20 de ago de 2010

450 discos para entender o heavy metal

sexta-feira, agosto 20, 2010

Por Ricardo Seelig
Colecionador
Collector´s Room

Depois que li o livro Heavy Metal: A História Completa resolvi colocar em prática, finalmente, um antigo projeto, pesquisando, ouvindo e apontando quais seriam, afinal de contas, os melhores e mais importantes discos da história do metal.


É claro que essa lista gerará discussões - e, afinal de contas, é para isso mesmo que serve qualquer lista. Procurei apontar, independentemente de gosto pessoal, os álbuns mais importantes de todos os gêneros do heavy metal. Thrash, black, glam, power, death - está tudo aqui.

Faltam alguns discos? É claro. Alguns não deveriam estar aqui? Também, afinal, apesar de procurar ser imparcial, uma lista feita por mim será diferente de uma lista feita por você, que será diferente de qualquer lista feita por outra pessoa.

Gostaria que os amigos dessem uma conferida e comentassem o que acharam da lista, quem está faltando, quem está sobrando, essas coisas. A ideia é fazer um trabalho que não estará fechado nunca, sempre aberto para mais e mais discos que tiveram impacto e influência na cena metal.

Se tudo der certo, dá até para a Collector´s Room publicar algo como os 1001 Discos de Heavy Metal pra Você Ouvir Antes de Morrer (risos).

Então é isso. Leia, opine, comente, bata palmas e atire as pedras!


Triptykon, a volta em grande estilo de Tom Warrior

sexta-feira, agosto 20, 2010

Por Fabiano Cruz
Colecionador

Em qualquer estilo musical temos o que chamamos de gênios. Compositores e músicos que pensam à frente de seu tempo, que não se prendam a rótulos. Artistas que pegam uma forma musical e a distorcem de maneira magnificamente brilhante, sem perder suas raízes. Beethoven no erudito, Miles Davis no jazz e Yes no rock progressivo são claros exemplos.

No black metal podemos citar Thomas Gabriel Fischer, mais conhecido como Tom Warrior, como exemplo. Sempre à frente, seja no começo de carreira com o visceral Hellhammer, seja no multifacetado Celtic Frost, seu pensamento musical caótico sempre esteve presente em seus trabalhos. E no Triptykon, sua nova banda, não seria diferente. Acompanhado de V. Santura na guitarra, Norman Lonhard na bateria e percussão e Vanja Slajh no baixo, Warrior cometeu em Eparistera Daimones (traduzido do grego: "demônios à esquerda"), o debut do Triptykon, mais uma obra-prima em sua carreira, e também na história do heavy metal.

A capa do disco, cortesia do lendário H.R. Giger

É impossível destacar alguma faixa. O álbum soa homônimo do começo ao fim. A ousada abertura de onze minutos com "Goetia" mostra o que escutaremos pelo disco todo: um som pesado, arrastado, distorcido, cheio de complexidades sonoras que deixa qualquer um intrigado. "Abyss Within My Soul" parece deslocar tempo e espaço de quem a está escutando – pouquíssimas vezes me senti assim ouvindo um trabalho de heavy metal – devido ao perfeito trabalho de baixo e bateria, integrado aos riffs e voz mórbidos.

A estreia do Triptykon pode ser considerada uma evolução natural após Monotheist, último disco do Celtic Frost. Isso fica claro em "In Shrouds Decayed", canção que caberia perfeitamente em Monotheist. A estranha e demoníaca vinheta "Shrine" abre espaço para a pancadaria de "A Thousand Lies", lembrando os tempos de Warrior no Hellhammer – mas muito mais trabalhada na harmonia e nos timbres.

Only Death is Real, livro que conta a história do Hellhammer e do Celtic Frost

"Descendant" é um black metal arrastado e sombrio. Os timbres e distorções nas guitarras vão além de tudo que o heavy metal já viu. "Myopic Empire" é a mais progressiva de todas. O começo meio gótico abre espaço para sons calcados em um piano no meio da faixa – com uma linguagem musical parecida com o período romântico da música erudita -, como se preparasse nossos ouvidos para a calma e belíssima "My Pain", um tema totalmente gótico com uma bela voz feminina que destoa do restante do álbum.

E o disco fecha nos quase vinte minutos de "The Prolonging", uma mórbida viagem musical dentro do universo sonoro caótico que é o Triptykon - tudo suporte para as letras de um teor macabro e enigmático altíssimo.

O Triptykon ao vivo

É impossível aqui rotular o que seria a banda. Black, doom, gothic, death, prog, tudo num mesmo caldeirão. Isso mostra a importância – nem sempre falada – de Tom Warrior para o heavy metal.

Tudo integrado à magnífica arte do disco. A capa é do excelente pintor H.R. Giger - que já trabalhou com Warrior em To Mega Therion, clássico lançado pelo Celtic Frost em 1985 e recebeu o Oscar pelo visual que criou para o filme Alien: O Oitavo Passageiro -, um impressionante quadro atemporal e ao mesmo tempo futurista chamado Vlad Tepes. O encarte ficou a cargo do artista plástico Vincent Castiglia, que pintou retratos dos integrantes como se os tivesse feito com sangue. Lindo e ao mesmo tempo aterrorizante.

Reunindo tudo, posso afirmar com a maior certeza que esse trabalho figurará entre os melhores do ano, e quiçá um dos mais importantes da história do heavy metal - se isso não acontecer, será uma das maiores injustiças que a história do metal já impôs.

Tom Warrior aponta para o futuro do heavy metal com o Triptykon

Faixas:

1 Goetia 11:00
2 Abyss Within My Soul 9:26
3 In Shrouds Decayed 6:55
4 Shrine 1:43
5 A Thousand Lies 5:28
6 Descendant 7:41
7 Myopic Empire 5:47
8 My Pain 5:19
9 The Prolonging 19:22

Discos Esquecidos: Bull Angus - Bull Angus (1971)

sexta-feira, agosto 20, 2010

Por Ricardo Seelig
Colecionador
Collector´s Room

Formada na cidade de Poughkeepsie, no estado de Nova York, a banda norte-americana Bull Angus lançou apenas dois discos em sua curta carreira - o debut Bull Angus em 1971 e Free For All em 1972 -, sendo que ambos são raríssimos de serem encontrados em suas versões originais. Ou seja, verdadeiros objetos de desejo entre os colecionadores mundo afora.


O som do grupo é um hard rock com influências de nomes como Grand Funk Railroad, Mountain, Deep Purple e Led Zeppelin. A banda se destaca pela ótima integração entre as guitarras - a cargo de Larry LaFalce e Dino Paodillo -, o Hammond esperto de Ron Piccolo e a bateria suingada de Geno Charles, que, ao lado do baixista Lenny Venditti, injeta uma generosa e muito bem-vinda dose de malícia e safadeza no som dos caras. O vocalista Frankie Previte merece menção também por saber dosar o seu timbre agudo de uma forma agradável, contribuindo para que a música do grupo seja extremamente agradável aos ouvidos. Um combo afiado, perigoso e pronto para deixar qualquer um de joelhos, no melhor estilo cosa nostra.


Entre as faixas, as minhas preferidas são “Run Don´t Stop”, “Mother´s Favorite Lover”, o blues malandro de “Uncle Dugie´s Fun Bus Ride”, “Miss Casey”, a ótima “Pot of Gold” e a densa e viajante “No Cream For the Mad”, que encerra o play.

Desconhecido, obscuro, pouco falado, mas mesmo assim um grande trabalho, que agrada de imediato qualquer apreciador da estética setentista.

Recomendado, de preferência com o volume no talo!!!


Faixas:

A1 Run Don't Stop 4:23
A2 Mother's Favorite Lover (Margaret) 3:43
A3 Uncle Duggie's Fun Bus Ride 4:27
A4 A Time Like Ours 6:24

B1 Miss Casey 7:28
B2 Pot of Gold 3:51
B3 Cy 5:30
B4 No Cream for the Maid 6:43

19 de ago de 2010

Rigotto's Room: The Flamin’ Groovies – Teenage Head

quinta-feira, agosto 19, 2010

Por Maurício Rigotto
Escritor e colecionador
Collector's Room

Não resisti à tentação de escrever algo sobre um de meus discos preferidos, lançado por uma das minhas bandas favoritas, no início dos anos setenta. Estou falando, ou melhor, escrevendo, sobre o álbum Teenage Head, dos Flamin’ Groovies. Lançado em 1971 – o mesmo ano em que eu nasci - Teenage Head é um dos meus álbuns de cabeceira desde o mês passado. Isso mesmo, até alguns dias, eu nunca tinha ouvido os Flamin’ Groovies. Fico me perguntando como pude sobreviver por 39 anos sem ter esse disco e os demais da banda em meu acervo. Exagero da minha parte? Lógico que sim, mas nós, os colecionadores de discos e amantes da boa música, somos assim mesmo, exagerados, compulsivos e passionais. O que me fascina em manter essa paixão é justamente quando acontece algo assim: O sujeito passa trinta anos de sua vida colecionando discos, vive cercado por milhares de álbuns dos mais diversos artistas, dos mais renomados aos mais obscuros, e um dia chega um amigo te visitar e leva para você ouvir um disco que você não conhece, de uma banda a qual você nunca ouviu nada, e você imediatamente após a primeira audição sabe que não pode mais viver sem esse disco, que a vida não faria mais sentido. E não estou falando de uma daquelas incontáveis bandas de hard rock setentista que lançaram apenas um ou dois discos e sumiram rumo ao eterno ostracismo, mas de uma banda que lançou uma discografia considerável em uma existência de relativa longevidade. Saber que essa paixão é infinita é exatamente o combustível que a alimenta, que a faz perdurar, transformando uma febre da adolescência em uma paixão duradoura que o acompanhará por toda a vida, já que o sujeito, agora um cara de meia idade beirando os quarenta, pode continuar tendo o prazer de descobrir coisas “novas” (embora também com quase quarenta anos) pelo resto da vida. A coleção nunca estará completa, jamais terá fim. Nunca conheceremos tudo. Se fosse diferente, que graça teria?

Não é que eu nunca tenha ouvido falar nos Flamin’ Groovies. Lembro de já ter esbarrado na capa de Supersnazz, o primeiro disco do grupo, em alguma loja de discos durante essas andanças. Também recordo de ler um verbete sobre o Teenage Head no livro 1001 Albuns You Must Hear Before You Die (1001 Discos Para Ouvir Antes de Morrer), mas ouvir a banda, nunca. Confesso que até então a minha curiosidade por eles não havia sido despertada. Tudo mudou há alguns dias, quando fui apresentado aos Flamin’ Groovies. Desde então tenho ouvido seus álbuns exaustivamente, decorando cada detalhe, como um Marcel Proust em busca do tempo perdido. Talvez em minha euforia, eu esteja sendo precipitado em já estar dedicando um texto a eles, afinal ainda não somos íntimos, faz poucos dias que nos conhecemos, mas é irresistível, pois desde o tardio primeiro momento, soube que me acompanharão pelo resto dos dias que ainda viverei. É mais uma banda que envelhecerei ouvindo, e que ainda servirá de trilha sonora para muitos acontecimentos que ainda me estão por vir.

The Flamin’ Groovies é uma banda californiana de San Francisco, formada por volta de 1965 por Ron Greco, Cyril Jordan e Roy Loney. Somente em 1969 lançaram o seu primeiro álbum, Supersnazz, já sem Greco. Na formação estavam Cyril Jordan (vocal e guitarra); Roy Loney (vocal e guitarra); George Alexander (baixo, harmônica e vocal); Tim Lynch (guitarra, harmônica e vocal) e Danny Mihm (bateria). Embora também assíduos no Winterland e no Fillmore de Bill Graham, os Flamin’ Groovies não lembram em nada a sonoridade de seus vizinhos Grateful Dead, Jefferson Airplane e Moby Grape, que dominavam a preferência dos hippies da ensolarada baía de San Francisco. O som dos Flamin’ Groovies era mais cru e distorcido, “garagista”, como se jogassem os Rolling Stones, Chuck Berry, Trashmen, Kingsmen, blues e rockabilly em um liquidificador. Em 1970 lançam o segundo disco, Flamingo, um fantástico álbum de “garage rock”, onde a crueza da produção se encaixa brilhantemente nas bem elaboradas harmonias do grupo, com destaque para “Heading For The Texas Border”, um “rockão” de primeira – que hoje em dia é exetutada ao vivo nos shows da banda Raconteurs, de Jack White. Há ainda uma cover de “Keep a Knockin’” de Little Richard. Não vou me estender falando sobre Flamingo, já que optei em dissecar o próximo álbum, Teenage Head, mas não saberia dizer qual dos dois é melhor, haja vista que ambos são essenciais. Optei por Teenage Head por razões emotivas, já que foi o primeiro álbum da banda que ouvi e que me tornou de imediato um eterno fã do conjunto.

Lançado na mesma época em que os Rolling Stones lançavam Sticky Fingers, o terceiro álbum dos Flamin’ Groovies, Teenage Head, logo despertou comentários na imprensa sobre algumas similaridades entre os dois álbuns – o que eu vejo como um exagero, pois não identifiquei nada gritante que justifique o fato. Mick Jagger em uma entrevista da época teceu comentários elogiosos sobre o disco dos Flamin’ Groovies, dizendo que eles fizeram ótimos blues e rocks de raiz, revisitando-os em um contexto atual e moderno. O petardo inicia com “High Flyin’ Baby”, com riffs e arranjos que me remetem ao ótimo álbum Safe as Milk de Captain Beefheart and his Magic Band (1967). A segunda faixa, “City Lights”, é uma balada country onde se destaca o som do dobro, lembrando um pouco Gran Parsons e algumas faixas do álbum Beggar’s Banquet dos Rolling Stones (1968), como “Dear Doctor” e “Prodigal Son”, precedendo o rock “Have You Seen My Baby?”, que define bem a sonoridade agressiva do grupo. O lado A encerra com “Yesterday’s Numbers”, que também lembra os Rolling Stones, sendo que a introdução faz referência a música “Get Off Of My Cloud”. O lado B começa com a faixa-título. “Teenage Head” me lembra um pouco The Troggs, uma banda que sempre admirei. O disco prossegue com “32-20”, um blues de Robert Johnson que recebe um belo arranjo roqueiro, onde as guitarras são substituídas por dobros. Já “Evil Hearted Ada” é totalmente rockabilly anos cinqüenta e bem poderia fazer parte de algum dos primeiros discos de Elvis Presley, Gene Vincent ou Eddie Cochran. “Doctor Boogie” é um grande rock-blues onde as harmônicas comandam a harmonia e a melodia com primor. O disco encerra com “Whiskey Woman”, que começa com uma bela introdução no violão e aos poucos se transforma em mais um grande rock. Agora deixamos o vinil descansar e passamos para o CD para ouvir as “bonus tracks”.

Nas faixas bônus predominam covers de clássicos do rock, como “Shakin’ All Over” (Johnny Kidd and The Pirates); “That’ll Be the Day” (Buddy Holly); “Louie Louie” (Richard Berry); “Walkin’ The Dog” (Rufus Thomas); “Scratch My Back” (Slim Harpo) e “Carol” (Chuck Berry). Completa o CD o outtake “Going Out Theme”. Falando em covers, durante a sua carreira os Flamin’ Groovies fizeram diversas regravações, como “Let It Rock”; “Almost Grown” e “Sweet Little Rock’n’Roller” (Chuck Berry); “Hey Hey Hey Hey” (Little Richard); “I’m a Man” (Bo Diddley); “Baby Please Don’t Go” (Big Joe Williams); “Slow Down” (Larry Williams); “Miss Amanda Jones” e “Blue Turns To Grey” (Rolling Stones); “I Can’t Explain” (The Who); “Something Else” (Eddie Cochran); “There’s a Place”; “Please Please Me” e “From Me To You” (Beatles) e “Flyin’ Saucers Rock’n’Roll” (Billy Lee Riley).

Poucos meses depois do lançamento de Teenage Head, Roy Loney abandonou a banda e foi substituído por Chris Wilson, que ao lado de Cyril Jordan, iniciou uma mudança gradual na sonoridade dos Flamin’ Groovies, tornando-os mais pop sem perder a veia roqueira que sempre caracterizou o grupo. Após a entrada de Chris Wilson, a banda se mudou para a Inglaterra. Continuaram lançando bons discos até 1979, ano da dissolução da banda. Nos anos oitenta, Cyril Jordan e George Alexander retomaram as atividades dos Flamin’ Groovies com novos integrantes, voltando a se separar em 1992. Os Flamin’ Groovies voltaram a se reunir para uma apresentação no Azkena Festival em Mendizabala, na Espanha, em 11 de setembro de 2004. Em 2005, Cyril Jordan formou uma nova banda, The Magic Christian – mesmo nome de um ótimo filme de humor negro de 1969 estrelado por Peter Sellers e Ringo Starr. Roy Loney e o ex-baterista dos Flamin’ Groovies, Danny Mihm, formaram a banda The Phantom Movers, além de participarem de gravações com a banda Young Fresh Fellows. Em 2008, Roy Loney e Cyril Jordan se reuniram para uma pequena turnê, com músicos das bandas The A-Bones e Yo La Tengo como banda de apoio.

Eu sigo me perguntando por que eu nunca tinha ouvido os Flamin’ Groovies antes, mas como diz o adágio: “Antes tarde do que jamais”.



17 de ago de 2010

Bitches Brew ganha edição comemorativa de 40 anos

terça-feira, agosto 17, 2010

Por Ricardo Seelig
Colecionador
Collector´s Room

Um dos discos mais importantes da história do jazz - e também da música - acaba de ganhar uma apetitosa edição comemorativa. Estou falando de Bitches Brew, lançado por Miles Davis em abril de 1970. Um marco em sua extensa discografia, Bitches Brew é considerado um dos álbuns mais influentes das história da música, além de ser apontado como marco zero do jazz fusion.


A reedição do álbum conta com dois CDs com o disco original; um outro CD com uma performance inédita da banda gravada em agosto de 1970 com participação de Keith Jarrett, Chick Corea, Dave Holland, Jack DeJohnette, Airto Moreira e Gary Barts; um DVD contendo o concerto realizado pelo grupo em Copenhagen em novembro de 1969, com o clássico line-up Wayne Shorter, Chick Corea, Dave Holland e Jack DeJohnette; livreto em formato de LP, com 52 páginas repletas de textos e fotos do período; e a cereja do bolo: dois vinis com as faixas do álbum remasterizadas analogicamente por Greg Calbi nos estúdios da Sterling Music, a partir das master tapes originais.

Ou seja, um tratamento digno da importância, do impacto e da influência desse que é um dos discos mais impressionantes já gravados.

Se você é fã de Miles Davis - e tiver uma grana sobrando, é claro - prepare-se para babar ...


16 de ago de 2010

Discos Injustiçados: Dream Theater - Falling Into Infinity (1997)

segunda-feira, agosto 16, 2010

Por Ronaldo Costa
Colecionador
Collector´s Room

Você já deve ter ouvido, lido ou até mesmo falado em algum lugar, quando o assunto era o Dream Theater, coisas como “ame-o ou odeie-o”, “oito ou oitenta” ou “não tem meio termo”. O pior é que, em se tratando da famosa banda norte-americana, a coisa funciona mais ou menos desse jeito mesmo. Tão comum e recorrente quanto as citações acima em relação ao grupo é a afirmação de que o quinteto esbanja técnica mas deixa a desejar quando o negócio é feeling, aquele fator subjetivo que, possivelmente, é o que há de mais importante quando o negócio é fazer música. Mas será que eles não têm mesmo nem um pouco desse tal de feeling? E se chegasse alguém um dia e dissesse que um dos álbuns mais criticados da carreira da banda é justamente aquele que mais tem coração e alma? Pois bem, esse dia chegou.

Eu tenho noção da confusão que estou criando ao escrever essas linhas, já que o Dream Theater é uma banda que tem uma enorme quantidade de fãs, os quais estão entre os mais fiéis que se conhece. Só que tamanha quantidade de fãs rivaliza em número com a também enorme quantidade de detratores do grupo. O problema é que o álbum que vamos comentar aqui, além de não ser visto com bons olhos pelos críticos do grupo, também não é muito bem avaliado por uma boa parcela dos fãs, inclusive aqueles mais fanáticos. Vamos falar hoje sobre o álbum
Fallling Into Infinity, lançado em 19 de setembro de 1997.

A trajetória do Dream Theater até o ano de 1997 lhe gabaritava para ser reconhecido como o grande nome do prog metal mundial. O começo com
When Dream and Day Unite (1989) foi mais do que promissor, com a banda mostrando o embrião da mistura de estilos e influências que se tornaria sua marca registrada através do tempo. Os trabalhos seguintes, Images and Words (1992) e Awake (1994), não só viriam a levar o nome da banda a ser conhecido no mundo e consolidar sua carreira, como também são considerados por muita gente até hoje como as duas melhores obras já realizadas pelo grupo. O EP A Change of Seasons (1995) foi um excelente brinde para o fiel público do Dream Theater, com sua épica faixa-título em meio a ótimos covers de canções de artistas que influenciaram - e influenciam - o som dos caras até os dias atuais.

Nesse meio tempo, ainda durante as gravações de
Awake, a saída do tecladista Kevin Moore seria um fato que, pra muita gente, viria a influenciar de maneira definitiva toda a obra dos americanos nos anos posteriores, já que não são poucos os que consideram que Moore era a força criativa principal por detrás da banda e que seu desligamento do grupo acabou com uma química que eles nunca mais conseguiram reproduzir em trabalhos subsequentes.

Para o lugar de Moore foi chamado o tecladista Derek Sherinian, que já havia tocado com gente como Alice Cooper e Kiss. O primeiro trabalho oficial de Sherinian com a banda foi em
A Change of Seasons, mas este, embora contivesse uma faixa inédita de mais de 26 minutos, não pode ser considerado como um álbum inédito de estúdio. Com isso, a primeira real incursão do músico num álbum de inéditas do Dream Theater se deu mesmo com Fallling Into Infinity.

Bem, a maioria das pessoas concorda que a banda vinha num crescente contínuo desde seu primeiro disco, ainda que as preferências entre o segundo e o terceiro trabalho sejam bem divididas, mas ninguém discorda que são álbuns de um mesmo nível. Com isso, as expectativas para
Fallling Into Infinity eram enormes e as melhores possíveis. Acrescente ainda o fato de que o Dream Theater já deixava de ser uma novidade ou uma revelação e passava a carregar as responsabilidades e cobranças com as quais um grande nome de qualquer estilo musical precisa conviver. Mais que isso, a banda já passava a sofrer pressão para que atingisse certos objetivos em termos comerciais, dado o patamar ao qual haviam sido alçados.

Essa conjunção de fatores, aliada às já conhecidas exigências que os fãs, sobretudo os mais antigos, costumam cobrar de seus ídolos, e ainda somada a alterações um pouco mais radicais que a banda levou adiante em seu som, fizeram com que
Fallling Into Infinity, desde o seu lançamento, já fosse reconhecido como a ovelha negra dentre os álbuns do Dream Theater. As músicas de estruturação mais simplista, um pouco mais melódicas e sem toda a agressividade vista, por exemplo, em Awake, fariam com que a maioria apontasse o dedo para a banda e a acusasse de ter tornado o seu som comercial. Eles próprios nunca fizeram questão de negar com veemência que tivessem sofrido pressão para produzir algo que fosse mais fácil de ser colocado no mercado e mais palatável para uma fatia maior do público.

Desde então, o álbum passou a ser considerado aquilo que cai como uma verdadeira maldição para qualquer fã de vertentes mais pesadas ou mais elaboradas do rock: um disco “pop”. No entanto, ninguém (a não ser a própria banda) jamais poderá dizer até que ponto esse disco foi planejado visando apenas ser um sucesso comercial e com o intuito de abrir portas em mercados com outros perfis que normalmente não se interessariam pelo que o grupo fizera em seu passado até então. Por mais que o álbum seja mais acessível, ele poderia - e deveria - ser visto como uma espécie de evolução, uma busca por novos horizontes, já que esse trabalho, sob hipótese alguma, veio para descaracterizar o som da banda. Pelo contrário, as raízes prog metal podem ser observadas nas canções sem a menor dificuldade.

Por outro lado, a eterna acusação de que seus músicos sempre foram extremamente exibicionistas perde força aqui, já que as músicas são mais simplistas, ainda que o virtuosismo de Mike Portnoy e companhia continue saltando aos olhos (e ouvidos) da primeira à última faixa.

E o principal, o feeling, justamente aquilo que meio mundo fala que o Dream Theater não tem.
Fallling Into Infinity é carregado de sentimento. Embora seja um disco mais calmo e não muito agressivo, as melodias, a entonação do vocal em harmonia com as letras, são aspectos que transmitem uma carga de sentimento maior do que o que eles já haviam feito antes. Não é questão de dizer que o álbum é melhor que seus antecessores, mas sim que este é um disco mais passional.


“New Millennium” mostrou-se uma ótima faixa de abertura, já iniciando com o excelente clima ditado pelo baixo de John Myung. O riff empolgante e a hesitação entre o peso e a introspecção, aliado à já famosa técnica dos músicos, fazem dessa uma excelente música. E Derek Sherinian mostra que tinha muito a dar à banda em termos de técnica e criatividade.

Quem acusa o álbum de ser comercial deve ter começado a pensar assim após ouvir a segunda faixa, “You Not Me”. Música muito bem executada, sobretudo por John Petrucci, mas com um daqueles refrões pegajosos, que são capazes de grudar na sua cabeça durante um dia inteiro, seja onde você estiver e seja o que estiver fazendo.

Quando se iniciam as primeiras notas de “Peruvian Skies”, a impressão é de que teremos uma nova balada, dado o seu início tranquilo e melódico. No entanto, a música vai se tornando pesada, forte, e acaba por desembocar num heavy metal daqueles, que caberia muito bem em
Awake. Excelente canção.

Em “Hollow Years” temos uma balada de verdade, com uma grande letra e um enorme potencial radiofônico, coisa da qual a agressiva “Burning My Soul” passa longe. Esta é, fácil, a mais pesada do disco, onde a banda mostra que velhas influências do universo do metal, como Black Sabbath, Metallica e Iron Maiden, ainda podiam se fazer presentes. O grupo inteiro faz bonito, mas há de se destacar a guitarra de John Petrucci e o excelente trabalho vocal de James LaBrie.

“Hell's Kitchen” destaca-se como talvez a melhor música do álbum, onde a banda mostra todo o seu talento e coesão. Petrucci dá outro show à parte, sobretudo nos solos. Clássico, e que já emenda, na sequência, com outra canção primorosa, que é “Lines in the Sand”. Aqui, o grupo dá ainda mais vazão à sua veia progressiva, com belos arranjos e com outro ótimo trabalho de Sherinian. Além disso, essa é uma das grandes letras da carreira do Dream Theater.

“Take Away My Pain” é uma bonita balada, com mais uma boa letra e uma atmosfera agradável, que acabaria se tornando um dos destaques do disco. “Just Let Me Breathe” é outra faixa que merece destaque, mais pelo instrumental e, principalmente, pelo clima agressivo que emana da canção. A balada “Anna Lee” deve figurar entre as mais famosas de
Fallling Into Infinity. É uma boa música, mas falta alguma coisa, talvez o sentimento tão necessário em uma música com esse tipo de proposta e que pode ser percebido nas outras canções, até mesmo nas mais pesadas do trabalho. Mas não deixa, de toda forma, de ser uma boa canção.

Pra terminar a história somos brindados com “Trial of Tears”, a maior e mais progressiva do disco. Essa é a que mais lembra o som que a banda levara adiante em álbuns anteriores, e também em posteriores. Dividida em três partes, é nessa música que o virtuosismo dos músicos mais aparece, com mais uma performance impecável de John Petrucci, John Myung e Derek Sherinian.


O disco, como era de se supor, foi chamado de “pop”, “comercial” e outras coisas ainda menos elogiosas. Logo surgiram aqueles que identificaram na ausência de Kevin Moore o real motivo daquela suposta mudança de rumos. Até hoje tem quem diga que Kevin era a alma da banda. Derek Sherinian passou a ser responsabilizado por ter modificado sutilmente o som do grupo, numa tentativa de pasteurizá-lo. Falar isso é tão injusto quanto não reconhecer toda a qualidade desse trabalho. Basta ver os discos solo do tecladista ou suas contribuições com outros músicos e perceber que ele não é um instrumentista essencialmente voltado para sons comerciais. Sherinian, na verdade, é responsável pela execução dos momentos mais complexos e, em consequência disso, menos acessíveis de
Fallling Into Infinity. No entanto, ele definitivamente não caiu no gosto de boa parte dos fãs e acabaria por sair pouco tempo depois, sendo substituído por Jordan Rudess.

Tecnicamente falando, embora as canções desse álbum sejam excepcionalmente bem executadas, o Dream Theater tem em sua história trabalhos com maior complexidade instrumental. E então caímos naquela questão de que se a banda abusa do virtuosismo é acusada de ser exibicionista, se faz algo mais simples está mudando a essência de seu som e apelando para um lado mais mainstream. Os Johns (Petrucci e Myung) comparecem com a técnica e competência de sempre. James LaBrie faz bem o seu papel e é, inclusive, o responsável por alguns dos momentos mais empolgantes desse álbum. Mike Portnoy, estranhamente está bem mais contido nesse disco, só que o contido de Portnoy já é suficiente para deixar boquiaberto qualquer um que se liga numa bateria bem tocada.

O famoso feeling que tanto se cobra de todo artista está presente em todas as faixas desse álbum, em algumas de forma mais intensa. Só que falar isso é algo totalmente subjetivo, pois o mesmo som que pode hipnotizar um grupo de pessoas pode não representar absolutamente nada para outras.

Falling Into Infinity consegue ao mesmo tempo ser coeso e heterogêneo. É um trabalho que traz em si uma grande diversidade, com várias possibilidades e influências diferentes a serem exploradas. Aqueles que defendem o disco dizem que ele talvez seja o único onde não existem momentos sonolentos derivados das viagens instrumentais da banda. Com o lançamento do ainda mais polêmico Train of Thought (2003), muita gente até passou a pegar mais leve nas críticas a Fallling Into Infinity, voltando sua fúria para o dito “álbum new metal” do Dream Theater, só que isso é conversa para um outro dia. Entretanto, não é difícil achar quem ainda coloque Falling Into Infinity entre os discos indesejáveis da banda.

A verdade é que, com esse trabalho, os norte-americanos mostraram que são capazes de esbanjar técnica sem ter que apelar para malabarismos instrumentais. Mostraram que são capazes de colocar boas doses de sentimento em uma obra. Mesmo que se considere que as músicas da banda não trazem emoções à flor da pele, deixaram claro que virtuosismo e intensidade podem sim andar lado a lado, e ainda provaram que não é porque um trabalho pode ser classificado como comercial que ele é necessariamente ruim. Qualidade é algo que não tem nada a ver com isso, e sim com sinceridade e crença naquilo que se está fazendo.

Este não é o melhor disco da carreira da banda, mas é, sem dúvidas, um álbum essencial em sua discografia, que lhe propiciou a oportunidade de evoluir e alçar outros vôos, como em
Scenes From a Memory (1999) e Six Degrees of Inner Turbulence (2002). Justamente por não ser merecedor de tantas críticas é que este disco é mais um que entra nessa lista de obras injustiçadas historicamente no rock e no metal. Se você concorda ou não, isso você deverá dizer, de preferência após pelo menos mais umas duas ou três audições do álbum.


Faixas:
1 New Millennium 8:20
2 You Not Me 4:58
3 Peruvian Skies 6:43
4 Hollow Years 5:53
5 Burning My Soul 5:29
6 Hell's Kitchen 4:16
7 Lines in the Sand 12:05
8 Take Away My Pain 6:03
9 Just Let Me Breathe 5:28
10 Anna Lee 5:52
11 Trial of Tears 13:05

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