
Por Ricardo SeeligColecionador
Há alguns dias tivemos uma longa conversa com o Thiago Sarkis, onde ele contou porque saiu da Roadie Crew e deu detalhes de sua passagem pela revista. Agora, como prometido, chegou a hora de ver o outro lado dessa história.
Ricardo Batalha, editor e redator-chefe da revista e um dos mais respeitados jornalistas de heavy metal do país, conversou com a Collector´s Room e conta o lado da revista nessa história toda, além dos planos que envolvem a Roadie Crew para 2009.
Collector´s Room - Batalha, vamos começar pelo começo, então: quais motivos foram os responsáveis por colocar um ponto final na relação da Roadie Crew com o Thiago Sarkis, considerado por muitos como o principal colaborador da revista?
Ricardo Batalha - Os motivos foram os seguidos atrasos na entrega das matérias, que desgastou sobremaneira a relação de trabalho com a redação da Roadie Crew. Apesar da excelência de suas entrevistas, Thiago Sarkis nunca esteve na redação e, com certeza, pela distância, nunca sentiu na pele, no dia-a-dia, que tínhamos obrigações definidas. Sempre iremos precisar cumprir prazos para que a revista seja entregue na gráfica na data estipulada. Somente quem vive uma redação, dia após dia, sabe exatamente o que estamos colocando aqui. Isso vinha sendo um dos maiores problemas, mas nunca deixamos este fato atrapalhar a qualidade do produto final. Nosso foco durante todo esse problema esteve sempre naquilo que é a parte principal da revista: o leitor.
Na medida em que havia atrasos na entrega de material, o prejudicado, em última instância, acabaria sendo o leitor da revista, que não a receberia na data programada. Nossa relação de trabalho estava desgastada, porque cada fechamento de edição se tornava um pandemônio. A revista ficava praticamente fechada e ficávamos aguardando matérias feitas por ele para editar, revisar e fazer a diagramação. Realmente, um atraso de um ou dois dias da data estipulada para entrega de vez em quando não é problema, desde que o colaborador avise de antemão que vai atrasar. Porém, treze dias, como aconteceu com a matéria do Jethro Tull (edição #119), por exemplo, torna a situação complicada para todos, pois enquanto uns estavam preparando a edição seguinte, outros estavam parados esperando a chegada do material que estava muito atrasado.
Este foi o principal motivo do desgaste na relação de trabalho dele com todos na redação da Roadie Crew. Mas esta não foi a primeira vez que isto ocorreu, pois o André Dellamanha saiu por motivo semelhante. O André estava envolvido em produção de turnês e atrasava matérias, mas entendeu a situação e, como sempre pensou na revista, não houve nenhum estardalhaço. Todos nós da redação somos amigos pessoais até hoje do Dellamanha, mas a relação de trabalho ficou desgastada por causa dos atrasos na entrega das matérias. No entanto, falo com o Dellamanha todos os dias e ele é um grande amigo. Para todas as ocasiões! Aliás, mesmo depois que saiu da Roadie Crew, ele chegou a escrever para a revista como colaborador, fazendo um ClassiCrew especial dos vinte e cinco anos do The Number of the Beast do Iron Maiden, que saiu na edição #102.
A revista, ou você, especificamente, gostariam de responder alguma colocação que o Sarkis deu em sua entrevista para o nosso blog?
Acredito que o Sarkis tenha ficado "de saco cheio daquela infernal pegação no pé", como ele disse, porque a pessoa que o cobrava era obviamente eu. Como editor e redator-chefe da revista, é essa a minha função. Ultimamente ele não tinha nenhum contato comigo, nem por MSN ou e-mail. Falava somente com os donos da editora, meus superiores.
No entanto, continuei cobrando a todos da mesma forma que sempre fiz e faço. Envio tabelas diariamente para os redatores e alguns colaboradores, mostrando o andamento da edição. O que está pronto, o que está faltando, o que está atrasado, enfim, uma rotina normal de trabalho em qualquer redação. Portanto, não era uma pressão sem sentido para determinada pessoa. Nunca houve qualquer tipo de ameaça e coação nas cobranças dos atrasos. Tudo que era passado para a redação e aos colaboradores era exatamente o que acontecia. Entretanto, quem estava na redação era cobrado pessoalmente e o restante por e-mail, quando do envio da tabela da edição. Este é um procedimento normal. Não havia interferência no trabalho e a intenção não era apontar os erros, mas sim alertar que estes atrasos nos prejudicavam no fechamento de uma edição.
O trabalho na revista é a principal fonte de renda dos profissionais que trabalham na redação, e uma das atribuições do cargo é o andamento de uma edição, desde a montagem do mapa/espelho até o dia de entrega dos arquivos na gráfica. Qualquer revista, de qualquer segmento, possui prazos que precisam ser cumpridos. Faz parte do negócio e não podemos virar as costas para esse tipo de problema, por mais que muitos não saibam o quão importante esse quesito é. Se deixássemos os prazos em segundo plano não haveria organização, e isso é a morte para uma revista com periodicidade fixa, como a Roadie Crew. Uma revista que não cumpre prazos está fadada a deixar de existir. Uma de minhas atribuições é cuidar para que esses prazos sejam cumpridos. No fundo, é bem simples.
Que impacto a saída do Thiago Sarkis causa na Roadie Crew?
Uma saída é sempre traumática, mas, da parte da revista, estamos atuando para que o impacto seja o menor possível. Ninguém tem exclusividade nesse mercado em que vivemos, há inúmeros bons órgãos de imprensa e inúmeros bons redatores. Então, acredito que ninguém sai necessariamente perdendo, e sim que vivemos uma acomodação natural de mercado, com cada uma das partes buscando novas soluções. Não será o fim da linha nem para a revista nem para ele, longe disso. Mudanças são naturais e ocorrem de tempos em tempos na vida de todos. O André Dellamanha saiu, mas hoje está muito bem trabalhando ao lado do Sepultura. Sempre conversamos sobre ele voltar escrever, mas mesmo tendo muita vontade e saudade, o Dellamanha não tem tempo porque viaja o mundo com o Sepultura. Já nesse caso do Sarkis, penso que o único senão foi a forma atribulada e o rumo que a coisa tomou. Isto só serve para atrasar a vida de todos e é algo que lamento. Entretanto, estamos sujeitos a esse tipo de situação e nos resta agora seguir em frente.
Como era a convivência do Thiago com os outros integrantes do cast da revista, e, mais especificamente, com você, Batalha?
Como ele nunca visitou e conheceu a redação da revista, não havia aquele convívio diário, o relacionamento pessoal. Durante muito tempo a convivência - troca de e-mails e conversas no MSN - foi pacífica, um relacionamento de trabalho saudável e muito produtivo. Sei que ele foi convidado inúmeras vezes para vir aqui na redação e ver como as coisas andam no dia-a-dia, mas nunca realmente escolheu uma data para fazer isso. As coisas só ficaram desgastadas após os seguidos atrasos na entrega das matérias.
O problema não era comigo, mas com todos. Eu era apenas o meio, o contato entre as partes, e por isto a coisa pegou só para o meu lado. Acredito que se o Ricardo Campos ou qualquer outro estivesse no meu lugar e tivesse a minha função, o rolo todo não teria sido comigo. Nunca foi questionada a qualidade do material, mesmo porque seria uma tremenda injustiça frente ao ótimo trabalho apresentado. Porém, sobrou tudo para quem cobrava, quem pressionava pela entrega das matérias, ou seja, eu. E só fazia - como ainda faço diariamente - isto para que o produto final, aquilo que vai para as mãos do leitor, não fosse prejudicado.
Nós trabalhamos para a revista. Quando líamos as matérias dele, ficávamos felizes, pois era algo que sabíamos que era feito com gosto e qualidade. Nunca houve nenhum tipo de inveja ou ciúmes, ainda mais da minha parte, pois fui um dos que sabia o tipo de material que ele poderia contribuir para a revista e incentivei sua contratação para o cast da redação. Só que isso não dava privilégio algum para ele. Isso não é um time de futebol. O mesmo era cobrado a todos. Matérias excelentes entregues com grandes atrasos não servem, pois não é assim que funciona. Isso não é algo que penso ou que prefiro, é algo exigido pelo mercado editorial para uma publicação com periodicidade fixa como a Roadie Crew. Se permitisse esse tipo de coisa dele, todo o resto iria degringolar, como, aliás, já estava ocorrendo. Meu trabalho é evitar esse tipo de coisa.
Hoje, mais até do que escrever, preciso cuidar de toda a parte editorial. Existem outros trabalhos fora escrever e fazer entrevistas, como cobrar os colaboradores, editar o material, selecionar fotos, solicitar material aos artistas e gravadoras, montar espelho, montar pautas, derrubar matérias, encaixar outras, traduzir entrevistas vindas de fora, entre muitos outros. Há todo um trabalho por trás do produto final que muitos leitores, e até colaboradores, não sabem. Possuo um trabalho de liderança e esse tipo de situação pode ocorrer no meio do caminho. Posso garantir que é o que menos gosto de fazer, mas precisa ser feito mesmo assim. São como as coisas funcionam.
Quais foram os principais erros da Roadie Crew e do Sarkis para a relação entre os dois lados acabar dessa maneira, abruptamente, de uma hora para a outra, surpreendendo os leitores da revista?
Penso que erramos ao esperar muito pela entrega das matérias. Se ele tivesse esse convívio diário e visse como é o dia-a-dia de uma redação, provavelmente as coisas não teriam chegado a este ponto. Se existe um problema que você sente que esgotou todas as possibilidades para tentar solucioná-lo, deve imediatamente comunicar ao seu superior na empresa. É uma relação normal de trabalho. Foi dito que um dos erros dos donos foi cuidar do Wacken Rocks Brazil. Primeiro, não existe nenhum "sonho" em se fazer o festival, mas uma grande vontade de realizar algo interessante para todos os fãs do Brasil. Entretanto, isto não afetou a revista, porque mesmo tendo diversas outras atribuições, eles sempre estiveram presentes todos os dias na redação.
Todo mês os atrasos eram cobrados, mas as coisas não mudaram e deixamos tudo como estava. Eu cobrava, os atrasos continuavam e nada mais mudava. Só que isso contribuiu para tornar a relação cada vez pior com todos da editora, até chegar ao que ninguém gostaria. Como responsável por essa parte, preciso que todas as matérias cheguem no prazo, batendo sempre na mesma tecla. Sei que todos possuem problemas e contratempos, e posso relevar uma vez ou outra se o atraso é por um curto período. Da parte dele, faltou entender o quanto essa questão era importante para o funcionamento pleno da editora. Entretanto, os atrasos tornaram-se corriqueiros e isso determinou sua saída. É necessário um comprometimento, que ele tinha no empenho em realizar as matérias, mas que não era nem de longe o mesmo para sua entrega, talvez até porque ele tem outro trabalho e o tempo ficou escasso, não sei. Infelizmente, para um veículo com os compromissos que a Roadie Crew possui, um não funciona sem o outro.
Um dos pontos levantados pelo Thiago é a de que os outros integrantes do cast da RC não gostam muito de se relacionar com os seus leitores, seja respondendo os Roadie Mails ou participando ativamente da comunidade da Roadie Crew no orkut. Particularmente, eu nunca tive problemas com você, com o Airton, com o Campos, com o Claudio, que sempre se mostraram bastante solícitos aos meus emails. O que você tem a dizer sobre isso?
A seção Roadie Mail existe para isto e você mesmo acaba de dar seu testemunho a respeito na própria pergunta. Antes de tudo, é nossa obrigação dar andamento aos trabalhos na revista, mesmo que isto acarrete em não termos tempo de responder instantaneamente a perguntas dos leitores, seja qual for o meio. Porém, qualquer um que atua nessa área sabe que vai ter que, necessariamente, se relacionar com os leitores e, no caso da Roadie Crew, nenhum integrante da equipe, seja redator ou colaborador, jamais reclamou ou se recusou a manter esse bom relacionamento com o público. Os e-mails dos editores, redatores e do diagramador são divulgados tanto no expediente da revista como no nosso site, o que possibilita que qualquer leitor entre em contato com qualquer um deles e receba resposta.
Muitas pessoas querem usar o orkut como a única ferramenta de comunicação. Penso que a criação do tópico Você pergunta, a Roadie Crew responde, criado na comunidade, afastou alguns leitores da própria comunicação com a revista impressa. Muitos que escreviam para o e-mail metal@roadiecrew.com ou diretamente para os editores, redatores ou para o diagramador, acharam que se colocassem suas perguntas no orkut seriam atendidos prontamente. Bem, apesar de termos analisado sugestões a partir do anseio dos leitores que estão na comunidade, muitos que fazem parte da revista sequer estão cadastrados lá. Portanto, o melhor meio continua sendo o usual e a seção Roadie Mail. Só que como Thiago Sarkis sempre se mostrou solícito em responder as dúvidas de leitores no orkut, que hoje se tornou um meio muito importante de contato e relacionamento, deixamos essa parte para ele, que, ao mesmo tempo, nunca demonstrou nenhum descontentamento no quesito, pelo contrário. Eu mesmo participava quando podia, mas o tempo e o aumento de trabalho tornaram isso algo difícil. Já não uso o orkut da mesma forma há tempos, muito antes da saída do Sarkis, mas me empenho todos os dias para que a revista cresça e, com isso, contente mais ainda os leitores. Não imaginei que o simples fato de deixar de participar do orkut ativamente fosse gerar tamanha insatisfação.
Mas a verdade é que nunca iremos agradar a todos e a revista consome praticamente todo meu tempo e energia. Estamos sempre trabalhando para apresentar as melhores matérias, novas seções, enfim, não nos acomodamos. Isso demanda alguns sacrifícios e a internet foi algo que precisei cortar para que o trabalho na revista pudesse sempre melhorar. Entretanto, nunca deixei de responder aos leitores que me procuravam pessoalmente. Costumo sair bastante e freqüentar shows, bares e casas de rock, e nunca me recusei a falar e ter contato direto e pessoal com leitores da Roadie Crew. Por sinal, tenho o maior prazer de conhecê-los e fazer amizades. Muita gente que convivo conheci por causa do interesse pelo heavy metal e pelo rock e por meio dos trabalhos pertinentes à revista, incluindo você, Cadão.
O Antonio Carlos Monteiro, ex-Rock Brigade, foi agora efetivado na revista. Quais são as expectativas em relação ao trabalho do ACM na Roadie Crew?
As expectativas são as melhores, porque o Antonio Carlos Monteiro é experiente, talentoso, responsável e viveu durante muitos anos o dia-a-dia na redação da revista Rock Brigade. Fiquei muito contente em saber que ele fará parte da revista mais ativamente.
Quais são os planos da Roadie Crew para o futuro?
Continuar evoluindo e atender sempre os anseios de nossos leitores. A revista não é feita para satisfação pessoal nem dos editores e nem dos redatores, mas sim para entreter o leitor, o fã de heavy/rock e levar a ele o máximo de informações possíveis.
Pessoalmente, como você avalia a saída do Sarkis da revista? Quem perde mais, ele ou a Roadie Crew?
Os dois lados perdem, mas as empresas nos dias de hoje são dinâmicas. As mudanças nas equipes devem ser encaradas como algo normal em qualquer negócio. Já havia acontecido isto com o André Dellamanha e com outros colaboradores mais antigos. Assim que o problema apontou para esse desfecho com Thiago Sarkis, procuramos focar na solução do problema para que as atividades da revista não fossem prejudicadas, como não estão sendo. Nunca quisemos que ninguém saísse da revista e muito menos forçamos ou criamos alguma situação de desconforto. Mas tudo o que relatei anteriormente tornou a relação da equipe com ele cada vez mais desconfortável.
O ponto final foi uma conversa que tivemos no MSN na qual, infelizmente, ele perdeu a compostura e começou a soltar o verbo, falando tudo que uma pessoa enfurecida fala. Discordar e ter divergências é diferente das coisas absurdas que li, com ofensas pessoais das mais pesadas possíveis. Aquilo realmente passou dos limites, pois tudo o que discutíamos antes deste episódio era de âmbito profissional. Os que leram a conversa, como Frans Dourado e Frederico Batalha, por exemplo, instantaneamente tiveram reações intempestivas e impensadas. Havia outras formas de tentar resolver as coisas de forma serena e racional antes de chegar a este nível. Nesse ponto, todos erramos. Roupa suja se lava em casa e nada disso precisava cair em conhecimento público, pois, para o leitor, o importante é o produto final, a revista todos os meses. Óbvio que muitos que gostam do trabalho do Thiago Sarkis e da revista como um todo almejam explicações, mas colocar todos os pontos internos não era necessário. Lamento.
Qual a sua opinião sobre o mercado editorial brasileiro especializado em música pesada?
As coisas não estão fáceis. O mercado editorial passa por uma crise, só que isso não é exclusividade do nosso meio, mas do mundo empresarial e dos negócios. Porém, sempre focamos todos nossos esforços para a revista Roadie Crew. É bem verdade que é impossível ser unanimidade, mas analisamos as críticas e sugestões com a máxima atenção. Quando respondo no Roadie Mail que iremos procurar atender aos pedidos dos leitores não falo da boca pra fora.
A Roadie Crew é realmente a melhor publicação especializada em música pesada de nosso país? Se sim, o que fez a revista alcançar esse status?
A Roadie Crew foi para as bancas em 1998, e de lá para cá sempre buscou inovar em sessões, que hoje são tão importantes quanto as entrevistas. Fazemos nosso trabalho sempre pensando no leitor, no fã de heavy metal e classic rock. O leitor nos ajuda a montar a revista, dá sugestões e aponta o que não curtiu. Portanto, este julgamento quem faz é o leitor. Como costumo dizer, nunca devemos achar que está bom, pois desta forma poderia haver estagnação, acomodação, e isso aqui não acontece. A melhor edição tem que ser sempre a próxima. Penso que o que fez a revista alcançar esse status foi dar um passo de cada vez.
Alguns redatores antigos da Rock Brigade, como os ótimos Fernando Souza Filho e Ricardo Franzin, estão afastados do mercado editorial. Existe a possibilidade de eles pintarem nas páginas da Roadie Crew?
Realmente não sei, mas seria um prazer trabalhar e aprender com profissionais deste gabarito. Caso haja um Background do Ramones na Roadie Crew, não vejo outro melhor do que o Ricardo Franzin para fazê-lo. Desde já, adianto que, apesar dele gostar de Nirvana, sempre tiramos o maior sarro disso quando nos encontramos. Ele me detona por gostar de hard rock ("poser", "farofa", "hair metal") e faço o mesmo por ele curtir Nirvana. É uma brincadeira saudável.
Já o Fernando Souza Filho é um grande são-paulino como eu, Claudio Vicentin, Leandro de Oliveira, André Dellamanha e tantos outros. Antes mesmo de ele entrar na Rock Brigade, quando vivia no Pará, nós já trocávamos correspondência. Ele tinha um fanzine e ajudava as bandas locais. Todos são excelentes profissionais e ótimas pessoas.
Um ponto delicado, admitido pelos próprios colaboradores da revista e levantado pelo Sarkis, foi o fato de vários Backgrounds publicados terem sido literalmente "chupados" de livros e publicações estrangeiras, causando um certo mal estar entre os leitores, como se a Roadie Crew fizesse parte do "jornalismo ctrl+C ctrl+V". O que você, como redator-chefe da revista, tem a dizer sobre isso?
A origem disso foi um comentário infeliz e equivocado de um colaborador nosso, que ficou nervoso com uma situação e respondeu sem pensar. Obviamente, toda matéria que envolve história passa por pesquisa - isso ocorre em todos os órgãos de imprensa e em relação a qualquer assunto, não há novidade nenhuma nisso. Naturalmente, sessões como o Background envolvem pesquisa em incontáveis fontes - e, como normalmente é escalado um redator que é fã confesso do artista ali retratado, muito do que acaba sendo escrito vem da própria memória de quem está redigindo aquela informação que é verdadeira, mas que é impossível de se determinar a origem. E quando ela existe, é necessário que o redator leia, assimile e transforme em algo seu, escrevendo de próprio punho.
No caso do Background do Kiss, o colaborador baseou-se em livros e irá publicar a bibliografia e as fontes de consulta na parte final, já que se baseou nelas para montar seu texto. Porém, de forma alguma isso é algo que deve ser generalizado - até porque cada banda acaba tendo fontes de consulta diferentes. O importante é escrever sempre com suas próprias palavras. Não há como mudar a história de uma banda, os fatos são os mesmos, não podemos inventar outros, mas é preciso adaptar os textos que lhe serviram de base, assimilar a informação e tornar algo autoral de fato.
Um dos pontos fortes da Roadie Crew são exatamente as sessões. A maioria dos elogios que recebemos por meio de cartas e e-mails são justamente para as seções que temos na revista. O que queremos é a informação correta, feita de maneira profissional e autoral.
O que você diria, em nome da Roadie Crew, a todos os leitores da revista espalhados pelo Brasil e que acompanharam essa confusão e discussão toda que levaram a saída do Thiago Sarkis da revista.
Muitos tomaram partido rapidamente tendendo para um lado, mas acredito que isto é normal em casos onde o emocional fala mais alto. Ele tinha contato direto e estreito com os leitores que frequentam o orkut, enquanto muitos outros membros da Roadie Crew sequer estão cadastrados neste site de relacionamento. Eu mesmo havia deixado a comunidade da revista - e muitas outras - bem antes da saída dele. Acho que houve precipitação de alguns, outros sempre irão concordar com a visão dele, outros com a nossa. Porém, acredito que, da parte da Roadie Crew, fizemos e estamos fazendo tudo para que o produto que o leitor recebe mensalmente em sua casa não seja afetado por esse problema. Temos um compromisso com a qualidade da Roadie Crew e essa visão esteve sempre à frente durante a condução de todo esse processo. Como disse, certas coisas vieram a público e isso foi um erro. Em um ambiente de trabalho, sempre irão ocorrer problemas. Agora cabe a nós seguirmos adiante.
Quais são os principais jornalistas e críticos musicais do Brasil atualmente, Batalha?
Nossa, são tantos! Para não ficar escrevendo um romance, citarei dois: Bento Araújo, por seu excelente trabalho de pesquisa e texto coeso, e Ricardo Franzin, pela sua coragem, personalidade e estilo. Você pode concordar ou não com o que ele escreve, mas é inegável que, ao bater o olho em algo escrito por ele, você reconhece de imediato. Ele passa credibilidade e isso é algo a ser exaltado.
Qual a sua opinião sobre a atual cena metálica brasileira?
Este é um assunto delicado e amplo, pois depende de que área desta cena vamos discutir. O que mais sinto é a falta de público e apoio às bandas nacionais.
Você se considera uma pessoa humilde?
Se afirmasse que sim já não estaria sendo humilde. Não é uma afirmação que faz que uma pessoa demonstre humildade, mas suas ações. Procuro apenas fazer meu trabalho e não fazer aos outros o que não gostaria que fizessem comigo.
Como é a sua relação com os integrantes do cast da Roadie Crew?
A relação com todos é a melhor possível. Claro que temos nossas divergências, mas nada que impeça um bom relacionamento pessoal e de trabalho. Afinal, são anos e anos de trabalho juntos. Como disse, é natural que haja rusgas em um ambiente profissional, pois cada um pensa e age de um jeito. Entretanto, quando há respeito e entendimento das necessidades primordiais para que o trabalho possa ser feito, tudo é resolvido.
Batalha, qual o tamanho da sua coleção de discos?
Cadão, não tenho uma coleção numerosa, mas parei de contar faz tempo. Posso lhe dizer que os discos de vinil ainda estão aqui, firmes, fortes e ainda sendo tocados no meu velho Gradiente (risos).
Vou citar uma pessoa e gostaria que você dissesse com qual álbum a presentearia, certo?
Airton Diniz.
Abigail do King Diamond e White Album dos Beatles, ambos em vinil.
Cláudio Vicentin.
Qualquer material bem raro do Metallica, porque ele coleciona tudo da banda.
Ricardo Campos.
Welcome to My Nightmare do Alice Cooper e Headhunter do Krokus.
Antonio Carlos Monteiro.
Tattoo You e Steel Wheels dos Rolling Stones.
Leandro Oliveira.
Deal with the Devil do Lizzy Borden e Triumph and Agony do Warlock.
Vitão Bonesso.
Qualquer um que seja relacionado a Beatles, Deep Purple e Black Sabbath. Vitão adora um disco ao vivo, mas sem overdub (risos).
Vinícius Neves.
The New Order, Low, Demonic e The Gathering, do Testament.
Frederico Batalha.
Grace Under Pressure do Rush e Balls to the Wall do Accept.
Frans Dourado.
From Beyond do Massacre, Altars of Madness do Morbid Angel e Morbid Tales do Celtic Frost.
Bento Araújo.
Born Again do Black Sabbath e Grand Funk do Grand Funk Railroad.
Régis Tadeu.
Última Noite e Ninja do Centúrias, afinal foi ele quem sugeriu o nome para a banda.
Sérgio Martins.
Fire Down Under do Riot e a coleção completa do Thin Lizzy, incluindo um ao vivo chamado One Night Only que estou devendo para ele até hoje (risos).
Thiago Sarkis.
Hoje em dia, nenhum.
A galera aqui da Collector's Room.
Operation: Mindcrime do Queensrÿche e Screaming for Vengeance do Judas Priest.
Muito obrigado, Batalha, e gostaria que você e a Roadie Crew mandassem um recado aos nossos leitores.
Gostaria de mandar um grande abraço a todos da Collector's Room, um dos melhores blogs do Brasil. Estou e sempre estarei à disposição para falar com amigos, fãs de heavy/rock e leitores da revista Roadie Crew. Meu e-mail é rbatalha@roadiecrew.com. Escrevam.
Observação: todas as respostas foram dadas por mim em nome da revista Roadie Crew.