, fica evidente que o álbum pretende levar o ouvinte para outro universo. Os sintetizadores atmosféricos de Carey funcionam como um portal para um mundo de castelos, magia e batalhas imaginárias, enquanto a guitarra de Blackmore surge afiada e monumental. É impressionante perceber como Rising consegue soar pesado e sofisticado ao mesmo tempo. Há uma elegância quase clássica em seus arranjos, algo que mais tarde se tornaria fundamental para o desenvolvimento do power metal e do metal neoclássico.

“Run with the Wolf” adiciona um clima sombrio e ameaçador, sustentado pela bateria gigantesca de Cozy Powell, enquanto “Starstruck” entrega um hard rock mais direto e acessível sem perder personalidade. Já “Do You Close Your Eyes” aproxima o disco do rock setentista mais descontraído, funcionando como um breve respiro antes do monumental encerramento.


“Stargazer” não é apenas a música definitiva do Rainbow: é uma das maiores composições já criadas dentro do hard rock e do heavy metal. A introdução tribal de Powell, os riffs hipnóticos de Blackmore e a interpretação absurda de Dio criam uma atmosfera quase cinematográfica. A participação da Orquestra Filarmônica de Munique amplia ainda mais a sensação épica da faixa, enquanto a letra apresenta uma narrativa fantástica sobre um mago obcecado em alcançar os céus. Tudo em “Stargazer” parece gigantesco: o peso, a melodia, o senso dramático e principalmente a emoção. Poucas músicas conseguem transmitir uma sensação tão intensa de grandiosidade.

Como se isso não bastasse, o disco ainda encerra com “A Light in the Black”, uma explosão de virtuosismo e energia que funciona quase como uma resposta mais agressiva à atmosfera mística de “Stargazer”. As passagens instrumentais são impressionantes até hoje, especialmente pela interação entre guitarra e teclados. Aqui já é possível enxergar claramente elementos que influenciariam bandas como Iron Maiden, Helloween e praticamente toda a escola europeia do metal melódico.

Outro aspecto fascinante de Rising é perceber como Ronnie James Dio já demonstrava toda a força que o transformaria em uma das vozes mais importantes da história do metal. Sua interpretação é teatral sem soar exagerada, poderosa sem perder melodia. Dio canta como alguém que realmente acredita nas histórias que está narrando, e isso dá ao álbum uma autenticidade rara.

Produzido por Martin Birch, o disco também impressiona pela sonoridade. Mesmo cinquenta anos após o lançamento, continua pesado, orgânico e incrivelmente vivo. Não há excessos nem desperdícios. Cada nota parece estar exatamente onde deveria.

O mais curioso é que Rising talvez nunca tenha alcançado comercialmente o tamanho de outros clássicos do período. Ainda assim, sua influência acabou sendo muito maior do que muitos discos que venderam infinitamente mais. Esse é o tipo de álbum que músicos estudam, fãs reverenciam e novas gerações continuam descobrindo com fascínio genuíno.

Há discos importantes. Há discos clássicos. E há discos como Rising: obras que ajudaram a definir toda uma estética musical. Um álbum pequeno em duração, mas gigantesco em impacto.


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