28/05/2010

Rolling Stone espanhola com Rolling Stones na capa


Por Ricardo Seelig
Colecionador
Collector´s Room

A edição espanhola da revista Rolling Stone traz em sua edição de junho uma capa em homenagem aos Rolling Stones. Metade da tiragem da revista circulará com Mick Jagger, e outra com Keith Richards na capa. Dentro, uma matéria especial e exclusiva sobre o relançamento do clássico Exile On Main St.

Agora, a pergunta que não quer calar: e a edição brasileira da Rolling Stone vai colocar quem na capa? Preta Gil?



27/05/2010

Johnny Winter – Via Funchal (São Paulo – 22/05/2010)


Por Bento Araújo
Colecionador e Jornalista
Editor da poeira Zine

Sem brincadeira, desde que me conheço por gente tomei conhecimento de que Johnny Winter “viria” se apresentar no Brasil por no mínimo umas seis vezes. Winter é disparado o campeão de cancelamentos por aqui. Seus shows eram marcados e divulgados, os ingressos eram vendidos, e na hora “H” o show era cancelado sem mais explicações. As desculpas eram as mais diversas possíveis: “Johnny não aguenta mais fazer longas viagens de avião, por isso ele nunca vai vir tocar aqui”; “o remédio que ele toma não pode entrar no país”; etc, etc, etc. Desde meados dos anos 80 era a mesma história. Isso chegou num ponto que quando alguém chegava pra mim e dizia: “Você viu que vai ter show do Johnny Winter?” eu simplesmente dizia: “Conta outra… Esse eu só acredito vendo, ali na cara do palco”.

Confesso que dessa vez, quando o show foi marcado, algo me dizia que agora iria rolar pra valer. Era a nossa chance de ver aquele texano que surgiu para o mundo da música em 1969, e que desde a sua aparição no Festival de Woodstock naquele mesmo ano não parou de brilhar na cena do rock e do blues.

Winter veio, apareceu de verdade dessa vez, e que emoção! Tanto ele como a platéia parece que sabiam disso, todos sabiam que o encontro havia demorado décadas, mas finalmente havia chegado. Winter veio andando com dificuldade, sentou no seu banquinho e mostrou para os brasileiros o que é música feita com emoção e verdade. Sabedoria pura jorrando de sua guitarra e de seu microfone.


A banda de apoio era sensacional, todo mundo com energia, pegada e técnica na medida. Do lado direito de Winter, o guitarrista Paul Nelson, seu Messias, o cara que o trouxe de volta aos palcos e aos discos. Todos nós brasileiros devemos uma cerveja a Paul, pode apostar!

O som estava bom, coisa rara em se tratando de Brasil, e Johnny fez um set especial, tocando clássicos especialmente pinçados para sua tour brasileira, tirando do baú temas que ele há tempos não tocava em suas tours pelo exterior. O show foi transmitido no telão, porém o equipamento de vídeo da Via Funchal é uma decepção completa. Imagem borrada, sem definição alguma. Em plena era de ouro da resolução HD, você paga 300 reais para assistir um show exibido num telão com resolução digna de uma fita Betamax. Lamentável!

Quando Winter detonou uma sublime versão de “Good Morning Little School Girl” (aquela mesma que aparece em seu primeiro álbum pela Columbia/CBS, de 1969), todos já estavam rendidos. O que dizer diante daquela entidade da história da música, peça única da história do rock e do blues? O jeito era curtir cada solo, cada slide do mestre.

Hendrix foi homenageado com uma emocionante e longa versão de “Red House”, que ainda teve citações à “Sunshine of Your Love” do Cream. Outros destaques do set foram “She Likes to Boogie Real Low”, “Hide Away”, “Bonny Moronie”, “It’s All Over Now” e a sempre obrigatória releitura de “Highway 61 Revisited”, de Bob Dylan, que veio como encore, onde Winter surgiu carregando sua legendária Gibson Firebird, sua antiga companheira de guerra.

Johnny Winter saiu completamente ovacionado. A emoção era palpável no ar, a lenda deu sua graça por aqui. Quem ficou em casa perdeu. Muitos disseram: “Se for para ver Winter nesse estado quase terminal, eu prefiro não ver”. Mal sabem eles que, mesmo ali sentadinho, com dificuldade de andar e quase não enxergando nada, nosso novo velho amigo albino deu uma aula, tocando com garra e paixão, e mostrando muita verdade em cada nota.

Foi surpreendente? Sim, muito, pois eu mesmo confesso que não estava esperando tanto dessa apresentação. Foi mais que um show, foi uma aula de simplicidade, de história, de veracidade musical e de vida. Enfim, uma aula de blues.

Contrastando infinitamente com o show do dia anterior (ZZ Top, também na Via Funchal), Johnny Winter e sua banda tiraram o atraso de décadas em questão de horas, mostrando a força e a simplicidade do verdadeiro blues texano. Que Deus abençoe o nosso novo/velho amigo Johnny.

Na nova edição da revista poeira Zine você confere um artigo especial sobre o início da carreira de Johnny Winter. Mais detalhes no site www.poeirazine.com.br


26/05/2010

Uma Temporada no Inferno com os Rolling Stones: a história de como nasceu Exile on Main St, um dos maiores clássicos da história do rock


Por Ricardo Seelig
Colecionador
Collector´s Room

Robert Greenfield esteve no olho do furacão. Entre 1970 e 1972 editou, diretamente de Londres, a tradicionalíssima revista Rolling Stone, uma das mais importantes e influentes publicações musicais daquela época. Sua experiência com o contato direto e quase diário com artistas que se tornaram ícones de gerações o levou a escrever sobre suas aventuras, gerando obras obrigatórias para quem se interessa pela história da música pop, como A Journey through America with the Rolling Stones, Bill Graham Presents: My Life Inside Rock and Out, Dark Star: An Oral Biography of Jerry Garcia, Timothy Leary: A Biography, entre outros.

O mais recente livro de Greenfield, Uma Temporada no Inferno com os Rolling Stones (título original: Exile on Main St.: A Season in Hell with The Rolling Stones) conta em detalhes um dos períodos mais complicados da carreira dos Stones. No início dos anos setenta a banda estava literalmente falida, em um reflexo direto do contrato que haviam assinado com o empresário Allen Klein, famoso tanto por elevar as carreiras de seus contratados a um novo patamar, quanto por desviar somas exorbitantes desses mesmos artistas. Da mesma maneira que havia feito com os Beatles, Klein submeteu os Rolling Stones a um rígido controle financeiro, só fazendo chegar aos músicos somas muito pequenas de dinheiro, e ainda assim somente após insistentes pedidos.


Quando perceberam, os Stones eram escravos de Klein. Com a ajuda do príncipe austríaco Ruper Ludwig Ferdinand vu Loewenstein-Wertheim-Freudenberg, amigo pessoal de Mick Jagger, consultor financeiro da banda e diretor do banco mercantil britânico Leopold Joseph, o grupo traçou uma estratégia para, simultaneamente, se ver livre das garras sedentas de Klein e do apetite absurdo do leão inglês, que abocanhava inacreditáveis 93% dos rendimentos gerados pelo conjunto. Para se ter uma ideia, pelos cálculos de Loewenstein, Klein devia 17 milhões de dólares ao grupo. Se hoje essa quantia já é fabulosa, imagine há quase quarenta anos atrás.

Os advogados dos Stones, sob a orientação de Loewenstein, sentaram-se com os representantes de Allen Klein e, após uma sessão final de negociações que durou 36 horas ininterruptas, fecharam um acordo onde Klein pagaria 2 milhões de dólares ao grupo e ficaria com as masters e os direitos de editoração de toda a obra gravada pelos Rolling Stones até 1970, incluindo não apenas tudo o que já havia sido lançado pelo grupo, mas também gravações inéditas registradas no período. Ou seja, Klein estava rindo à toa, enquanto os Stones precisavam imediatamente resolver suas finanças.


A solução encontrada pelo grupo foi partir para um auto-exílio na França, onde gravariam um disco e, logo em seguida, sairíam em turnê. Um a um, cada integrante da trupe dos Stones partiu para a costa francesa. A base do grupo foi estabelecida na mansão alugada por Keith Richards em Vila Nellcote, transformada em quartel-general durante a estada francesa da banda e que, segundo histórias contadas por moradores locais, havia servido de refúgio para nazistas em fuga após a Segunda Guerra Mundial.

Para quem vê de fora, tudo parecia estar entrando nos eixos, certo? Afinal, você é um dos maiores rockstars do mundo, toca na maior banda do planeta, seu último álbum foi aclamado pela crítica (o excelente Sticky Fingers, de 1971) e você está prestes a gravar o seu próximo disco em uma enorme mansão às margens da costa meditarrânea. O problema é que nem tudo eram flores para os Rolling Stones naquele momento.


Além do caos financeiro causado pela parceria com Allen Klein, o quinteto enfrentava outros problemas. Keith Richards e Anita Pallenberg, sua namorada e futura esposa, com quem teria dois filhos, estavam afundados em heroína, consumindo a droga como quem masca chicletes. Por outro lado, Mick Jagger estava prestes a se casar com a modelo Bianca Perez Morena de Macias – futura senhora Bianca Jagger –, e logo depois veria o nascimento de sua primogênita, Jade. Bill Wyman e Charlie Watts, acompanhados de suas respectivas esposas, mantinham uma distância sadia da mansão de Keith, enquanto Mick Taylor, ao mesmo tempo em que gravava passagens fenomenais com sua guitarra nas canções que iriam figurar em Exile on Main St., era assombrado por suas inseguranças e medos, revelando os primeiros sinais que o levariam, mais tarde, a sair do grupo.

O relato de Robert Greenfield está repleto de detalhes que apenas quem viveu, pessoal e intimamente, aquele período em Vila Nellcote poderia contar. Seu texto é ágil e fácil, tornando a leitura do livro uma experiência empolgante. Página após página, somos apresentados a personagens que faziam parte do cotidiano dos Rolling Stones naquela época, nomes como Marianne Faithful, o pequeno Marlon – filho de Keith e Anita –, Gram Parsons, o fotógrafo Michael Cooper (autor da capa de Their Satanic Majesties Request), Marshall Chess (herdeiro da Chess Records e responsável por tocar a recém criada Rolling Stones Records), o produtor Andy Johns, Tony Sanchez (o folclórico Tony Espanhol, traficante pessoal dos Stones e chapa de Keith), Jean de Breteuil (playboy e aristocrata francês, cujos serviços como traficante incluem, segundo os mais bem informados, a dose de heroína que causou a overdose fatal de Jim Morrison em Paris), o bon vivant Tommy Weber e seus filhos Jake e Charlie (como curiosidade, vale dizer que Jake Weber faz o papel, atualmente, do marido de Patricia Arquette na série Medium, transmitida no Brasil pela Sony), além de inúmeros outros que vão surgindo como coadjuvantes ao longo do livro.


A aventura dos Stones se revela uma jornada sem fim. Sob o sol escandante do litoral francês, enquanto Keith e Anita se entopem de heroína, Mick e Bianca se mudam para Paris para curtir sua lua de mel. O tal disco, a razão pela qual o grupo se mudou para a França, fica infinitamente em segundo plano, deixado de lado enquanto os Glimmer Twins e sua trupe tinham outras prioridades. Aos poucos o ambiente de Villa Nellcote revela-se um inferno, com os Stones embarcando em uma viagem caótica, turbinada pela dependência cada vez maior de Keith Richards. A produtividade de Keith, tradicionalmente a força motriz por trás das composições do grupo, acaba comprometida pelo seu vício cada vez maior, com o guitarrista assumindo um comportamento similar aquele que tanto criticava em Brian Jones, quando esse último aparecia pra lá de chapado nas sessões de gravação da banda. Para constar, Keith só colocaria um fim em seu romance com a heroína no final da década de 1970, após ser preso no Canadá com 28 gramas da droga e ser condenado pela justiça local.

E assim os dias se arrastam. Ideias esparsas surgem de tempos em tempos, e os demais integrantes tentam evoluí-las, quase sempre sem a presença de Keith e Mick. Enquanto isso, pessoas cada vez mais estranhas transformam-se em visitantes habituais de Villa Nellcote, como os traficantes corsos que mais parecem personagens do filme Homens de Preto, isso sem falar em toda a fauna freak local.


Enquanto Keith isola-se cada vez mais, Anita dá asas a sua paranóia e vai tornando a vida de todos na casa uma sucessão de causos inacreditáveis. Obcessiva por natureza, a linda modelo que marcou a vida de três Stones (além de Richards, Anita Pallenberg manteve romances com Brian Jones e Mick Jagger) assume, a princípio, o papel de rainha louca da mansão, mas aos poucos as suas atitudes se transformam em piada entre os frequentadores da casa, fazendo com que Anita vire apenas mais um personagem curioso na rica galeria de tipos esquisitos de Vila Nellcote.

Em algumas passagens o livro de Greenfield assemelha-se a um romance policial, repleto de intrigas e tramas paralelas. A relação entre os moradores de Nellcote e sua interação com a comunidade que os cerca gera inevitáveis conflitos. Greenfield narra esses encontros de forma bastante detalhada, prendendo a atenção do leitor com histórias que, em alguns momentos, parecem saídas de contos quixotescos.


Para mim, dois aspectos do texto de merecem uma pequena crítica. O primeiro é que ao ler a orelha e os trechos da contracapa do livro, têm-se a sensação de que Uma Temporada no Inferno com os Rolling Stones tratá muito mais detalhes e curiosidades sobre o comportamento dos Stones naquele período do que realmente traz. Ou seja, a propaganda promete mais do que o livro realmente entrega. Pode ser apenas uma sensação pessoal minha, que sempre fui um devorador da intimidade mórbida de meus ídolos, mas tenha a impressão que se Greenfield fosse um pouco mais fundo e, sobretudo, tivesse a coragem de publicar tudo o que realmente viu, o livro seria melhor do que já é.

A outra questão é o esforço contínuo que Robert Greenfield faz para desacreditar toda e qualquer informação que tenha como fonte Tony Espanhol. Tudo bem que as memórias de um traficante naquele início dos anos setenta não configuram, realmente, uma fonte das mais confiáveis, mas daí eu pergunto: no que elas se diferem das lembranças de quem estava do outro lado do barco, vivendo o cotidiano daqueles dias, geralmente entorpecido com os produtos que Tony fornecia? O ranço de Greenfield me soa mais como uma lance pessoal, uma antipatia em relação ao fornecedor habitual dos Stones, do que qualquer outra coisa.

Mas esses pequenos deslizes não desmerecem, em nenhum momento, a qualidade do livro. Uma Temporada no Inferno com os Rolling Stones é uma obra indicadíssima para quem se interessa pela história do rock e de um de seus principais protagonistas, e uma de suas maiores qualidades é justamente trazer uma visão de dentro para fora, com o relato de quem viveu aquela época na mesma sintonia dos músicos. Sem dúvida, uma ótima obra sobre aquela que, desde sempre, é conhecida como a maior banda de rock do mundo.



25/05/2010

Rigotto´s Room: John Lennon, Paul McCartney, George Harrison e ... Jimmy Nicol?


Por Maurício Rigotto
Escritor e Colecionador
Collector´s Room


John Lennon, Paul McCartney, George Harrison e Jimmy Nicol. Pouca gente sabe, mas essa foi a formação dos Beatles durante dez dias, em junho de 1964. Neste ano, o maior fenômeno já visto na música pop estava conquistando o mundo. Os álbuns Please Please Me e With the Beatles, lançados no ano anterior, somados ao enorme sucesso dos compactos com as músicas “She Loves You” e “I Want to Hold Your Hand” desencadearam a Beatlemania, termo cunhado para designar o imenso frenesi coletivo que assolou os fãs do conjunto.

A Beatlemania surgiu em outubro de 1963, quando os Beatles tocaram as canções “She Loves You” e “Twist and Shout” no programa Val Parnell´s Sunday Night at the London Palladium, transmitido ao vivo pela rede de televisão ATV para 15 milhões de telespectadores. Na rua em volta do London Palladium milhares de adolescentes, a maioria garotas, gritavam ensandecidamente pela banda, sendo que os Beatles quase não conseguiram passar o som. Outras redes de televisão vieram cobrir o enorme tumulto e documentaram, na saída do show, o grupo ser quase esmagado pela multidão enlouquecida. No dia seguinte, todos os jornais noticiavam em suas primeiras páginas a confusão do dia anterior. Quase nada foi escrito sobre a apresentação do conjunto. As notícias tentavam explicar o comportamento dos fãs, algo inédito até então na história da música. Nesses jornais apareceu pela primeira vez o termo “Beatlemania”, o que chamou ainda mais a atenção para a banda.

Em fevereiro de 1964 os Beatles fizeram a sua primeira visita à América, com uma turnê pelos Estados Unidos. Conquistado o outro lado do Atlântico, o grupo terminou as filmagens de seu primeiro filme, A Hard Day´s Night, e o seu terceiro LP, com a trilha do filme. Começaria então uma grande maratona de viagens e shows internacionais.


No dia 3 de junho o grupo partiria para a Escandinávia, Holanda e Austrália. No dia anterior, durante uma sessão de fotos, o baterista Ringo Starr não sentia nada bem, apresentando febre alta. Ringo foi levado a um hospital e diagnosticado com faringite, uma inflamação que atingiu sua faringe e amígdalas, obrigando-o a ser hospitalizado para o tratamento. Sem possibilidade de adiar a excursão em cima da hora, George Martin sugeriu um baterista de estúdio para substituir Ringo nessa digressão. Os três Beatles foram contra, sendo George Harrison o mais relutante, que, nervoso, argumentava que se não fossem os quatro, não seriam os Beatles. Coube a George Martin e ao empresário Brian Epstein convencer John, Paul e George sobre a importância dessa turnê para o grupo, que estava em franca ascensão e não poderia simplesmente não aparecer para realizar os shows que milhares de fãs aguardavam.

Apesar dos relutantes protestos, George Martin chamou o baterista Jimmy Nicol para a tarefa. Martin conhecia Jimmy por esse ser um baterista de estúdio já familiarizado com as músicas dos Beatles, tendo já tocado em uma compilação com covers da banda chamada justamente de Beatlemania. Nicol foi convocado menos de 24 horas antes do embarque. George Martin ainda o levou ao cabeleireiro para dá-lo um corte de cabelo Beatle antes de partir. Jimmy Nicol, nascido em 1939, tinha 24 anos na ocasião.

Ao chegar à Dinamarca, o até então ilustre desconhecido, juntamente com os já famosos membros da banda, foi cercado por dezenas de fãs que gritavam e tentavam tocá-lo, sendo que até tentaram rasgar suas roupas. Literalmente, de uma hora para outra, Jimmy Nicol foi retirado de seu anonimato e lançado no olho do furacão da Beatlemania, ao menos por alguns dias.


Há algumas gravações em áudio, de péssima qualidade sonora, dos shows dos Beatles com Jimmy Nicol em bootlegs. Em meados dos anos noventa os Beatles lançaram a caixa com cinco DVDs Anthology, onde a passagem de Jimmy pela banda foi contada durante o documentário, com algumas imagens do grupo com o baterista substituto.

Pensava eu que essas seriam as poucas imagens existentes que documentariam essa excursão, mas recentemente caiu em minhas mãos o DVD bootleg The Beatles in the Netherlands, um grande documentário com cerca de noventa minutos com raríssimas imagens dos shows, bastidores, entrevistas coletivas, programas de televisão e chegadas a aeroportos, onde podemos literalmente acompanhar como foi a tour de John, Paul, George e Jimmy. Trata-se de um material essencial para nós, os beatlemaníacos, pois apresenta excelentes imagens, nunca vistas até então, de um momento singular na história do grupo, pois foi a única vez que o quarteto teve um membro substituto durante a sua trajetória, e muitos fãs desconhecem esse acontecimento peculiar.


Segundo Jimmy Nicol, John, Paul e George foram muito gentis e cordiais com ele, o que não o impediu de sentir-se um intruso em um grupo o qual não pertencia, afinal a banda tinha a sua própria atmosfera e um senso de humor próprio de uma turma entrosada, não sendo nada fácil para quem é de fora se adaptar em apenas uma semana. Tirando esse desconforto, Jimmy diz que adorou a bajulação, festas, garotas e limosines, chegando a confessar em uma entrevista em 1990 que chegou a desejar que Ringo não retornasse tão cedo.

Ringo Starr permaneceu hospitalizado até o dia 11 e, após estar totalmente recuperado, embarcou no dia 15 em um vôo para a Austrália. Chegando a Melbourne, encontrou os companheiros e reassumiu o seu lugar para os shows que restavam. Ringo abraçou Jimmy e disse estar muito grato por ele tê-lo substituído. Em agradecimento e como pagamento, Jimmy Nicol recebeu 500 libras esterlinas e um relógio de ouro Eternamatic com a gravação “From the Beatles and Brian Epstein to Jimmy, with appreciation and gratitude”.

Jimmy retornou a Londres e voltou a pé do aeroporto sem ser reconhecido por absolutamente ninguém – estava de volta ao anonimato. E pensar que no dia anterior havia garotas gritando que morreriam para poder tocá-lo …


Após ter substituído Ringo, Jimmy e seu grupo Shubdubs gravaram um compacto com as músicas “Husky” e “Don´t Come Back”, que foi um fracasso comercial. A formação dos Shubdubs ainda contava com o guitarrista Bob Garner, que já havia tocado na banda Merseybeats – também de Liverpool – e depois foi integrante do ótimo grupo The Creation, ao lado de Ronnie Wood.

No dia 12 de de julho de 1964, The Shubdubs abriu o show dos Beatles no Hippodrome Theatre em Brighton. No final do show, Brian Epstein levou Jimmy e os Shubdubs aos camarins, onde os Beatles o receberam com um caloroso abraço e passaram o resto da noite bebendo e conversando. Segundo Jimmy, os Beatle foram muito amáveis, mas essa foi a última vez em que se viram.

Jimmy ainda foi homenageado por Paul McCartney na canção “Getting Better”, incluída no álbum Sgt Peppers Lonely Hearts Club Band, lançado pelos Beatles em 1967. Paul declarou que a música foi inspirada em Jimmy Nicol, pois durante aquela viagem cada vez que um dos Beatles perguntava a Jimmy como ele estava se sentindo, ele respondia sempre com a mesma frase: “It´s getting better”. Por isso o refrão: “It´s getting better all the time”.

Os Shubdubs se separaram algum tempo depois, quando Jimmy se mudou para a América do Sul – não consegui descobrir para qual país. Depois, Jimmy morou no México e atualmente vive recluso na Austrália. Está com 71 anos.