Cryptic Writings (1997): o álbum do Megadeth que dividiu os fãs e envelheceu melhor que muitos clássicos
A primeira impressão é de que o álbum aposta mais nas melodias e nos refrões marcantes do que na agressividade thrash que consagrou a banda nos anos 1980. Isso fica evidente logo em “Trust”, um dos maiores sucessos da carreira do Megadeth. Construída sobre um riff simples e eficiente, a faixa combina peso, melodia e um refrão memorável, demonstrando que a banda sabia como criar músicas acessíveis sem abrir mão da personalidade.
Mas seria um erro enxergar Cryptic Writings apenas como um trabalho comercial. Faixas como “The Disintegrators”, “Vortex”, “FFF” e a excelente “She-Wolf” preservam a velocidade, os riffs cortantes e a energia que os fãs esperavam. Em especial, “She-Wolf” tornou-se uma das músicas mais celebradas do período, impulsionada pelo riff marcante de Mustaine e pelo trabalho brilhante de Marty Friedman.
Aliás, a atuação de Friedman é um dos grandes destaques do disco. Seus solos continuam carregados de identidade, criatividade e emoção, acrescentando personalidade mesmo às faixas mais radiofônicas. A seção rítmica formada por David Ellefson e Nick Menza também mantém o nível elevado, oferecendo uma base sólida para as composições.
Nem tudo funciona com a mesma intensidade. Músicas como “I'll Get Even” e “Have Cool, Will Travel” mostram a banda explorando territórios menos agressivos e, embora possuam qualidades, não alcançam o mesmo impacto dos melhores momentos do álbum. Ainda assim, contribuem para reforçar a proposta de diversidade que orienta todo o trabalho.
O grande mérito de Cryptic Writings está justamente em seu equilíbrio. O Megadeth não abandonou suas raízes, mas procurou expandir seus horizontes sem perder completamente a identidade. Talvez por isso o álbum tenha envelhecido tão bem. Livre das expectativas e polêmicas que cercaram seu lançamento, hoje é possível enxergá-lo como uma coleção consistente de músicas fortes, bem produzidas e interpretadas por uma formação que vivia seus últimos momentos juntos.
Embora dificilmente apareça no topo das listas que incluem clássicos como Rust in Peace (1990) ou Peace Sells... But Who's Buying? (1986), Cryptic Writings merece reconhecimento como um dos trabalhos mais sólidos da fase noventista do Megadeth. Um disco que soube unir peso, técnica e acessibilidade em proporções raramente alcançadas dentro do heavy metal.

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