Review: Iron Maiden – Senjutsu (2021)


O Iron Maiden conseguiu fazer de Senjutsu, seu décimo-sétimo álbum de estúdio, um acontecimento. Uma bem elaborada estratégia online colocou as expectativas nas alturas, que foi atendida com a divulgação dos dois primeiros singles, “The Writing on the Wall” e “Stratego”. O lançamento, no último dia 3 de setembro, causou a comoção de sempre: reações apaixonadas dos fãs e críticas sendo derramadas na mesma proporção.

O fato é que o Iron Maiden conseguiu fazer de Senjutsu um álbum único em sua carreira. Poucos discos da banda soam tão únicos, tão diferentes, tão singulares. Nesse aspecto, o álbum é um ponto fora da curva da discografia dos ingleses assim como The X Factor (1995) e A Matter of Life and Death (2006) também foram em seu próprio tempo. Não há nada igual a esses três discos na carreira do Iron Maiden, e isso por si só já diz muito da qualidade de Senjutsu e do foco puramente musical do trabalho. Sem abrir concessões, a banda gravou o disco que queria gravar.

Produzido novamente por Kevin Shirley com co-produção de Steve Harris, Senjutsu é um álbum duplo com dez músicas inéditas. O sucessor de The Book of Souls (2015) foi gravado mais uma vez no Guillaume Tell Studios, em Paris, e pôs fim ao maior intervalo entre um disco e outro na carreira da banda. A temática japonesa apresentada na capa e no título (que significa Táticas e Estratégias) é abordada em algumas músicas e explorada a fundo no encarte e em toda a concepção gráfica, com o álbum tendo inclusive capas em ambos os lados, uma alusão aos mangás (quadrinhos japoneses), cujo sentido de leitura é de trás para frente.

Ainda que contenha personalidade e característica próprias, Senjutsu soa como o passo natural do Iron Maiden em sua encarnação sexteto, que gradativamente foi inserindo cada vez mais elementos progressivos em sua música (elementos esses que sempre fizeram parte da sonoridade da banda vide canções como “Phantom of the Opera”, “To Tame a Land”, “The Rime of the Ancient Mariner”, “Alexander the Great” e tantas outras, isso sem falar do álbum Seventh Son of a Seventh Son, lançado em 1988 e que explorou as influências prog do então quinteto de forma mais profunda). Em Senjutsu, essa característica vem acompanhada por uma aura sombria e por uma variedade maior de ingredientes, com a banda experimentando sonoridades até então inéditas.

O álbum abre com a faixa-título, que é introduzida por batidas marciais inspiradas nos taikôs, os tradicionais tambores japoneses. Com andamento cadenciado, conta com uma letra e um arranjo que preparam o ouvinte para uma grande batalha que está prestes a começar. Uma canção densa e sombria, que dá início ao disco de forma grandiosa.

“Stratego” é uma das músicas mais empolgantes lançadas pelo Iron Maiden desde o retorno de Bruce Dickinson e Adrian Smith. Com o típico andamento cavalgado construído pela parceria espetacular entre Steve Harris e Nicko McBrain, tem melodias tipicamente Maiden e uma grande performance vocal de Dickinson, com direito a uma ponte absolutamente arrepiante antes do refrão. O clima bélico segue aqui, com a letra expressando o sentimento dos soldados em uma batalha.

O primeiro single, “The Writing on the Wall”, ganhou um vídeo sensacional e traz o Iron Maiden explorando influências southern rock, um terreno até então inédito na trajetória da banda. A introdução acústica e o andamento mais cadenciado enfatizam todas as nuances da música, que é ótima, conta com um excelente refrão e ótimos solos, principalmente o central, feito por Adrian Smith. Uma das melhores do disco e cuja letra, escrita por Bruce Dickinson, fala sobre a decadência do mundo atual em comparação ao apogeu do passado.

As surpresas continuam com “Lost in a Lost World”, que começa com vocais atmosféricos em uma bela introdução que remete ao lado mais psicodélico do progressivo clássico. A canção cai então em um andamento quebrado bem Maiden, com destaque para a linha vocal cativante de Bruce. “Days of Future Past” vem a seguir e é a mais curta do disco, com pouco mais de quatro minutos. A letra traz uma abordagem religiosa e parece falar sobre Jesus Cristo e sua relação com nós, humanos, que vagamos perdidos pelo mundo à espera do julgamento final.

O CD 1 se encerra com “The Time Machine”, um épico de mais de sete minutos onde o destaque imediato são as linhas vocais quebradas de Bruce, com o vocalista narrando as aventuras de um viajante do tempo. A parte central traz melodias de guitarra que exploram influências orientais e remetem à canção “Dance of Death”, do álbum homônimo lançado em 2003. Uma quebra de andamento a partir dos quatro minutos inverte o jogo e introduz longos solos dos três guitarristas. Uma música excelente e um dos ápices do disco.

“Darkest Hour” abre o segundo CD com uma dramaticidade enorme. A letra, que é emocionante, fala sobre Winston Churchill e o legado do lendário primeiro-ministro inglês, que foi um estrategista brilhante e um dos principais responsáveis pela vitória das Forças Aliadas na Segunda Guerra Mundial. Musicalmente trata-se de uma balada densa, extremamente climática e com solos belíssimos, que introduz os três épicos de mais de dez minutos que vêm na sequência.

A parte final de Senjutsu é dedicada a três canções compostas exclusivamente por Steve Harris, baixista, líder e alma do Iron Maiden. “Death of the Celts” é majestosa e traz solos inspirados na música celta que exploram a mesma tradição do Thin Lizzy, uma das maiores influências do Iron Maiden. “The Parchment” é a mais longa do disco e conta com um ar misterioso e um grandioso clima oriental, além de um andamento crescente claramente influenciado pela música erudita. Essa faixa explora de maneira extensiva o uso das três guitarras, com extensos e inspirados solos de Adrian Smith, Dave Murray e Janick Gers.

“Hell on Earth” encerra o álbum de forma sublime. Uma composição com as doses generosas de melodia que sempre marcaram o Iron Maiden, aqui devidamente turbinadas por um ar épico imponente. As guitarras brilham de forma intensa, o baixo de Steve e a bateria de Nicko soam como um só instrumento enquanto Bruce personifica uma espécie de maestro de uma grande sinfonia heavy metal. Um final absolutamente emocionante para um disco incrível!

É interessante notar que as três músicas que fecham o álbum, todas compostas por Steve Harris e todas superando os dez minutos de duração, possuem letras que falam de temas religiosos e que, em certos aspectos, parecem preces proferidas por Bruce Dickinson, o que dá um ar que beira o sagrado para o trio final do disco.

Senjutsu é mais um álbum excelente de uma banda que conta com inúmeros trabalhos excelentes em sua carreira. É esse nível de qualidade perene que faz do Iron Maiden uma banda sem igual, uma entidade única não só no universo do metal mas também no mundo da música.

Um disco super maduro e com uma sonoridade adulta, que contrasta com a imaturidade e a infantilidade de uma parcela dos fãs, que não conseguem absorver composições mais elaboradas e fora da caixa e reagem xingando muito nas redes sociais pelo fato do Iron Maiden não fazer um álbum como eles pensam que deveria ser feito.

Up the Irons, mais do que nunca!


Comentários

  1. O destaque é o Bruce Dickinson pela interpretação que ele faz nas músicas. Ele canta, sente e interpreta a letra, coisa absurda! O nível de qualidade da música que o Iron entrega depois de tanto tempo é surreal.

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  2. Reviews sempre cirúrgicas, meu caro! Concordo plenamente, Senjutsu é uma obra-prima. Em muitos momentos me peguei pensando que, mesmo quando fazem algo novo e bem diferente, o Iron Maiden possui aquele dna único, que me traz a mesma sensação de energia e empolgação que sempre trouxeram em suas obras anteriores. Em vários momentos ouvindo Senjutsu, eu tive a mesma sensação de quando ouvi o Brave New World (o primeiro disco do Maiden que conheci, então com 12 anos). Revigorante! UP THE IRONS!!!!!!!!🤘🏻😀🤘🏻

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  3. Perfeita sua resenha. Encerrou com chave de ouro. Up the Irons!

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  4. Bom, eu achei excelente Senjutsu. Dos últimos trabalhos me arrisco dizer que foi um dos que me deu mais satisfação ao escutar.

    Ricardo, confesso que aguardava ansiosamente sua resenha, ponderada e madura, pois o que eu já li e ouvi de bobagens, não está escrito! Sabia também que só ia rolar na hora que o seu CD chegasse até suas mãos!! rsrsr
    Agradeço por compartilhá-la.

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  5. Resenha técnica e com muita prioridade. Muitos elementos novos nesse novo trabalho do Iron. Não entende quem critica, dizendo que é a mesma coisa.

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  6. Disco épico. Já nasceu clássico. Sem mais

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  7. O Iron Maiden é uma banda importante na vida de todos nós. Mas falar sobre ela sempre gera opiniões acaloradas. Por um lado, se elogia, se é daquele grupo de "torcedores" xiitas da banda. Se se critica, é porque o cara é daqueles fãs chatos que querem que a banda grave eternamente um Powerslave. Me faz lembrar da música de encerramento do Brave New World, a linha tênue entre o amor e o ódio kkkkk. Quanto a Senjutsu, gostei; acho espetacular a proposta ousada de construir um álbum complexo a esta altura do campeonato. Temos uma banda inquieta, criativa e que ainda tem muito gás... Todos estão impecáveis, até mesmo o Gers, com aparições legais, e o produtor, que geralmente eu critico, pelo som cristalino (ainda que eu o ache, talvez, omisso ao podar os excessos nas composições solo do patrão).
    No entanto, me gera incômodo as introduções longas. Ouço músicas ótimas, mas que poderiam ser ainda melhores se o clima não demorasse para esquentar (não sendo algo exclusivo de Senjutsu). Outro ponto são as guitarras com solos acompanhando os vocais.
    No geral, acho que a banda não poda esses excessos por já terem certa idade e, por este motivo, evitarem qualquer rusga que possa surgir entre eles em discussões sobre tirar isso, modificar aquilo... Se preza a tranquilidade no estúdio. E a nós, fica o prazer de acompanhar mais um álbum excelente, pra variar, da maior de todas...

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  8. Acho a fase “progressiva radical” do Iron Maiden, que para mim começa de verdade no DANCE OF DEATH, de regular para boa e SENJUTSU é uma sequência natural dela. O IRON MAIDEN, diga-se STEVE HARRIS, parece se encontrar satisfeito neste seara. Quando vejo que o produtor de qualquer novo disco da banda será KEVIN SHIRLEY percebo que virá mais do mesmo e é isto que temos neste novo lançamento. Com este cara comandando a produção não sairá nada de diferente desta cartola aí, pois ele parece não ter coragem de falar verdades inconvenientes para o baixista, como por exemplo que STEVE e o IRON MAIDEN têm se repetido nos últimos discos, o que é impossível não perceber! O que eu não entendo são pessoas falando que o IRON MAIDEN se acomodou para agradar os fãs “velhos e barrigudos” das antigas e que tudo na banda se resume aos cifrões…Acho esse pensamento totalmente sem fundamento, afinal não é o som que consta em SENJUTSU e na fase “progressiva radical” que os fãs”velhos e barrigudos” querem, pelo contrário! O IRON MAIDEN está fazendo esse som porque quer e “contra” a vontade destes mesmos fãs e estaria ganhando bem mais dinheiro se sua fase atual se assemelhasse a praticada entre os discos THE NUMBER OF THE BEAST e SEVENTH SON OF A SEVENTH SON!! E mesmo eu tendo minhas críticas à fase atual da banda, respeito sua coragem de fazer o que se quer, independente da opinião dos fãs saudosos da fase clássica, pois para mim é óbvio ululante que se o IRON MAIDEN quisesse agradar aos fãs nostálgicos e ganhar dinheiro a rodo, eu diria centenas de milhões a mais do que está ganhando, estaria fazendo outro tipo de som. Outra coisa que me incomoda com relação à banda é o binarismo infantil que a cerca. De um lado aqueles que acham que o IRON MAIDEN deveria se aposentar e do outro os fãs que parecem pensar que seus últimos 3 ou 4 lançamentos são clássicos absolutos! Como não embarco neste debate raso, dou risada vendo tudo de camarote!!! Se STEVE HARRIS está feliz com a situação atual, que continue sendo, mas é uma pena que eu e o azar é todo meu, não sinta a mesma felicidade dele quando ouço os últimos lançamentos da banda por achá-los demasiados medianos...

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  9. Que disco sensacional, e otima análise!

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  10. Curti demais o novo disco.
    Adorei os solos e as guitarras acompanhando o Bruce cantar. Gostei da capa tbm e acho um exagero tamanha exigência para c os músicos. Eles não precisam provar nada, mas sim fazerem a música que lhes der vontade.
    Achei curiosa a lista de agradecimentos de Steve c menção a muitos ex integrantes e ex equipe, bem como citação a alguns médicos.

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  11. O Iron mantém um padrão e qualidade tão alto, que é praticamente impossível gravarem um mau álbum, de modo que o centro dessa discussão é entre quem fica com prog iron ou heavy metal iron... eu acho até parecido com a guinada pós D'ianno, em que a crueza da banda foi envolvida por um som muito mais melódico, sendo que ha alguns anos, as canções ficaram apenas maiores e maiores, mas inda extremamente melódicas. Imagino que a mudança de formato vá ao encontro de onde estáo musicalmente hoje os integrantes, que, jã não tendo mais nada a provar, desfrutam o conforto de gravarem exatamente o que bem entendem. Grande álbum, apesar de eu ser partidário , estranhamente, da fase D'ianno, seguida pela sequencia do number ao seventh, respeitando o grande interlúdio que foi o BNW.

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  12. O último lançamento que me fez empolgar tanto, ouvir o álbum quase uma centenas de vezes e, ao final, concluir que o álbum melhora a cada audição foi o Brave new world. Senjutsu é um vício delicioso, é o Iron inspirado e matando a pau de uma forma única, o sprint final do maior nome do heavy metal de todos os tempos.

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  13. Não gostei de Senjutsu. Mesma fórmula maideniana que amamos, técnica perfeita dos músicos, arte e temática sensacionais, bons conceitos, mas ao juntar tudo, soa cansado. Por isso concordo com muitas das críticas que estão sendo feitas: o tamanho excessivo das músicas, a cadência arrastada e desconexa, uma falta de liga entre as composições, a produção preguiçosa de Kevin Shirley, etc, etc. Tudo isso é discutível, portanto não vou argumentar esses pontos, mas apenas constatar algo que (não) senti: o álbum não me emocionou. E sem emoção, não me faz querer voltar para ouvir denovo. E não tenho nenhum problema em admitir isso, mesmo sendo fã de longa data do Maiden. Pois é importante fazer essa autoavaliação em relação a um produto final que está muito longe daquilo que a banda já provou ser capaz de fazer em momentos passados, de grande flow criativo. O Iron já não é mais a banda sensacional de outrora, e temos que dar o braço a torcer quanto a isso, até mesmo pelo peso do tempo sobre os músicos (e aqui não me refiro só a idade física, mas tbm à capacidade criativa, que naturalmente se esvai ou se acomoda com o tempo). Portanto, é com muita decepção que afirmo que Senjutsu não é o grande álbum que parece ser. Por fim, rebato a crítica aos fãs que estão criticando o disco, chamando a atenção para um fato: ficar defendendo um álbum mediano e dizer que quem não gostou é fã infantil e/ou fã puritano, é tão fundamentalista quanto, pois desrespeita o histórico que esses tem para com a banda em suas vidas. Desejo que quem gostou de Senjutsu, aproveite ele ao máximo. Mas não desqualifique a opinião de quem não curtiu, pois musica é subjetividade e nem todos sentem da mesma forma. É o que penso.

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  14. Como disse no início Ovídio, mais do mesmo, sem muitos alardes, Maiden sendo Maiden, resumo da obra, disco mediano, deixando a desejar, o que sabemos que já tiveram um grande potencial ou ainda tem não sei, mais é bom sair da caixinha do que já deu certo e arriscar mais, opinião ,óbvio, não desmerecendo o histórico da banda que é fantástico.

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  15. Eu achei Senjutsu um bom álbum e, ao meu ver, o melhor desde AMOLAD, mas nada muito além disso.

    Vejo muita gente se derretendo em adjetivos superlativos e exagerados e, confesso, não consegui sentir tudo isso não. Ainda vejo, por exemplo, Senjutsu como um disco bem abaixo de Brave New World. Mas, claro, aí é minha opinião.

    Deve entrar no meu top 10 do ano, mas nem chega perto de Imperial (SOEN) na primeira posição. :D

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  16. Gostei no novo trabalho. Mas achei inferior ao The Book of Souls

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