29 de jan de 2010

Anuário Mofodeu - 1966 no rock: do monochrome ao technicolor

sexta-feira, janeiro 29, 2010

Por Vitor Bemvindo
Historiador e Colecionador
Mofodeu

"
Em 1966, a década deixou de ser monochrome para virar technicolor". A frase de Keith Richards, destacada pela edição de setembro de 2006 da poeira Zine, define com precisão o que aconteceu de mais importante naquele ano para o rock and roll. A estética das bandas da Invasão Britânica tinha encontrado o seu ponto de saturação em 1965, e, no ano seguinte, diversos grupos passam a buscar um novo caminho, que levaria à psicodelia.

Um fator determinante para essa transição acontecida no rock a partir de 1966 sustenta-se principalmente no que havia anos antes. O grande sucesso comercial alcançado por grupos como Beatles, Rolling Stones e The Who, entre outros, garantiu uma consolidação desses nomes no mercado fonográfico, permitindo que estes pudessem ser mais exigentes com suas produções.

Os Beatles, por exemplo, eram tão poderosos na indústria fonográfica da época que qualquer de suas exigências era atendida sem maiores discussões. Isso chegou ao ponto em que o grupo se reservou ao direito de não realizar mais turnês, restringindo seu trabalho somente ao processo criativo e à produção de seus álbuns. Tal atitude, impensável nos dias de hoje, nos quais as turnês são uma das principais fontes de renda das bandas, mostra a importância que esses artistas tinham na época.

O último concerto dos Beatles, em Candlestick Park

No dia 29 de agosto de 1966 os Beatles realizaram o último show da última turnê da história do grupo, no Candlestick Park, em São Francisco, Califórnia. O curioso é que a tour, que divulgou o LP lançado no ano anterior,
Rubber Soul, havia sido um enorme sucesso, com apresentações memoráveis como a no Shea Stadium, em Nova York (quando tocaram para o seu maior público, poucos dias antes do derradeiro concerto na costa oeste) e a no Budokan, em Tóquio, no Japão.

Sem se dedicar às turnês, os Beatles passariam a ter mais tempo para se dedicar às experimentações musicais que resultariam no histórico
Sgt Pepper´s Lonely Hearts Club Band, lançado no ano seguinte. Porém, a veia experimentalista do quarteto de Liverpool já aparecia nos álbuns lançados entre 1965 e 1966. Rubber Soul e, principalmente, Revolver, apontavam para o caminho que a banda parecia querer trilhar a partir daquele momento. Isso ficava claro na introdução de elementos orquestrais, no flerte com a música indiana e nas experimentações instrumentais características de Revolver.

A bíblia da psicodelia: "The Psychedelic Experience", de Timothy Leary

Os Beatles e muitas outras bandas começavam a se aproximar da psicodelia, com base principalmente na obra do guru do LSD, Timothy Leary. O livro
The Psychedelic Experience estava na cabeceira de nove entre dez roqueiros que viviam em grandes metrópoles como Nova York, Los Angeles, São Francisco ou Londres.

Essas ideias influenciaram grandes grupos, como os Beatles, mas também outros não tão conhecidos, como os texanos do 13th Floor Elevators, responsáveis por um álbum que é apontado como a primeira obra musical totalmente dedicada às experiências difundidas por Leary: o clássico cult
The Psychedelic Sounds of 13th Floor Elevators. Apesar do pouco sucesso comercial, o disco é considerado um marco da transformação do rock e é tido como o precursor do que se convencionou chamar "psychedelic sounds".

Freak Out!, tido como o primeiro álbum conceitual do rock

Na onda psicodélica, surgiram também bandas como os esquizofrênicos The Mothers of Invention, capitaneados pelo não menos surtado e talentoso Frank Zappa. Em 1966 o grupo estreou com o aclamado
Freak Out!, tido por muitos como o primeiro álbum conceitual da história do rock. O disco era uma grande gozação com os valores em voga naquele momento. Zappa debocha constantemente, tanto da cultura de consumo americana como da contracultura, imposta como um paradigma de oposição à sociedade de consumo.

1966 é um ano importante também para bandas como o The Who e os Rolling Stones, que se não se encaminharam por vias tão experimentais, conquistaram maior independência com álbuns totalmente autorais e bastante elogiados -
A Quick One e Aftermath, respectivamente.

Pet Sounds: a revolução que veio da praia

Outra banda que atingiu um patamar de maturidade criativa interessante foi o Beach Boys. Assim como os Beatles, eles resolveram se dedicar com mais empenho às composições e à produção de seus álbuns, mas no caso do grupo californiano um integrante da banda foi eleito para cuidar desses aspectos: Brian Wilson. Enquanto os outros garotos praianos seguiam na estrada, Wilson se dedicava à produção da obra-prima do grupo:
Pet Sounds.

Graças a essa dedicação exclusiva ao processo criativo, Brian Wilson pode se empenhar nas experimentações musicais, incorporando elementos orquestrais e outros não tão convencionais ao álbum. A variedade de elementos usados no trabalho rendeu ao disco o rótulo de um dos precursores do "art-rock", ao mesmo tempo em que incoporava elementos do rock psicodélico, chegando a ser taxado por alguns como "sunshine pop".

Além do sucesso de crítica e público de
Pet Sounds, a dedicação de Wilson ao estúdio rendeu algumas faixas que seriam lançadas num disco posterior - Smile, que nunca chegou a sair, por conta de problemas com a saúde mental do músico. A principal delas era "Good Vibrations", que foi lançada como single ainda em 1966, chegando ao todo das principais paradas de sucesso e sendo considerada o maior sucesso comercial daquele ano. A faixa trazia boa parte dos elementos introduzidos em Pet Sounds, como, por exemplo, o uso de sintetizadores, mas também trazia a levada melódica que catapultou a carreira dos Beach Boys nos anos anteriores.

Outro fenômeno interessante no ano de 1966 foi a explosão das bandas de folk rock. Impulsionados pela eletrificação do folk empreendida por Bob Dylan um ano antes em
Highway 61 Revisited, grupos como The Byrds e Buffalo Springfield conquistaram o público e a mídia especializada com álbuns como Fifth Dimension e Buffalo Springfield.

O Small Faces aprofundou as experiências do The Who

Outro aspecto a ser ressaltado em 1966 é o surgimento do Small Faces, que trouxe para rock elementos que mais tarde se tornariam referência. O disco de estreia - que leva o nome da banda - traz um peso e distorções nas guitarras incomuns para aquele momento. Eles aprofundaram as experiências do The Who, com linhas de baixo poderosas e uma bateria tão ensandecida quanto a de Keith Moon. A parceria entre Ronnie Lanne e Steve Marriot começava a fazer história.

Quer ouvir alguns dos sons que marcaram o ano de 1966? Ouça o MOFODEU #078, o segundo da série
Anuário MOFODEU, que pretende demonstrar a história do rock ano a ano. Para ouvir, basta acessar:

www.mofodeu.com

Agora, os textos do MOFODEU, que você costuma ler aqui na
Collector's Room podem ser lidos também no MOFOBlog.


Leia também: Anuário Mofodeu - 1965


Com clássicos de peso, Metallica derruba Porto Alegre na lama

sexta-feira, janeiro 29, 2010

Fernando Diniz
Jornalista
(matéria publicada originalmente no portal
Terra)

Mesmo onze anos mais velhos depois do último show no Brasil, o Metallica não se mostrou nem um pouco fora de forma com o passar do tempo. Ao som de clássicos dos primeiros discos da carreira, os 26 mil fãs presentes em Porto Alegre pareciam não se importar com o chão lamacento do Parque Condor, indo a nocaute diante dos riffs de guitarra da banda americana, formada nos anos oitenta.

Por volta das 21h45, o início da
World Magnetic Tour no Brasil era anunciado com a pesadíssima e pulsante "Creeping Death". Sem tempo para saudações, o baixista Robert Trujillo chamou logo em seguida o tema da "For Whom the Bell Tolls". Uma pequena exibição de microfonias do guitarrista Kirk Hammett emendou em "Ride the Lighting", faixa-título do álbum de 1984 que abriga os três clássicos.

Depois dos três primeiros golpes, o Metallica partiu para um clima mais ameno, com a singela "The Memory Remains", de uma fase mais mansa do grupo. Com os ânimos mais calmos, o vocalista e guitarrista James Hetfield surgiu com um violão e tocou os primeiros acordes da épica "Fade to Black", com belos solos de Kirk.

Após apresentar três músicas do último disco,
Death Magnetic, que dá nome à turnê, Hetfield afirma: "Ouvi falar que os brasileiros gostam de música pesada". Era o prenúncio de outro petardo: "Sad But True", do disco conhecido como Black Album. Nessa, o baterista dinamarquês Lars Ulrich parecia que pretendia quebrar os pratos de sua bateria, tamanha força colocada no acompanhamento da faixa, grave e marcante.

Outro ponto alto do show foi a sequência fatal formada por "One", "Master of Puppets" e "Battery", que dispensam apresentações. A balada "Nothing Else Matters", introduzida por arranjos da guitarra limpa de Kirk Hammett, foi a que recebeu maior coro dos fãs. Na sequência, "Enter Sandman" fechou o repertório do disco preto do Metallica.

No bis, o grupo surpreendeu ao tocar "Die Die My Darling", da banda punk Misfits. O desfecho foi uma volta às origens, com "Phantom Lord" e "Seek and Destroy", ambas do primeiro álbum do quarteto,
Kill´Em All, de 1983.


Gafe

Por duas vezes, James afirmou que o show desta quinta-feira era o primeiro do grupo na capital gaúcha. Na verdade, a banda também tocou em 1999, no Jóquei Clube. Quando James repetiu a frase, no fim do show, Kirk gesticulou para a plateia que este era o segundo espetáculo da banda em Porto Alegre. O vocalista, no entanto, parece não ter notado o sinal do colega.


Torta e presentes

Após o show, James Hetfield jogou várias tortas na cara de um dos membros da equipe da banda, em cima do palco, em comemoração ao seu aniversário. A pedido do vocalista, a plateia cantou parabéns ao aniversariante. Depois, os integrantes do Metallica arremessaram centenas de palhetas para os fãs que estavam na área VIP, em frente ao palco. Alguns conseguiram pegar mais de uma palheta estilizada do álbum
Death Magnetic.

Confira o set list apresentado pela banda no show em Porto Alegre, dia 28/01/2010:

Creeping Death
For Whom the Bell Tolls
Ride the Lightning
The Memory Remains
Fade to Black
That Was Just Your Life
The End of the Line
The Day That Never Comes
Sad But True
Cyanide
One
Master of Puppets
Battery
Nothing Else Matters
Enter Sandman

Die, Die My Darling
Phantom Lord
Seek and Destroy






28 de jan de 2010

Wilco disponibiliza downloads de shows em favor do Haiti

quinta-feira, janeiro 28, 2010

(publicado originalmente no
Senhor F)

A banda Wilco disponibilizou para download gratuito, em seu
website oficial, dois shows na íntegra. São as apresentações realizadas no Keyspan Park (Nova York) em 13/07/09 e HMV Forum (Londres) em 04/11/09. Entretanto, o grupo pede que os fãs façam doações mínimas de $ 15 para organizações – como os Médicos Sem Fronteiras – empenhadas em ajudar o povo do Haiti.

Acessando o
WilcoWorld.net e clicando em “Causes”, o internauta encontra, além dos downloads, o link das organizações para fazer as doações.

Leia também: Wilco - Wilco (The Album) (2009)

Eu e o Metallica, o Metallica e eu

quinta-feira, janeiro 28, 2010

Por Thiago Cardim
Colecionador, Publicitário e Jornalista

- O Black Album foi um dos primeiros CDs que comprei com o meu próprio dinheiro - economizado da mesada, é claro;

- Em meus primórdios como jornalista de um site de e-commerce que resolveu investir em seu próprio portal de conteúdo (cujo nome eu não quero dizer, mas é o Submarino), fiquei bem focado na cobertura das palpitantes questões da música digital, ainda emergentes. E por causa disso, cobri bem de perto todo o bafafá envolvendo o Metallica e o Napster. Lembro, inclusive, que peguei a maior bronca da banda e, particularmente, do Lars Ulrich;

- Nesta mesma época, eu e o amigo-irmão Paulo Martini transformamos as frases da animação do estúdio Camp Chaos sobre o episódio do Metallica em bordões recorrentes para a vida. Metallica Good! Napster Bad!;

- Continuo achando Lars Ulrich um mala sem alça, by the way;

- O James é dos caras mais legais do rock. E o Robert Trujillo é ótimo, desde a época do Suicidal Tendencies. Mas, cá entre nós, o meu integrante favorito da banda sempre foi o Jason Newsted. Cara estiloso e divertidíssimo. Uma pena ele ter saído do Metallica;

- Durante um bom tempo eu disse aos quatro ventos que preferia o Megadeth ao Metallica. Adoro o Megadeth. Mas gosto mais do Metallica. Eu falava isso só para encher o saco do meu bom amigo Zé, o Mestre;

- Lembro que pedi para o meu pai, de presente de aniversário, os discos Load e Reload. Gosto muito dos dois até hoje, por mais que saiba que eles são motivo de controvérsia entre os fãs. Pra mim, é o Metallica tentando seguir caminhos diferentes, mas ainda soando bem pesado e consistente;

- Quando o álbum St Anger chegou na redação da AOL, foi o maior tumulto. Eu era o jornalista de música, mas todo mundo queria fazer suas próprias resenhas do disco. No final, além do meu texto, saíram mais três, escritos por redatores de informática e de notícias. E nenhum dos textos era positivo, detalhe;

- Acho St Anger uma porcaria de disco. Mal produzido, com a voz de James soando deslocada do restante dos instrumentos, e a bateria de Lars parecendo um monte de crianças batendo em panelas. Não tem uma única música que se salva;

- Da última vez em que eles marcaram apresentações no Brasil, eu estava com tudo em cima para assistir ao show, cobertura fechada pela AOL e tudo mais. Só não entendia o motivo de terem convidado o Shaman para fazer a abertura - e olha que eu gosto pacas do Andre Matos! Mas não combinava nada com coisa nenhuma. O cancelamento acabou livrando Andre e companhia de uma saraivada de vaias;

- Por mais que Death Magnetic seja um bom álbum, Dave Mustaine anda levando a melhor sobre os ex-colegas nos últimos anos - com o ótimo United Abominations e o fenomenal Endgame;

- No entanto, ainda acho o Mustaine um mala tão grande quanto o Lars. É uma tia velha que até hoje não superou a expulsão do grupo, causada por sua própria dependência da cachaça. Se liga, bebum!;

- Na clássica discussão sobre quem é o maior do metal, Metallica ou Iron Maiden, eu voto no Iron. Desculpaê!;

- Agora é preciso dizer: o Iron Maiden é maior do que o Metallica no Brasil, mas o Metallica, em termos globais, é muito maior do que o Iron. Basta ver as vendagens nos rankings da Billboard. Desculpaê - parte 2!;

- Minhas cinco músicas preferidas do Metallica: "Metal Militia", "Master of Puppets", "Seek and Destroy", "Of Wolf and Man" e "The Memory Remains". Sim, uma música do Reload. Qual é o problema? Vai encarar? :-)



Pouca Vogal - Pouca Vogal (2009)

quinta-feira, janeiro 28, 2010

Por Luiz Felipe Carneiro
Jornalista

Cotação: ****

Desde a saída de Augusto Licks e Carlos Maltz, os Engenheiros do Hawaii serviram como uma espécie de carreira-solo de Humberto Gessinger. Talvez o compositor gaúcho tenha cansado de ser o centro das atenções. Após o anúncio do hiato dos Engenheiros, em 2008, Gessinger disse que se juntaria a Duca Leindecker (do Cidadão Quem) para formar um duo com o (sugestivo) nome de Pouca Vogal. Demorou um pouco, mas, finalmente, a dupla lança o seu álbum de estreia, que leva o mesmo nome do conjunto. E a conclusão é gritante: o trabalho em dupla fez muito bem a Humberto Gessinger, que, havia muito, estava variando sobre o mesmo tema com os seus Engenheiros.

Gravado ao vivo em Porto Alegre em março do ano passado, Pouca Vogal apresenta generosas vinte faixas (tanto no CD quanto no DVD). O repertório conta com sucessos dos Engenheiros e do Cidadão Quem, além de faixas inéditas compostas especialmente para o projeto.

Centrado em instrumentos acústicos, Gessinger mostra que a sua fissura pelo violão e pela viola caipira - tão presentes nos dois últimos trabalhos dos Engenheiros do Hawaii - permanecem. E isso é um bom sinal. Ele e Leindecker se revezam em quase uma dezena de instrumentos (do violão ao bombo leguero), com eventuais participações especiais de Luciano Leindecker (baixista do Cidadão Quem) e do maestro Fernando Cordella, que rege a mini-orquestra POA Pops em algumas faixas.

Para o fã dos Engenheiros (e que torceu o nariz para o novo projeto do mentor da banda), vale a pena conhecer o Pouca Vogal pelas músicas dos ... Engenheiros! "Até o Fim", "Somos Quem Podemos Ser", "Toda Forma de Poder", "Refrão de Bolero" e "A Montanha" ganharam versões nuas e cruas, com uma delicadeza que estava escondida nos discos do grupo. "Somos Quem Podemos Ser", por exemplo, está em sua versão definitiva, com a voz quase sussurrada de Gessinger ao final. A boa "Até o Fim" foi pelo mesmo caminho, e ganhou força com a gaita de Gessinger, que deu uma moldura dylanesca à canção.

Já as canções do Cidadão Quem, apesar de pouco conhecidas pelo público acima da região sul do Brasil, são cantadas a plenos pulmões pela plateia no teatro CIEE. E alguns dos melhores momentos de Pouca Vogal estão exatamente nessas músicas, especialmente "Girassóis" (uma das canções mais deliciosas do rock gaúcho), "Dia Especial" ("Se alguém / Já lhe deu a mão / E não pediu mais nada em troca / Pense bem, pois é um dia especial / Eu sei / Que não é sempre / Que a gente encontra alguém / Que faça bem / E nos leve desse temporal") e a animadinha "Música Inédita".

Curioso notar que somente quatro canções são parcerias entre Duca Leindecker e Humberto Gessinger, incluindo "A Força do Silêncio", que já havia sido gravada pelo Cidadão Quem. As outras inéditas foram compostas por um ou por outro. A melhor das inéditas, contudo, foi composta pelos dois. A faixa de abertura, "Depois da Curva", tem uma sonoridade leve e singela, além de uma letra que mistura o estilo mais complexo do Engenheiro e a simplicidade do Cidadão. "Breve", outra parceria, também vai pelo mesmo caminho da simplicidade, ao contrário de "Tententender", que, a despeito da letra de amor, ganhou um arranjo mais complexo, com a participação da POA Pops.

Das outras cinco inéditas, apenas a grave "Na Paz e Na Pressão" foi composta exclusivamente por Leindecker. As outras ("Além da Máscara", "Pra Quem Gosta de Nós", "Pouca Vogal" e "O Voo do Besouro") têm a assinatura do Engenheiro. Dentre elas, vale destacar a abstrata faixa cujo título dá nome à dupla e ao álbum: "Pouca vogal / Polka tri-legal / Meridional / Na serra, no vale / Oriundi alles blau / Samba sem know how / Pouca vogal". Ou então a deliciosa "Pra Quem Gosta de Nós", cuja letra pode ser um recado para os (novos) fãs do Pouca Vogal: "Pra quem gosta de nós é um prato cheio / Vento vai veloz vamos sem receio / Tudo amarrado ... Caminho do meio".

A banda Engenheiros do Hawaii é uma das mais importantes do rock Brasil. Nem Humberto Gessinger sabe dizer se haverá algum retorno. Mas, se houver, será muito bom observar até que ponto os Engenheiros podem se reformular após um trabalho tão interessante quanto este Pouca Vogal.


Leia também: Tim Maia - Racional (1974)

It Might Get Loud (A Todo Volume): o poder da guitarra!

quinta-feira, janeiro 28, 2010

Por Kid Vinil
Colecionador e Jornalista
Yahoo! Brasil

Três guitarristas de diferentes gerações que contam suas histórias e suas afinidades com o instrumento. Este é o tema do documentário It Might Get Loud (batizado como A Todo Volume aqui no Brasil), que estreia nos cinemas brasileiros nesta sexta-feira (29/01). O filme, que já saiu em DVD e Blu-ray, também fez parte da 33ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, no ano passado.

Os três guitarristas a que me refiro no começo desta coluna são nada mais nada menos que Jimmy Page, Jack White e The Edge. Representando a década de sessenta e os anos setenta temos Jimmy Page, o eterno guitarrista do Led Zeppelin. Page começou sua carreira dando canja com músicos de blues da cena inglesa de meados dos anos sessenta. Em 1967, fez parte dos Yardbirds, substituindo Jeff Beck. Essa sua fase no Yardbirds foi o embrião do Led Zeppelin, que ganhou forma em 1968, com o lançamento do primeiro álbum homônimo. O disco, gravado em apenas 30 horas de estúdio, é considerado um dos melhores discos de estreia de todos os tempos. O Led Zeppelin pode ser considerada a banda que dominou a década de setenta após a separação dos Beatles.

Já para geração da década de oitenta, o escolhido foi o músico irlandês David Evans, mais conhecido como The Edge, e famoso por sua banda, o U2. The Edge começou a tocar guitarra aos 17 anos de idade na escola, em Dublin, e aperfeiçoou uma técnica hi-tech que mudou o conceito de executar o instrumento nos anos oitenta.

E para retratar a guitarra nos dias de hoje temos Jack White (White Stripes, Raconteurs, The Dead Weather), segundo muitos jornalistas lá fora uma das figuras mais representativas das seis cordas nos últimos dez anos.

It Might Get Loud é um documentário que reflete o sonho de qualquer garoto interessado em rock e que vibra com uma Fender Stratocaster ou uma Gibson Les Paul, que brinca de ser Jimi Hendrix ou Kurt Kobain no game Guitar Hero.

Mas, acima de tudo, It Might Get Loud conta a trajetória desses três grandes músicos desde o início de suas carreiras, além de ter cenas incríveis. Uma delas mostra o Led Zeppelin ensaiando em Headley Grange (o lugar onde foram concebidos os principais discos da banda). Mostra Jimmy Page na sua mansão, com sua coleção de discos e demonstrando algumas de suas técnicas para tocar guitarra. Tem ainda cenas de The Edge em Dublin, no início do U2, e explica a concepção do álbum The Joshua Tree (1987) desde as demos até uma apresentação ao vivo da música "Where the Streets Have No Name".

Quem abre o documentário é Jack White, em sua casa no Tennessee (EUA), tocando um instrumento aborígene primitivo de uma só corda e amplificado. Mostra o músico em seu início de carreira, em Detroit, e revela sua aversão pelo excesso de tecnologia. Recentemente, Jack White montou um estúdio e uma gravadora em Nashville usando somente aparelhagem análoga (aparelhos de gravação usados antes da era digital), para captar melhor os efeitos das guitarras e dos instrumentos em geral, sem aquela clareza e falsa nitidez do som digital. Um detalhe interessante é que o guitarrista até já plagiou indiretamente Jimmy Page em certos riffs nas músicas de seus discos com suas três bandas. Mas isso o documentário omitiu, apenas reuniu os três guitarristas em Los Angeles para uma jam session, onde eles tocam slide guitar no clássico do Led Zeppelin, "In My Time of Dying", do álbum Physical Graffiti (1975), e ainda fazem uma jam da música "The Weight", clássico de 1968 do grupo The Band. Tem também os três tocando "Dead Leaves and the Dirty Ground", do White Stripes. Quem comanda essa jam do trio é Jack White, enquanto Jimmy Page, com seu jeito mais zen, explica suas técnicas para The Edge.

Esse é um documentário feito para os amantes desse instrumento, e explica perfeitamente a combinação guitarra e amplificador e seus recursos ilimitados. Cada um dos três músicos conta sua história e sua paixão pela música, seus mestres e suas técnicas.

Maravilhoso!!!



27 de jan de 2010

Discos Fundamentais: Elis Regina e Tom Jobim - Elis & Tom (1974)

quarta-feira, janeiro 27, 2010

Por Luiz Felipe Carneiro
Jornalista
Esquina da Música

Carros, apartamentos, viagens? Nada disso. Em 1974, Elis Regina estava comemorando dez anos na gravadora Philips. Por causa da data redonda, a gravadora queria presentear Elis com o que ela quisesse. A cantora, como não é boba nem nada, acabou optando por gravar um disco com o maestro Antônio Carlos Jobim - aliás, uma ideia original do produtor André Midani -, compositor que Elis mais gravou em toda a sua carreira, seguido de perto pela dupla João Bosco e Aldir Blanc. Sábia decisão, que acabou gerando um dos grandes discos da carreira de Elis, de Tom e de toda a música popular brasileira.

Um parêntese interessante aqui: em 1964 (exatos dez anos antes da gravação deste disco), Elis fez testes para estrelar o musical
Pobre Menina Rica, de Vinícius de Moraes e Carlos Lyra, na boate Au Bom Gourmet, no Rio de Janeiro. Tom Jobim acabou descartando a cantora - optando por Nara Leão -, dizendo que Elis ainda estava "cheirando a churrasco". Fecha parêntese.

Em seu livro
Música, Ídolos e Poder: do Vinil ao Download, André Midani fala um pouco sobre a concepção do álbum. "Elis ia celebrar dez anos de carreira em 1974, aniversário que merecia de todos nós a maior atenção. Menescal e Armando Pittigliani, em particular, queriam produzir um disco espetacular, memorável! Porém... Qual? Essa era a questão. (...) Voltando aos dez anos de carreira de Elis, em consenso com Roberto Oliveira - administrador da carreira de Elis Regina - Menescal, Armando e eu pensamos que Tom Jobim seria o parceiro ideal para a celebração. O maior compositor do Brasil em dueto com a maior cantora do Brasil."

Aceito o convite, Elis e seu marido Cesar Camargo Mariano viajaram para a Califórnia, e quando lá chegaram já estava instalado um clima tenso no ar. Tom Jobim não concordava com o fato de Cesar ficar responsável pelos arranjos, além de implicar com o seu piano elétrico. Tom chegou até mesmo a ligar para os maestros Claus Orgeman e Dave Grusin, que não puderam participar do projeto, por falta de tempo.

Conformado com a situação, o disco começou a ser gravado, com Elis colocando voz praticamente ao vivo nas canções, e Tom tocando piano em algumas faixas e violão em "Chovendo na Roseira". O maestro Bill Hitchcock também participou do LP, regendo uma orquestra de cordas em cinco de suas 14 faixas. O acompanhamento ficou por conta dos músicos que acompanhavam Elis naquele ano: Hélio Delmiro (guitarra), Luizão Maia (baixo), Paulo Braga (bateria) e Oscar Castro Neves (violão), além do próprio Cesar Camargo Mariano (piano elétrico e, eventualmente, piano acústico).

"Águas de Março", a primeira faixa do álbum - produzido por Aloysio de Oliveira e gravado nos estúdios MGM de Los Angeles em fevereiro e março de 1974 - talvez seja o dueto mais famoso da história da MPB. A canção já havia sido gravada anteriormente por Elis, mas o dueto com Tom consegue ser mais fantástico. Os dois casaram as suas vozes de uma maneira perfeita e espontânea, apesar do clima não muito favorável durante as gravações. Outros duetos de Tom e Elis também fazem parte do álbum. "Corcovado", além da voz, conta com o piano de Tom Jobim. As cordas regidas por Bill Hitchcock e o arranjo econômico de Cesar Camargo Mariano, com ênfase na voz da cantora gaúcha, fazem desta faixa outro grande momento do disco.

O famoso "Soneto de Separação", de Vinícius de Moraes, também é outro destaque. As vozes dramáticas de Elis Regina e Tom Jobim, somadas ao piano único do maestro, fazem da gravação uma das mais tristes do repertório de Elis. A última faixa do disco também é mais um dueto; mais do que isso, "Inútil Paisagem" é um encerramento perfeito. Apenas as vozes dos dois e o piano de Tom. Simples, econômico e magnífico.

Mas nem só de duetos vive
Elis & Tom. Se as músicas que têm a participação de Tom soam mais dramáticas, as faixas que contam apenas com Elis e sua banda são mais descontraídas e alegres. A impressão que fica é a de que, sem Tom ao seu lado, a cantora relaxou e se soltou mais. "Só Tinha de Ser com Você", "Triste", "Brigas, Nunca Mais" e "Fotografia" são bons exemplos. Todas estas quatro faixas são mais puxadas para a bossa nova, sem o peso das cordas de Bill Hitchcock. A bateria sincopada e a batida característica de violão se sobressaem, e a sonoridade fica bem mais leve.

Em outras faixas, como "Modinha" (com uma interpretação sensacional de Elis), "Retrato em Branco e Preto" e "Por Toda a Minha Vida", Tom participa com o seu piano. O resultado, como pode ser notado, é muito mais tenso e completamente diferente das quatro em que ele ficou de fora. Em "Chovendo na Roseira", Tom Jobim não só tocou piano, como também participou com o seu violão.

Em 2004 foi lançada a versão deste álbum em DVD-áudio, com uma mixagem em seis canais (5.1) supervisionada por Cesar Camargo Mariano a partir dos masters originais de oito canais. Além de todas as faixas do LP original, o DVD traz alguns diálogos entre Tom e Elis, além de uma versão alternativa mais rápida de "Fotografia" e a inédita (na voz dos dois) "Bonita".

Na contracapa do LP, Elis Regina escreveu o seguinte texto: "
Nos meus dez anos de gravadora ganhei de presente um encontro com Tom. Foram momentos vividos por duas pessoas muito tensas, que só conseguem se descontrair através da música. Ficou a saudade de um passado recente, em que as cores eram outras e as pessoas mais felizes."

Trinta e seis anos depois, uma coisa é certa: não foi só Elis que ganhou esse presente.


Faixas:
1 Águas de Março
2 Pois é
3 Só Tinha de ser com Você
4 Modinha
5 Triste
6 Corcovado
7 O que Tinha de Ser
8 Retrato em Branco e Preto
9 Brigas, Nunca Mais
10 Por Toda a Minha Vida
11 Fotografia
12 Soneto da Separação
13 Chovendo na Roseira
14 Inútil Paisagem

Discos Fundamentais: Ringo Starr - Ringo (1973)

quarta-feira, janeiro 27, 2010

Por Anderson Nascimento
Colecionador

Quando falamos em discos de Ringo Starr, pode parecer protecionismo de quem gosta dos Beatles - mas é verdade, houve um tempo em que o baterista mais querido do mundo tocava (e como!) nas rádios do mundo inteiro, inclusive (muito) no Brasil!

Quando os Beatles ainda eram uma banda na ativa nos anos 60, era de praxe que Ringo assumisse os vocais de uma das faixas dos álbuns lançados pelo quarteto inglês. Só que os fãs de Ringo queriam mais, pois o jeito irreverente e "esforçado" do baterista cantar era admirado por muitos, aumentando cada vez mais o seu carisma junto ao público.

Quando os Beatles separaram-se oficialmente em abril de 1970, a expectativa foi grande, afinal de contas o mais óbvio era que John Lennon, Paul McCartney, George Harrison e Ringo Starr lançassem álbuns e iniciassem suas respectivas carreiras como artistas solo. Isto de fato aconteceu, porém, para surpresa de todos, Ringo soltou dois discos no primeiro ano sem os Beatles: Sentimental Journey e Beaucoups of Blues. O primeiro, trazendo uma inimaginável coleção de standards como "Stardust" e "Night and Day" na voz anasalada do Ringo, e o outro uma coleção de clássicos da country music. E aí, o povo perguntou: cadê o Ringo de rocks como "Honey Don’t", "Boys" e "Don’t Pass Me By"?

Em abril de 1971, porém, o baterista novamente surpreendeu a todos com o compacto "It Don’t Come Easy", de sua própria autoria. O sucesso foi estrondoso, dando início a uma grande carreira fonográfica nos anos 70.

Lançando mais um compacto ("Back of Boogaloo", em 1972) e atuando em dois filmes (200 Motels e Blindman), Ringo começava a se preparar para lançar o seu primeiro álbum solo de rock propriamente dito. Porém, ninguém imaginava que o disco seria o sucesso que foi. De forma surpreendente, Ringo recrutou grandes artistas da época - o tecladista Billy Preston, o baixista Klaus Voormanm, Harry Nilsson, o pessoal do The Band, entre outros. Só isso já era o suficiente para termos um trabalho ao menos interessante. Mas a grandiosidade não parou por aí.

No dia 13 de março de 1973, no meio das gravações do LP, uma banda juntou-se para gravar a canção que abriria o disco, "I’m the Greatest", composição de John Lennon feita especialmente para o seu amigo Ringo. Essa banda foi composta por Ringo Starr na voz e na bateria, John Lennon nos vocais e piano, George Harrison na guitarra, Billy Preston no órgão e Klauss Voorman no baixo. Em termos práticos, a gravação dessa faixa foi uma reunião dos Beatles sem Paul, que foi substituído pelo conhecido de longa data (desde os tempos dos shows dos Beatles na Alemanha, no início dos anos sessenta) Klauss Voorman, acrescidos de Billy Preston - quem não lembra dele na gravação do filme/disco Let it Be? A faixa, fazendo jus à sua própria gravação, é grandiosa, cheia de efeitos e referências explícitas à "Sgt Pepper´s", composição dos Beatles.

O rock nada humilde era apenas a primeira faixa de um álbum caprichosamente preparado: a capa trazia ilustrações de todas as pessoas que participaram do disco, em uma espécie de plateia (também lembrando a capa de Sgt Pepper´s) para ver o grande Ringo. Um detalhe interessante é a presença dos três Beatles no centro do desenho, sem dúvida uma alusão à participação dos quatro no trabalho. Além disso, o disco vinha encartado com um belíssimo livreto de 24 páginas com desenhos de Klaus Voorman (que fez a capa de Revolver e da série Anthology, entre outras) para cada música do LP.

No dia 16 de abril chegavam ao estúdio Paul e Linda McCartney para a gravação de outra grande música de Ringo, a balada "Six O’Clock", com uma letra inspirada de Paul e que, segundo o próprio, é sua melhor balada desde "The Long and Winding Road". Pronto, estava completa a participação dos Beatles no disco. E é assim mesmo que a divulgação de Ringo foi anunciada mundo afora: "Os Beatles estão de volta!". E este LP foi sim, com certeza, o momento mais próximo de uma reunião do quarteto.

Tirando a já citada "Six O’Clock", "Step Lightly" (composição de Ringo), "You and Me", e adicionando o mega sucesso "Photograph" - que é na verdade mais uma participação Beatle, pois a canção é de autoria de George Harrison e Ringo, além de ter a guitarra de George na música -, o restante do play é recheado de rock and rolll. Falando em "Photograph", vale lembrar que a canção permaneceu dezesseis semanas no topo das paradas, tornando-se um dos singles mais bem sucedidos daquele ano. Não à toa, Ringo até hoje toca a faixa em seus shows.

O álbum gerou ainda mais dois singles: "You’re Sixteen" - que assim como "Photograph" ainda é executada nos shows - e "Oh My My". A primeira permaneceu várias semanas na primeira posição, e a segunda chegou ao quinto lugar nas paradas. Isso gerou uma verdadeira overdose de Ringo Starr nas rádios. O episódio foi tão inusitado que John Lennon enviou-lhe um telegrama com a seguinte mensagem: "Por favor, escreva-me uma canção de sucesso."

Na maioria dos rocks contidos no disco vemos as referências de Ringo e sua já treinada voz para esse tipo de som. É o caso de "Have You My baby", uma porrada de arrasar, principalmente pela introdução de guitarra de Marc Bolan, do T.Rex. Outro momento de tirar o fôlego é "Devil Woman", com vocal rasgado e bateria e guitarras também pesadas - mais um entre os grandes mometos do play.

Ringo é um disco que entrou para a história, tanto pelo seu formato quanto pelas participações especiais - e, principalmente, pelas suas grandes canções. Depois disso, Ringo manteve a fórmula de participações especiais em seus trabalhos posteriores, lançandobons discos como Goodnight Vienna (1974) e Ringo´s Rotogravure (1976), último disco seu a fazer sucesso no Brasil.

Na década de oitenta Ringo Starr não teve tanto êxito musical, porém retornou com tudo em 1992 com Time Takes Time e criou a sua All Starr Band, que o levou de volta aos palcos de todo o mundo, até que lançou Vertical Man (1998) e Ringo Rama (2003), dois discos que trouxeram de volta o alto nível de Ringo para a carreira do baterista.


Faixas:
A1 I'm the Greatest 3:23
A2 Have You Seen My Baby (Hold On) 3:43
A3 Photograph 3:58
A4 Sunshine Life for Me (Sail Away Raymond) 2:44
A5 You're Sixteen 2:50

B1 Oh My My 4:17
B2 Step Lightly 3:15
B3 Six O'Clock 5:26
B4 Devil Woman 4:01
B5 You and Me (Babe) 4:48

A urina da verdade: todo fã é um idiota

quarta-feira, janeiro 27, 2010

Por Regis Tadeu
Colunista do Yahoo! Brasil
Yahoo! Brasil

A esta altura do campeonato, você já deve ter visto uma das cenas mais degradantes dos últimos tempos na TV e na internet. Trata-se de uma cena - simulada ou não - em que uma garota desprovida de qualquer traço de inteligência e bom senso expôs sua lamentável figura em uma situação absurdamente vexatória no programa Rock Estrada, do Multishow, que abordou o cotidiano de uma banda de 19ª categoria chamada Strike (veja aqui). No vídeo, ela aparece bebendo uma mistura de suco, gelo e urina elaborada pelo baterista, um pateta que parece ter vários cromossomos a menos em seu DNA.

Nem vou discutir se a cena é verídica ou não - isso não importa. O que vale mesmo é a intenção de mostrar qual é o apreço que o artista ou quem quer que tenha uma banda demonstra em relação ao seu fã. Claro que há exceções, mas a grande maioria dos fãs é tratada exatamente como se vê no vídeo: com desprezo, arrogância e imbecilidade.

Filmada e desmoralizada em rede nacional, a garota pagou mais que um papel de trouxa. O que ela mostrou foi simplesmente uma completa falta de respeito para consigo mesma, uma atitude que é muito comum naquele tipo de fã histérica, que suporta ser tripudiada caso isso propicie uma maior proximidade com seu ídolo.

Claro que beber urina é pouco se comparado ao ato de ouvir uma única música dessa bandeca do início ao fim. Claro que cada um tem os ídolos que merece. Porém, de forma lamentável, essa garota - que parece não se importar com o que aconteceu, segundo averiguei - deixou claro que o elo da corrente que liga uma banda ao seu público não passa de uma maneira de se divertir às custas da imbecilidade alheia. É como se o batera e seus companheiros cúmplices dissessem "
é isto que vocês, que vão aos nossos shows e compram o nosso disco, merecem - um copo de mijo bem geladinho".

E outra coisa: parte desse vexame também deve ser creditado ao diretor do tal programa. Ao permitir que tais imagens tenham ido ao ar, ele simplesmente demonstrou o que pensa a respeito do telespectador. Gostaria muito de saber qual seria a atitude do tal diretor se a garota em questão fosse a sua filha ou um parente de algum executivo da emissora.

Sinceramente, alguma coisa precisa ser feita. Caso contrário, teremos no futuro gerações inteiras de idiotas - uma olhada na comunidade da banda do Orkut dá uma boa ideia do que espera os seus filhos daqui a alguns anos. É de estarrecer os mais otimistas. A gente fica com vontade de defender a tese de que certas pessoas deveriam ser impedidas de se reproduzirem.

Tempos atrás, escrevi aqui no
Yahoo! um texto que causou certa indignação por parte justamente de uma massa de pessoas pouco pensantes, que não se conformaram em ver sua idolatria ser tratada como tintas racionais. Reproduzo abaixo esse texto, que cai bem a calhar nesta história toda:

Todo fã é um idiota

Sim, é isso mesmo o que você acabou de ler aí no título deste artigo.

Antes de tudo, é preciso deixar claro: fã é todo aquele ser que chora por seu ídolo, que coleciona pastas e pastas com fotos de seu objeto de desejo, que tem seu quarto forrado de pôsteres do alvo de seu fanatismo (palavra que, não à toa, originou o termo "fan" ou "fã", dando uma 'abrasileirada'), que chora na porta de camarim, que passa dias e dias na fila, esperando o momento de entrar no local onde acontecerá o show de seu "amor não correspondido". Ou seja, é o retrato nu e cru, despido de qualquer racionalidade, de um idiota.

Se você é daquelas pessoas que adora o seu ídolo de uma maneira equilibrada, que aprecia o seu trabalho quando o cara manda bem, mas reconhece as pisadas na bola e os vacilos, então você não é um fã, mas sim um admirador. Você simplesmente gosta da banda ou de quem quer que seja. Você não o ama, não chora por ele, não grita, não se desespera quando um pedido de autógrafo é recusado, não pensa em cortar os pulsos quando recebe a notícia que seu "amor" vai se casar com uma outra pessoa que não é você. Você não é um fã. Você não é um imbecil.

E a verdade precisa ser dita, mesmo que ela seja muito dolorida para quem está lendo este artigo neste exato momento: o artista também acha que o seu fã é um idiota.

Ele sabe que esse amor desmedido é uma bobagem, um transtorno hormonal muito comum em adolescentes - embora sejam frequentes os casos de pessoas mais velhas se portanto como bobalhões (em caso de dúvida, vá até a porta de um hotel de luxo que esteja hospedando um artista internacional e veja com seus próprios olhos).

O artista quer que você compre o disco dele e vá aos shows, que demonstre explicitamente a sua devoção comprando a camiseta da turnê, a edição especial do CD que está sendo "trabalhado" na turnê, o chaveirinho, o imã de geladeira. Todo artista no fundo, pensa "
me ame, me idolatre, compre todas as bugigangas que eu soltar no mercado, mas fique longe de mim". Lamento, mas esta é a pura verdade.

O pior é que a maioria dos artistas lança discos com canções pensadas em agradar a essa massa bovina de seguidores, que salivam por qualquer coisa que seu ídolo faça. Mas há exceções.

Existem bandas, cantores e instrumentistas que, genuinamente, se engajam na tarefa de soltar discos que realmente trazem um panorama fiel do que pensam em termos de música. Os exemplos são muitos: no setor internacional, Frank Zappa, Miles Davis, Jimi Hendrix, Robert Fripp e Radiohead, entre muitos outros; aqui no Brasil, Caetano Veloso e Marisa Monte representam bem a autonomia artística que muita gente persegue, mas poucos conseguem alcançar. Você pode não gostar das canções que eles criam, mas tem que reconhecer a independência musical de cada um deles.

Surpreendentemente, o exemplo mais recente desse tipo de busca por uma personalidade musical distanciada da idolatria babaca veio de onde menos se esperava.

Confesso que sempre achei o Fall Out Boy uma banda simplesmente execrável. Suas músicas são fraquíssimas, os arranjos são absolutamente previsíveis e seus integrantes não têm o menor carisma - a condição de
sex symbol do baixista Pete Wentz é algo que só pode ser explicado como uma epidemia coletiva de estupidez e cegueira entre adolescentes. Por isso, qual foi a minha surpresa ao ouvir o mais recente disco do quarteto, Folie à Deux.

Não, a banda não gravou um novo
Pet Sounds, mas é nítido que os caras tinham em mente deixar para trás o rastro da baba elástica e bovina adolescente (obrigado, Nelson Rodrigues!) que sempre inundou seus discos anteriores. A maioria das canções traz arranjos enxutos e certeiros, com boas ideias melódicas e harmônicas tanto nos vocais quanto na instrumentação - como em "Headfirst Slkide Into Cooperstown on a Bad Bet", "20 Dollar Nose Bleed" e "Coffee's for Closers".

Claro que os caras ainda mandam porcarias - "She's My Wynona" e "27" são de matar de tão ruins em sua descartabilidade sônica -, mas há vários momentos que chegam a ostentar uma certa suntuosidade, misturada a riffs de guitarra bastante pesados e até mesmo a algumas minúsculas pitadas de rhythm n' blues e soul. Os caras chegaram até a tomar alguns acordes emprestados de "Baba O'Reilly", The Who, para fazer "Disloyal Order of Water Buffaloes" - vamos combinar que isso é um avanço para quem sempre usou o Less Than Jake como referência neste quesito -, enquanto que o vocalista Patrick Stump não esconde seu fascínio por Elvis Costello, seja na hora de cantar, seja na hora de convidá-lo para dividir o microfone na linda "What a Catch, Donnie".

Quem realmente gosta de música vai descobrir que, aos poucos, grupos como My Chemical Romance, Panic at the Disco e o próprio Fall Out Boy começam a levantar vôo para longe da gritaria histérica e da choradeira patética de seus fãs. Torço para estes grupos consigam o seu objetivo e que seus seguidores acompanhem tal desenvolvimento.

Poucas coisas são piores que adultos trabalhando, pensando e agindo como crianças de quinze anos de idade.

Pedra lança novo single: ouça aqui!

quarta-feira, janeiro 27, 2010

Por Ricardo Seelig
Colecionador

Um dos grupos mais legais do rock brasileiro atual acaba de lançar um novo single. Os paulistanos do Pedra liberaram a faixa "Queimada das Larvas nos Campos sem Fim" para download e audição em seu site. Você pode ouvir aqui.

O novo som traz elementos do rock rural de nomes como Sá, Rodrix & Gurarabyra unidos às tradicionais influências de hard rock setentista presentes no som do grupo. O resultado final ficou muito bom!

O Pedra é formado por Rodrigo Hid (vocal e guitarra), Xando Zupo (guitarra), Luiz Domingues (baixo) e Ivan Scartezini (bateria), e já tem dois discos na praça - Pedra (2006) e Pedra II (2008).

Ouça o novo single e diga o que você achou da faixa nos comentários.




Mofodeu estreia novos site, blog e feed

quarta-feira, janeiro 27, 2010

Por Vitor Bemvindo
Historiador e Colecionador
Mofodeu

Depois de merecidas férias, o Mofodeu está de volta com muitas novidades. A primeira delas é o novo site, totalmente reformulado para facilitar o acesso. No novo site você poderá baixar todos os episódios com mais facilidade e clareza. Além disso, o site está com novo visual, mais clean e leve, e que deixa a navegação mais amigável. Para conferir todas as novidades do novo site do Mofodeu, acesse: www.mofodeu.com

Uma grande novidade do Mofodeu é a inauguração do nosso blog, o MofoBlog, que a partir de agora passará a reunir todos os textos produzidos por Vitor Bemvindo para sites parceiros como a Collector’s Room e o Whiplash!. Todos os textos já estão reunidos no blog e, agora, os artigos relacionados aos podcasts estarão disponíveis primeiramente no MofoBlog. O blog ainda está em processo de construção, com os posts sendo editados, mas o conteúdo já está todo disponível. Para ler, basta acessar: www.mofodeu.com/mofoblog

Mas talvez a principal novidade do Mofodeu seja a disponibilidade de um endereço Feed/RSS com todos os episódios do programa para serem baixados. Agora você pode baixar os Mofodeus sem precisar acessar o site, basta adicionar o nosso Feed no seu agregador (através do iTunes e do Winamp é possível baixar tudo automaticamente). Adicione: http://www.mofodeu.com/?feed=podcast

Para adicionar diretamente no iTunes, basta clicar no link: itpc://www.mofodeu.com/?feed=podcast

O primeiro episódio do ano também já está no ar. É o segundo da série Anuário Mofodeu, sobre o ano de 1966. Para ouvir, acesse o site: http://www.mofodeu.com/?p=701

São muitas as novidades! Aos poucos vamos desvendando todos os mistérios e dúvidas que possam ficar.

Tenham um feliz 2010 com o Mofodeu!

26 de jan de 2010

Discos Fundamentais: Metallica - Metallica (1991)

terça-feira, janeiro 26, 2010

Por Bruno MacDonald
Crítico Musical
Record Collector

Nem só Garth Brooks e Eagles estão entre os mais vendidos de todos os tempos. Há também Led Zeppelin, AC/DC e Guns N´Roses. Quem tem o maior peso nessa parada, contudo, é o Metallica.

O grupo da cena musical de Los Angeles/São Francisco tornou-se conhecido fora da confraria do metal quando ... And Justice for All ficou entre os dez primeiros da parada da Billboard, um feito notável numa época em que o sistema SoundScan ainda não tinha levado Pantera e Skid Row ao topo das paradas.

Mas ... And Justice for All era um animal grandioso, e suas músicas eram tão complexas que o grupo tinha dificuldades para tocá-las ao vivo. Assim, para Metallica - também conhecido como Black Album -, eles contrataram o produtor de hits Bob Rock, conhecido por uma linha de trabalho simplificada, já que a banda tinha ficado impressionada com o trabalho dele para o álbum Dr Feelgood, lançado em 1989 pelo Motley Crue.

O resultado - há anos-luz de distância do som do Motley Crue - foram as músicas mais concisas da história do grupo, com riffs brutais e uma bateria que marcava padrões agressivos, com estruturas mais simples e menos indulgência do guitarrista Kirk Hammett.

Até mesmo as faixas mais épicas - "Wherever I May Roam" e "Nothing Else Matters" - mantém o interesse, graças às cítaras e aos instrumentos de corda, com arranjos do colaborador do Pink Floyd, Michael Kamen.

Hammett, o baterista Lars Ulrich e o baixista Jason Newsted dão contruibuições fundamentais, mas a estrela é James Hetfield. A sua voz (aterradora, mas bem colocada), a sua guitarra demolidora (e "Sad But True", por exemplo) e as letras eloquentes formam um coquetel letal que converteu músicas como "Enter Sandman" em clássicos imediatos.


Faixas:
A1 Enter Sandman 5:29
A2 Sad But True 5:24
A3 Holier Than Thou 3:47

B1 The Unforgiven 6:25
B2 Wherever I May Roam 6:42
B3 Don't Tread on Me 3:59

C1 Through the Never 4:01
C2 Nothing Else Matters 6:29
C3 Of Wolf and Man 4:16

D1 The God That Failed 5:05
D2 My Friend of Misery 6:47
D3 The Struggle Within 3:51

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