27/03/2009

Hardão 70: Sir Lord Baltimore


Por Marcos A. M. Cruz
Colecionador

Existem certas coincidências e correlações que, por mais bizarras que possam parecer, acontecem vez por outra. Uma delas rolou comigo por volta dos dez anos de idade, época em que morava numa cidadezinha chamada Paty do Alferes, próximo à Miguel Pereira, interior do Estado do Rio. Perto de casa havia uma senhora, Dona Elza, que morava só com algumas dezenas de gatos, e numa ocasião estávamos eu e minha mãe na casa dela, que nos mostrou um monte de fotos, algumas junto a personalidades tais como Carmem Miranda (Dona Elza havia sido atriz de teatro), outras com pessoas que aparentavam não ser de nosso país, devido à elegância - e não eram mesmo, pois quando jovem ela viajara mundo afora.

Uma das fotos me chamou a atenção por mostrar um cavalheiro com direito à fraque, cartola e bengala. Não foi necessário perguntar quem era, pois a Dona Elza se antecipou e, meio suspirante, disse que se tratava do "senhor fulano de tal" (logicamente não lembro o nome), um legítimo Lorde de Oklahoma!Quando fomos embora, comentei com a mamãe sobre a tal foto, e ela, confessando estar surpresa, perguntou-me: "Você percebeu?". "Percebi o que?", respondi. "Ué, que ele foi uma grande paixão da Dona Elza!", disse mamãe. "Paixão???", pensei espantado. Era criança, não havia sacado a coisa, podia ser metido a esperto e inteligente (eu era mesmo, CDF de marca maior), mas não tinha ainda malícia para notar certas coisas, foi necessário que a mamãe me despertasse para o suspiro da Dona Elza.

"Não mãe, tô falando que tem alguma coisa errada, pois os lordes são ingleses, e não americanos", disse-lhe, me referindo ao fato óbvio de Oklahoma ficar nos Estados Unidos. Mamãe se limitou a dar de ombros, estava mais fascinada pela história que envolvia um romance do que pela suposta idiossincracia geográfica que eu apontara.

Anos mais tarde, numa de minhas garimpagens vinílicas, dou de cara com uma capa e arregalo os olhos, pensando em voz alta: "Ué, que raios será isto? Um Lorde em Baltimore?", tendo o vendedor respondido, por achar que eu lhe fizera uma pergunta: "Sir Lordão? Isto aí é hardão dubão, pode levar que não tem erro não", sem se dar conta da rima bizonha que havia feito. Claro que, após negociar um prazinho no cheque, voltei para casa feliz e contente com o disquinho na sacola, ao mesmo tempo em que relembrava aquele episódio na casa da Dona Elza e pensava como na vida existem ligações pitorescas entre situações disparatadas.

Antes do Sir Lord Baltimore, o guitarrista Louis Dambra, assinando como Louis Caine, tocou no Koala, banda que lançou um disco em 1968, curiosamente distribuído nos EUA como sendo originário da Austrália! Aparentemente se tratava de uma estratégia da gravadora (Capitol Records) para promover o grupo de Nova York, que praticava uma espécie de "punk de garagem", típico do final dos anos sessenta (é o que dizem, nunca ouvi este disco).

Notaram que eu falei Nova York? Pois é, ao contrário do que possa parecer, o trio formado pelo já citado Louis Dambra, juntamente com Gary Justin no baixo e John Garner na bateria e vocal, na realidade é originário do Brooklin, e não de Baltimore ou região. Muito estranho, concordam comigo?

Pois é, isto torna ainda mais curioso o fato de terem adotado este nome - talvez tenha alguma relação com Sir George Calvert, conhecido como The First Lord Baltimore (seu filho e neto foram, respectivamente, segundo e terceiro Lord Baltimore), nobre britânico que fundou Maryland, grande incentivador da colonização dos Estados Unidos, tido como o primeiro a estabelecer os princípios de liberdade civil e religiosa que posteriormente serviriam de inspiração para a própria Constituição Americana. Tão pensando o que? Hardão 70 também é cultura ... Caso se confirme esta hipótese, até pelo fato da capa trazer o desenho estilizado de um navio (alusão aos colonizadores?), faltaria alguém explicar o porque da banda ter escolhido este nome.

O trio consegue despertar atenção de Mike Appel e Jim Cretecos, que já haviam angariado uma certa fama com The Partridge Family (no Brasil conhecidos como A Família Dó-Ré-Mi), e recomendam o grupo para Dee Anthony, na época trabalhando como executivo para a gravadora Mercury Records, com a qual assinam contrato. Appel e Cretecos posteriormente trabalhariam com Bruce Springesteen, e Anthony seria um dos responsáveis pela ascensão de Peter Frampton.


Sob a produção de Appel e Cretecos, juntamente com o lendário Eddie Kramer (engenheiro de som e produtor de confiança de Jimi Hendrix, dentre outros), gravam um álbum, alternando-se entre o Electric Lady Studios de Nova Iorque e o Vantone Studios de New Jersey. Lançado no final de 1970 (algumas fontes dizem que teria sido em fevereiro de 1971), Kingdom Come trazia uma sonoridade bastante pesada para a época, graças aos riffs e solos de Dambra, a marcação precisa do baixo de Justin e o trabalho de bateria e vocais agressivos de Garner, a ponto de ser considerado por alguns como o primeiro álbum de heavy metal da história!

Pode não ter sido de fato primeiro do gênero a ser gravado, mas provavelmente foi o primeiro a ser chamado como tal. Acontece que, apesar de normalmente se atribuir a primazia ao uso da expressão (surgida na década de quarenta como apelido para um catalisador da reação atômica do urânio, e posteriormente usado pelo escritor William S. Burroughs em seus livros) para a clássica canção "Born to be Wild" do Steppenwolf, lançada em 1968, na realidade o "trovão de metal pesado" relatado na letra se trata do ronco de uma Harley, e não de uma determinada vertente do rock. 


Por outro lado, se formos considerar somente a associação do termo com a música, o pioneiro foi um grupo chamado Hapshash & The Coloured Coat, que lançou em 1967 um disco chamado Featuring the Human Host and the Heavy Metal Kids.

Existem muitas teorias, algumas dizendo que o primeiro a fazer uso da expressão para descrever um gênero musical teria sido o lendário crítico musical americano Lester Bangs (aquele retratado no filme Quase Famosos) num texto de 1970, outras que um jornalista teria usado para relatar um show do Blue Oyster Cult para um jornal de Nova York em 1971, e até quem afirme que já em 1968 alguém se referira ao MC5 usando o termo. 


Porém, comprovado mesmo é o texto de autoria de outro crítico musical chamado Mike Saunders, publicado originalmente na edição de maio de 1971 da Creem (publicação americana sobre música), onde ele, que passaria a ser conhecido posteriormente como "Metal Mike", ao resenhar o Kingdom Come chama o Sir Lord Baltimore de heavy metal - curiosamente, nesta mesma edição da revista surgiria a expressão punk rock, ou seja, embora seja difícil de ser admitido por alguns, com base nisto podemos dizer que ambos os gêneros são literalmente irmãos gêmeos.

Em 19 e 20 de fevereiro de 1971 o Sir Lord Baltimore toca no lendário Fillmore East, juntamente com o J. Geils Band e o Black Sabbath; entretanto, ao que parece, eles desagradam imensamente o dono do local, Bill Graham, que literalmente expulsa a banda do palco, alegando que sua apresentação era horrível ("hordas de adolescentes gritando tresloucadamente e uma barulheira infernal no palco" teria comentado Graham, não exatamente com estas palavras).


Não vou chegar ao ponto de dizer que o segundo álbum, intitulado somente Sir Lord Baltimore, seja horrível, mas comparado ao primeiro realmente deixa bastante a desejar, pois ao invés do peso do anterior, neste eles resolveram investir numa sonoridade mais rebuscada, quase progressiva, embora - na minha opinião - sem muita inspiração. Mas vale lembrar que nesta ocasião eles já haviam rompido com Appel e Cretecos, e em seu lugar estava o produtor John Linde, que assim como a dupla, também é co-autor de todas as faixas, portanto pode ser que ele é quem tenha sido o responsável pela mudança de direcionamento musical. Por outro lado, neste disco, que foi o canto de cisne da banda, eles contam com um quarto integrante, Joey Dambra, irmão de Louis, tecladista e também guitarrista, que ainda por cima ajuda em alguns vocais.

Não se sabe o que aconteceu com Louis Dambra e Gary Justin; o irmão de Louis, Joey, foi para uma banda chamada Community Apple, e depois participaria do 44th Street Fairies, grupo composto por ninguém menos que John Lennon, além de May Pang, Lori Burton e Joey, que se tornaria famoso por atuar como backing vocal na canção "No. 9 Dream", que Lennon lançaria no álbum Walls and Bridges (1974). Ao que consta, foi só isto que fizeram.


Já John Garner supostamente toca no auto-intitulado álbum do Bloddy Mary, de 1974, embora seu nome não conste nos créditos, e anos mais tarde iria tocar junto a Vince Martell (Vanilla Fudge, tendo posteriormente ingressado no The Lizards, que já lançou seis bons CDs (sendo dois ao vivo), numa praia um pouco mais bluesy.

Engana-se quem acha que o Sir Lord Baltimore nunca foi lançado no Brasil. A compilação Crazy, Baby, Crazy!!, editada em 1971, traz a faixa "Hard Rain Fallin'", juntamente com temas do Lucifer´s Friend, Blue Cheer, Colosseum, Juicy Lucy, Warhorse, May Blitz e várias outras bandas. Seria um disco maravilhoso, não fosse o fato de NENHUMA música estar completa, todas possuem cerca de dois minutos de duração apenas!  Na realidade, este álbum faz parte de uma coleção trazendo nomes como Groove, Baby, Groove!!, Cool, Baby, Cool!!, Brasa, Bicho, Brasa!! e outros, contendo faixas de artistas de tudo quanto é vertente, desde Beatles até Ella Fitzgerald, passando por Claudette Soares, Paul Mauriat, Cacique de Ramos(!), etc. Um dos volumes (Beat, Baby, Beat!!) mistura Cactus, MC5, Shotgun Ltd e Wilson Pickett!


Os dois álbuns do Sir Lord Baltimore foram relançados em CD em formato 2X1 pela Polygram, além de existirem em edições piratas européias, que eu desaconselho, pois foram extraídas de velhos LPs - para se ter idéia, existe uma prensagem do
Kingdom Come que chega a trazer um pulo numa faixa! O único senão deste 2X1 é que traz as músicas totalmente fora de ordem, de acordo com o produtor, com objetivo de "propiciar uma melhor audição". Eis a sequência correta, caso o leitor queira montar os álbuns conforme foram editados originalmente:

Kingdom Come (1970)
Lado A: "Master Heartache"/ "Hard Rain Fallin'"/ "Lady of Fire"/ "Lake Isle of Innersfree" e "Pumped Up"

Lado B: "Kingdom Come"/ "I Got a Woman"/ "Hell Hound"/ "Helium Head (I Got a Love)" e "Ain't Got Hung On You".

Sir Lord Baltimore (1971)
Lado A: "Man From Manhattan" e "Where Are We Going".

Lado B: "Chicago Lives"/ "Loe and Behold"/ "Woman Tamer" e "Caesar LXXI".

Desde junho de 2003 está rolando um boato que dá conta do retorno das atividades do Sir Lord  Baltimore, que contaria com John Garner e Louis Dambra, juntamente com algum outro baixista, pois Gary Justin não teria topado fazer parte da reunião. Não é a primeira vez que isto ocorre, já em 1976 foi noticiado que o grupo iria gravar um novo disco, que até hoje não apareceu, portanto é difícil saber se é verdade ou não. Particularmente fico com um pé atrás em relação a essas coisas, podem me chamar de retrógrado e conservador, mas prefiro ficar com meu bolachão do
Kingdom Come, ao mesmo tempo em que contemplo a capa e tento entender como pode um lorde ser americano e mesmo assim ser tão imponente e majestoso.

Leia também:


Classic Tracks: Guess Who - American Woman (1970)


Por Ronaldo Rodrigues
Colecionador
Collector´s Room
Apresentador do programa
Estação Rádio Espacial
Solid Rock Radio

No final dos anos sessenta e ínicio dos setenta, o Guess Who era o que havia de mais popular vindo do Canadá em se tratando de rock. A banda, apesar de ficar razoavelmente famosa apenas no fim dos
sixties, já vinha na estrada desde os idos de 1964-1965, com seu som beat-garageiro. Já tinha feito um sucesso grande com a canção “These Eyes” entre 1968 e 1969. O estouro veio mesmo em 1970 com o disco American Woman, uma coleção de pérolas musicais em se tratando de composições inspiradas. O grupo, naquele ano, era formado por Burton Cummings, Randy Bachmann, Jim Kale e Gary Peterson.

A música surgiu a partir de uma base improvisada em um show e foi gravada ainda em 1969. “American Woman”, faixa de batismo do disco, vinha logo de cara na bolacha e já dava as cartas, começando com um blues safado soletrando A-M-E-R-I-C-A-N. A letra da música, que só pelo título pode até parecer um ode sexual às mulheres do lado de lá da fronteira, na verdade é um tremendo esculacho provocativo do letrista com as garotas estadunidenses – “
go, gotta get away” ; “american woman get it away from me” ; “I don’t wanna see your face no more!” (devemos lembrar que existe entre os Estados Unidos e o Canadá aquelas infundadas rivalidades fronteiriças). Randy Bachmann já chegou a afirmar que a citada “american woman” seria a estátua da liberdade e, por consequência, a letra assumiria até um tom anti-guerra.

Depois do ínicio acústico (podado nas versões radiofônicas e no single), vem um riff simples baseado em dois acordes que acompanha a música por toda sua extensão, com característicos efeitos tremolo que dão uma base cadenciada para os viscerais vocais de Cummings (na minha opinião um dos maiores vocalistas da época) e para o fuzz da guitarra de Randy Bachmann (futuro Bachmann-Turner Overdrive), soprando forte para reacender as últimas brasas do acid rock. Na canção, tudo soa simples, mas a interpretação do Guess Who é indiscutivelmente boa e sua pegada é incomparável. Magia pura, como as canções dos Beatles. A singeleza bem aplicada e a alma entregue no balanço sensual da música tornam-a memorável.

O single de “American Woman” tinha no lado B a canção “No Sugar Tonight”. O disco vendeu muito bem e a música foi hit naquele ano, ficando três semanas no top#100 da
Billboard, dividindo o top da parada com os Beatles e o Jackson Five. Chegou a fazer sucesso também na Europa, alcançando a 19º posição nas paradas do Reino Unido. A banda até participou do programa de TV Beat Club da emissora Bremen, na Alemanha (lamentevelmente em playback, o que não era comum acontecer naquele período nas gravações do programa). 

Ao vivo, o grupo fazia longas e incríveis versões de "American Woman" em clima de jam session e com solos individuais, tal como registrado no essencial Live at Paramount de 1972 (em suspirantes dezessete minutos de duração). 

A música já figurou em várias listas das melhores canções de rock e voltou a ficar famosa (e a ser conhecida por novos rockers) pela releitura de Lenny Kravitz, integrando a trilha sonora do filme Austin Powers – The Spy Who Shagged Me. Do mesmo disco também saiu outro hit do grupo – “No Time”, regravada com uma versão um pouco diferente da primeira registrada no álbum Canned Wheat.


Classic Tracks: Wishbone Ash - Blowin´ Free (1972)


Por Ronaldo Rodrigues
Colecionador
Apresentador do programa Estação Rádio Espacial
Solid Rock Radio

Banda inglesa de alta notoriedade na época, que começou a trilhar o caminho para a fama após ser recomendada por ninguém menos do que Ritchie Blackmore do Deep Purple para a MCA. Em 1972, o Wishbone Ash vivia seu esplendor tanto comercial quanto artístico devido ao bem-sucedido
Argus, disco que rendeu à banda o título de grupo revelação na imprensa britânica e figurou entre os melhores lançamentos daquele período altamente fértil no rock.

"Blowin’ Free" é uma das principais faixas desse disco, que em um todo é excelente. Mas a canção se destaca porque, além de conseguir ser ao mesmo tempo sofisticada, climática e empolgante, ainda é assobiável e muito pegajosa aos ouvidos. O Wishbone Ash tinha um poder comum às grandes bandas do início dos anos setenta – conseguir transformar uma levada simplista em algo mais avançado com uma naturalidade absurda. 

Partindo de uma estrutura de blues-boogie, a banda inclui intervenções geniais de guitarra com toques clássicos (como na introdução) e passagens climáticas onde aproveitam efeitos como reverb e delay para criar atmosferas tranquilas e reflexivas, tudo isso com um senso musical elevado, que combina as idéias com equilíbrio. Os vocais completam a massa sonora com maestria, dobrados e harmonizados ao longo de toda a canção. 

A temática do álbum (a começar pela capa) pendia para batalhas medievais e assuntos que vagavam entre o histórico e o mitológico. As guitarras dobradas e as influências do folk bretão favoreciam isto. A letra de "Blowin’ Free" já foge um pouco, com uma temática mais banal de um relacionamento garoto-garota, mas com uma sutileza que passa longe do piegas.

A banda, que até seu disco
Pilgrimage de 1971 ainda não tinha encontrado muito bem a fórmula para caracterizar seu som, demonstra ter alcançado a maturidade em Argus, que abriu de vez as portas para o sucesso em toda a Europa e EUA, onde dividiram o palco com os grandes nomes da época. “Blowin’ Free” é um hit exigido por todos os fãs em qualquer apresentação que seja, independente da formação (que já foram muitas) ou do período que o grup atravessava.

“Blowin’ Free” saiu no lado B do single, cujo lado A era a canção “No Easy Road”. O disco foi bem sucedido no Reino Unido, ficando entre os três mais vendidos.



Discos Fundamentais: Sir Lord Baltimore - Kingdom Come (1970)


Por Ricardo Seelig
Colecionador
Collector´s Room

Uma da bandas mais cultuadas do hard rock setentista, o Sir Lord Baltimore foi formado em 1968 no bairro do Brooklyn, em Nova York, pelo vocalista e baterista John Garner, pelo guitarrista Louis Dambra e pelo baixista Gary Justin. O trio se conheceu na escola, e começou a ensaiar com afinco naquele mesmo ano.

As coisas começaram a acontecer para o Sir Lord Baltimore quando a banda conheceu Mike Appel, empresário iniciante e que, alguns anos mais tarde, se tornaria 
manager de Bruce Springsteen. Appel deu ao grupo o seu nome definitivo, além de ser o co-autor de várias faixas e um dos produtores do disco de estréia do grupo.

Batizado de
Kingdom Come, o álbum foi gravado nos estúdios Vantone, en Nova Jersey, e foi produzido por Mike Appel e Jim Cretecos. A mixagem final foi realizada pelo lendário Eddie Kramer no Electric Ladyland Studios, cujo dono era um tal de Jimi Hendrix. Diz a lenda que durante o processo de mixagem os integrantes do Pink Floyd teriam ouvido o disco e ficado muito impressionados com a música do Sir Lord Baltimore.

Kingdom Come chegou às lojas em 1970 trazendo um hard pesadíssimo, repleto de grandes riffs. O baixo de Gary Justin colocava ainda mais peso às músicas, enquanto a bateria de John Garner imprimia um ritmo tribal ao proto heavy do grupo. O som lembra o Black Sabbath do início, com algumas músicas mais arrastadas e carregadas com uma atmosfera sombria e aterrorizante. O crítico Mike Saunders, da Creem Magazine, escreveu um review bastante favorável ao grupo, que se tornou histórico por ser apontado como a primeira vez em que o termo “heavy metal” foi utilizado como referência a um estilo musical. Só por aí dá pra sentir a influência do Sir Lord Baltimore na música pesada.

Entre as dez faixas de
Kingdom Come, destaco a que dá nome ao disco, “Hell Hound”, “Helium Head”, “Ain´t Got Hung on You”, “Master Heartache” e “Lady of Fire”. Além do conteúdo musical de primeira, Kingdom Come tem como destaque a belíssima capa, que traz a pintura de um fantasmagórico navio.

Pra fechar, vale dizer que a banda voltou à ativa e inclusive lançou um álbum inédito em 2006, batizado como
Sir Lord Baltimore III Raw, contendo músicas que haviam sido compostas originalmente para um disco que seria lançado em 1976, mas que acabou abortado com o fim das atividades do grupo.

Historicamente, o Sir Lord Baltimore tem importância similar para o heavy metal que grupos consagrados como Black Sabbath, Led Zeppelin e Deep Purple ostentam, o que já seria motivo mais do que suficiente para o grupo ter um reconhecimento incontestável mundo afora, o que, infelizmente, não ocorreu.

Faixas:
A1. Master Heartache - 4:35
A2. Hard Rain Fallin' - 2:55
A3. Lady of Fire - 2:50
A4. Lake Isle of Innisfree - 4:03
A5. Pumped Up - 4:03

B1. Kingdom Come - 6:40
B2. I Got a Woman - 3:00
B3. Hell Hound - 3:17
B4. Helium Head (I Got a Love) - 4:00
B5. Ain't Got Hung on You - 2:20



Discoteca Básica Bizz#040: Nico - Chelsea Girl (1967)


(Fernando Naporano, Bizz#=40, novembro de 1988)

Manhã de 18 de julho de 1988, Ibiza. Nico, a
femme fatale do Velvet Underground, estava morta. Vítima de uma hemorragia cerebral após uma queda de bicicleta. 

Às vezes, a vida prega peças extremamente irônicas. Justamente ela, uma notívaga por excelência, alcoólatra e junkie, despede-se num ensolarado passeio matinal. No dia seguinte, em Berlim, o cobiçado corpo de Christa Paffgen estava cremado. A idade e a nacionalidade de Nico (um anagrama de icon) é tema de discussão, pois uns dizem que ela nasceu em outubro em Colônia, Alemanha, em 1938 ou 1944, enquanto outros afirmam que foi em março em Budapeste, Hungria, em 1943.

Dúvidas à parte, sabe-se que a incursão musical dessa modelo e atriz (sua primeira aparição cinematográfica foi no filme
La Dolce Vita, de Fellini), educada entre a França e a Itália, foi em 1964, quando se mandou para Nova York e arrumou emprego como cantora de bar. Conheceu e fascinou Bob Dylan, que levou-a a Andy Warhol, que, por sua vez, nos idos de 1965, apresentou-a ao recém-fundado Velvet Underground, em que permaneceu como cantora até 1967, tendo participado apenas do primeiro LP, White Light White Heat, da psicodelia americana. Ainda em 1967, após sua participação no Exploding Plastic Inevitable (projeto multimídia do Velvet concebido por Warhol), a chanteuse optou pela carreira solo.

Dona de uma personalidade febril e suicida, era bastante descolada no jet set musical, se já não bastasse ser apadrinhada pelo mestre da pop art e ter adquirido uma controvertida fama com o Velvet. Tendo o badalado cineasta Paul Morrisey como
manager, não foi difícil convencer o produtor Tom Wilson a gravar seu debut como solista.

Chelsea Girl, o disco em questão, lançado em fins de 1967, cujo título é quase homônimo ao filme de Andy Warhol (Chelsea Girls), é um dos trabalhos mais sensíveis e cinzentos da década de sessenta. Uma obra lapidada por sua insofismável melancolia, (re)visitando os porões proibidos da paixão, plenos de mistérios, medo e tristeza. Com cinco canções escritas pelos integrantes do Velvet - cujos destaques são a cold-ballad "The Winter Song" (John Cale) e a hipnótica "Chelsea Girls" (Lou Reed/Sterling Morrison) -, três do então adolescente Jackson Browne (entre elas a arrepiante "These Days"), uma do outsider Tim Hardia e outra de Bob Dylan ("I´ll Keep It with Mine") feita especialmente para ela, Chelsea Girl é um LP em que Nico, com sua voz suave e penetrante, melancólica e glacial, personifica-se como uma idiossincrática folk singer, ladeada por arranjos orquestrais, sutis nuances psicodélicas e um rockmântico gosto amargo de 60´s beat-ballads.

Após a estréia em 1967, a noirchanteuse (ilu)minada por uma vida errática, gravou até sua morte um total de nove LPs, sendo que durante sete anos esteve afastada da música, graças a sucessivas crises existenciais, sublimadas em gim e heroína. Entre seus memoráveis LPs, temos o folk-minimal Marble Index (produzido por John Cale, que sobre o fracasso comercial do disco declarou: "Como é possível vender o suicídio?"), o delicado semi-experimentalista Desert Shore, o clássico The End (em que fincada em seu harmônio minimal regrava "The End" dos Doors e a tradicional "Das Lied der Deutschen"), o gótico-claustrofóbico Drama of Exile (demonstrando também que, sem querer, apenas por uma questão de natureza, foi precursora da dark music) e o doloroso Camera Obscura (um trabalho que, além da sublime cover de "My Funny Valentine", conta com inserções de elementos do gênero pós-industrial). 

Hoje, sua obra, embora um tanto quanto obscura, legou uma irreparável influência que cantoras/compositoras contemporâneas como Danielle Dax e Diamanda Galas continuam a reciclar sob uma nova ótica.

Faixas:
A1. The Fairest of the Seasons - 4:08
A2. These Days - 3:33
A3. Little Sister - 4:26
A4. Winter Song - 3:20
A5. It Was a Pleasure Then - 8:05

B1. Chelsea Girls - 7:25
B2. I'll Keep It With Mine - 3:20
B3. Somewhere There's a Feather - 2:20
B4. Wrap Your Troubles In Dreams - 5:09
B5. Eulogy to Lenny Bruce - 3:45

Leia também: Discoteca Básica Bizz#007 - Velvet Undergroud - The Velvet Underground & Nico (1967)


26/03/2009

Discos Fundamentais: Flower Travellin´ Band - Satori (1971)


Por Ricardo Seelig
Colecionador

A Flower Travellin´ Band foi fundada em 1969 em Tóquio, capital japonesa, e encerrou suas atividades em 1973. O line-up contava com o guitarrista Hideki Ishima, com o baixista Jun Kobayashi, com o batera Joji "George" Wada e pelo vocalista Akira "Joe" Yamanaka. Nesse curto período de tempo o grupo lançou quatro álbuns (Anywhere em 1970, Satori em 1971, Made in Japan em 1972 e Make Up em 1973), entre os quais o meu preferido, e da maioria dos críticos, é o Satori.

Composto por apenas cinco longas faixas, o disco é de uma originalidade absurda, pois une riffs pesadíssimos de guitarra carregados de melodias tipicamente orientais, resultando em um som único. As linhas vocais tem claras influências dos primeiros trabalhos do Black Sabbath, enquanto o timbre do vocalista Akira Yamanaka remete a Robert Plant.

Satori é daqueles discos que você estranha à primeira audição, mas sente que tem algo especial nas mãos, e, a cada novo play no CD player vai entrando mais e mais em um mundo novo, repleto de novas possibilidades e caminhos sonoros.

O vinil é raríssimo, uma preciosidade disputada à tapa. Já o CD foi relançado recentemente, e é relativamente fácil de ser encontrado as lojas especializadas.

Satori é um disco recomendadíssimo, um clássico obscuro do hard setentista, que todo e qualquer colecionador de hard rock deveria ter em sua coleção, mas que, infelizmente, pouca gente conhece.

Faixas:
A1. Satori, Part 1 - 5:22
A2. Satori, Part 2 - 6:56
A3. Satori, Part 3 - 9:40

B1. Satori, Part 4 - 10:53
B2. Satori, Part 5 - 6:56



Discoteca Básica Bizz#039: Marvin Gaye - What's Going On (1971)


(José Augusto Lemos, Bizz#039, outubro de 1988)

Quando, em 1985, o
staff do New Musical Express elegeu este O Melhor LP de Todos os Tempos, houve alguma surpresa e nenhuma contestação. Afinal, a primeira coisa que se pode dizer sobre o disco é que nunca houve tamanha síntese - gospel, rhythm'n'blues, jazz e doo-wop na mútua fertilização de uma soul music 24 quilates e 1.001 filigranas.

Marvin Gaye atravessara a década de sessenta como um curinga no celeiro/linha-de-montagem da Motown - além de gravar como cantor, participava aqui e ali como compositor, arranjador, produtor e instrumentista (além de piano, toca bateria em vários dos hits das Supremes). Todos os contratados da gravadora tinham, porém, de se encaixar no rígido molde pop ditado e concebido por Berry Gordy Jr. Do repertório ao vestuário, passando por aulas de dicção e boas maneiras, todas as arestas de negritude eram aparadas em nome de um romantismo platônico e doce (mas nunca meloso). O transe carnal dos blues e
spirituals do gospel ainda estava lá, mas em baixíssimos teores.

Com essa fórmula, Gordy - tendo iniciado seu selo independente a partir de sua loja de discos - tomou conta das eletrolas e radinhos de pilha do universo. Pop clássico, eterno - mas uma camisa-de-força para talentos como Marvin Gaye e Stevie Wonder, cujo potencial só seria revelado no começo dos anos setenta, quando conquistaram sua autonomia dentro da gravadora.

What's Going On foi a primeira batalha ganha nessa guerra e custou todo o cacife do cantor. O lançamento atrasou alguns meses porque a Motown não queria editá-lo de jeito nenhum, alegando que as músicas eram longas demais; não tinham começo, nem meio, nem fim; não falavam de amor, e sim de religião, política, drogas, ecologia. Marvin ameaçou não gravar mais uma nota sequer pela gravadora, e fez pé firme. Ganhou estourando a banca. Três das faixas - a título, mais "Mercy, Mercy Me" e "Inner City Blues" - viraram hits singles e, até hoje, as vendas do LP somam oito milhões de cópias só nos EUA.

Venceu, assim, a visão de um gênio que confessou ter passado a segunda metade dos sessenta atormentado com a irrelevância do que estava gravando, diante da revolução de consciência que ocorria no mundo e do surgimento do selo Stax, afiando todas as arestas que a Motown limara. Dirigindo-se, desde os primeiros sulcos, aos
brothers e sisters, Marvin compõe um manifesto panorâmico da vida no gueto - pobreza, violência e drogas - antes de atacar as questões universais que tinham arrepiado a diretoria da Motown.

Musicalmente, não existe nada mais doce. As faixas se interligam numa só levada, lânguida e hipnoticamente esticada numa espécie de suíte. Tudo flui numa textura de cordas e metais que Paddy McAloon, do Prefab Sprout, definiu como
Mozart de patins. Marvin não escrevia, mas contornou o problema gravando fitas e fitas assobiando as frases dos violinos, transcritas então pelo regente/orquestrador David van DePitte. Produzido pelo próprio cantor, o disco exibe uma maestria instrumental certamente assimilada no trabalho com Norman Whitfield, que um dia ainda será reconhecido como um dos maiores gênios da música do século XX. Sua entrada na Motown como compositor/arranjador/produtor redefiniu o pop como a marca registrada da gravadora, principalmente com os Temptations. Com Marvin, desenvolveu o monumento "I Heard It Through the Grapevine", o que já bastaria como credencial. 

Em What's Going On, porém, Marvin mostra que já não precisava dele, nem de ninguém. Os vários canais de gravação são utilizados num show vocal, algo como um grupo doo-wop de um homem só, em contracantos e harmonias que talvez só Sam Cooke poderia igualar, houvesse em sua época tecnologia para isso.

Faixas:
A1. What's Going On - 3:53
A2. What's Happening Brother - 2:43
A3. Flyin' High (In the Friendly Sky) - 3:49
A4. Save the Children - 4:03
A5. God Is Love - 1:41
A6. Mercy Mercy Me (The Ecology) - 3:16

B1. Right On - 7:32
B2. Wholly Holy - 3:07
B3. Inner City Blues (Make Me Wanna Holler) - 5:33

Leia também: Nas pegadas do groove de Melvin Sparks


25/03/2009

A sobrevivência do vinil na Alemanha


Por Benjamin Braden
Jornalista
Deutsche Welle

No passado, eles eram populares em todo o mundo. Hoje, os discos de vinil só conseguem sobreviver graças a um nicho especial do mercado. "
O fato de este disco ter sido prensado aqui é o melhor exemplo do renascimento do vinil", diz Holger Neumann, presidente da empresa Pallas, ao apontar a capa de um LP de Diana Ross em seus melhores tempos.

A Pallas, uma empresa familiar localizada na pequena cidade de Deipholz, no estado da Baixa Saxônia, fabrica discos de vinil há mais de sessenta anos. Neumann afirma que o trabalho ali não é movido pela nostalgia dos velhos tempos. Ele confirma que hoje ainda é possível ganhar dinheiro produzindo discos de vinil, mesmo que os valores nem se comparem aos do mercado do CD.

O que mantém a Pallas, na verdade, é um estabelecimento situado do outro lado da rua, onde são prensados CDs. O departamento de vinil contribui apenas com 10% do faturamento total da empresa. A Pallas é uma das últimas grandes fábricas de discos de vinil do mundo. Na Europa, esse nicho do mercado é compartilhado por apenas cinco empresas, num segmento que se recuperou um pouco nos anos noventa, após o choque do advento do CD nos anos oitenta.

Hoje, pode-se falar até mesmo de um pequeno
boom do vinil, mesmo que em baixa escala. Em 2007 foram comercializados seis milhões de discos de vinil em todo o mundo, o dobro do ano anterior. Na Alemanha foram 700 mil discos vendidos, 100 mil a mais do que em 2006. Embora sejam números míseros em relação ao setor de CDs, a Pallas supre, no momento, uma demanda considerável.

"
Estou convencido de que vamos continuar produzindo vinis nos próximos seis ou oito anos", diz Neumann. Há duas décadas, uma frase como essa teria parecido absurda, pois naquele momento a Pallas estava exatamente inaugurando sua nova fábrica de CDs. Em relação ao maquinário de fabricação dos LPs, restava a pergunta no ar: deixamos aí ou mandamos para o ferro-velho? "Não tínhamos bem certeza, devo confessar", diz Neumann. No fim, acabou valendo o instinto dos donos da empresa, "que diziam que deveríamos deixar as máquinas aqui". Hoje, a sensação é a de que essa foi uma decisão certa. Um terço dos 140 funcionários da Pallas trabalham na produção de vinis.

Recentemente foi produzido, por exemplo, o primeiro álbum solo da Diana Ross, de 1970. Enquanto uma máquina esfria, as outras já estão trabalhando nas próximas encomendas. Cada uma delas fabrica dois LPs por minuto, o que permite à Pallas produzir dez mil discos por dia. 

Mas produzir para quem? Kai Seemann, gerente da Speakers Corner Records, localizada em Gettorf, nas proximidades de Kiel, é um especialista na reedição de discos desaparecidos há muito do mercado. "Quem compra discos são pessoas que cresceram com o vinil e não conseguem deixar isso de lado. Ou jovens, para quem um LP é uma coisa nova. Não um CD sem vida, não uma música baixada da internet, mas algo concreto", descreve Seemann. O ano de 2008 foi o melhor para sua empresa, que vendeu 50 mil discos, atingindo um faturamento de 1,3 milhão de euros.

Kai Seemann, um dos clientes assíduos da Pallas, foi quem encomendou o LP de Diana Ross. Para ele, a qualidade vale mais que o preço. E a Pallas é uma das fabricantes de vinil com os melhores padrões de qualidade do mundo, garante ele.  Para fazer jus à fama, os funcionários da empresa de Diepholz fazem de tudo. O controle de qualidade é rígido. Um processo dispendioso e detalhado, considerando o longo processo desde as gravações de som no estúdio, passando pela prensa metálica, até chegar ao disco pronto.

Udo Karduck, responsável pelo controle do sulco do vinil, é uma das pessoas-chave para a qualidade do produto final. O sulco é considerado o cérebro do disco. A cada dia, Karduck ouve o vinil que produz com um tocador especial e ainda utiliza um microscópio. Sua meta não é ouvir sons agradáveis, mas sim detectar desníveis, poeira ou qualquer crepitação indesejada. Ao descobrir um defeito no vinil, Karduck utiliza uma caneta para marcar a posição e gira o microscópio sobre o lugar exato. Com um buril, ele limpa o sulco do disco no ponto marcado. Tudo isso com muito cuidado, pois qualquer movimento em falso pode arranhar o sulco e comprometer a perfeição do disco que chega ao consumidor.


Discos Fundamentais: Blind Faith - Blind Faith (1969)


Por Ricardo Seelig
Colecionador
Collector´s Room

O que falar de uma banda que, antes mesmo de anunciar oficialmente a sua formação, já era idolatrada pelos fãs e pela imprensa, cercada por uma expectativa tão grande que os seus integrantes, fazendo piada de si mesmos, escolheram o nome “blind faith” - fé cega - para batizá-la?

Estamos em 1969, vivendo em um mundo que presencia os momentos finais dos Beatles, onde os Rolling Stones ainda não são gigantes e o Led Zeppelin dá seus primeiros passos. Neste contexto vivia um garoto inglês que, apesar da pouca idade, já era chamado de deus, e cuja simples presença em qualquer projeto sacudia não apenas a cena musical, mas o próprio mundo. Esse garoto chamava-se Eric Clapton.

Depois de fazer parte dos Yardbirds e apresentar a música dos negros americanos para os garotos brancos ingleses, gravar um dos álbuns mais importantes da década ao lado dos Bluesbrakers de John Mayall e levar o rock aos seus limites junto com Jack Bruce e Ginger Baker no Cream, Clapton encontrava-se em uma encruzilhada: ele podia entrar em uma banda, formar o seu próprio grupo ou seguir carreira solo. Todas eram possibilidades.

O Blind Faith surgiu quase que por acaso. Em busca de diversão, Clapton convidou o amigo Steve Winwood e, juntos, começaram a levar algumas jams. Ginger Baker ficou sabendo da empreitada, e quis se juntar à dupla. A princípio Clapton foi contra, pois era da opinião que a presença de Baker transformaria o que era para ser uma simples reunião de amigos em algo muito maior, mas foi vencido pela insistência do baterista e de Winwood. Dos ensaios regados a longos improvisos foram surgindo as primeiras idéias para algumas músicas próprias, assim como a necessidade de um baixista para completar o grupo. Rick Grech, do Family, foi convidado e aceitou de imediato. Assim nascia o Blind Faith, o primeiro supergrupo da história do rock.

A notícia que os quatro estavam compondo juntos logo vazou, gerando uma enorme expectativa na imprensa e nos fãs, que logo profetizaram que Clapton, Winwood, Baker e Grech gravariam um dos melhores álbuns que o rock haveria de ver nascer.

Apesar dos exageros, eles não estavam errados. A crença absoluta, que levou os quatro a batizarem o grupo como Blind Faith, se concretizou com o lançamento do auto-intitulado debut, em julho de 1969. O álbum está cravado sobre dois sólidos alicerces: a belíssima “Can´t Find My Way Home” e a antológica “Presence of the Lord”. A primeira é nada mais nada menos que o melhor registro de Steve Winwood, uma das mais belas vozes que o rock deu ao mundo. Sobre o violão de Clapton, Winwood nos entrega uma belíssima linha vocal, alternando momentos em que usa sua voz de forma natural à falsetes antológicos. O resultado é estupendo, justificando em sua plenitude os pré-conceitos sobre o grupo.

Já “Presence of the Lord” é a conversa de Clapton com Aquele com o qual era comparado. Cantada de forma magnífica por Winwood, transformou-se em uma das mais emblemáticas canções do guitarrista, tanto pela sua letra belíssima quanto pelo solo inesquecível repleto de wah-wah, onde Clapton parece querer mostrar que, apesar do advento de Hendrix, ainda possuía algumas cartas na manga.

Além de “Can´t Find My Way Home” e “Presence of the Lord”, mais quatro faixas completam o disco de estréia do Blind Faith. “Hard to Cry Today”, a faixa de abertura, é um hard como só se fazia no final dos sessenta, e cuja receita se perdeu com o tempo. “Well All Right” coloca groove no som do grupo, com um resultado final que antecipava os caminhos ensolarados que Clapton trilharia em álbuns como
461 Ocean Boulevard. O belo solo de violino executado por Rick Grech em “Sea of Joy” é outro momento inesquecível, enquanto a longa “Do What You Like” traz solos individuais de cada integrante, com destaque para Ginger Baker.

Além da música,
Blind Faith trazia mais um atrativo. Sua capa, onde a filha de Baker posava com o peito nu e segurando um avião para lá de fálico, causou grande polêmica na época, gerando inclusive a proibição da venda do disco nos Estados Unidos, o que levou a gravadora a lançar uma versão exclusiva para o mercado americano, com uma foto do grupo no lugar da capa original.

Após o lançamento do álbum, o quarteto, cercado por empresários, agendou e realizou uma turnê pelos EUA. A pressão aumentou, os compromissos também, e, ao perceberem, os quatro estavam novamente vivendo aquilo que não queriam viver quando se reuniram para tocar juntos. O que era para ser um prazer se transformou em obrigações sem fim, e isso levou os quatro a decretarem o fim da banda.

Passados quase quarenta anos de seu lançamento,
Blind Faith ainda é um dos pontos mais altos da carreira de Eric Clapton, Steve Winwood, Ginger Baker e Rick Grech. Um álbum que vale a pena ser (re)descoberto, juntamente com o ao vivo London Hyde Park 1969, que saiu em vídeo e mostra a apresentação dos caras no lendário parque inglês.

Para quem quiser conhecer, uma boa pedida é a versão estendida lançado há pouco tempo e repleta de faixas extras, traçando o documento definitivo sobre o Blind Faith. Muito mais que recomendável, histórico.

Faixas:
A1. Had to Cry Today - 8:49
A2. Can't Find My Way Home - 3:17
A3. Well All Right - 4:28
A4. Presence of the Lord - 4:56

B1. Sea of Joy  5:22
B2. Do What You Like - 15:20