Review: Ghost – Impera (2022)


A escala de evolução do Ghost ainda não atingiu seu ápice. Impera, quinto álbum da banda sueca, prova isso de forma explícita. Há um claro passo a frente em relação aos discos anteriores, com o som da banda soando mais maduro e explorando novos caminhos.

Produzido novamente por Klas Åhlund, que já havia trabalhado com o grupo em Meliora (2015) e possui no currículo discos de artistas como Madonna, Katy Perry e Britney Spears, Impera conta com doze faixas em pouco mais de 46 minutos. Segundo Tobias Forge, vocalista e líder da banda e o cara por trás da máscara do Papa Emeritus, a inspiração para o conceito do álbum surgiu em 2013, após a leitura do livro The Rule of Empires: Those Who Built Them, Those Who Endured Them, and Why They Always Fall, escrito por Timothy Parsons (a tradução do título seria algo como A Regra dos Impérios: Aqueles que os Construíram, Aqueles que os Suportaram e Por Que Eles Sempre Caem). Gravado entre abril de 2020 e julho de 2021 em Los Angeles e Estocolmo, o disco teve o seu lançamento atrasado devido à pandemia.

O primeiro ponto de destaque em Impera é a capa, criada mais uma por Zbigniew Bielak, artista polonês fundamental para identidade visual do Ghost e autor das artes de Prequelle (2018), do EP Popestar (2016), Meliora e do ao vivo Ceremony and Devotion (2017). A capa de Impera é baseada em uma das mais conhecidas imagens do ocultista inglês Aleister Crowley e traz o Papa Emeritus reproduzindo a pose de Crowley em um cenário super detalhado, resultando em uma das mais belas da banda.

Musicalmente, percebem-se influências de hard rock, AOR, pop e o lado mais tradicional do metal sempre presente no som do Ghost. Aliás, vale citar que a banda sueca extrapolou os limites estilísticos do metal já no seu segundo álbum, Infestissumam (2013), então esperar limitações a essa altura do campeonato é, no mínimo, desconhecimento sobre a trajetória do grupo. Há elementos nas canções que remetem a nomes como Boston, Bon Jovi, Def Leppard e Dio, além da influência sempre presente de Blue Öyster Cult. Além disso, senti ingredientes da NWOBHM em algumas partes de guitarra. O trabalho de melodia, pontes e refrãos é exemplar, mostrando o apuro do processo de composição. Está tudo no lugar certo, sensação amplificada pela excelente produção e mixagem, a cargo de Andy Wallace, um dos produtores mais celebrados da música pesada e que já havia trabalhado com a banda tanto em Meliora quanto em Prequelle.

O clima de misticismo, de ocultismo e teatral é um dos pontos centrais da sonoridade do Ghost, e segue facilmente perceptível em Impera. O álbum é dividido em três movimentos, que são apresentados por três introduções instrumentais: “Imperium”, que abre o disco; “Dominion”, em sua parte central; e “Bite of Passage”, no final do trabalho. Logo após “Imperium”, guitarras dobradas e um grito de Tobias abrem a grudenta “Kaisarion”, um das canções mais pra cima da discografia do Ghost. As guitarras dessa canção se destacam facilmente, e aqui vale citar uma informação essencial: Fredrik Åkesson, do Opeth, toca no álbum e sua técnica e virtuosismo agregam muito ao disco. “Spillways”, com seu teclado martelado à la “Runaway”, um dos primeiros hits do Bon Jovi, vem a seguir e conta com linhas vocais que são ao mesmo tempo cativantes e elaboradas. Refrão lá em cima de novo, trazendo luz para a música tradicionalmente sombria do Ghost e mantendo o caminho mais acessível apresentado pela banda no álbum anterior, o ótimo Prequelle.

O lado teatral e cinematográfico do Ghost é o protagonista de “Call Me Little Sunshine”, cuja introdução acústica leva ao desenvolvimento de um arranjo que de desdobra em melodias até chegar ao grudento refrão. Canção espetacular, e não por acaso escolhida como um dos singles do álbum e que remete ao clima das músicas de Infestissumam. Apresentada ao mundo em setembro de 2021 na trilha do filme Halloween Kills, que deu sequência à saga do serial killer Michael Myers, “Hunter’s Moon” é um dos melhores momentos não só de Impera mas também da discografia do Ghost, com Tobias cantando de forma próxima e quase conversando com o ouvinte, até desembocar em um refrão fortíssimo. Pesadíssima, “Watcher in the Sky” critica a descrença na ciência em sua letra, um tema infelizmente muito atual e que foi intensificado pelo crescimento do negacionismo durante a pandemia. Com ótimas guitarras, encerra a primeira parte do álbum.

A intro orquestrada “Dominion” abre o segundo movimento de Impera e introduz uma de suas mais pesadas canções. “Twenties”, cujo ritmo e melodia foram inspirados no hip-hop e no funk brasileiros, entrega um andamento quebrado e um peso absolutamente contagiantes. Uma das grandes músicas do disco e que deverá levantar o público nos shows. A balada “Darkness at the Heart of My Love” é uma das mais radiofônicas canções já gravadas pelo Ghost, com direito até a estalo de dedos, além de melodia e refrão pra lá de grudentos. “Griftwood” tem um riff que é puro hard dos anos 1980, e foi composta em parceria com o produtor Klaus Åhlund e com Peter Svensson, guitarrista do The Cardigans, banda pop sueca que fez sucesso durante os anos 1990. Bastante acessível e na linha do que Papa e seus amigos fizeram em Prequelle.

A parte final do álbum inicia com a densa vinheta “Bite of Passage”, que gruda em “Respite of the Spitalfields”. Mais uma vez temos aqui um resgate ao clima meio místico de Infestissumam, com melodias que se desdobram como se fossem cânticos ou recitais religiosos. Um encerramento de alto nível para um disco, mais uma vez, muito acima de média.

Maior fenômeno da música pesada do século XXI, o Ghost amplia a sua presença e aumenta a sua força com Impera. O álbum alcançou excelentes posições em todo o mundo, inclusive o primeiro lugar em mercados importantes como Estados Unidos, Inglaterra, Alemanha e Suécia, além do top 3 em países como Canadá, Holanda e Noruega. Já consolidada na cultura pop tanto por sua música quanto pelo aparato visual, a banda sueca caminha a passos largos para se transformar uma das maiores de sua geração. E tudo isso em pouco mais de dez anos, já que Opus Eponymous, seu disco de estreia, foi lançado em outubro de 2010.

Impera é um álbum excelente, apresenta uma sonoridade madura e traz novas influências ao mesmo tempo em que revisita elementos do passado. Não dá para estabelecer que é o melhor álbum do Ghost porque cada álbum do Ghost apresenta uma personalidade única, além do nível de qualidade lá no topo. Porém, uma coisa é certa: com esse disco, o império de Papa Emeritus e seus parceiros consolida-se de vez na música pesada.

Comentários

  1. Eu não gostei do álbum, após o Meliora ( que é muito bom ) o Ghost deu uma caída legal.
    Mas uma coisa é inegável, eles estão cada vez maiores, aqui na Inglaterra eles só irão tocar em arenas

    ResponderExcluir
  2. Nunca entendi o hype em torno desses caras... tudo ali é comum, regular, sem identidade... Uma banda absolutamente desprovida de personalidade. Quanto à resenha, nada a dizer, Cadão sempre matando a pau!

    ResponderExcluir
  3. Disco impecável! Vai figurar em todas as listas de melhores do ano. Boa produção, mixagem, melodias grudentas, guitarras inspiradíssimas e uma cozinha muito (mas muito!) competente. Uma pena não saber o nome de todos os músicos.

    ResponderExcluir
  4. eu lembro que ouvi o primeiro disco do Ghost em 2010 e não me chamou muito a atenção. Acabei pegando o Impera pra ouvir sem muita expectativa e achei o álbum incrível! To desde o lançamento ouvindo ele todos os dias.Também peguei os anteriores pra ouvir, da pra notar bastante como a banda foi mudando e, embora ache os primeiros bem bacanas, gosto mais de como esta agora!

    ResponderExcluir
  5. Ghost é a melhor e talvez a única boa opção dos últimos 10 anos e isso é inegável,fazia tempo muito tempo que eu não comprava uma seguência de lançamento de uma banda, Benvindo para sempre Ghost

    ResponderExcluir
  6. A partir do Prequelle a coisa começou a ficar interessante ! Saindo daqueles temas ocultista e passando a fazer álbuns conceitual dentro de fatos históricos ( prequelle= peste negra ). Bandas que colocam nas suas letras satanismo conseguem minha atenção. Mas mesmo assim o Ghost tem ótimas musicas des álbuns mais antigos, acredito que agora encontra a estrada que procuravam.

    ResponderExcluir
  7. Realmente Spillways lembra muito Runaway do Bon Jovi. Coloquei as duas músicas ao mesmo tempo, e Runaway na velocidade 0.75, e a intro é praticamente idêntica!
    Excelente disco!

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Você pode, e deve, manifestar a sua opinião nos comentários. O debate com os leitores, a troca de ideias entre quem escreve e lê, é que torna o nosso trabalho gratificante e recompensador. Porém, assim como respeitamos opiniões diferentes, é vital que você respeite os pensamentos diferentes dos seus.