Discos Fundamentais: Jorge Ben - A Tábua de Esmeralda (1974)


Por Ricardo Seelig
Colecionador
Collector´s Room

Um exercício mental que algumas pessoas gostam de fazer é ficar especulando o que certos artistas ou bandas fariam, ou teriam feito, caso não tivessem morrido, não tivessem se dissolvido ou simplesmente não tivessem encerrado a carreira. Um dos grupos que mais costumam frequentar tais cabeças pensantes são os onipresentes Beatles.

Refinemos nossos delírios e imaginemos que o quarteto de Liverpool, em vez de se separar, tivesse optado por fazer uma tour pelo Brasil e ficasse o dia todo ouvindo samba-rock, samba soul, um tiquinho de tropicália e algo da jovem guarda. Penso que, se isso acontecesse realmente, o maior grupo da história faria um disco do quilate deste
A Tábua de Esmeralda. Vou um pouco além na minha heresia e afirmo que o hipotético trabalho dos ingleses ainda soaria inferior, porque lhes faltaria um pouco do swing e da malandragem do carioca Jorge Ben.

Tudo isso para dizer que este álbum tem uma levada pop absolutamente fantástica. É claro que a malandragem do samba é forte e que os elementos de funk e soul, dos quais Jorge era devoto, também estão presentes. Mas falo principalmente de uma idéia geral de pop, ou seja, de algo meio sem compromisso, meramente “cantarolável”, de melodias pegajosas e de letras ... bem, letras um tanto simplórias. Mas, vamos lá! 

As letras das músicas de Jorge Ben - já nos lembrava o produtor Armando Pitigliani, nas notas de contracapa de Sacundin Ben Samba, de 1964 – vão muito além do texto e fazem parte mesmo da complexidade rítmica de sua música. Ainda assim, mesmo se considerarmos o aspecto poético-literário, não há como falar que sejam indignas de respeito as letras de “Eu Vou Torcer”, “Zumbi” e “O Namorado da Viúva”. As duas primeiras pelo seu conteúdo histórico-político-social; e a última pela graça e humor, que caem como uma luva numa canção que nada mais é do que um sambão irresistível. E já que é para expressar uma quase adoração por este disco, por que não dizer que a letra de “Minha Teimosia, Uma Arma Pra Te Conquistar” tem lá um certo lirismo romântico que também não chega a ser desprezível?

Trata-se de um álbum que é o resultado esmerado de uma linha que Jorge adotara já desde
O Bidú: Silêncio no Brooklin (1967) e que vinha sendo lapidada a cada disco: “é o samba-rock, meu irmão!”. É mais: é samba soul, samba-pop, sampa psicodélico, "samba-beatles" (?!?!). E, como ufanismo pouco é bobagem, é do Brasil um dos melhores discos dos anos setenta. Salve simpatia!


Faixas:
A1. Os Alquimistas Estão Chegando os Alquimistas - 3:16
A2. O Homem da Gravata Florida - 3:06
A3. Errare Humanum Est - 4:55
A4. Menina Mulher da Pele Preta - 2:56
A5. Eu Vou Torcer - 3:13
A6. Magnólia - 3:13

B1. Minha Teimosia, uma Arma Prá Te Conquistar - 2:43
B2. Zumbi - 3:29
B3. Brother - 2:54
B4. O Namorado da Viúva - 2:02
B5. Hermes Trismegisto e Sua Celeste Tábua de Esmeralda - 5:28
B6. Cinco Minutos (5 Minutos) - 2:57

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