Review: Sepultura – Against (1998)


A implosão repentina do Sepultura em 1996 foi um choque para a cena do metal, tanto brasileira como mundial. O quarteto mineira era na época uma das mais populares e inovadoras bandas do mundo, havia lançado um disco incrível e pra lá de original – Roots, que saiu em 20 de fevereiro daquele ano – e tinha potencial para alcançar um público cada vez maior. Porém, uma briga séria entre o vocalista e guitarrista Max Cavalera e os demais integrantes deu fim a tudo isso.

Após disputas judiciais e acusações mútuas através da imprensa, o grupo testou diversos vocalistas (entre eles Chuck Billy, do Testament) e escolheu Derrick Green, natural de Cleveland e com passagens por diversas bandas do underground norte-americano, como o seu novo vocalista.

A estreia de Derrick aconteceu em Against, sétimo disco do Sepultura, lançado em 6 de outubro de 1998. O álbum foi produzido pela banda e por Howard Benson (Motörhead, Body Count, T.S.O.L.) e trouxe o quarteto apostando em uma nova sonoridade. Menos extremo e experimental que Roots, Against deu início à crescente presença de elementos hardcore no som do grupo, algo que se intensificaria nos discos seguintes. E, como todo primeiro fruto de uma separação tão traumática quanto a que envolveu Max, Andreas, Paulo e Igor, dividiu os fãs.

A questão é que, passados 23 anos de seu lançamento, Against merece uma reavaliação. Suas 15 músicas envelheceram muito bem, afastando-se do contexto da época, onde a comparação com o antigo Sepultura era inevitável. Hoje, com todo o histórico de Derrick com a banda, percebe-se que esse primeiro passo foi muito bem dado. As composições são inegavelmente fortes e seguem a evolução natural do que o Sepultura vinha fazendo até então. Enquanto Max Cavalera pesou a mão no lado mais experimental de Roots na estreia de sua nova banda, o Soulfly (o autointitulado primeiro disco chegou às lojas em 21 de abril de 1998, quase seis meses antes de Against), o Sepultura conseguiu equilibrar melhor o metal com elementos brasileiros que a banda vinha desenvolvendo, resultando em um disco mais redondo.

Há destaques fortes em Against como a excelente abertura com a faixa que batiza o disco, “Choke” (ótimo primeiro single, que foi encartado em uma edição da revista Trip junto com uma entrevista exclusiva com a banda), as variações de “Rumors”, a grudenta “Boycott”, a pesadíssima “Common Bonds” e “Hatred Aside”, um thrash hardcore com participação de Jason Newsted, então baixista do Metallica, dividindo os vocais com Derrick. Outras participações foram a do chapa João Gordo nos vocais de “Reza” e do grupo de percussão japonês Kodo em “Kamaitachi”. Merece menção também a versão personalíssima para “Freedom of Expression” (aqui abreviada para “F.O.E.”), da banda norte-americana J.B. Pickers e extremamente conhecida no Brasil por ser o tema de abertura do programa Globo Repórter, da Rede Globo, durante anos.

Against é um disco muito bom, cuja repercussão e aceitação foi dificultada pelo contexto que envolvia o Sepultura na época e o sempre presente haterismo em relação a Derrick Green. Musicalmente, trata-se de um álbum criativo e inovador como tudo que o Sepultura gravou em sua carreira, e o distanciamento do tempo intensifica essa percepção.

Se você sempre foi do contra em relação a Against, já passou da hora de rever essa opinião.


Comentários

  1. Against nunca me enganou: sempre o achei um discaço, uma evolução natural do que a banda vinha apresentando desde Chaos AD. Nos trabalhos posteriores é que, me parece, a banda levou um tempo até amadurecer uma nova identidade musical, que começou a florescer em Kairos e se consolidou nos últimos (e espetaculares!) trabalhos da banda.

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  2. Grande resenha, Ricardo! Parabéns! Apenas uma correção, se me permite: Against tem 23 anos. 25 tem o Roots... Abraço!!!

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  3. Against é um dos melhores da fase Derrick. Realmente o preconceito matou esse álbum na época. Eu o ouço muito até hoje. Tem umas passagens HC mesmo, mas tem uns lances até meio Death Metal no meio. Sensacional!

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  4. Melhor disco lancado pela Banda pos max e feito com o Derrick.

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  5. Against foi meu primeiro contato com Sepultura, portanto na época não tinha como comparar com a produção da era Max. Lembro que inicialmente não gostei, mas foi muito bom ir descobrindo esse disco música por música, até que virei fã, do album e da banda. Realmente concordo com a resenha, é um ótimo disco, embaçado pelo ressentimento puritano do metaleiro ortodoxo. Esse disco pode e deve ser um bom exercício para mudar essa concepção. Aproveitem.
    PS: Faltou mencionar no artigo a arte gráfica do disco, que tb é sensacional.

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  6. Não há o que se falar sobre essa aberração. Péssimo do começo ao fim. Ignorado e esquecido merecidamente. Passe longe.

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  7. Não posso dizer que parei de oyvir Sepultura por causa do Derrick Green. Seria injusto. Parei de ouvir justamente no Roots, ainda com Max. O caminho tomado pela banda a partir daí deixou de me interessar. Parei no Chaos A.D.

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    1. Dante, Karios, Mediator, Quadra e Machine Messiah não tem o estilo de New metal. Talvez vc curta esses discos.

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