Naquele momento, o AC/DC tentava recuperar parte do impacto perdido após a sequência monumental formada por Back in Black (1980) e For Those About to Rock We Salute You (1981). Discos como Flick of the Switch (1983) e Fly on the Wall (1985) mantiveram a identidade do grupo intacta, mas não encontraram a mesma resposta comercial ou crítica. O cenário do rock dos anos 1980 havia mudado rapidamente, tomado por produções excessivamente polidas, visual glam e sintetizadores. O AC/DC parecia deslocado, e justamente por isso continuava soando autêntico.
Stephen King, fã assumido da banda, convidou Angus Young, Malcolm Young, Brian Johnson, Cliff Williams e Simon Wright para criar a trilha sonora de seu primeiro filme como diretor. Em vez de gravar um álbum completo de inéditas, o grupo optou por reunir clássicos do catálogo com três composições novas: “Who Made Who”, “D.T.” e “Chase the Ace”.
A faixa-título rapidamente se tornou o grande destaque do disco. Sustentada por um riff repetitivo e quase hipnótico, “Who Made Who” traz um AC/DC levemente diferente do habitual, mais mecânico e sombrio, refletindo diretamente o clima do filme. Brian Johnson entrega um dos grandes refrões de sua carreira, enquanto Angus constrói frases de guitarra econômicas e extremamente eficientes. Não por acaso, a música virou um dos maiores sucessos da banda na década de 1980.
As duas instrumentais inéditas revelam facetas menos exploradas pelo grupo. “D.T.” funciona quase como uma peça atmosférica, construída para servir às imagens do longa, enquanto “Chase the Ace” aposta em mais velocidade e abre espaço para Angus despejar solos inspirados. Mesmo não estando entre os momentos mais celebrados do catálogo da banda, ambas ajudam a criar unidade dentro do disco.
O restante do repertório funciona como uma coletânea cuidadosamente pensada. “You Shook Me All Night Long”, “Hells Bells”, “For Those About to Rock (We Salute You)”, “Sink the Pink” e “Shake Your Foundations” reforçam o peso da era Brian Johnson, enquanto “Ride On”, única faixa com Bon Scott, adiciona uma melancolia inesperada ao álbum. Sua inclusão ajuda a conectar passado e presente, mostrando que Who Made Who também atua como uma síntese acessível da história do AC/DC até aquele momento.
Embora frequentemente tratado apenas como uma compilação disfarçada, o disco possui identidade própria. Existe uma atmosfera específica em Who Made Who: elétrica, noturna, industrial e tipicamente oitentista. Talvez venha da ligação com Comboio do Terror, talvez da escolha das músicas, talvez do momento turbulento vivido pela banda. O fato é que o álbum envelheceu melhor do que muitos trabalhos lançados naquela década.
Comboio do Terror fracassou nos cinemas e acabou se tornando uma curiosidade cult na carreira de Stephen King. Who Made Who teve destino diferente. Vendeu milhões de cópias, recolocou o AC/DC em evidência e apresentou a banda a uma nova geração de ouvintes. Mais do que uma simples trilha sonora, tornou-se um retrato honesto de um grupo tentando sobreviver em uma época que parecia não ter mais espaço para ele, e conseguindo isso sem mudar absolutamente nada em sua essência.


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