4 de jun de 2010

Deventter - Lead ... On (2009)

sexta-feira, junho 04, 2010

Por Ricardo Seelig
Colecionador
Collector´s Room

Cotação: ****

O conceito de rock progressivo se perdeu com o tempo. Hoje, se você pedir para qualquer pessoa uma definição do estilo, provavelmente ouvirá algo como “uma música repleta de longas e técnicas passagens instrumentais, muitas vezes auto-indulgentes, adornadas por letras que falam de universos repletos de fantasia”. Muito dessa visão equivocada e estereotipada deve-se ao tratamento preconceituoso com que, tradicionalmente, as publicações brasileiras de música dedicavam ao gênero. Basta pesquisar na sua coleção de revistas Bizz para comprovar.

Vamos corrigir então. O rock progressivo nasceu no final dos anos sessenta na Inglaterra. Originalmente, eram enquadradas como progressivas aquelas bandas que executavam um som que primava pela liberdade criativa, não se limitando a nenhum estilo específico, mas agregando elementos dos mais variados gêneros musicais. Assim, era comum ouvir nos discos lançados naquele período – e que estão aí até hoje para você pesquisar – a fusão de estilos tão díspares como, por exemplo, o rock e a música clássica, o jazz e o funk, o blues e pop. Ou seja, os caras eram livres para voar, sem destino e sem hora para voltar.

Tudo isso para dizer que parte desse espírito libertário vem sendo resgatado pelo grupo mineiro Deventter. Formado em 2001 na cidade de Borda da Mata, a banda chega agora ao seu segundo álbum, Lead … On, lançado em 2009 e que suscede The 7th Dimension, estreia dos caras.

O caminho sonoro seguido pelo Deventter apresenta influências de nomes clássicos como Gentle Giant, Yes e Pink Floyd somadas a referências contemporâneas do estilo, como Dream Theater, Pain of Salvation e Porcupine Tree. Como um tempero extra, somos brindados também com toques de thrash metal e metal tradicional, que acrescentam um muito bem-vindo peso à música do grupo.

Lead … On é superior à estreia do sexteto (anote os nomes dos caras aí: Felipe Schaffer no vocal, André Marengo e Danilo Pilla nas guitarras, Leonardo Milani no baixo, Hugo Bertolaccini nos teclados e Caio Teixeira na bateria). A banda soa mais madura nesse segundo trabalho, o que resulta em composições melhor resolvidas e muito mais envolventes. Entre as faixas, as minhas preferidas são “O.M.T.”, “Bunkers & Bankers”, “Transcendence Inc.”, “This Grace” e “Lead … Off”, que fecha o play.

Outro ponto alto do álbum é a sua arte gráfica, partindo da bela capa para um bem resolvido encarte, que explora o conceito abordado pelas letras, tudo feito com muito bom gosto.

Lead … On é um belo disco, que resgata o espírito de liberdade que nasceu com o rock progressivo, devidamente acrescido de generosas e agradáveis doses de peso. Um grande álbum, que aponta para um futuro maior ainda para essa excelente banda.


Faixas:
1.O.M.T. - 6:59
2.6000 – 8:16
3.Bunkers & Bankers – 8:06
4.Reflected – 5:55
5.All Rights Removed – 5:51
6.Transcendence Inc. - 6:01
7.… - 1:30
8.This Grace – 9:27
9.Losing Track of Time – 6:27
10.Down to the Apex – 4:49
11.Lead ...Off – 8:27


Discos Fundamentais: Avantasia - The Metal Opera (2001)

sexta-feira, junho 04, 2010

Por Ricardo Seelig
Colecionador
Collector´s Room

Certos discos, apesar de terem sido lançados após a consolidação do estilo que exploram, redefinem e acabam tornando-se sinônimos de um gênero. Esse é o caso de The Metal Opera, o álbum que apresentou o projeto Avantasia ao mundo. Lançado em 16 de janeiro de 2001, o trabalho figura facilmente, e nas posições de maior destaque, em qualquer lista com os melhores discos de heavy metal melódico – ou power metal, como queiram – de todos os tempos.

A ideia começou a tomar forma na primavera de 1999. O Edguy estava em turnê promovendo o álbum
Theater of Salvation, e Tobias Sammet, seu vocalista, começou a trabalhar na concepção de uma "ópera metálica" conceitual com a participação de vários músicos convidados. O nome do projeto é a união entre as palavras “avalon” e “fantasia”, que resultou no original e carismático Avantasia.

Mas a reunião pura e simples de grandes músicos não resulta em obras de qualidade. E, nesse quesito, os principais méritos de vão para Tobias Sammet, compositor de todo o material presente em
The Metal Opera, primeiro álbum do Avantasia. A história e, principalmente, as composições, melodias e arranjos vocais do álbum elevam o disco ao status de clássico. Sammet, então com apenas 23 anos, concebeu um trabalho de gente grande, um álbum cativante, envolvente e empolgante. Se alguém nunca ouviu power metal, eis aqui uma porta de entrada perfeita para o gênero.

Outro mérito de Tobias Sammet foi saber se cercar das pessoas corretas. A lista de músicos que toca em
The Metal Opera é formado por nomes acima de qualquer suspeita. As guitarras ficaram a cargo de Henjo Richter, do Gamma Ray. No baixo, Markus Grosskopf, do Helloween, alcançou uma das melhores performances de sua carreira. E na bateria, Alex Holzwarth, do Rhapsody, mostrou todo o seu talento. O disco ainda conta com a participação de Jens Ludwig, guitarrista do Edguy, responsável pelos solos das faixas “Sign of the Cross” e “The Tower”; Norman Meiritz, responsável pelo violão em “Farewell”; e Frank Tischer, piano em “Inside”.

As vozes de
The Metal Opera merecem um capítulo à parte. O lendário Michael Kiske, vocalista do Helloween nos clássicos álbuns Keeper of the Seven Keys Part I e Part II, saiu de seu auto-exílio para cantar em nada mais nada menos que cinco faixas do álbum. Creditado apenas como “Ernie”, Kiske solta o gogó em “Reach Out for the Light”, “Breaking Away”, “Farewell”, “Avantasia” e “The Tower”, matando a saudade dos fãs. David DeFeis, do Virgin Steele, brilha em “Serpents of Paradise”. Sharon den Adel, do Within Temptation, marca presença em “Farewell”. Rob Rock, ex-Impellitteri, está em “Sign of the Cross” e rouba a cena em “The Glory of Rome”. Oliver Hartmann, ex-At Vance, diz olá em “The Glory of Rome”, “Sign of the Cross” e “The Tower”. Andre Matos brilha em “Inside” e participa de “Sign of the Cross” e “The Tower”. Kai Hansen dá as caras em “Sign of the Cross” e “The Tower”, e o guitarrista Timo Tolkki, ex-Stratovarius, mata a saudade dos tempos de vocalista em “The Tower”. Além dessa verdadeira seleção do heavy metal mundial, Tobias Sammet assume as vozes em “Reach Out for the Light”, “Serpents in Paradise”, “Breaking Away”, “Farewell”, “The Glory of Rome”, “Avantasia”, “Inside”, “Sign of the Cross” e “The Tower”, em duetos arrepiantes com cada um dos seus convidados.

Mas essa constelação não valeria nada caso as composições presentes no disco não fossem grande coisa. E meu amigo, elas são de cair o queixo! As treze faixas de
The Metal Opera formam uma das obras mais contundentes e espetaculares da história recente do heavy metal. O nível de qualidade alcançado é tão alto que impressiona.


O disco abre com “Prelude”, uma pequena introdução que prepara o clima para “Reach Out for the Light”, um ótimo speed metal com arranjos vocais excelentes. Um início que prenuncia o grande álbum que está por vir.

Na rápida “Serpents in Paradise”, David DeFeis rouba a cena, interpretando a canção com classe excepcional. Uma das melhores faixas do disco, “Serpents in Paradise” é um daqueles sons que nos conquistam já na primeira audição, e tornam-se figuras frequentes em nossa vidas.

A intro “Malleus Maleficarum” dá uma pausa no disco, que retorna com força total em “Breaking Away”, um chiclete sonoro que gruda de imediato. Nessa faixa, temos Michael Kiske relembrando os tempos em que assombrou o mundo com o Helloween, fazendo-nos pensar o quão grande a banda se tornaria caso não tivesse enfrentado os problemas que enfrentou, como o suicídio do baterista Ingo Schwichtenberg e as saídas do fundador e guitarrista Kai Hansen e do próprio Kiske. Na minha opinião, “Breaking Away” é presença obrigatória em qualquer boa compilação sobre o estilo.

A bela “Farewell”, com participação de vários dos vocalistas convidados, vem a seguir. Em mais um momento inspirado do álbum, “Farewell” traz um refrão inspirado, feito sob medida para ser cantado a plenos pulmões naqueles momentos em que você está sozinho dentro de seu carro, isolado do caos causado pelo trânsito selvagem do lado de fora. “The Glory of Rome” é épica e grandiosa, e conta com grandes passagens vocais de Rob Rock, além de mais um ótimo refrão.

Outra vinheta, “In Nomine Patris”, prepara o terreno para a espetacular faixa título, um dos momentos mais brilhantes da trajetória do heavy metal melódico. “Avantasia” prova, de novo, mais uma vez e de forma definitiva, que não é preciso compor uma faixa rapidíssima para conquistar os fãs do power metal. Um dos maiores dogmas do metal é despedaçado com melodias cativantes e um refrão arrepiante, que coloca de vez o disco e seu mentor, Tobias Sammet, na condição de referências para toda e qualquer pessoa que resolver se aventurar pelo estilo.

“Inside” conta com uma interpretação brilhante de Andre Matos, que tem Tobias Sammet ao seu lado no refrão. Uma bonita balada que introduz a excepcional “Sign of the Cross”, faixa preferida de grande parte dos fãs do grupo. Com quase sete minutos de duração, tem a participação de grande parte dos vocalistas convidados. Além de tudo, conta com o melhor solo de guitarra do disco – e um dos melhores que ouvi em toda a minha vida -, um arregaço a cargo de Jens Ludwig, guitarrista do Edguy. Definitivamente, uma das canções mais brilhantes e emblemáticas da música pesada dos anos 2000, sem dúvida alguma.

O álbum fecha com a longa “The Tower”, que em seus quase dez minutos transita com imensa naturalidade por trechos ora rápidos, ora épicos, todos repletos de qualidade. Os coros dessa faixa são arrepiantes, principalmente no início, quando a canção embala e ouvimos “aleluia, aleluia”. Um encerramento à altura de um álbum tão bom como
The Metal Opera.

O disco caiu como uma bomba. A princípio os holofotes foram atraídos pelas participações especiais, mas foi só dar o play para o foco mudar, definitivamente, para a música – que é o que importa, sempre. Reviews positivos pipocaram por todo o mundo, elevando
The Metal Opera instantaneamente ao status de clássico. Outra consequência da repercussão do disco foi a atenção muito maior que passou a ser dada ao Edguy, banda de Tobias Sammet, que aproveitou a exposição para lançar o álbum Mandrake em 24 de setembro de 2001 e se consolidar como uma das novas forças do heavy metal em todo o mundo.



O conceito original de Tobias Sammet previa a gravação de dois volumes de Avantasia, e assim, em 26 de agosto de 2002, chegou às lojas
The Metal Opera Part II, um bom disco, mas nitidamente inferior à inagualável estreia. Mesmo assim, a segunda parte do projeto tem ao menos uma faixa que rivaliza com as presentes no debut. “Seven Angels” é uma excelente composição com mais de quatorze minutos de ricas passagens instrumentais e coros grandiosos.


A repercussão dos dois discos foi imensa em todo o mundo, gerando uma demanda enorme por mais registros do Avantasia. Tobias Sammet alimentou a expectativa até 2008, quando
The Scarecrow, o aguardadíssimo terceiro álbum do Avantasia, finalmente chegou às lojas. Tamanha espera, somada a mudanças significativas no direcionamento musical – muito mais voltado para o hard rock do que para o heavy metal melódico -, frustraram os fãs. O disco também não foi muito bem recebido pela crítica especializada, obtendo reviews medianos em todo o mundo.


Ainda em 2008 chegou às lojas um box chamado
The Metal Opera Pt I & II: Gold Edition, trazendo os dois primeiros discos e, como bônus, a versão radio edit de “Avantasia” (que havia sido lançada anteriormente como bônus na primeira versão que chegou às lojas brasileiras) e versões ao vivo de “Sign of the Cross” e “Chalice of Agony”.


Tobias Sammet não se deixou abater, e voltou com força total em 3 de abril de 2010, data em que chegaram às lojas de todo o mundo, de maneira simultânea, dois novos discos do Avantasia,
Angel of Babylon e The Wicked Symphony. Os álbuns deixam claro que Sammet sentiu as críticas ao trabalho anterior, pois, ainda que mantenha a sonoridade calcada no hard rock, busca, de maneira clara, inserir elementos similares aos que fizeram a fama do disco de estreia. Ainda que visivelmente melhores que The Scarecrow, tanto Angel of Babylon quanto The Wicked Symphony, ainda que sejam bons trabalhos, não alcançam, em nenhum momento, o brilho de The Metal Opera.

O Avantasia certamente seguirá em frente gravando novos discos, afinal se transformou em uma espécia de grife com o passar dos anos. Mas toda a fama que envolve o nome do grupo baseia-se quase que unicamente em seu trabalho de estreia, um dos discos mais espetaculares da história não só do heavy metal, mas da música pesada como um todo. Se você nunca ouviu, aproveite esse texto e ouça agora mesmo. Se você já conhece, coloque o CD novamente no play e comprove que, quando a música é de qualidade, ela sobrevive ao tempo e vai muito além dos limites de qualquer estilo musical, seja ele qual for.

Faixas:

1.Prelude – 1:11
2.Reach Out for the Light – 6:32
3.Serpents in Paradise – 6:16
4.Malleus Maleficarum – 1:42
5.Breaking Away – 4:35
6.Farewell – 6:32
7.The Glory of Rome – 5:29
8.In Nomine Patris – 1:04
9.Avantasia – 5:31
10.A New Dimension – 1:39
11.Inside – 2:24
12.Sign of the Cross – 6:26
13.The Tower – 9:44


2 de jun de 2010

Rolling Stones: gravações, troca de esposas e heroína em um quartel nazista

quarta-feira, junho 02, 2010

(matéria publicada originalmente no Daily Mail)
(tradução de Alessandra R., publicada no Whiplash!)

Anita Pallenberg, em seu biquíni de estampa de leopardo, era sempre vista à toa no terraço. Uma mulher agitada, descrita por sua amiga Marianne Faithfull como “a enfeitiçada rainha da escuridão”, tornara-se lenta por conta do calor e da heroína. Havia, com certeza, um clima estranho, tropical e amaldiçoado na Villa Nellcote – a casa no sul da França, onde, em 1971, Mick Jagger, Keith Richards, Mick Taylor, Bill Wyman e Charlie Watts gravaram o álbum Exile on Main Street durante a noite, no porão.

Esse castelo gótico é hoje cercado por uma selva de palmeiras, com o mar resplandecente no horizonte. Mas o lugar é um paraíso corrompido. Existem rumores que tenha servido de quartel para a Gestapo durante a Segunda Guerra Mundial, onde moradores locais teriam sido torturados no mesmo porão onde os Rolling Stones gravaram o seu álbum. Aparentemente, havia suásticas esculpidas nas saídas de ar no chão.

Os Stones gostavam de contar as histórias nazistas, e Keith adorava a grandeza da casa de dezesseis quartos. “
Quem foi que decorou esse lugar?” – ele disse ao chegar. “A Maria Antonieta?”. O filho pequeno de Anita e Keith, Marlon, parecia alegremente alheio à atmosfera decadente.


Durante os vários meses daquele verão, os amiguinhos de Marlon foram Jake e Charlie, filhos de Tommy Weber - socialite, piloto de carros e traficante de drogas. Weber foi um dos convidados do o que acabou se tornando a festa mais desregrada de todos os tempos. Todo mundo passou por lá. Até John Lennon, com a Yoko junto , veio para uma visita rápida de 45 minutos durante o verão – e foi embora rapidamente depois de vomitar no chão de mármore. Com muito jeito, Anita tentou encobrir o mal estar de Lennon, dizendo que ele havia tomado muito sol e exagerado no vinho. Mas a verdade é que ele provavelmente tenha tido uma reação a metadona que lhe havia sido prescrita.

Havia drogas de todos os tipos, por toda a parte. Na verdade, Weber chegou com os filhos bem a tempo para o casamento de Mick e Bianca em St Tropez, realizado um pouco antes do início oficial das gravações. Os filhos de Weber foram os pajens no casamento. Quando chegaram na casa, foram descobrir que cada criança tinha cerca de meio quilo de cocaína dentro de duas pochetes, amarradas no corpo. Uma armação que garantiu a Weber calorosas boas vindas de seus amigos famosos.


O relato de como o álbum foi feito durante aquele verão enfervecente é um dos mais extraordinários da história do rock. E até mesmo os Rolling Stones agora estão relembrando os seus dias de glória, com o relançamento de
Exile on Main Street e um novo documentário, produzido com a permissão da banda, o qual conta um pouco desse conto libertino. No filme, Keith Richards, com sua arrogância costumeira, diz às cameras: “Mick precisa saber o que vai fazer amanhã. Já eu fico contente em acordar e ver quem está por perto. Mick é rock, eu sou roll.”

Charlie Watts acrescenta: “
Grande parte de Exile foi feito de acordo com o ritmo de trabalho de Keith: toca vinte vezes, pára, daí toca mais vinte vezes. Ele sabe o que quer, mas é bem sossegado. Keith é realmente uma pessoa boêmia e muito excêntrica".


O documentário também não menciona a tremenda briga que Mick e Keith tiveram por causa de Anita, seguida pela gravidez misteriosa. E você pode apostar que também nao contará as histórias sobre as drogas e quem as usou. Elas foram generosamente fornecidas pelo traficante de drogas preferido do rock’n’roll, o legendário Spanish Tony, e por Jean de Breteuil, outro traficante que mais tarde forneceria a Jim Morrison sua dose fatal. Foi De Breteuil que trouxe aos Stones a heroína tailandesa pura, tingida de cor-de-rosa, conhecida como algodão doce. Todos tomavam parte e consumiam alguma coisa – pelo menos algum tipo de droga e bebidas. Até mesmo Charlie Watts, relativamente certinho, vivia sorvendo goles de tequila. Spanish Tony, cujo nome verdadeiro é Tony Sanchez, relembra como Mick pediu três gramas de cocaína só pra conseguir encarar o dia do casamento, resmungando: “
Eu não vou conseguir entrar nessa sóbrio.”

Aparentemente, Mick e Bianca brigaram feio por causa do acordo pré-nupcial que ele a fez assinar no dia, e ele teria desabafado que “essa coisa toda é mais amolação do que diversão.”

Como sempre, em se tratando de Mick, tudo aconteceu por causa de dinheiro. A temporada dos Stones no exterior viera como cortesia do cobrador de impostos. Eles estavam escapando da taxa punitiva de 93% sobre indivíduos de renda elevada, imposta pelo governo do Partido Trabalhista, e tentando reverter a sorte.


O empresário da banda, o príncipe Rupert Lowestein, contratado por Jagger para endireitá-los, aconselhou os Rolling Stones a saírem do Reino Unido. Ele também orquestrou vários esquemas financeiros fora do país, os quais estão em vigor até hoje. De acordo com MICK, “
depois de trabalhar por oito anos, eu fui descobrir que ninguém nunca havia pago impostos, e eu devia uma fortuna. Daí você tem que sair do país.”

Com todos instalados em suas próprias casas perto de Nellcote, foi decidido que eles deveriam gravar o disco lá mesmo, no porão. O motivo foi que se Keith tivesse apenas que descer, ele pelo menos daria as caras.

Apesar de terem colocado carpete, o lugar era tão quente e abafado que as guitarras saíam do tom no meio das músicas. A qualidade do som era estranha, até mesmo embaralhada. Mick disse que não gosta muito do álbum, o qual é frequentemente apontado como um dos melhores já feitos.

Em um dia normal de “trabalho” as coisas começavam devagar, com um almoço longo, muito vinho branco gelado e haxixe. Keith às vezes saía de barco, ou ia de carro para Villefranche. Mick gostava de compor durante à tarde, mas tinha que esperar por Keith para criar algumas melodias, para ele então compor as letras.

As noites eram reservadas à música. Bill Wyman relembra que durante o primeiro mês eles trabalharam todas as noites das 20:00 as 3:00, mas nem todo mundo aparecia. “
Para mim essa foi uma das maiores frustrações daquele período.”

De acordo com as revelações de Robert Greenfield em seu livro
Uma Temporada no Inferno com os Rolling Stones, Keith geralmente colocava o filho Marlon para dormir, daí subia para usar heroína e cochilar, às vezes ainda com a agulha no braço. O resto da banda ficava lá embaixo esperando, e Mick fulminando de raiva.

Keith chegou em Nellcote declarando que estava limpo – dando a entender que estava usando cocaína e maconha, mas não heroína. No entanto, após um acidente de kart e com as gravações prestes a começar, ele voltou a usar heroína.

Mas as drogas representavam apenas parte do problema: a energia explosiva entre Jagger e Richards também fazia parte do conflito. Em uma entrevista, Anita disse que os dois eram como gato e rato: “
Se Mick estivesse no porão, Keith não descia. Keith sempre gostou de irritar Mick.”


Mick também tinha seus próprios problemas com Bianca. Já grávida de Jade, ela sequer conseguia esconder o pouco caso que sentia pelo resto dos Stones e logo se negou a visitar Nellcote. Ela acabou se mudando para Paris, forçando Mick a cruzar os país, indo e voltando para as sessões de gravação. Em mais de uma ocasião, ela ameaçou que o deixaria pra sempre.

Pelas costas, a banda vivia xingando Bianca. Keith, especialmente, não aguentava as suas frescuras e não entendia porque Mick havia decidido se casar com ela - justo ele que havia sido o padrinho de casamento.


De uma forma ou outra, todos sofriam com o isolamento. Bill Wyman sentia falta de suas guloseimas inglesas, as quais ele eventualmente mandou trazer, e também estranhou o leite francês. Ele e Charlie Wattssentiam falta de casa.

Mick Taylor, novo integrante da banda, havia sido escolhido por ambos, Jagger e Richards. Ele foi até visto aos prantos. Keith vivia dizendo que ele tocava alto demais, embora seja reconhecido (sem contar Eric Clapton) como possivelmente o guitarrista mais talentoso de sua geração.

O ritmo extremamente lento das gravações teria tirado todo mundo do sério. De acordo com Rose, a mulher de Taylor, “
dava a impressão que Mick Taylor, Charlie w Bill estavam lá o tempo todo, sempre esperando por Keith ou Mick.”

Havia também uma divisão entre os que usavam drogas e os que, como Jagger, Wyman e Watts, resistiam. Quando Taylor disse a Charlie que já não aguentava mais, o baterista respondeu na maior cara de pau: “
Eu já tentei me atirar no rio, mas tem só 20 centímetros de profundidade.”


Nessa mistura entrou também Gram Parsons, gênio do country rock e viciado, que morreria de overdose dois anos mais tarde. Ele era um grande amigo de Keith, e durante as tardes os dois tocavam por horas no terraço – algo que causava ataques de ciúme em Mick. Keith queria fazer turnês com Gram, algo que Mick não permitiria. Jagger também ficava furioso com o fato de que Richards aparentemente conseguia criar muita música para Gram, mas pouca para ele. Irritado, Mick deu em cima de sua namorada, Gretchen, só para dar um chega prá lá em Gram. Como ela mesma disse depois, “
a coisa não era comigo, disso eu tenho certeza.” No final, Gram e Gretchen foram convidados a se retirar.

Bill Wyman veio a dizer que “
obviamente, as drogas eram o centro do problema. Esqueça do que é falado sobre a relação criativa entre drogas e a criação de álbuns de rock. Elas atrapalham mais do que ajudam, pode acreditar.”

No final do verão Anita estava seriamente viciada em heroína, injetando até três vezes ao dia. Em uma ocasião, ela e Keith quase morreram quando a cama em que haviam desmaiado pegou fogo (eles foram salvos pelos seguranças).


A história das mulheres dos Stones talvez seja ainda mais fascinante, mas também não será contada nesse documentário “limpo”. Anita detestava tanto Bianca que chegou a espalhar um boato falso de que ela havia nascido homem. Quando Anita engravidou no final daquele verão, ela pediu a ajuda da secretária de Keith para fazer um aborto. Keith ficou feliz com a gravidez, mas Anita não tinha assim tanta certeza. Por várias vezes ela reservara vôos para que pudesse voltar para casa e fazer um aborto, mas nunca embarcou.

O incrível é que Keith aparentemente acreditava que o bebê que Anita estava esperando era de Mick Jagger. Ele pensou que o bebê havia sido concebido quando Mock e Anita reataram o caso que haviam tido antes – tudo isso enquanto Keith estava alto demais sob a influência da heroína para se dar conta. De acordo com Marshall Chess, um executivo da Atlantic Records que estava em Nellcote naquele verão, “
comentavam sobre quem seria o pai da criança, mas nunca discutiam isso na minha frente. Anita pensou que a criança era de Jagger. Isso causou muitos problemas entre Mick e Keith, e acabou criando uma barreira entre eles.” Então o bebê poderia ser do Mick? Anita teria reclamado que Keith não estava mais interessado nela sexualmente (embora seja provável que a heroína estivesse atrapalhando o seu desempenho sexual).


E é claro, os Rolling Stones são famosos por suas trocas de mulheres. Anita havia sido a namorada de Brian Jones antes de se envolver com Keith; Marianne Faithful foi namorada de Keith antes dele sugerir que ela saísse com o Mick. No entanto, em uma entrevista recente, Anita afirmou que o bebê não era de Mick. “
Eu não gostava tanto assim do Jagger. Nunca me deixei levar pelo charme dele como as outras mulheres, como a Marianne. Eu sempre achei o Keith mais interessante. E eu nunca, jamais teria prejudicado o meu relacionamento com o Keith.”

No final, todos aceitaram que o filho era de Keith. A criança, chamada Dandelion Richards, nasceu na Suíça, e foi criada pela mãe de Keith porque o vício de Anita a impossibilitou de criá-la. Hoje, usando o nome de Angela, ela leva uma vida pacata em Kent, e é dona de um estábulo.


Alguns sugerem que o relacionamento sempre conturbado e competitivo de Mock e Keith nunca se recuperou totalmente – embora o assunto nunca tenha sido discutido abertamente pelos dois. Outros dizem que a questão de quem dormiu com quem é totalmente irrelevante para os Stones. Há quem diga que a causa do desentendimento é o fato de que Keith considera o Mick um mercenário babaca, e que Mick desaprova o estilo de vida rock’n’roll de Keith. Apesar das tensões, a relação entre dois com certeza não é assim tão ruim. Keith diz que agora estão trabalhando juntos, e que podem até mesmo lançar um novo disco do grupo no final desse ano.

Logo após a crise de paternidade veio outra: a prisão por drogas. Anita e Keith foram acusados de porte de heroína com intenção de tráfico. Eventualmente, depois de possíveis subornos e graças à destreza dos advogados dos Stones, eles se livraram das acusações. Em novembro de 1971 eles deixaram Nellcote às pressas, deixando para trás o cachorro, o papagaio e os brinquedos do filho.


O álbum foi eventualmente finalizado nos estúdios Sunset Sound, em Los Angeles. No documentário, Jagger revela que algumas das letras foram escritas em cima da hora, incluindo o primeiro single do disco, “Tumbling Dice”. Ele teve que lançar um ultimato para conseguir terminar os mixes. “
Eu mesmo tive que terminar o disco todo porque senão só restariam esses bêbados e drogados”, declarou em uma entrevista.

Mas o produtor Don Was, o qual revisou todas as fitas antigas para organizar o relançamento, discorda: “
A lenda pode ou não ser verdade, mas quando eles estavam naquele porão gravando se tornavam uma grande banda de rock e muito profissionais”. Ele continua: “De acordo com o mito, esse álbum é considerado superficial – mas de superficial não tem nada. Artisticamente é muito sólido.

A palavra final deveria ficar com Jake Weber, que, vale lembrar, tinha apenas oito anos quando passou o verão com os Stones: “
Havia cocaína e muitos baseados. Quando você leva uma vida desregrada sempre existe escuridão,” ele diz. “Mas, naquele instance, esse foi o momento da absolvição. Algo além da escuridão: o amanhecer antes do pôr-do-sol".


Rigotto's Room: Jimmy Page, The Edge e Jack White a todo volume

quarta-feira, junho 02, 2010

Por Maurício Rigotto
Escritor e colecionador
Collector's Room

Pode um documentário sobre a guitarra elétrica ser um dos melhores e mais emocionantes filmes dos últimos tempos? Não apenas pode, mas é fato. O extraordinário A Todo Volume (It Might Get Loud) é um deleite aos fãs de rock, aos fãs de guitarra e, arrisco-me a afirmar, aos fãs de cinema documental. A Todo Volume é dirigido por Davis Guggenheim, que adquiriu notoriedade mundial ao ser premiado com o Oscar em 2007 pelo documentário Uma Verdade Inconveniente, onde o ex-vice-presidente dos Estados Unidos durante os mandatos do democrata Bill Clinton, Al Gore, um ecologista fervoroso que perdeu as eleições para a Casa Branca para o nefasto George W. Bush, mesmo tendo milhares de votos a mais que o republicano, faz uma análise sobre o aquecimento global e explana possíveis saídas para evitar uma iminente catástrofe climática de proporções mundiais e avassaladoras. O mote de A Todo Volume é o encontro de três ícones da guitarra, de gerações, estilos e influências diferentes, para discutir a guitarra, suas experiências de vida, discos e histórias de suas carreiras.

No dia 23 de janeiro de 2008 reuniram-se Jimmy Page, 63 anos, um dos maiores guitarristas da história, desde que participou da banda Yardbirds nos anos sessenta e fundou o Led Zeppelin em 1968; The Edge, 47 anos, guitarrista da banda irlandesa U2, uma das mais bem sucedidas mundialmente desde que surgiu no início da década de oitenta; e Jack White, 33 anos, um dos mais prolíferos músicos de rock garagem dos anos noventa, fundador do duo The White Stripes, em Detroit, e mais recentemente da ótima banda Raconteurs, ao lado de Brendan Benson e do baixista e baterista de banda Greenhornes.



A primeira cena de A Todo Volume mostra Jack White no campo, cercado por vacas, martelando pregos em um rústico pedaço de madeira. Jack amarra um arame em dois pregos e o estica, colocando sob o mesmo uma garrafa de coca-cola. Em seguida Jack prega um captador na madeira e pluga o fio em um amplificador, para então com um slide tirar barulhentas notas do primitivo instrumento, causando surpresa em uma das vacas presentes. Jack olha para a câmara e pergunta: “Quem disse que você precisa comprar uma guitarra?”.

Após o impactante início, cada guitarrista é visto em um carro rumando para o encontro, onde tecem comentários sobre as suas expectativas quanto à reunião. Logo, The Edge aparece em Dublin, Irlanda, tocando a sua guitarra Explorer, a primeira que comprou na vida, ligada a uma enorme pedaleira de efeitos. Em Franklin, Tennessee, Jack White dirige um carro por uma estrada rural e no banco traseiro está um garoto vestido igual a ele. O garoto não é filho de Jack, é o próprio Jack White aos nove anos. Ao chegar a uma casa de campo, vemos Jack ao piano ensinando ele mesmo aos nove anos a tocar “Sitting on top of the world”, de Chester Burnett, o nome real do bluseiro Howlin' Wolf. Em Londres, Jimmy Page está no centro de uma sala repleta de amplificadores, tocando “Ramble On” do Led Zeppelin com a sua guitarra Gibson Les Paul, onde demonstra as nuances da dinâmica, tocando ora acordes com suavidade, ora com agressiva distorção.

Os três guitarristas aparecem então reunidos em uma sala. A cena é alternada por trechos de um mega concerto do U2 e a bizarra apresentação dos White Stripes no Asilo Chelsea, para uma platéia de senhores octagenários. Os idosos, alguns aparentando ter perto de um século de vida e usando aparelhos para surdez, aplaudem com entusiasmo a apresentação da dupla. Jack conta que gosta de guitarras velhas, baratas e de plástico (até mesmo com o braço torto), pois a tecnologia apenas torna o caminho mais fácil, não torna o músico mais criativo. “Quem quiser facilidade, que compre uma Gibson Les Paul ou uma Fender Stratocaster”.

Jimmy Page surge novamente em Londres tocando “The Battle of Evermore” em um mandolin, para então falar de seus primórdios tocando skiffle, um gênero pré-rock que Jimmy definiu como o “leite materno do rock”. Lonnie Donegan, o maior expoente do skiffle, aparece com a sua banda em uma rara imagem em preto e branco. É mostrada então a primeira aparição de Jimmy Page em um programa televisivo, em 1957, onde vemos Jimmy tocando guitarra em uma banda de skiffle aos doze anos de idade.



Em uma cena para emocionar qualquer colecionador de discos, Jimmy Page aparece em sua sala de discos, onde escolhe um compacto com “Rumble” de Link Wray e o coloca para tocar. Jimmy fica curtindo o som e imagens de um show de Link Wray surgem na tela. Fiquei gratamente surpreso, não imaginava que Jimmy Page, um dos meus heróis da juventude, fosse fã de Link Wray, um dos meus guitarristas favoritos (que The Edge confessou nunca ter ouvido falar!). Jack White por sua vez, em sua casa, ouve um vinil do pioneiro do blues Son House. The Edge fala de suas influências punk como The Jam, Buzzcocks, Clash, Sex Pistols e Ramones, que o mostraram que não importa se você não sabe tocar bem, ainda assim é divertido tocar, mesmo que você saiba apenas um ou dois acordes.

Os três guitarristas pegam seus instrumentos e juntos tocam “I Will Follow” do U2, mote para The Edge contar um pouco sobre a formação da banda e do cenário caótico da economia da Irlanda na época, com bombas terroristas explodindo violentamente toda semana, chegando ao ápice no domingo em que tropas britânicas atiraram e mataram manifestantes militantes de direitos civis, inspirando a música “Sunday, Bloody Sunday”.

Os Raconteurs aparecem em uma apresentação ao vivo tocando o seu sucesso “Steady, as she goes”. Quem criticava os White Stripes pela sua simplicidade nas composições e arranjos e pelas limitações técnicas da baterista Meg White, há de se render ao poderoso som dessa banda, tanto que Jack White já dividiu palcos e gravações com nomes como Bob Dylan, Rolling Stones e Lou Reed, o que demonstra que os velhos estão ligados no que o criativo músico anda produzindo. Jack mostra então a guitarra Gretchen semi-acústica que ele personalizou em um luthier para se apresentar com os Raconteurs.

Jimmy, com sua Les Paul, toca o clássico do Led Zeppelin “Whole Lotta Love”, deixando The Edge e Jack White com feições abobalhadas pelo momento sublime que presenciavam. Conta-se que nesse instante todo o set de filmagens parou para prestar atenção nos dedos de Page. Vemos após, cenas do inicio do Led Zeppelin e Jimmy nos Yardbirds tocando “Heart Full of Soul”. Os três guitarristas pegam seus instrumentos e tocam “In my Time of Dying”, do álbum Physical Graffiti do Zeppelin, como se já fosse velhos amigos se reencontrando para fazer um som.

Para finalizar o documentário, Page, The Edge e White tocam “The Weight” do The Band, deixando o expectador também com um sorriso abobalhado de quem assistiu 98 minutos de puro deleite. E ainda falta ver os extras do DVD.



Como bônus, há 25 minutos de cenas deletadas da edição final, onde os músicos brincam com o exótico instrumento teremim, que segundo Page: “Não tem seis cordas, mas é bem divertido.” The Edge pergunta a Page sobre “Kashmir”, uma das mais emblemáticas canções do Led Zeppelin. Page fala sobre sua estranha afinação, semelhante a uma cítara, e a executa com sua guitarra Danaelectro. Falam também sobre encordamentos, quando Jack afirma que usa quaisquer cordas e que não liga a mínima para a marca do produto. Estranhei que a música “Seven Nation Army”, maior sucesso dos White Stripes e detentora de um dos melhores e mais poderosos riffs de guitarra dos últimos tempos, não tenha aparecido durante a película. Nas cenas excluídas, Jimmy Page questiona Jack White sobre a canção, perguntando se ele já tinha o riff pronto quando compôs a música. Logo os três estão executando em conjunto a introdução e o refrão de “Seven Nation Army”. Cenas extras tão essenciais quanto as que estão no filme.

Além das cenas deletadas, ainda podemos assistir a íntegra da coletiva de imprensa no Toronto Film Festival, onde o filme foi premiado. Gravada no salão de eventos do Sutton Place Hotel, com a presença do diretor Davis Guggenheim e dos produtores Thomas Tull e Leslev Chilcott, além evidentemente de Jack White, The Edge e Jimmy Page (apresentado pelo mediador como: “Jimmy Page, de uma banda indie que nunca devem ter ouvido falar.”). Em 38 minutos, eles respondem aos questionamentos da imprensa e contam desde como a idéia nasceu, sua viabilização e a execução do projeto. Cerca de quarenta dias antes do encontro dos três guitarristas, o Led Zeppelin fez no London's 02 Arena o seu único show de retorno, gerando grandes especulações da mídia quanto a uma volta do grupo. Perguntas sobre o que esperar do Led Zeppelin foram dirigidas a Page durante a coletiva, que em um primeiro momento desconversou e depois redarguiu que o retorno era para aquele único show. Quando perguntados se surgiu algum interesse no trio em gravar alguma coisa juntos, Jack disse que tocaria a bateria – como faz em sua nova banda, The Dead Weather. Enfim, um documento imperdível para os amantes do instrumento de seis cordas.

Assisti ao filme diversas vezes e ao final da cada exibição, surge uma gigantesca e irresistível vontade de ligar a guitarra no amplificador e tocá-la alto, a todo volume.

1 de jun de 2010

Brian Setzer, o embaixador do rockabilly

terça-feira, junho 01, 2010

Por Cezar "Dudy" Duarte
Professor de Inglês, Rocker e Colecionador
Collector´s Room

Rockabilly: termo que nasceu do encontro das palavras
rock e hillbilly (vocábulo que define a música caipira americana). Assim pode-se conceituar um gênero do rock que se confunde com o próprio (rock), procedente da metade da década de cinquenta. Muitos relacionam as raízes deste estilo a nomes como Elvis Presley, Carl Perkins, Buddy Holly, Little Richard, Chuck Berry, Bill Haley, Johnny Cash e Jerry Lee Lewis. Com certeza a lista não está completa. Dois nomes fundamentais deram “as tintas” para formá-lo: Eddie Cochran e Gene Vincent. São desta dupla clássicos eternos como "Be-Bop-a Lu-La", "Bluejean Bop", "Twenty Flight Rock", "C’mon Everybody", "Something Else" e "Summertime Blues". Também vale menção aos Johnnies, Johnny Kidd and the Pirates e Johnny Burnette. Este último foi o primeiro responsável pela popularização de "The Train Kept-a-Rolling" e "Honey Hush", compacto de 1956.

Nos anos 60 e 70 o rockabilly perdeu um pouco sua força e atenção. Eddie Cochran morrera em 1960 devido a um acidente de carro. Os outros artistas citados acima já não se preocupavam tanto em gravar músicas tipicamente rockabilly. O próprio Gene Vincent fez discos irregulares nos anos sessenta e acabou morrendo em 1971, vítima de complicações causadas pelo alcoolismo. Gene nunca se recuperou do trauma de ter perdido o seu grande amigo Eddie, o que o levou ao vício da bebida. Portanto, neste hiato das décadas de 60 e 70, era raro encontrar um álbum de rockabilly que se destacasse.

Só no final dos anos setenta apareceria um nome que daria um sopro de renovação ao gênero: Brian Setzer. Brian nasceu em 10 de abril de 1959 em Massapequa, Nova York. Seu primeiro instrumento foi uma tuba, ganho aos oito anos de idade. Tocou-a durante dez anos, até se encantar definitivamente pela guitarra, sempre sonhando em liderar sua própria banda.

As antigas big bands, swing, a audição de discos de mestres como Gene Krupa, Benny Goodman, e do seu interesse pelo punk rock que aflorará por volta de 1978, tudo isso contribuiu para a direção musical que, em um futuro próximo, Brian construiria sua carreira. Sua primeira experiência com uma banda foi com Bloodless Pharaohs. Das apresentações, tocando sua guitarra, resultou o disco Bloodless Pharaos, Marty Thau 2 x 5, lançado originalmente em 1980, e, no ano de 2005, em CD. A qualidade de som é ruim, vale mais como item de colecionador.

Após ter assistido ao show de Mel Lewis Orchestra, Brian já não tinha a menor dúvida: iria formar sua própria banda rockabilly. Conhece Lee Rocker (Leon Drucker), contrabaixista, e Slim Phanton (James McDonnell), baterista. Juntos montam o Stray Cats, que tomaria de assalto o cenário musical através de rocks vibrantes e rápidos, tendo como ponto alto a virtuosidade de Setzer, que também se revelaria um ótimo compositor e vocalista.


Para assegurar uma carreira de êxito, decidem apostar as fichas no mercado inglês. Lá, conhecem o já experiente Dave Edmunds, líder do Rockpile, que produz o primeiro álbum homônimo de 1981. A reação positiva foi instantânea. Aparecem os primeiros hits, “Stray Cat Strut”, Rock this Town” e “Runaway Boys”. O disco seguinte,
Gonna Ball, teve menor repercussão. O grupo retorna aos Estados Unidos para divulgar seu trabalho na terra do Tio Sam. O terceiro disco, Built to Speed, sai em 1982 - trata-se de uma compilação dos dois primeiros. A recém-lançada MTV ajuda a promover a banda ao mostrar com frequência video clips de “Rock this Town” e “Stray Cat Strut”.

O quarto álbum é
Rant n’ Rave with the Stray Cats, lançado em 1983 gerando mais dois sucessos: (“She’s”) Sexy and 17” e a belíssima balada “I Won’t Stand in your Way”. Devido a alguns desentendimentos entre os integrantes, o grupo resolve dar uma parada nas atividades. Em 1984, Brian se junta a Robert Plant para formar The Honeydrippers, de curtíssima duração - é deles a regravação do sucesso “Sea of Love”. A volta do Stray Cats ocorre em 1986, e gravam em Los Angeles o disco de covers chamado Rock Therapy.


Mais uma pausa, e no mesmo ano (1986) Brian lança seu primeiro disco solo,
The Knife Feels Like Justice, que traz um rockabilly mais pop. Em 1987 participa da cinebiografia de Ritchie Valens, La Bamba, fazendo o papel de um dos seus maiores ídolos, Eddie Cochran. Live Nude Guitars é o segundo solo, de 1988, que apresenta uma pegada roqueira mais forte que o anterior.

No ano seguinte (1989), acontece mais uma reunião dos Stray Cats, e lançam Blast Off, que foi acompanhado por uma tour com Stevie Ray Vaugham. Trocam de gravadora e passam da EMI para a Liberation, e, com Nile Rogers como produtor, lançam Let’s Go Faster (1990), Choo Choo Hot Fish (1992) - produzido por Dave Edmunds - e Original Cool (1993), que marca mais uma separação dos gatos extraviados. Setzer, como de costume, não perde tempo e lança seu terceiro solo, Rockin’ by Myself (1993), registro ao vivo trazendo apenas Brian cantando e tocando guitarra.


O projeto de unir o rockabilly com o som de uma orquestra se concretiza em 1994 com o lançamento de
The Brian Setzer Orchestra. Um registro ao vivo do Stray Cats é colocado à venda em 1995 com o título de Something Else. Em 1996 o mercado fonográfico é agraciado com Guitar Slinger e, em 1998, The Dirty Boogie chega às lojas, constituindo-se como um dos melhores discos de Brian e sua orquestra, alcançando o 9º posto das paradas americanas.

O primeiro reconhecimento oficial por sua obra se dá em 1999, com o recebimento do prêmio Orville H. Gibson Lifetime Achievement, no Gibson Awards. Entre apresentações e gravações, ele e sua orquestra lançam Vavoom em 2000.


O início do século XXI é marcado por um disco solo chamado
Ignition, tendo como acompanhantes a banda ’68 Comeback Special (referência à volta de Elvis Presley aos palcos naquele ano). Antes que 2001 chegasse ao fim era lançado o primeiro DVD da Brian Setzer Orchestra - Live in Japan é o nome.

Boogie Woogie Christmas (2002) é o primeiro álbum da Orquestra trazendo temas natalinos. Seu quinto trabalho solo chega em 2003, Nitro Burning Funny Daddy, bem como a primeira coletânea da Brian Setzer Orchestra, Jump Jive an’ Wail-The Very Best Of, e outra em 2004 com o título de The Ultimate Collection Live. Ainda nesse mesmo ano os fãs seriam brindados com o lançamento, em formato CD e DVD, de mais uma volta do Stray Cats aos palcos - Rumble in Brixton batiza o material.


Seguindo a tendência dos últimos anos, Brian repete a dose em 2005, com a gravação de mais um disco com músicas de Natal executadas por ele e sua orquestra,
Dig That Crazy Christmas, e mais um solo, o maravilhoso Rockabilly Riot Vol.1: A Tribute to Sun Records, contendo releituras de vários clássicos imortais que marcaram a história da lendária gravadora. O pacote de 2005 fecharia com o segundo DVD ao vivo da Brian Setzer Orchestra, Live: Christmas Extravaganza.

Em 2006 o guitarrista volta a gravar mais um solo com inéditas, o ótimo 13. Das apresentações com os Nashvillains temos Red Hot and Live, de 2007. Com a orquestra, Brian se apropria da música de Beethoven e faz a sua versão no disco Wolfgang’s Big Night Out. Também é disponibilizado no mercado o DVD One Rockin’ Night (’95). No ano passado, para não ficar em branco, Brian e sua orquestra lançam Songs From Lonely Avenue, que, com certeza, mantém o alto nível da maioria dos trabalhos anteriores. Para o próximo dia 13 de julho, Don’t Mess with a Big Band deverá ser lançado reunindo faixas ao vivo acompanhado de sua orquestra.

O reconhecimento, em forma de homenagens e premiações, não se restringiu apenas com Orville H. Gibson Lifetime Achievement, em 1999. Desde 2000 Brian Setzer já conquistou três Grammies: Melhor Performance de Grupo Pop para "Jump, Jive Na’ Wail", e dois de Melhor Performance Instrumental por"Sleepwalk" e "Caravan". Em dezembro de 2006 ele recebeu sua sétima nomeação ao Grammy pela versão de "My Favorite Things", mais uma vez na categoria Melhor Performance Pop Instrumental.

Brian segue como um dos melhores músicos em sua prolífica carreira. Sua singular criatividade é sentida nas composições, arranjos, vocal e, sobretudo, como um excepcional guitarrista que soube fundir com maestria ímpar o jump blues, swing, jazz e o chamado texas blues, tendo como principal ingrediente, claro, o rockabilly. O legado de Eddie Cochran, Gene Vincent e tantos outros importantes nomes continua em boas mãos.



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