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Dylan Dog Omnibus Vol. 5 - Morgana: o auge criativo do pesadelo segundo Tiziano Sclavi (2026, Mythos Editora)


Entre o final dos anos 1980 e o começo dos anos 1990, poucas séries de quadrinhos conseguiram atingir um nível criativo tão impressionante quanto Dylan Dog. E o Dylan Dog Omnibus Vol. 5 - Morgana, publicado pela Mythos Editora, é praticamente uma prova definitiva disso.

Reunindo as edições italianas originais 25 a 30, o volume funciona como um desfile de ideias brilhantes, atmosferas sufocantes e histórias que mostram por que o Investigador do Pesadelo se transformou em uma das figuras mais importantes dos quadrinhos europeus. Mais do que aventuras de horror, essas HQs utilizam o medo como metáfora para solidão, culpa, decadência urbana, paranoia e fragilidade emocional.

O omnibus abre com “Morgana”, uma das histórias mais cultuadas de toda a série. Escrita por Tiziano Sclavi e desenhada por Angelo Stano, a HQ mergulha em um horror onírico e fragmentado, onde realidade e sonho deixam de existir como conceitos separados. É uma narrativa carregada de melancolia e simbolismo, frequentemente citada entre as maiores obras-primas do personagem. Além disso, a trama possui elementos cronológicos que a conectam tanto com a primeira história de DyD, “O Despertar dos Mortos-Vivos”, presente no primeiro omnibus da Mythos, quanto com o passado e o futuro de Dylan Dog, notadamente com a centésima edição da série, que deve ser publicada nos próximos meses no Brasil. “Morgana” marcou o início da Dylan Dog mania na Itália, com a edição 25 da série vendendo mais de 1 milhão de unidades e transformando o personagem no mais popular da editora Bonelli.

Na sequência, “Depois da Meia-Noite” transforma Londres em um pesadelo urbano kafkiano. Influenciada claramente pelo filme Depois de Horas (1985), de Martin Scorsese, a história acompanha Dylan vagando por uma cidade decadente e hostil após ficar trancado para fora de casa. O resultado é uma HQ claustrofóbica, paranoica e profundamente existencial.

“Eu Vi Você Morrer” mantém o foco no horror psicológico ao trabalhar obsessão, premonição e fatalismo. É uma história menos explosiva visualmente, mas extremamente eficiente na construção de tensão emocional, reforçando a habilidade de Sclavi em transformar conceitos simples em narrativas perturbadoras.

Já “O Fio da Navalha” aposta em horror suburbano e crítica social. Inspirada no livro The Stepford Wives, clássico do escritor norte-americano Ira Levin, a HQ mistura assassinatos, paranoia e sátira sobre padronização da sociedade, mostrando como Dylan Dog conseguia absorver referências da cultura pop sem jamais perder personalidade própria.

O omnibus entra em um território ainda mais sombrio com “Quando a Cidade Dorme”, talvez a história mais diretamente influenciada pelo cinema de horror dos anos 1980. As referências a A Hora do Pesadelo são explícitas, mas o roteiro vai além da homenagem ao explorar culpa, trauma e medo do inconsciente.

Fechando o volume, “A Casa Assombrada” mistura elementos de Poltergeist e O Iluminado em uma narrativa sufocante sobre trauma familiar e manifestações sobrenaturais. Os desenhos de Claudio Castellini elevam ainda mais a experiência, com páginas visualmente impactantes e criaturas grotescas dignas dos grandes clássicos do horror.

O mais impressionante neste quinto omnibus de Dylan Dog é perceber como cada história possui identidade própria. Mesmo trabalhando constantemente com temas como morte, loucura e decadência emocional, Tiziano Sclavi evita qualquer repetição. Cada edição apresenta novas atmosferas, novos experimentos narrativos e diferentes maneiras de explorar o horror.

A edição da Mythos mantém o ótimo padrão dos volumes anteriores: mais de 600 páginas em preto e branco, formato confortável e publicação cronológica, permitindo acompanhar claramente a evolução criativa da série. O material conta com orelhas e artes nas guardas, além de uma galeria com as capas originais no final. Vale mencionar também o excelente texto escrito pelo tradutor Júlio Schneider, que analisa cada uma das histórias presentes na edição. Para leitores antigos, é uma oportunidade de revisitar uma fase histórica dos quadrinhos italianos. Para novos leitores, talvez seja uma das melhores portas de entrada possíveis para o universo de Dylan Dog.

Porque se existe um momento em que a série deixou definitivamente de ser apenas um gibi de terror popular para se transformar em uma obra cult, esse momento está aqui.

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