16 de mai de 2014

Insomnium: crítica de Shadows of the Dying Sun (2014)

sexta-feira, maio 16, 2014
No começo havia apenas um salão construído sobre águas negras. E foi nesse salão que uma jornada desconhecida de um dos infelizes filhos do melodic death finlandês teve início, no dia em que tudo veio abaixo e a Morte caminhou sob um lamentoso céu. Mas sobre o mundo de lágrimas, este desamparado filho atravessou os portões através da escuridão e chegou aonde a última das ondas quebra. Lá, ele é o único que aguarda para que o seu espírito descanse. O único que aguarda pela canção do pássaro negro.

E então chega a sombra de um último pôr do sol.

Shadows of the Dying Sun é o sexto álbum de estúdio do Insomnium, produzido por Teemu Aalto (o mesmo dos álbuns do Omnium Gatherum) e lançado pela Century Media no fim de abril, representa um verdadeiro conto épico, uma espécie de recomeço para a própria banda.

Com um início exponencial, cada instrumento vai sendo apresentado em ritmo quase ritualístico, na velocidade de um próprio eclipse solar total sobre uma terra totalmente sem vida. “The Primeval Dark” é como a introdução de uma velha história sendo contada por uma figura sombria, a sensação de estar atravessando um portal para um mundo completamente novo ou do vento folheando um antigo livro. E com “While We Sleep”, o Insomnium dá os primeiros passos neste novo cenário com o seu melodeath metal puramente finlandês melódico e denso, com os repetidos mantras de We need to slow down servindo não apenas para representar as inserções de gothic e doom em sua sonoridade, mas as cada vez mais presentes músicas folclóricas e ambientações sonoras, que complementam de forma única as vozes de Niilo Sevänen e Ville Friman.

Prosseguindo com a jornada por desoladas paisagens, “Revelation” traz uma cadência que os aproxima em muito do Amorphis recente, mas com dinâmicas mudanças de andamento que a tornam uma experiência mais pessoal do que mítica. Os ventos glaciais cortantes voltam a soprar junto com os blastbeats de “Black Heart Rebellion”, uma canção de guerra pesarosa, no limiar extremo entre lutar por uma causa e refletir sobre o que é realmente correto enquanto se é soterrado por neve e cinzas. Como uma continuação do mesmo sentimento, “Lose to Night” segue ritmo constante, monótono como o caminhar dos astros, entoado por um fantasmagórico coral, que utiliza de forma inteligente e épica a liberdade proposta pelo instrumental.

“Collapsing Words”, por outro lado, é uma espécie de reciclagem de “Closing Words” (presente em Since the Day It All Came Down) e resgata o melodeath em sua personificação mais direta, crua e agressiva, montando um ácido jogo de palavras em que cada verso é uma frase de efeito clichê, um turbilhão de conselhos prontos e descartáveis que as pessoas adoram falar ou escrever, mas muito pouco colocam em prática. Um alívio irônico que procede “The River”, não apenas um dos momentos mais épicos no álbum, mas uma das grandes composições na discografia dos finlandeses, completa em diversos sentidos. Como o navegar de um rio de volta para casa representando a própria vida (e o seu fim), cada mudança de andamento ou novo elemento parece milimetricamente encaixado, esculpido ao longo de milhares de anos pela própria ação natural.

Em seguida, de formato bem mais simplificado, “Ephemeral” explora novamente ideias diretas que acabam por resultar em um meio termo entre power metal, post-hardcore e os guturais tipicamente escandinavos, mostrando como obviedades podem se tornar algo interessante se bem construídas. O mesmo pode ser dito da cadência da “The Promethean Song” e sua atmosfera fantasiosa, basicamente uma narração que procede a inesperada conclusão com “Shadows of the Dying Sun”, outro entre os mais belos momentos do álbum. Com conceito lírico margeando o folclore e a ciência de forma inesperada, a densidade instrumental divide espaço com o pesar e a melancolia relacionada à noção de insignificância, lembrando vagamente o Dark Tranquillity de Haven, porém mais experimental, dinâmico e assombrado pelos elementos folk. Não exatamente um final feliz dentro do conceito. Mas um encerramento grandioso que faz justiça às proporções do disco.

Fato é: Shadows of the Dying Sun não representa uma severa revolução na discografia do Insomnium. Porém, não significa que os finlandeses tenham permanecido presos ao gelo de sua própria identidade. O que se vê aqui é um amadurecimento em termos de composição do que começou a ficar evidente em Across the Dark e One for Sorrow, que embora criticadas um pouco na época, demonstram aqui um equilíbrio que ainda não havia sido atingido. As novas faixas apresentam uma linha comum, uma atmosfera onipresente que conecta todas elas de forma quase inconsciente – o que sim, pode deixar a impressão de estar ouvindo a mesma música infinitamente.

Porém, basta deixar se levar pelas sombras musicais do álbum, que se torna fácil identificar como o melodic death metal da banda já deixou de ser o mesmo há muito tempo. As inserções progressivas apenas complementam as arrastadas passagens e as mudanças de andamento condizentes com as letras (algo próximo ao Amorphis e ao Enslaved, dentro da sua proposta), caminhando lado a lado com os momentos mais tranquilos cada vez mais presentes, importantes e eficientes, algo ligeiramente questionável anteriormente.

O sol está morto. E talvez fosse exatamente este caminho que o Insomnium precisava trilhar para encontrar o seu verdadeiro lugar de uma vez por todas.

Nota 8,5

Faixas:

1. The Primeval Dark

2. While We Sleep

3. Revelation

4. Black Heart Rebellion

5. Lose to Night

6. Collapsing Words

7. The River

8. Ephemeral

9. The Promethean Son

10. Shadows of the Dying Sun

Por Rodrigo Carvalho

15 de mai de 2014

Babylon A.D.: crítica de Lost Sessions / Fresno, CA 93 (2014)

quinta-feira, maio 15, 2014

A sabedoria dos antigos nos ensina que merda, quanto mais se mexe, mais fede. Pois bem, quando deu as caras na Bay Area por volta de 1988, tocando mais pesado e com um visual menos afetado que o de seus vizinhos da Sunset Strip, o Babylon A.D. estava longe de ser uma merda. A qualidade musical do quinteto chefiado pelos guitarristas Dan De La Rosa e Ron Freschi chamou a atenção de Clive Davis, fundador e presidente da Arista Records, selo que naquela altura do campeonato, ainda carecia de uma banda de glam metal no seu elenco estelar. 

O primeiro álbum veio em 1989, trazendo a trinca "Bang Go the Bells", "Hammer Swings Down" e "The Kid Goes Wild", que virou trilha sonora do filme RoboCop 2. A sequência veio em 1992 com Nothing Sacred, mas os tempos já eram outros e a banda em si ficou devendo com um repertório longo e pouco inspirado. Um hiato criativo sustentado pela Arista duraria cinco anos. As investidas de menor alcance começaram em 1999 com o ao vivo com som de piratão mídia azul Live in Your Face e um tenebroso álbum de inéditas, American Blitzkrieg, em 2002. De lá para cá, o leite das crianças tem sido garantido através do lançamento de sobras de estúdio datadas e de qualidade questionável. 

Enquanto houver quem compre, haverá quem venda. certo? Mas vamos combinar: essa lógica de traficante não deveria ser a carta branca a permitir que artistas na bancarrota saiam por aí lançando qualquer... hm... merda (?!)

A mais recente picaretagem do Babylon A.D. atende pelo nome de Lost Sessions / Fresno, CA 93. O título é autoexplicativo: gravações (supostamente) perdidas do que deveria ter sido o terceiro álbum do grupo pela Arista. Se formos analisar estritamente a competência musical, obviamente, podemos nos sentir agraciados. As músicas são boas, rola aquele sentimento de flashback, com a ensolarada LA sendo obscurecida por uma nuvem negra vinda de Seattle.

Antes que você se anime a tirar o escorpião do bolso, observe que são apenas três faixas 100% inéditas — a quarta, a 1305ª versão para "Bang Go the Bells" que se tem notícia, nem conta — e a qualidade é aquilo, né... (...) Ainda assim, se passar pela sua cabeça adquirir tal artigo em formato físico nas lojas especializadas, prepare-se para desembolsar a módica quantia de 70 reais. 

No mínimo.

Nota: 4

01. Love Blind
02. While America Sleeps
03. Love is a Mystery
04. Bang Go the Bells (Redux)

Por Marcelo Vieira

Playlist Collectors Room: blues

quinta-feira, maio 15, 2014
Mais de 90 músicas e aproximadamente 6 horas de feeling, dor e redenção: mergulhe no universo do blues nessa playlist que passa por toda a história do gênero, desde os primórdios com Leadbelly e Robert Johnson até os tempos atuais.

Para ouvir, clique aqui.

E, nos comentários, conte pra gente quais são os seus blues preferidos e quais mais curtiu em nossa seleção.

Por Ricardo Seelig

13 de mai de 2014

H.E.A.T.: crítica de Tearing Down the Walls (2014)

terça-feira, maio 13, 2014

Recentemente, o ex-vocalista do H.E.A.T., Kenny Leckremo, quebrou o silêncio lançando "Is This The Way You Want Me", balada que se inclina mais para o pop que para qualquer outra coisa. Após ouvi-la e, em seguida, apertar o play em Tearing Down the Walls, o novo álbum do quinteto sueco — o segundo guitarrista, Dave Dalone, pediu as contas em julho passado —, um dos grandes mistérios do rock contemporâneo acabava de ser solucionado.

Em seu quarto CD, segundo com Erik Grönwall no vocal, o H.E.A.T. pisa fora da própria sombra e se aventura por uma sonoridade menos melódica e, em determinados níveis, mais "pesada" (ênfase nas aspas — não espere ouvir um Dark Funeral). A redução na formação, de certa forma, contribuiu: sem a segunda guitarra, tanto Eric Rivers quanto Jona Tee se veem tanto com maiores atribuições quanto com mais espaço para mostrar para o que vieram. A guitarra restante, aliada ao teclado que vez ou outra ainda peca pela falta de gosto na escolha do timbre — "Mannequin Show" que o diga! —, estabelece uma base sólida para que um Grönwall cada vez mais confiante interprete com a energia que se espera de um jovem talento, mas também com a maturidade que é particular dos grandes.

"Point of No Return" abre o trabalho com um minuto de instrumental clean até explodir em um hard ressonante com refrão grudento. A música de trabalho, "A Shot at Redemption", tem interpretação canastrona — ainda que a letra aponte para algo mais sério. O uptempo de "Inferno" assegura o momento pista de dança do álbum, enquanto a faixa que dá nome ao próprio começa ao violão — provavelmente tocado por Grönwall, que sempre empunha o bom e velho nas apresentações ao vivo da banda — e cresce no esquema eletro-acústico que não tem como ter erro.

Em linhas gerais, a palavra-chave por trás de Tearing Down the Walls é amadurecimento. Mas não aquele que muito artista usa para justificar uma mijada fora do penico. A sonoridade é mais simples, menos pomposa, mas igualmente marcante. Se Adress the Nation te pegou pelas bolas, prepare-se para tê-las arrancadas neste aqui.

Nota: 8,5

01. Point of No Return
02. A Shot At Redemption
03. Inferno
04. The Wreckoning
05. Tearing Down the Walls
06. Mannequin Show
07. We Will Never Die
08. Emergency
09. All the Nights
10. Eye for an Eye
11. Enemy in Me
12. Laughing At Tomorrow

Por Marcelo Vieira

Os melhores discos de abril segundo a Collectors Room

terça-feira, maio 13, 2014
O mês de abril foi bastante fértil em lançamentos interessantes nos mais diversos gêneros. Não faltaram boas opções para quem gosta de música. Para ajudar você a navegar nesse mar de novos sons, nossa equipe ouviu diversos discos nos últimos 30 dias e escolheu os melhores na opinião de cada um de nossos redatores.

Leia e ouça abaixo!

Triptykon - Melana Chasmata

Não há dúvidas de que Thomas Gabriel Fischer seja um gênio. Dentro do cenário subterrâneo do heavy metal nos anos 80, poucas bandas estiveram tão à frente de seu tempo quanto Hellhammer e Celtic Frost. No entanto, como todo indivíduo condenado pela própria inquietude e uma insaciável vontade de transgredir, era natural que, de tempos em tempos, Tom sentisse a necessidade de aniquilar seu legado, geralmente após atingir o ápice, para buscar um eterno novo ciclo.

David Bowie fez muito isso e talvez seja o maior exemplo dessa obsessão. Na cabeça de Tom, o Triptykon nada mais é do que exatamente isso. Um universo inteiro a ser explorado por mais um de seus alter egos. Satanic Slaughter e Tom G. Warrior, as mentes malignas por trás de Hellhammer e Celtic Frost, já foram destruídas. Agora quem dá as cartas é Thomas Gabriel Fischer. Um ser nu e cru, mas tão obscuro quanto o que ostentava os velhos pseudônimos.

Melana Chasmata é mais denso do que Eparistera Daimones (2010), a estreia do Triptykon. Se é superior ou não, ainda é cedo para afirmar. O certo é que as quatro primeiras músicas são simplesmente absurdas: "Tree of Suffocating Souls", "Boleskine House", "Alter of Deceit" e "Breathing". Do meio para o final, a impressão é de que o disco perde um pouco o fôlego. Algo, porém, que demanda mais audições para ser checado, já que pode ser apenas uma sensação prematura por conta da longa duração das canções. Não creio que o álbum seja a obra-prima de Tom, como vem sendo alardeado por aí com notas máximas em diversas publicações especializadas. Talvez até esteja bem longe disso. Mas é um trabalho deveras intrigante e que merece ser ouvido com grande atenção. (Guilherme Gonçalves)

Edguy - Space Police: Defenders of the Crown

Desde que me entendo por ouvinte de rock pesado, sou um fanático por power metal. Justamente por isso, há quem simplesmente não entenda porque diabos eu ando tão fascinado pela sonoridade de uma banda de power metal que soa, a cada disco, cada vez menos power metal. Justamente por isso, ora bolas. Porque, antes de ser fã de power metal, eu sou fã de boa música. Que me provoque, que me desafie, que mexa com meus brios. E o power metal vinha dando mostras cada vez mais claras de desgaste como gênero, reunindo uma dezena de bandas genéricas, repetitivas, que não acrescentavam simplesmente nada. Então, quando uma banda como o Edguy pega o power metal e vira do avesso, descostura, desconstrói e espalha fartas doses de hard rock - outro gênero que adoro, confesso - juro que eu não teria motivos para fazer menos do que comemorar.

Com Space Police, os alemães comandados por Tobias Sammet mostram que estão aprimorando uma estrada que vêm experimentando desde o excelente Hellfire Club. As composições, todas, sem exceção, têm potencial para ser hits, com refrãos grudentos e que você simplesmente não consegue esquecer. O bom humor, a capacidade de rir de si mesmos sem dar a mínima bola para os truuuuuue, os coloca cada vez mais como herdeiros do "happy happy Helloween" que o próprio Helloween abandonou já há alguns anos. Toda vez que escolhem um cover, eles não apenas prestam homenagem à canção original, mas também sabem fazer uma faixa que tenha a sua nítida assinatura. E o que eu mais adoro: eles não cedem, em momento algum, às pressões de seus fãs mais hardcore, que exigem que eles retornem ao som de Mandrake. Tobias segue fazendo o que mais tem vontade de fazer e dane-se. E nos entrega canções como "Sabre & Torch", "Love Tyger" e a genial reinterpretação metálica para o smash hit pop "Rock Me Amadeus". (Thiago Cardim)

Winger - Better Days Comin'

Abril foi um mês e tanto para o hard rock. Muitos lançamentos do gênero e, felizmente, muita coisa boa. Os suecos do H.E.A.T. chegando ao quarto trabalho e se firmando entre os principais nomes do momento, o Steel Panther repetindo a fórmula dos dois discos anteriores sem dar o menor sinal de desgaste, e o que mais me surpreendeu e cativou: o novo do Winger, que vem como um sopro de vida para o quarteto que, apesar de reativado há tempos, ainda não havia acertado a mão como neste aqui. Em Better Days Comin', o Winger reafirma sua relevância perante seus contemporâneos que seguem na ativa em estado crítico e mostra aos mais jovens que é possível manter o pique após os 50.

A interpretação de Kip Winger sugere uma emoção que até então só vinha dando as caras em seus trabalhos solo, enquanto Rod Morgenstein volta e meia rouba a cena com sua bateria descomunal que o coloca um degrau acima da maioria dos bateras de hard rock ainda em atividade. Sem contar, é claro, o toque diferenciado de Reb Beach, que percorre a escala de sua guitarra com um bom gosto que não se abala mesmo diante dos drives mais sujos e afinações mais baixas. Em Better Days Comin', o Winger quitou a dívida comigo e, caso você não conheça, não perca tempo, pois estou falando de um dos melhores lançamentos de 2014. (Marcelo Vieira)

The Great Old Ones – Tekeli-Li

Há algo no desconhecido que de alguma forma atrai naturalmente a curiosidade do ser humano. Aquela sensação de ouvir um barulho, passos pela casa mesmo estando sozinho, ou uma luz acesa que você tem absoluta certeza de ter apagado. E assim como H.P. Lovecraft nos guia através de seus contos pelos limites da sanidade, de margem muito estreita entre o que é real ou não com seus seres antigos e mitologias de terrores psicológicos indescritíveis, os franceses do The Great Old Ones fazem de Tekeli-Li uma jornada tão intensa e assombrosa quanto Nas Montanhas da Loucura, obra que inspirou o seu segundo disco.

Ao longo de seis músicas, embarcamos em uma expedição por paisagens gélidas, atmosferas desoladas sem o menor indício de vida, na borda entre a crueza do black metal, o desespero do sludge de tendências arrastadas e a temperatura polar proporcionada pelo post-rock, que unidas desafiam a própria mente. Como virar incontáveis corredores de uma construção alienígena há milênios abandonada, de uma civilização da qual nem se sabia a existência, a sombria viagem traz um inominável e inexplicável temor de estar em frente a uma rachadura na realidade em si. Uma rachadura que era apenas uma lasca em Al Azif (seu debut de 2012) e vem aumentando gradativamente, um único vislumbre fantástico, demoníaco, entre as agitadas nuvens do zênite, tão real que pode perseguir o ouvinte para sempre. (Rodrigo Carvalho)

Miles Davis - Miles at the Fillmore: The Bootleg Series Vol. 3

Box digipak com quatro CDs - ou caixa com 4 LPs - trazendo a íntegra das apresentações realizadas por Miles Davis no Fillmore East, em Nova York, em junho de 1970. Revolucionando mais uma vez o jazz, Miles ia na época na contramão da maioria de seus colegas, que entregavam discos repletos de orquestrações que faziam a alegria das rádios softs, mas mostravam uma estagnação criativa gritante. Já Miles Davis abraçava o rock não apenas como gênero musical, mas como atitude e modo de vida. Aos 44 anos e ao lado de uma banda sensacional - Steve Grossman (sax), Chick Corea (piano elétrico), Keith Jarrett (órgão), Dave Holland (baixo), Airto Moreira (percussão) e Jack DeJohnette (bateria) -, Davis conduzia o jazz por caminhos desconhecidos, entrelaçando-o com o rock em uma coleção de músicas que, até hoje, soam densas e de difícil assimilação para ouvidos menos experientes. O mesmo grupo já havia feito história ao tocar na edição de 1970 do Festival da Ilha de Wight, onde subiu ao palco e mandou ver uma improvisação de mais de 50 minutos batizada apenas de “Chame do que quiser” - este show foi lançado em DVD no Brasil há alguns anos atrás acompanhado de um excelente documentário, com o título de Miles Electric. São mais de 100 minutos de música, levando o revolucionário álbum Bitches Brew para os palcos e deixando os nova-iorquinos de queixo caído. Além dos discos, o material conta com um longo encarte com textos escritos por Michael Cuscuna. (Ricardo Seelig)

The Birds of Satan – The Birds of Satan

Parece que o baterista e parceiro de longa data de Dave Grohl no Foo Fighters, Taylor Hawkins, aprendeu direitinho com o patrão a alçar outros voos em uma infinidade de trabalhos paralelos à sua banda original. Hawkins se juntou a Wiley Hodgen (backing vocals e baixo) e a Mick Murphy (guitarra) e gravou os vocais e bateria das sete músicas que configuram o tracklist de seu mais novo projeto, chamado The Birds of Satan. Apesar do nome sugerir um som mais profano, a fórmula usada para seu autointitulado trabalho de estreia, na falta de outro termo pode ser classificada como “hard rock psicodélico”, com um toque de diversão e despretensão facilmente perceptíveis a quem o escuta. Se em alguns momentos a impressão que se tem é a de estar ouvindo um novo disco do Foo Fighters, tamanha a semelhança com a sua banda principal (aliás, neste disco participam como convidados especiais ninguém menos que... Dave Grohl e Pat Smear, seus parceiros em sua empreitada principal), em vários momentos a experimentação e mudanças inusitadas de ritmos e andamentos ditam as regras, ao longo de pouco mais de meia hora de duração.

Logo de cara esse caráter experimental pode ser ouvido nos nove minutos de pura psicodelia em “The Ballad of the Birds of Satan”, uma odisseia que segue por caminhos inesperados e, ao mesmo tempo, divertidos. Apesar de apresentar boas canções e um excelente trabalho instrumental junto à banda, Hawkins ainda carece de certo amadurecimento em seus vocais, o que certamente será desenvolvido e melhorado para seus futuros e bem vindos lançamentos. Outros destaques neste trabalho são as excelentes “Pieces of the Puzzle”, que, como já dito antes, não faria feio em um disco dos Foo Fighters, tamanha a semelhança com o repertório desta. “Wait ‘Til Tomorrow”, com andamento acelerado, curta duração (menos de três minutos) e um interessante solo de guitarra, também pode ser considerado destaque e uma das melhores do play. O encerramento melodramático com “Too Far Gone to See”, uma balada com uma introdução que remete diretamente á sonoridade de “Dream On”, do Aerosmith, apresenta em seus cinco minutos cores e passagens interessantes comandadas por violões e teclados que encerram o disco já nos fazendo esperar pelo que virá nos próximos lançamentos dos “passarinhos satânicos” (e muito divertidos, diga-se de passagem). (Tiago Neves)

Equipe Collectors Room

12 de mai de 2014

Espaço do Leitor: crise no mercado musical?

segunda-feira, maio 12, 2014
Salve Collectors Room,

Primeiro venho agradecer não só pelo excelente site, mas também pela oportunidade de fazer parte e enviar um tema que, a meu ver, é extremamente relevante ao mercado da música que, de uma forma ou de outra, fazemos parte como fãs, colecionadores e músicos de fim de semana.

Minha questão é a seguinte: será que realmente existe uma crise no mercado da música mundial? Tanto se fala que a distribuição de música através da internet matou o mercado e acabou com algumas bandas, mas vejo um cenário um pouco diferente disso. Afinal, por que diabos teríamos tantas reuniões de bandas que se separaram há muito tempo, gravando coisas novas? E quando falo de reunião de bandas, não me refiro a Black Sabbath ou alguma coisa tão grande e monstruosa quanto isso. Além do que, vejo N projetos de músicos consagrados aparecendo por aqui e por ali, gravando e saindo em turnê. E vejo muita coisa sendo lançada com qualidade, por reunião de bandas antigas, projetos novos e bandas novas. Será que o foco é realmente só gravar alguma coisa pra sair em turnê e ganhar apenas uma pequena fatia pão nosso de cada músico?

O mercado mudou e isso é um fato. Mas será que é tão ruim quanto dizem? Ou apenas os donos de grandes gravadoras que não estão mais recebendo rios de dinheiros? Vendo que muitas bandas como o Raimundos, Obituary e o Dorsal Atlântica (só pra citar as que eu me lembro no momento) tem adotado o crowdfunding para conseguir o dinheiro inicial e começar a gravação de um disco, vejo um novo formato nascendo e acredito que esse é um dos caminhos, afinal se o público quer tanto ver e ouvir coisas novas da sua banda preferida, que ajude e faça acontecer. É o do it yourself acontecendo mais uma vez e de forma colaborativa.

Bom, esta é apenas a minha opinião sobre o assunto e gostaria de saber a opinião de vocês da Collectors Room e dos outros leitores também. Nem sei que consegui me expressar da forma que gostaria e se o texto fez tanto sentido pra vocês quanto fez pra mim, mas essa é minha colaboração com o Espaço do Leitor e espero ter trazido um tema relevante.

Continuem caminhando, nos trazendo conteúdo totalmente diferente dos outros sites e enriquecedor. Um grande abraço!

Leandro Maurício dos Santos
São Paulo (SP)


Bom questionamento, Leandro. A transformação do mercado musical é uma realidade e ainda não acabou. Que os downloads alteraram totalmente o modo de consumir música, fazendo com a venda de discos caísse e, ao mesmo tempo, dando aos ouvintes o benefício de estar sempre junto de suas canções preferidas, não há dúvida. No entanto, a transformação continua. O surgimento e a popularização de serviços de streaming como Rdio, Deezer e Spotify - que, para quem não sabe, funcionam como uma espécie de Netflix de música, com milhares de discos e mensalidade baixa - é um caminho bastante interessante. No meu caso, desde que assinei o Rdio não baixei mais nenhum disco. Se as bandas ganham ou não com isso, não sei, mas eu, como ouvinte, ganhei bastante, já que não tenho mais que fazer downloads e pesquisar em sites pra lá de suspeitos e cheios de vírus.

Em relação ao lançamento de novos discos, penso o seguinte: o mercado diminuiu de maneira enorme, mas ainda existe. O ouvinte casual de música não compra mais discos originais há anos, sejam eles no formato que forem - CDs, LPs, tanto faz. Isso segmentou o mercado. Hoje, as gravadoras trabalham para um público reduzido e mais exigente. A grosso modo e generalizando, hoje as gravadoras trabalham apenas para os colecionadores e fãs, e esse público, do qual fazemos parte, é muito mais exigente do que o ouvinte casual. Não queremos apenas o CD, apenas o LP, queremos sempre algo mais. E isso vem sendo entregue, vide a enorme quantidade de edições especiais e turbinadas que encontramos hoje nas lojas, fato que não acontecia há poucos anos atrás. Hoje, quando uma gravadora coloca um disco no mercado apenas no formato padrão e sem cuidado com os detalhes, as pessoas não compram esse item, preferindo adquirir o mesmo título em uma edição importada.

O que parece não ter sido percebido ainda pelos lojistas e pela indústria é o fato que o público que ainda compra itens originais é, além de exigente, inteligente. Há lojas vendendo itens, principalmente LPs, a preços altíssimos, que não são equivalentes ao produto que está sendo entregue. Se isso nasce lá na gravadora, não sei, mas é preciso mudar essa realidade, e pra ontem. O público que ainda compra discos é o ÚNICO público que ainda compra discos, então tratá-lo de maneira melhor e mais honesta seria o mínimo, não é mesmo?

Sobre as bandas lançaram novos itens, é preciso ir mais fundo. O ganho de um artista depende do contrato que ele assinou com a gravadora que o distribui. No caso do financiamento coletivo, isso se inverte completamente e, após a prestação de contas com quem financiou o projeto, a receita é 100% do artista. Por isso essa opção cresce cada vez mais.

Mas o fato é que hoje a principal fonte de receitas das bandas vem dos shows e dos itens de merchandising. Elas ainda ganham dinheiro com vendas de discos, mas nem perto do que ganhavam antes. Por isso, agora os artistas passam muito mais tempo na estrada e visitam lugares que nunca haviam estado antes. É preciso diversificar as fontes de renda e estar cada vez mais perto do seu público, da sua fonte de receita.

Novos discos sempre serão lançados, sejam eles no formato que forem: CDs, LPs ou em plataformas digitais e online. É dessa maneira que o trabalho de um artista chega ao público.

Falo por mim, que já passei dos 40 e sempre consumi a música no formato físico, mas não tenho muito conhecimento sobre a forma que os adolescentes de hoje se relacionam com a música. É tudo online? Não há nenhum formato de mídia? Não há curiosidade, ou um nível de exigência mais elevado, em conhecer formatos físicos que oferecem mais qualidade sonora? Ou tudo isso é apenas papo de gente ultrapassada?

Não sei se consegui responder as suas dúvidas, Leandro. E também peço ajuda aos leitores para encontrar respostas para as dúvidas que levantei.

Enquanto isso, seguimos tendo a música como fonte de inspiração todos os dias. (Ricardo Seelig)

11 de mai de 2014

Os cinco melhores discos de heavy metal lançados em abril segundo o About.com

domingo, maio 11, 2014
Bastante interessante a lista dos cinco melhores discos de abril segundo a editoria de heavy metal do About.com. Variada, premia desde o mestre Thomas Gabriel Fischer e seu Triptykon, no topo do pódio, até o death metal melódico do Insomnium, passando pelo curioso Admiral Sir Cloudesley Shovell, pelo black metal do Thantifaxath e pelo doom/sludge do Lord Mantis.

De acordo com as escolhas do editor norte-americano Chad Bowar e sua equipe, 2014 segue generoso com o metal extremo. Vale lembrar que nos três meses anteriores o primeiro lugar também ficou com bandas de death ou black metal: Avichi, Behemoth e Morbus Chron.

Para relembrar as listas passadas, basta clicar: janeiro, fevereiro e março.

Não esqueça de deixar sua opinião. Qual o álbum mais bacana de abril?

1. Triptykon - Melana Chasmata

Muitas das músicas são contundentes, tais como a abertura com "Tree of Suffocating Souls" e, em particular, "Breathing", que certamente é a canção mais rápida do Triptykon até então, tendo uma levada thrash metal e vários grandes riffs. No entanto, Melana Chasmata brilha realmente com as faixas mais calmas, faixas que ressoam com um padrão alternado de melodia e crueldade.

Vários dos melhores discos de heavy metal demandam tempo do ouvinte, não apenas uma única audição, mas uma interação de meses para revisitar o álbum a fim de formar uma impressão duradoura e uma opinião. Mais do que qualquer outro trabalho lançado este ano,Melana Chasmata é tal tipo de disco. Alguns já estão se referindo a Melana Chasmata como a obra-prima de Tom G. Warrior. Uma definição que pode, de fato, estar correta.

2. Admiral Sir Cloudesley Shovell - Check 'Em Before You Wreck 'Em

Explodir as portas de um pub local o tomando de assalto com um hard rock como se fosse o ano de 1971 é mais ou menos o que faz o Admiral Sir Cloudesley Shovell em seu segundo álbum, sucessor do aclamado Don't Hear It... Fear It! (2012). Só que Check 'Em Before You Wreck 'Em apresenta uma excelência proto-metal ainda maior.

Com o segundo trabalho, este trio de Hastings (ING), solidifica seu lugar na cena com um blues rock simples, mas habilmente composto e que soa tão vigoroso que você poderia jurar estar dirigindo seu Chevelle na estrada ouvindo o mesmo. Certifique-se de que irá escutar Check 'Em Before You Wreck 'Em antes que você acabe perdendo ou deixando passar em branco algo realmente especial.

3. Thantifaxath - Sacred White Noise

Assim como os membros de algumas bandas escondem sua identidades, o black metal do Thantifaxath em Sacred White Noise, seu barulhento disco de estreia, é mascarado com características não convencionais. Embora contenha elementos tradicionais, a banda também apresenta uma atitude musicalmente progressiva. Guitarras melódicas fornecem o refúgio para a intensidade esmagadora que pulsa através dos momentos mais audaciosos.

As músicas não caminham por uma rota de composição pré-determinada e tê-las se contorcendo em lugares sinistros, ainda desamparados, é emocionante. Essa mentalidade faz com que uma canção como a discreta instrumental “Eternally Falling”, de quase seis minutos, funcione muito bem. O Thantifaxath evolui em relação a seu ótimo EP e apresenta um disco de estreia igualmente louvável.

4. Lord Mantis - Death Mask

Colocar doom, sludge e black metal juntos foi o fator necessário para o Lord Mantis alcançar o ápice criativo. A banda não recua dessa mistura em Death Mask, canalizando circunstâncias emocionais e pessoais em uma música angustiante que esmaga qualquer positividade que cair em suas mãos.

Teria sido simples o suficiente para o Lord Mantis aumentar um pouco a intensidade e escrever outro Pervertor (2012), mas a banda é capaz de separar com facilidade Death Mask de seus outros dois lançamentos anteriores. O progresso realizado por esses quatro músicos é fundamental para o quão nítido esse álbum é, mesmo mergulhando ainda mais fundo no poço de ácido sonoro. Embora desagravável às vezes, o benefício de se desafiar ao longo de todo o álbum é a revelação de uma banda que atinge um novo pico criativo.

5. Insomnium - Shadows of the Dying Sun

A força do Insomnium reside na capacidade de escrever linhas melódicas de guitarra para acompanhar os vocais guturais de Niilo Sevänen. Cada canção é preenchida com linhas que funcionam como paisagens exuberantes e que levam o ouvinte a uma jornada épica. Isso gera bastante emoção na música.

Shadows of the Dying Sun fica um nível acima no extenso catálogo da banda. Ao nunca se conformar com os limites do gênero ou com o que os outros grupos estão lançando, o Insomnium tem sido notavelmente consistente e sólido desde sua estreia. O mais recente lançamento é a prova de que estão conseguindo abrir caminho dentro de um estilo lotado, saturado.

Por Guilherme Gonçalves

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