4 de out de 2013

Fates Warning: crítica de Darkness in a Different Light (2013)

sexta-feira, outubro 04, 2013
Para provar que quem foi rei nunca perde a majestade, um novo capítulo é aberto na história do Fates Warning. Darkness in a Different Light é o seu 11º álbum de estúdio e conta com a que talvez seja a melhor line up até agora, trazendo a estreia do monstruoso Bobby Jarzombek na bateria, no lugar de Mark Zonder.  

Não é de hoje que o grupo, um dos precursores do metal progressivo, aposta em músicas mais acessíveis ao grande público, que nem sempre consegue (ou tem saco) para digerir quebradas que fogem da obviedade e passagens instrumentais que parecem não ter fim. A sonoridade, em linhas gerais, é pesada, e o modo de execução, impecável. 

A voz de Ray Alder continua belíssima, mas já sente a idade pesar. De maneira digna, o vocalista não vai além do limite imposto pelo passar dos anos e se adequa com talento e emoção. A banda, por sua vez, sob a batuta do exímio guitarrista e produtor Jim Matheos, encontrou a fórmula ideal de encaixar instrumental e voz de modo a não parecer que seu vocalista não mais detém a potência de outrora. 

"Firefly" e "I Am", coincidente as primeiras a serem liberadas para audição pelo público, são de longe os momentos mais "comerciais" — se é que a cartilha do metal progressivo permite o uso desse termo. A estrutura é semelhante em ambas, com foco total nos refrões e sucesso em fazer a cabeça balançar pra frente e pra trás. Uma pegada mais sombria a la A Pleasant Shade of Gray dá as caras em "Lighthouse" e Alder rouba a cena com uma interpretação visceral. 

"Into the Black" coloca a bateria em primeiríssimo plano e enfatiza o casamento perfeito entre Jarzombek e Joey Vera, que, vamos combinar, está no Olimpo dos baixistas do metal. "O Chloroform" promete ser a favorita da molecada que aprecia uma complexidade musical, enquanto o violão, instrumento tão querido por Matheos e seu companheiro Frank Aresti, tem esplendorosa participação em "Falling", um prelúdio acústico para a pedrada "I Am", e  "And Yet It Moves", a mais longa do álbum — 14 minutos que por si só já valeriam todo o investimento (ou download) e que asseguram Darkness in a Different Light entre os destaques de 2013.

Nota 9,0 

1. One Thousand Fires 
2. Firefly
3. Desire 
4. Falling 
5. I Am 
6. Lighthouse 
7. Into The Black 
8. Kneel And Obey 
9. O Chloroform 
10. And Yet It Moves

Por Marcelo Vieira

Metallica: veja a relação das cidades brasileiras que exibirão o filme Through the Never nos cinemas

sexta-feira, outubro 04, 2013
Through the Never, o ambicioso filme do Metallica, estreia hoje, 4 de outubro, nos cinemas brasileiros. Dirigido e roteirizado por Nimród Antal, traz os músicos da banda atuando ao lado de Dane DeHaan (O Espetacular Homem-Aranha, True Blood).

Para você arrumar espaço na sua agenda cultural, abaixo está a relação de salas e cidades que exibirão o filme em todo o Brasil:

Belém: Cinépolis Parque Belém - 2D (100% DIG)
 

Belo Horizonte: Pátio Savassi - 3D e Del Rey - 3D
 

Brasília: CMK Pier 21 - 3D
 

Campinas: CMK Iguatemi 3D e Cinépolis Campinas - 2D
 

Campo Grande: UCI Parque dos Ipês 3D (100% DIG) e Cinépolis Norte Sul Plaza - 3D
 

Caraguatatuba: Centerplex Serramar (100% DIG) 3D
 

Caruaru: Difusora - 3D
 

Caxias do Sul: Cinépolis San Pelegrino - 2D
 

Cuiabá: Cinemais - 3D
 

Curitiba: CMK Muller - 3D, Dom Bosco Palladium IMAX, Estação Plaza Sala 3D e Curitiba 3D
 

Florianópolis: CMK Iguatemi 3D e System Iguatemi Floripa 3D
 

Florianópolis (São José): Cinépolis Continente Park - 2D (100% DIG)
 

Fortaleza: UCI Iguatemi 3D
 

Goiânia: CMK Flamboyant 3D
 

Granja Viana: Cinespaço The Square (IMAX)
 

Guarulhos: CMK Guarulhos - 3D
 

Indaiatuba: Topázio Polo Shopping - 3D
 

Jaboatão Guararapes: Cinépolis Jaboatão 3D
 

João Pessoa: Cinépolis João Pessoa - 2D
 

Limeira: Centerplex Cinemagic
 

Londrina: System Norte Shopping 3D (100% DIG)
 

Macaé: Cinemagic Macaé - 3D
 

Maceió: Centerplex Patio Maceió - 3D
 

Manaus: Cinemais Millenium
 

Nova Friburgo: Cineshow Nova friburgo 3D
 

Novo Hamburgo: Cinespaço Novo Hamburgo 3D
 

Porto Alegre: CMK Barra Sul 3D e Cinespaço Wallig (IMAX)
 

Praia Grande: System Litoral Plaza - 3D
 

Recife: CMK Riomar Recife 3D e UCI Kinoplex Recife Shopping 3D
 

Resende: Cineshow Resende 3D
 

Ribeirão Preto: CMK Novo Shopping 3D e UCI Ribeirão 3D
 

Rio de Janeiro: New York City (IMAX), UCI Park Campo Grande 3D, CMK Downtown 3D e CMK Botafogo 3D
 

São José Rio Preto: Cinemais 3D
 

Salvador: Aeroclube 3D, CMK Salvador 3D, Cinépolis Horto Bela Vista 2D (100% DIG), Multiplex Iguatemi 3 3D e UCI Paralela 4 3D
 

Santos: Praiamar 3D e Roxy 3D
 

São Luiz: Cinépolis São Luiz 3D
 

São Paulo: CMK Shopping D 3D, CMK Eldorado 3D, Santa Cruz 3D, Analia Franco (IMAX), Jardim Sul 3D, UCI Santana 3D, Cinépolis JK Iguatemi (100%DIG-IMAX), JK 3D, Itaquera 2D, Espaço Itaú de Cinema Pompeia (IMAX) e Espaço Itaú Frei Caneca 3D
 

São Vicente: Brisamar 3D
 

Uberaba: Cinemais 3D
 

Uberlândia: Cinemais 3D
 

Volta Redonda: Cineshow 3D

Por Ricardo Seelig

Soulfly: crítica de Savages (2013)

sexta-feira, outubro 04, 2013
Ao analisarmos um disco, devemos levar em conta, entre diversos fatores, dois em especial: qual foi o mais elevado patamar que o artista objeto da análise já chegou, e também quais são as referências de qualidade dentro do gênero que ele executa.

Levando em conta esses dois pontos, Savages, estreia pela Nuclear Blast e nono e novo álbum do Soulfly, sai perdendo. O disco é muito inferior ao fenomenal último trabalho do quarteto liderado por Max Cavalera, Enslaved (2012). Se o álbum de 2012 surpreendeu por apresentar uma banda inspiradíssima e contar com uma performance arrebatadora do baterista David Kinkade - aqui substituído por Zyon, filho de Max -, Savages não chega nem perto disso.

Trata-se um trabalho, na melhor das hipóteses, apenas mediano, com algumas poucas faixas que se destacam. Entre elas, “Master of Savagery” e “K.C.S.”. As demais parecem, sem exageros, apenas sobras de estúdio ou lampejos de momentos que o próprio Max já fez com muito mais brilhantismo - um exemplo é “Cannibal Holocaust”, irmã gêmea de “Intervention”, do álbum anterior.

Para piorar, há composições que se arrastam além do seu tempo, tornando-se cansativas em excesso. Isso acontece com “Ayatollah of Rock ‘n’ Rolla” e “El Comegente”, esta última com a participação do baixista Tony Campos nos vocais. Aliás, as várias participações especiais presentes no álbum não agregam praticamente nada ao resultado final.

Olhando para o passado, é possível perceber que, após lançar um disco que é aclamado como o melhor de sua carreira, a maioria das bandas naturalmente apresenta uma queda de produção em relação a esse seu ápice. No caso do Soulfly, a ressaca foi gigantesca, já que Savages soa muito inferior não só a Enslaved, mas também aos outros álbuns mais recentes do grupo.

Se há uma palavra que define Savages, ela é decepção. E das grandes.

Nota 5

Faixas:
1 Bloodshed
2 Cannibal Holocaust
3 Fallen
4 Ayatollah of Rock ‘n’ Rolla
5 Master of Savagery
6 Spiral
7 This is Violence
8 K.C.S.
9 El Comegente
10 Soulfliktion

Por Ricardo Seelig

Dream Theater: crítica de Dream Theater (2013)

sexta-feira, outubro 04, 2013
Desde a saída de Mike Portnoy, em 2010, nota-se uma mudança na sonoridade do Dream Theater. Isso fica ainda mais claro no décimo-segundo álbum da banda norte-americana, batizado apenas com o nome do grupo. A ausência do fundador e baterista mudou o eixo do Dream Theater, fazendo com que a liderança e o direcionamento musical passassem a ser ditados pelas visões do guitarrista John Petrucci e do tecladista Jordan Rudess.

Na prática, o que isso significa? Uma sonoridade mais agressiva, com a agradável predominância e contraste entre os instrumentos de Petrucci e Rudess. Isso já havia ficado perceptível no primeiro single, a ótima “The Enemy Inside”, e se repete durante todo o trabalho. A produção, a cargo do próprio Petrucci, realça esse aspecto, o que fez surgir comparações apressadas, e ao meu ver equivocadas, com o pesadíssimo e sombrio Train of Thought (2003). Aquele disco era escuro, soturno, características que não são percebidas aqui.

Em relação ao trabalho anterior, o bom A Dramatic Turn of Events (2011), Dream Theater, o álbum, me soou mais homogêneo e forte. Talvez isso seja fruto de dois fatores. Um é a participação do baterista Mike Mangini, competentíssimo substituto de Portnoy, em todo o processo de composição e troca de ideias do que viria a ser o disco desde o início, ao contrário do CD anterior, quando ele foi inserido com as coisas praticamente já definidas. E o outro, mais decisivo no meu ponto de vista, é o fato de a banda estar mais relaxada com a boa recepção que A Dramatic Turn of Events recebeu, tanto do público quanto da imprensa, mostrando que é perfeitamente possível seguir em alto nível sem um de seus fundadores. Sem tanto peso nas costas para provar algo, o Dream Theater acabou gravando um disco que funciona muito bem do início ao fim.

Uma das marcas do quinteto, o passeio e o flerte por diferentes sonoridades mantém-se ativo no novo trabalho. Há o prog clássico e épico da longa “Illumination Theory”, que fecha o álbum de maneira sublime com seus mais de 22 minutos, e há, claro, o caminho oposto, como a direta “The Looking Glass”, construída a partir de um riff que é puro hard rock - um hard padrão Dream Theater, é claro, e com um tempero que lembra o Rush.

É preciso ressaltar também “Enigma Machine” e a própria “False Awakening Suite”, que abre o disco, que retomam a tradição das faixas instrumentais da banda, ausentes nos últimos álbuns. “Enigma Machine”, em especial, é um desbunde para quem curte a técnica singular dos músicos que formam o Dream Theater, com a vantagem de apresentar esse requinte sem soar desnecessária.

“The Bigger Picture”, “Behind the Veil”, “Surrender to Reason” e “Along for the Ride” completam o tracklist de um dos trabalhos mais dinâmicos e consistentes da carreira do Dream Theater. O disco é merecedor de grandes elogios, e, com exceção de “Along the Ride”, uma balada mediana e que passa a sensação de já ter sido gravada inúmeras vezes durante toda a carreira do grupo, soa forte e na medida certa.

Se seguir nesse nível, aos poucos os (poucos) que ainda choram a saída de Mike Portnoy mudarão de ideia rapidinho.

Nota 8,5

Faixas:
1 False Awakening Suite
2 The Enemy Inside
3 The Looking Glass
4 Enigma Machine
5 The Bigger Picture
6 Behind the Veil
7 Surrender to Reason
8 Along for the Ride
9 Illumination Theory

Por Ricardo Seelig

2 de out de 2013

John Mayall & Eric Clapton, a parceria que mudou a música

quarta-feira, outubro 02, 2013
Em 1966, a união entre o pioneiro do blues inglês, John Mayall, e um guitarrista de rock que começava a ganhar notoriedade em Londres, Eric Clapton, resultaria em um dos discos mais importantes da história. Bluesbreakers with Eric Clapton é considerado por muitos o grande marco do blues rock.

Dois anos antes da lendária gravação, Clapton já tinha o respeito do público roqueiro. Seu primeiro grande grupo, o The Yardbirds, mostrava ter enorme potencial dentre as bandas da invasão inglesa. The Kinks, The Spencer Davis Group, The Troggs e outros estouravam nas rádios britânicas e começavam a conquistar fãs pelos EUA. Os Yardbirds ganhavam, gradativamente, seguidores ingleses, ainda mais após o single “For Your Love” e o LP Five Live Yardbirds (1964). Porém, o guitarrista não estava satisfeito com o som demasiadamente pop que o grupo estava produzindo. A solução encontrada por ele foi o abrupto abandono, já que seu desejo era tocar blues sem a pressão de empresários e gravadoras.

Por intermédio de um amigo músico, Robert Palmer, em abril de 1965 Eric entrava em contato com John Mayall, líder dos Bluesbreakers, um inglês apaixonado por blues americano e um dos responsáveis pela formação da cena do então nascente blues inglês. Doze anos mais velho, Mayall era mais experiente e grande conhecedor do estilo americano. Apesar de enorme talento (liderava os vocais, tocava teclado, gaita e guitarra base), seu primeiro disco, John Mayall Plays John Mayall (1965), não fora bem recebido pela crítica e a banda acabou demitida pela gravadora.


Clapton sabia que a música do seu futuro parceiro era baseada num blues com fortes influências do jazz e R&B, já que conhecia dois singles de Mayall, “Crawling Up a Hill” e “Crocodile Walk”. Naquele momento, o som apresentado pelos Bluesbreakers não o atraía, entretanto sentia que o certo era iniciar um novo projeto ao lado de John Mayall, pois o amor ao blues tradicional era comum a ambos. Aos poucos, ele pensava, o som da nova banda se adequaria ao seu gosto, o blues de Chicago. Assim, estava selada uma poderosa parceria. A banda ainda contava com John McVie, baixo, e Mick Fleetwood, que mais tarde formariam o Fleetwood Mac.

A partir de abril de 1965 Clapton mudou-se para a casa de Mayall, e lá pôde entrar em contato com diversos bluesmen americanos, expandindo suas influências. Passava grande parte do dia em seu quarto acompanhando e aperfeiçoando sua pegada na guitarra a partir da música de artistas como Muddy Waters, Howlin’ Wolf, Otis Rush, Buddy Guy e Earl Hooker.

Com um cachê de 35 libras por semana, o grupo rodava o norte da Inglaterra atrás de shows. A adesão de Clapton aos Bluesbreakers resultou em um fiel público e no crescimento da fama do guitarrista. A prova da sua enorme popularidade seria um grafite com os dizeres “Clapton is God” em uma estação de metrô. Os ingleses entravam em contato com um estilo musical novo.

Se na casa de Mayall Clapton vivia em um ambiente sério e familiar, o mesmo não podia ser dito sobre a casa de seus amigos. A vida era corrida e colorida pela experimentação das drogas, pela literatura beat e pelo cinema estrangeiro. Era um período de descobertas para o guitarrista e ele queria expandir seus conhecimentos, queria conhecer o mundo.

Tudo ia bem até que Eric e seus amigos de boemia decidem formar uma banda, o Glands. O plano dos seis músicos era financiar uma grande viagem pela Europa com os cachês de shows em bares e pequenas casas ao longo da estrada. Evidentemente, Mayall foi pego de surpresa e teve que procurar um substituto para o guitarrista.

Os Glands passaram pela Alemanha e Iugoslávia, até chegar na Grécia, onde abriam o show de uma banda local, Juniors, que tocava covers de Kinks e Beatles. Poucos dias depois do começo desse trabalho alguns membros do Juniors morreram em um acidente de carro e Clapton passou a tocar com o grupo grego. Como ele era, de longe, o músico com mais experiência e técnica e, além disso, tinha o inglês evidentemente fluente, logo foi agregado ao conjunto e passou a tocar seis horas diárias, alternando com a sua banda original, Glands. Em pouco tempo os Juniors tinham shows cheios e eram requisitados em diversas cidades. Para aflição do guitarrista os sentimentos da época do Yardbirds voltavam. Novamente, Eric questionava-se: sucesso comercial ou satisfação pessoal?

Depois de passar alguns meses longe, desejava retornar. Entretanto, o empresário da “banda emprestada” não aceitou a saída. O chefão tinha uma péssima reputação e tratava seus músicos como escravos. Clapton havia sido alertado sobre o preço de sua desistência: perder os braços! Felizmente, após um minucioso plano, conseguiu voltar de trem para Londres com o tecladista do Glands, Robert Palmer. Saldo da viagem: uma Gibson Les Paul, que fora deixada para trás durante a fuga, e a ameaça de perder sua ferramenta de trabalho, seus braços.


Ao retornar à capital inglesa, em outubro de 1965, os Bluesbreakers tinham um novo guitarrista, o talentoso Peter Green, e um novo baixista, Jack Bruce. Para o azar de Green, Clapton tinha lugar cativo no grupo e, logo, Peter foi demitido. Essa formação durou pouco tempo, mas, para a sorte do rock, a química entre Bruce e Clapton foi imediata e explosiva. Se Jack Bruce sairia precocemente dos Bluesbreakers, ocasionando o retorno de McVie, mais tarde a dupla formaria o Cream ao lado de Ginger Baker, uma das primeiras mega bandas do rock.


Após um período de pequenos shows, em abril de 1966 o quarteto entrava nos estúdios da Decca. O entrosamento era perfeito e Clapton estava com uma nova guitarra, uma Gibson Les Paul em vez da velha Gibson ES 335, além de um amplificador Marshall novo, produzindo um som estridente e distorcido. A gravação fora arranjada de forma que alcançasse uma sonoridade de show ao vivo. Em apenas três dias, Bluesbreakers with Eric Clapton estava pronto.



Também conhecido como Beano devido à foto da capa em que Clapton lê uma revista em quadrinhos, o disco mudou o conceito do blues. Unindo o blues americano, mais denso, com uma pegada roqueira tipicamente inglesa, Mayall e Clapton foram os responsáveis por uma obra-prima. Enquanto Mayall liderava o grupo com experiência, cantava e tocava teclado e gaita, Clapton tinha liberdade para tocar de forma semelhante aos seus grande ídolos, como Freddie King. Composto por covers, como “All Your Love” (Otis Rush/Willie Dixon), “Hideaway” (Freddie King) e “What’d I Say” (Ray Charles), canções autorais, casos de “Little Girl”, “Double Crossing Time” e “Key to Love”, e uma work song rearranjada, “Another Man”, o álbum é perfeito do início ao fim. O disco ainda guarda uma surpresa: Clapton nos vocais de “Ramblin’on My Mind”, de Robert Johnson (e pensar que naquela época o músico não gostava de sua voz, demasiadamente aguda).

A partir de 1966 o rock passaria por experimentações diversas e grandes discos seriam gravados, casos de Revolver (Beatles) e Pet Sounds (Beach Boys). Contudo, Bluesbreakers with Eric Clapton mudou a trajetória do blues e do rock e tornou-se uma obra atemporal, obrigatória a todos os amantes da música. Se a parceria entre Mayall e Clapton acabaria logo após o lançamento do primeiro e único disco, já que ele formaria o Cream com Jack Bruce e Ginger Baker, o mesmo não pode ser dito sobre seu legado, que é eterno.



Por Ugo Medeiros, da Coluna Blues Rock

Carcass: crítica de Surgical Steel (2013)

quarta-feira, outubro 02, 2013
Se o retorno do Black Sabbath polarizou atenções de quase todo o cenário músical e teve em 13, primeiro trabalho de estúdio com Ozzy Osbourne desde 1978, o disco mais aguardado de 2013, coube ao Carcass chacoalhar de forma parecida os subterrâneos do heavy metal. Por linhas tortas, Jeff Walker e Bill Steer, dois doentios garotos de Liverpool, geraram expectativa semelhante ao quarteto de Birmingham ao anunciar que quebrariam o hiato de 17 anos com um novo álbum de inéditas.

Ainda que em um universo bem mais restrito, Surgical Steel teve impacto congruente ao de 13 no sentido de simbolizar o renascimento dos fundadores de um gênero. Ou de várias vertentes dele. Se o Sabbath criou o heavy metal e é o pai de seus conceitos centrais, o Carcass é um dos pilares de pelo menos três ramificações oriundas desse ponto de origem: o death metal em si, o goregrind/grindcore/splatter e o death metal melódico, que se consolidaria posteriormente por meio de uma parcela de bandas suecas no que passou a ser chamado de Gothenburg sound.

Em outras palavras, Surgical Steel teve acoplado a si uma aura especial desde o início de sua concepção. Uma aura que representava uma espécie de selo de qualidade, mas ao mesmo tempo também deixava espaço para a dúvida. Que mesclava a expectativa pela volta do maior nome do death metal britânico com a incerteza sobre o resultado prático e concreto desse comeback. Que rumo o novo disco tomaria? O trilhado por Necroticism - Descanting The Insalubrious (1991) e Heartwork (1993), duas pedras fundamentais do estilo, ou o tortuoso caminho percorrido pelo irregular Swansong (1996)?

A resposta começou a ser delineada no fim de junho, quando o primeiro single, "Captive Bolt Pistol", vazou. A confirmação definitiva veio quando o álbum inteiro ficou à disposição na internet, ainda em agosto. A essa altura, o jogo já estava ganho e pairava uma única e nítida certeza: Jeff e Bill voltaram famintos. Constatação que, por si só, deu as garantias necessárias para afirmarmos que o novo trabalho seria brilhante.

Oficialmente, Surgical Steel saiu só em setembro, bem depois de quase todo mundo ouví-lo. Situá-lo na discografia da banda não é tarefa difícil. A primeira impressão é de que ele está estrategicamente no meio do caminho entre Necroticism Heartwork. Algumas audições depois, entretanto, constata-se facilmente que o mesmo se aproxima muito mais do segundo, sendo uma continuação natural de hinos como, por exemplo, "Buried Dreams", "Embodiment" "No Love Lost", "Doctrinal Expletives" e, claro, "Heartwork", faixa-título do álbum.

O que muda de um para o outro, então? Muita coisa. Apesar da proximidade em termos de estrutura das composições, a qualidade de execução, o impacto das linhas melódicas, os arranjos e, sobretudo a produção, são amplamente superiores. Colin Richardson, que cuidou da gravação, e Andy Sneap, responsável pela mixagem e masterização, fizeram um trabalho invejável. Som cristalino e ainda assim absurdamente agressivo. Bem timbrado, pesado e incisivo nas medidas certas para realçar ao máximo cada detalhe da desgraça em forma de música a qual se propõe o Carcass.

As linhas vocais e a forma com que Jeff Walker as canta são dignas de aplauso. Não bastasse ser o frontman que é, o cara ainda segura a bronca no baixo. O ponto alto de Surgical Steel, porém, ninguém tira de Bill Steer, que tem atuação simplesmente de outro planeta. Riffs brutais, velozes ou com groove e, acima de tudo, criativos, são o carro-chefe. Tudo afinado alguns tons abaixo, em si, e temperado com solos melódicos no ponto exato, destilando toda sua influência de classic rock e, principalmente, NWOBHM. Apesar do longo período afastado do death metal, Bill entra fácil no top 3 dos guitarristas do gênero ao lado de Chuck Schuldiner e Trey Azagthoth. Se ouvissem o disco, ambos ficariam em um misto de orgulho e inveja, tamanha excelência do trabalho de guitarra.

Por falar em inveja, Michael Amott deve estar se contorcendo. Felizmente, o guitarrista não participou da empreitada e em momento algum sua ausência é sentida. Além de Jeff e Bill, atualmente o Carcass conta com Daniel Wilding e Ben Ash, mas apenas o primeiro participou de Surgical Steel, tendo bom desempenho ao substituir o baterista Ken Owen, membro fundador da banda, mas impossibilitado de tocar desde 1999 por conta de um AVC. Ben chegou depois e, em estúdio, foi Bill quem gravou todas as guitarras das 11 canções.

Tudo se inicia com a instrumental "1985" e seu título para lá de sugestivo, pois trata-se de uma intro criada realmente em tal ano, quando a banda ainda se chamava Disattack, uma espécie de embrião do que viria a ser o Carcass. Assim que surgem as primeiras notas, impossível não remeter diretamente a uma mistura entre "The Hellion", do Judas Priest, e o comecinho de "Caught Somewhere in Time", do Iron Maiden. Logo em seguida, a curta e urgente "Thrasher's Abbatoir", lembrando os melhores momentos de Reek of Putrefation (1988).

A trinca "Cadaver Pouch Conveyor System", "A Congealed Clot of Blood" e "The Master Butcher's Apron" forma, talvez, o principal momento do álbum, com destaque para as duas últimas, disparadas as melhores de todo o play. A medalha de prata fica com outras duas canções obrigatórias e com nomes escatológicos: "Noncompliance to ASTM F 899-12 Standard", dona de um solo esmagador, e a pesadíssima "316 L Grade Surgical Steel".

No fim das contas, a ótima "Captive Bolt Pistol" acaba até ofuscada se olharmos Surgical Steel em totalidade. Excelente, mas um tanto quanto genérica perante a interessantíssima "The Granulating Dark Satanic Mills" e seu refrão enigmático - ♫ six, zero, two, six, nine, six, one... ♫ -, bem como o encerramento estupendo com "Mount of Execuiton", épica até dizer chega e uma das melhores também. Isso para ficarmos apenas no track list tradicional, já que outras quatro faixas inéditas foram gravadas - "A Wraith in the Apparatus", "Intensive Battery Brooding", "Zochrot" e "Livestock Marketplace" -, mas não entraram.

Em seu habitat, que é o da música extrema e que congrega vasta gama de lançamentos de qualidade em 2013, não há dúvidas de que Surgical Steel se sobressai e praticamente oblitera a concorrência. Um verdadeiro marco na cena death metal como há tempos não se via. Além disso, um álbum para cooptar neófitos e recém-iniciados ao necrotério em que repousa incólume o legado do Carcass, assim como fez Heartwork, seu irmão mais velho, 20 anos atrás.

Nota 9,5



Faixas

1 1985 (instrumental)
2 Thrasher's Abattoir
3 Cadaver Pouch Conveyor System
4 A Congealed Clot of Blood
5 The Master Butcher's Apron
6 Noncompliance to ASTM F899-12 Standard
7 The Granulating Dark Satanic Mills
8 Unfit for Human Consumption
9 316L Grade Surgical Steel
10 Captive Bolt Pistol
11 Mount of Execution

Por Guilherme Gonçalves

Gastão Moreira e Bento Araújo juntos em novo programa no YouTube

quarta-feira, outubro 02, 2013
Que nova MTV, que nada! A boa pra quem curte música é a estreia do programa Heavy Lero, que acontecerá dia 8 de outubro, às 20 horas, no YouTube.

A atração trará o ex-VJ Gastão Moreira e o jornalista Bento Araújo, da poeira Zine, falando sobre música, e tem a direção do grande Edgard Picolli, com passagens pela MTV e Multishow.

Marque na agenda, pois, pelo talento e bom gosto do trio envolvido, vem aí um programa pra fazer histõria.

Por Ricardo Seelig

1 de out de 2013

Houston: crítica de II (2013)

terça-feira, outubro 01, 2013
Foi através de um amigo que conheci o Houston, banda sueca de AOR que vem fazendo bonito desde 2010, quando seu álbum de estreia papou o título de melhor do gênero pela Classic Rock. No último dia 2, o trio, formado por Hank Erix, Ricky Delin e Freddie Allen, lançou II e, pelo que este demonstra, estamos diante de um forte candidato ao bicampeonato na conceituada revista britânica. 

O som que se ouve no decorrer dos 45 minutos do play é algo que, não fosse a produção de altíssimo nível, poderíamos desconfiar ter vindo diretamente da segunda metade dos anos 1980, quando o mundo testemunhou o nascimento (ou mesmo o ápice) das melhores bandas de Melodic Rock da história. E é nas tetas dessa turma das antigas que o Houston mama até não poder mais, incorporando tudo que é indispensável, mas preservando uma individualidade que se dá justamente pela união de elementos tão diversos e de diversas origens. Se tratando de um grupo sueco, é natural que a maior influência por aqui seja do Europe, mas há resquícios de Journey, Survivor e até mesmo um quê setentista a la Boston em determinados momentos. 

"Glory" dá partida no motor com teclado matador na introdução, quebra de padrão no pré-refrão e harmonias vocais de primeira. O single "I'm Coming Home" eleva a temperatura munido de uma energia positiva que toma proporções inimagináveis no refrão grudento, e novamente o teclado assume a linha de frente. "Talk to Me" é outra que mostra o bom funcionamento dos backing vocals. A frase de teclado que marca a introdução parece ter sido chupada do riff de "Thrills in the Night" do KISS, mas pode ser apenas uma feliz coincidência. 

O que seria a abertura do lado b, "24 Hours" tem cara mesmo é de abertura de show — dá até pra imaginar a cena: palco todo apagado, um foco de luz no tecladista e, de repente, aquela explosão de luz em simultâneo ao ataque conjunto da banda, para acelerar tudo que é batimento cardíaco na plateia. E se o show ideal começaria com "24 Hours", o bis mais que perfeito teria "On the Radio" na comissão de frente. O pedal de volume da guitarra é acertado em "Losing", mas o instrumento só permanece no comando até o piano dar as caras e reger o melhor refrão de todo o álbum. 

Alguém aí se lembra do filme Águia de Aço, que passava exaustivamente na Sessão da Tarde, ou dos comerciais do cigarro Hollywood? Tanto "Just Friends" quanto "Believe" parecem ter vindo diretamente dessas trilhas sonoras. Impossível não desconfiar da procedência, pois isto aqui é pura década de 1980. Comprovadamente, a produção impecável é que nos localiza em pleno século 21. Em sua missão de vestir em trajes modernos um gênero que muitos consideram datado, o Houston gabarita. Não consigo pensar em nenhuma outra banda nova que faça exatamente este tipo de som com o mesmo padrão de qualidade. Top 10 garantido! 

Nota 9,5 

01. Glory 
02. I’m Coming Home 
03. Return My Heart 
04. Talk To Me 
05. Back To The Summer Of Love 
06. 24 Hours 
07. On The Radio 
08. Losing 
09. Just Friends 
10. Believe 

 Por Marcelo Vieira

O riff e a onomatopeia

terça-feira, outubro 01, 2013

Onde está o rock brasileiro? Por onde ele anda? Quem o está produzindo hoje em dia? Quais são as boas bandas que temos no país fazendo rock de qualidade, agora, neste momento? (Um aviso: estamos falando de rock e não de heavy metal. Como você é uma pessoa inteligente, sabe muito qual é a diferença entre um gênero e outro, não é mesmo?)

Essa é uma pergunta que pode ter várias respostas. Você pode responder que não há uma cena rockeira atual convincente, mas estará errado. Você pode dizer que o rockBR continua sendo feito pelos mesmos nomes de sempre, aqueles que vieram ao mundo durante as décadas de 1980 e 1990, e não estará errado. As variáveis são muitas, e todas elas passam por uma questão bastante clara: o rock brasileiro atual não chega até os ouvidos de seus consumidores.

Você está louco, dirão os mais apressados. Não, não estou. Se pegarmos a cena rockeira da década de oitenta, por exemplo, observaremos exatamente o oposto que ocorre agora: a produção das bandas chegava até os ouvintes, as músicas invadiam nossas casas e nossas vidas. Hoje, esse processo não se dá com o rock, mas com outros estilos, como o sertanejo universitáro, onipresente em todo o Brasil.

É claro que o rock nunca deixou de ser produzido no Brasil, mas é justo perguntar por onde ele anda, já que, com o seu afastamento do mainstream e das grandes massas, ficou mais difícil para as novas bandas chegarem até um novo público.

Qual foi a última grande banda de rock surgida no Brasil? NX Zero? Não. Cachorro Grande? Ótimos, mas nunca foram um fenômeno de popularidade. Los Hermanos? Foram um fenômeno de público, com seguidores fanáticos, mas não eram necessariamente uma banda de rock. Raimundos? Sim, provavelmente. E quando foi isso? No início da década de 1990. Estamos em 2013. Um longo tempo, não?

Hoje, há uma inversão na realidade quando a comparamos aos anos 1980 e 1990. O rock não é mais a música da juventude  brasileira. Não, não é mesmo. Não analise isso pensando apenas na realidade das grandes cidades como São Paulo. Olhe de maneira mais abrangente. Olhe o Brasil como um todo. O que os jovens escutam hoje em dia? Outros sons, não o rock. O sertanejo universitário é o atual pop brasileiro. Ivete Sangalo e Cláudia Leitte ocuparam o lugar de Renato Russo e Cazuza. São esses artistas que possuem identificação com a geração atual, identificação essa que pertencia às bandas de rock há alguns anos atrás.

O riff foi trocado pela onomatopeia. Antigamente, um jovem de 14, 15 anos, compunha riffs imaginários em sua mente, influenciado pelas bandas que ouvia. Hoje, um adolescente de 15 anos imagina onomatopeias, influenciado por nomes como Michel Teló e Gustavo Lima. Tche-tche-tche-tche-rê-rê-rê-rê ... Não há mais conteúdo na música que é consumida hoje, em grande escala, Brasil afora. É tudo com uma qualidade rasteira, com arranjos simples e melodias derivativas, onde, em alguns casos, até a letra que está sendo cantada se transformou em um acessório de luxo.

Para um país como o nosso, com a tradição musical como o Brasil, reconhecido em todo o mundo como o berço de uma das músicas mais respeitadas do planeta, berço de gênios como Tom Jobim, Vinícius de Moraes, João Gilberto, Gilberto Gil e muitos outros, trata-se de uma volta à Idade da Pedra. Regredimos, estamos rastejando, atolados em um cenário que não cheira nada bem.

Em relação ao rock, como já dito antes, ele deixou de ser a trilha da maioria da juventude brasileira, substituído por outros gêneros com maior apelo junto a esse público. Naturalmente, por esse motivo, as vias que a nova produção rockeira, que as novas bandas, tinham para chegar até os ouvintes, diminuíram. De nada adiantam “rádios rock” que tocam as mesmas velhas canções de sempre, revezando-se entre “Smoke on the Water”  e “Exagerado”, “Stairway to Heaven”  e “Faroeste Caboclo”. De nada servem casas de shows que preferem contratar bandas cover a artistas autorais. Aqui em Florianópolis, cidade onde resido, ao andar pelas ruas um desavisado pensará que está em Los Angeles ou Londres devido aos imensos cartazes que anunciam shows de nomes como U2, Guns N´ Roses, Iron Maiden e Rolling Stones – todos eles, claro, com um minúsculo adendo “cover” ao lado.

É claro que eu sei que o rock não morreu em nosso país, e jamais irá morrer. Há ótimas bandas em todos os cantos. Tomada, Baranga, Pedra (que voltou recentemente), Cachorro Grande, O Terno ... A lista é grande. Porém, as músicas dessas bandas precisam chegar não apenas até os meus ouvidos, mas aos ouvidos de uma parcela muito – muito, mas muito mesmo – maior de pessoas. A utopia é que uma composição do Tomada tenha a mesma popularidade do sucesso atual de Michel Teló – algo que, na realidade atual, é impossível de acontecer.

Mais espaço nas rádios, mais espaço nos palcos, mais espaço na imprensa, mais espaço em todos os lugares: é isso que o rock brasileiro de qualidade, bom de verdade, precisa. Se isso não acontecer, ele seguirá sendo, cada vez mais, um gênero relegado a um nicho específico, algo que está longe da tradição do estilo em nosso país.

Por Ricardo Seelig

30 de set de 2013

Crítica do livro Rod: A Autobiografia

segunda-feira, setembro 30, 2013

Este é um dos livros mais deliciosos e divertidos que já li. Lançado nos Estados Unidos e na Inglaterra em outubro de 2012, Rod: A Autobiografia chegou ao Brasil em setembro através da Globo Livros. A obra conta, em suas 362 páginas, a história de Rod Stewart nas palavras do próprio artista.

Diversos fatores fazem de Rod um livro tão bom. Stewart desnuda-se, contando detalhes de sua vida desde o nascimento, ocorrido em 1945 durante os últimos meses da Segunda Guerra Mundial, até a atualidade. Durante o processo, passa pela sua infância, a enorme paixão pelo futebol, os primeiros anos com artista, o Jeff Beck Group, o Faces, a amizade profunda com figuras como Ron Wood e Elton John, o enorme sucesso de sua carreira solo, as quase infinitas conquistas amorosas e a construção de uma grande família com sete filhos e quatro esposas. E, no caminho, não se furta de contar histórias deliciosas e curiosas de bastidores, como a maneira peculiar que ele e Wood descobriram para consumir cocaína durante a década de 1970.

O que diferencia Rod: A Autobiografia dos diversos livros de memórias de artistas é a forma como Rod Stewart conta a sua vida. Dono de um senso de humor refinado e cheio de ironia, o cantor não tem pudores em tirar sarro de si mesmo, fazendo piada com escolhas que fez no passado. Essa é uma característica que acompanha toda a obra, tornando-a leve e facílima de ser lida. Um exemplo: onde mais você encontraria uma autobiografia em que o seu autor dedica um capítulo inteiro para contar como fazer o seu penteado peculiar?

Confesso que não sou um grande conhecedor da carreira de Rod Stewart. Fui fundo em sua parceria com Jeff Beck, ouvi alguns discos do Faces e algumas coisas solo, mas nunca me dediquei muito à sua obra. E, nesse aspecto, este livro funciona que é uma beleza, pois, ao acabar de lê-lo, a necessidade que sinto de mergulhar na discografia de Rod é enorme.

Com uma leveza de espírito e um bom humor constante, Rod Stewart passeia por sua vida, repleta de pontos altos e histórias incríveis. Da fila de loiras esculturais que levou para a cama à histórias de bastidores, além de um enorme destaque para o futebol e a paixão que sente pelo Celtic e pela seleção escocesa, Rod Stewart se revela, no decorrer das páginas, quase em um amigo íntimo do leitor, daqueles capazes de contar histórias apaixonantes durante dias a fio.

Rod: A Autobiografia faz jus a um dos artistas mais importantes da história do rock, dono de uma das vozes mais emblemáticas do estilo. Leia, divirta-se e traga a música deste ícone para a sua vida. Demais!

Por Ricardo Seelig

Envelhecendo com dignidade, qualidade e muito rock and roll

segunda-feira, setembro 30, 2013

2013 trouxe de volta ao topo alguns artistas veteranos que há tempos não lançavam material inédito. Os exemplos mais óbvios foram os retornos do Black Sabbath e de David Bowie com os álbuns 13 e The Next Day. Músicos já rodados, com enorme experiência, chegando perto dos 70 anos e ainda com sede e apetite para compor e entregar aos fãs trabalhos dignos de suas histórias.

Porém, quando penso em músicos que estão envelhecendo com dignidade, o exemplo mais claro que me vem à mente é o de Bruce Springsteen. Nascido em 23 de setembro de 1949, Bruce completou 64 anos na última semana. E, nos últimos anos, lançou alguns dos seus melhores discos. Não está errado quem aponta que Springsteen vive o melhor momento de sua carreira. Quem assistiu ao show que ele fez no Rock in Rio 2013 constatou isso sem maiores esforços. Uma entrega genuína e contagiante, uma performance avassaladora que elevou o nível da expressão “troca de experiências e emoções com o público” a um patamar inédito.

Sou daqueles que amam a produção recente de Bruce Springsteen muito mais do que aquilo que The Boss gravou nas décadas de 1970, 1980 e 1990. Seus quatro últimos discos, principalmente, me tocaram de maneira profunda, fazendo surgir uma admiração que poucas vezes senti pelo trabalho de um músico. Essa jornada teve início com o sensacional We Shall Overcome: The Seeger Sessions (2006), em que Bruce releu com extrema maestria o catálogo de Pete Seeger, um dos compositores mais importantes da música norte-americana. Se solidificou com o ótimo Magic (2007), um disco que mexe como poucos com as emoções do ouvinte. Se consolidou com Working on a Dream (2009), repleto de canções fortes e cheias de melodia. E se revelou para a vida toda com Wrecking Ball (2012), uma das obras-primas de sua discografia e um dos mais belos discos lançados nos últimos anos.

Mas há, além de Bruce, outros exemplos de músicos que estão sabendo envelhecer com sabedoria e dignidade. Neil Young segue inquieto, jamais repousando sobre o berço esplêndido de sua longa trajetória e sempre surpreendendo com álbuns desafiadores. Paul McCartney ainda mantém o toque raro de ourives da melodia, gravando discos muito bons e fazendo shows com quase três horas de duração e que mostram que o tempo é um conceito relativo. David Gilmour, apesar da produção esparsa, quando resolve entrar em estúdio sempre sai com material de primeira linha. Leonard Cohen e Bob Dylan mantém intactos seus poderes de contadores de histórias, que ficaram ainda mais profundos com o passar dos anos e a chegada da maturidade e da velhice.

Dentro do heavy metal, o exemplo do Iron Maiden é inspirador. A banda, uma das maiores e mais influentes da história do gênero, se reinventou em todos os sentidos desde o retorno de Bruce Dickinson e Adrian Smith, em 1999. Desenvolvendo uma sonoridade mais complexa que aquela que conquistou o mundo durante a década de 1980, o Maiden vem gravando discos muito bons nos últimos anos, cuja maior prova é o seu excelente álbum mais recente, The Final Frontier (2010). E toda essa inquietude artística vem acompanhada pelo reconhecimento do público, com o grupo vivendo hoje, em todos os sentidos, o período de maior popularidade de sua história. Basta dar uma olhada nas posições alcançadas pelos seus últimos discos nas paradas e nos resultados financeiros obtidos pela banda nos anos recentes para perceber isso sem maiores dificuldades.

Eu não sei o que a vida me reserva nos próximos anos. Porém, posso desejar que eu consiga me manter ativo, produtivo e inquieto como Bruce, Neil, Paul, Bob, David, Leonard e meus companheiros de toda a vida, a Donzela de Ferro. Se conseguir alcançar isso, serei uma pessoa feliz.

Por Ricardo Seelig

29 de set de 2013

O heavy metal e o preconceito sexual

domingo, setembro 29, 2013
Há cerca de cinco anos atrás, o mundo do heavy metal foi sacudido,mais uma vez, por uma revelação bombástica. Gaahl, vocalista do Gorgoroth, anunciou aos quatro ventos sua opção sexual, se declarando gay. Em pleno século XXI, uma declaração como essa deveria passar batida, afinal cada um é livre para seguir a sua própria orientação sexual. Mas, no cenário do heavy metal, ela causa comoção.

Para quem nunca ouviu falar do Gorgoroth, vale um breve histórico a respeito do grupo. A banda foi fundada em 1992 na cidade norueguesa de Fjaler. Seu line-up original contava com Hat nos vocais, Infernus na guitarra, Samoth no baixo e Goat Pervertor na bateria. O grupo foi um dos principais nomes da chamada segunda geração do black metal, que teve o seu berço na Noruega no início dos anos noventa e ficou conhecida por três fatores: a qualidade inegável e influência gigantesca de bandas como Mayhem, Burzum, Darkthrone, Immortal, Emperor e o próprio Gorgoroth, entre outros; o surgimento do Inner Circle, grupo fechado encabeçado por Euronymous, guitarrista e líder do Mayhem, que causou controvérsia por promover a queima de igrejas históricas norueguesas; e, por último, o desentendimento entre Euronymous e Varg Virkenes, líder do Burzum, que culminou com o assassinato do primeiro pelo segundo, com Virkenes sendo condenado à uma longa temporada na prisão, e onde saiu somente recentemente.

O Gorgoroth, em sua carreira, gravou alguns álbuns clássicos do black metal como Pentagram de 1994, Antichrist de 1996 e Under the Sign of Hell de 1997, que ajudaram a definir a estética sonora do estilo, com os instrumentos soando propositadamente abafados e mal mixados, vocais urrados e bateria à velocidade da luz. 

Gaahl entrou no grupo em 1998, e com sua postura radical foi um dos principais responsáveis pelo acentuamento da visão radical da banda, uma das mais controversas do metal extremo, e que sempre fez questão de deixar clara a sua crença no satanismo. Por fim, um dos shows mais controversos que o metal já teve notícia foi uma apresentação do Gorgoroth na cidade polonesa de Cracóvia, em 2004, onde a banda tocou coberta por sangue de animais, além de trazer diversas mulheres nuas presas em cruzes e cabeças decapitadas de porcos e bodes por todo o palco, fatos esses que chocaram os poloneses, um dos povos mais católicos do mundo.

Ou seja, estamos falando de um dos ícones do black metal, e que finalmente resolveu assumir ao público a sua opção sexual. Não há mal nenhum nisso, muito pelo contrário. Rob Halford já havia causado debate semelhante quando, no início dos anos 1990, resolveu sair do armário. Aliás, aqui cabe um comentário: Halford, à frente do Judas Priest, foi uma das figuras fundamentais não só na evolução e definição do que hoje conhecemos como heavy metal, mas também, e principalmente, foi um dos artífices do modo de vestir dos headbangers ao redor do planeta, que copiaram seus trajes de couro sem perceber que, na verdade, aquelas roupas usadas por Rob eram inspiradas no visual gay sadomasoquista e não em algo supostamente másculo, como os mais desavisados acreditam até hoje.

Esses dois exemplos, infelizmente, são exceções. Não há notícia de muitos artistas de heavy metal que vieram a público revelar as suas opções sexuais, o que é uma pena. Em um país como o Brasil, onde cada vez mais a política se mistura - e se confunde, no mal sentido mesmo - com a religião, gerando figuras totalmente dispensáveis como os Felicianos da vida, exemplos de ídolos que não tem medo de expor o que fazem em suas vidas privadas seriam muito importantes. A opção sexual de cada pessoa é individual, e diz respeito somente a ela. Se alguém é heterossexual, gay, lésbica ou o que mais der na telha, isso diz respeito somente a esse indivíduo e a mais ninguém. É preciso respeitar as individualidades e as escolhas dos outros, postura, infelizmente, cada vez mais rara nesse país tropical.

O que me diverte nisso tudo é ver, por exemplo, bandas como Manowar serem endeusadas por meia dúzia de descerebrados. Além de produzirem uma música com qualidade pra lá de questionável, os músicos do grupo ainda se vestem com roupas mínimas que tem o único objetivo de expor os seus bem torneados músculos e corpos. Esse visual Conan pode ser tudo, menos algo que atraia garotas. Já garotos sedentos, é outro caso :-) E a lista pode ser facilmente aumentada com nomes como Venom, Bathory e outros - vão, joguem as pedras e me amaldiçoem nos comentários, sem problemas.

Concluindo: é preciso ter coragem para se expor como Rob Halford e Gaahl fizeram, deixando a confortável posição de ícones incontestes de um gênero musical para serem questionados sobre suas escolhas. E é inacreditável que, no mundo em que vivemos, a revelação da opção sexual de uma pessoa ainda cause tanta discussão, interferindo na avaliação de sua obra artística.

Vamos em frente, livres como sempre!

Por Ricardo Seelig

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