Os volumes 3 e 4 de Shigurui: Frenesi da Morte, de Takayuki Yamaguchi, representam um momento crucial na construção narrativa da série, aprofundando o mergulho brutal, psicológico e fatalista que transformou a obra em uma das abordagens mais perturbadoras do universo samurai dentro dos mangás seinen. Publicados no Brasil pela Pipoca & Nanquim, ambos mantêm o elevado padrão editorial da coleção e ampliam significativamente a densidade dramática da história.
No terceiro volume, a trama avança três anos após o banimento de Irako Seigen do dojo Kogan. Nesse novo cenário, Fujiki Gennosuke desponta como herdeiro natural do legado do clã, mas a aparente estabilidade é rapidamente abalada por uma série de assassinatos calculados que colocam em dúvida o prestígio e o poder do mestre Iwamoto Kogan. A narrativa assume contornos quase investigativos, conduzindo o leitor por uma complexa rede de conspirações, rivalidades e vinganças silenciosas. O volume reforça o caráter trágico dos personagens, cujos destinos parecem inevitavelmente guiados por obsessões, pela busca por reconhecimento e por um rígido código de honra que frequentemente se choca com impulsos humanos primitivos.
Já o quarto volume amplia essa tensão ao explorar diretamente as consequências dos conflitos internos do dojo Kogan. Mortes misteriosas passam a atingir discípulos, instaurando um clima paranoico que transforma o ambiente em um espaço emocional e fisicamente sufocante. Paralelamente, a possível movimentação de Seigen, agora cego e consumido por um desejo quase sobrenatural de vingança, eleva o nível dramático da narrativa, funcionando como uma ameaça constante que paira sobre todos os personagens.
Yamaguchi mantém um trabalho impressionante e desconfortável na mesma medida. Seu traço detalhista e realista explora anatomia, expressões corporais e sequências de combate com intensidade quase documental. A violência gráfica não surge como mero espetáculo, mas como ferramenta narrativa fundamental para construir a atmosfera opressiva da obra. Cada duelo é apresentado como um ritual de destruição física e psicológica, reforçando o peso emocional das consequências.
Outro elemento que ganha ainda mais força nesses volumes é o aprofundamento psicológico dos personagens. O autor constrói figuras moralmente ambíguas, presas a relações de rivalidade, inveja, ambição e ressentimento que assumem contornos quase trágicos. A narrativa, por vezes fragmentada e deliberadamente caótica, reflete a instabilidade mental dos protagonistas e o colapso do código de honra que deveria guiá-los, aproximando a série de uma estrutura dramática densa e profundamente humana.
A edição brasileira acompanha essa complexidade com acabamento caprichado, incluindo sobrecapa, papel de boa gramatura e materiais extras que auxiliam na contextualização histórica e cultural da obra. A coleção da Pipoca & Nanquim será concluída em dez volumes, reunindo os quinze tomos originais japoneses em uma organização que equilibra fidelidade ao material original e praticidade para o público brasileiro.
Juntos, os volumes 3 e 4 consolidam Shigurui como uma narrativa implacável, artisticamente ousada e emocionalmente devastadora. Trata-se de uma leitura exigente e perturbadora, que utiliza a violência e o cenário histórico como ferramentas para discutir obsessão, decadência moral e a fragilidade do espírito humano, reforçando o mangá como uma das representações mais sombrias e impactantes já produzidas sobre o imaginário samurai.



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