23 de mai de 2014

Eyehategod: crítica de Eyehategod (2014)

sexta-feira, maio 23, 2014


Considerados um dos nomes fundadores do sludge (título que eles mesmos renegam), o Eyehategod não apenas detém o título de ter um dos melhores nomes de banda da história, como se consolidou ao lado do Down, Crowbar, Exhorder e Goatwhore como representante do Louisiana Sound – a inclusão de blues e southern rock em meio às influências de doom metal e hardcore na década de noventa.

Com uma trajetória cheia de lacunas por contas de problemas com a justiça e inúmeros projetos paralelos, Mike Williams, Jimmy Bower e Brian Patton permanecem há quase três décadas como o centro criativo do grupo (ao lado do baterista Joe LaCaze, falecido no ano passado), construindo uma identidade sonora extremamente influente e cultuada em seus quatro primeiros trabalhos, tendo o último Confederacy of Ruined Lives sido lançado apenas em 2000.


14 anos depois, porém, o deus odioso retorna de suas úmidas catacumbas com um novo álbum. Batizado em turvas águas apenas com o seu próprio nome, foi lançado em maio pela Housecore Records, gravadora de Phil Anselmo (que também atua como um dos produtores do disco).

As bandeiras se levantam, as ruas são travadas e a revolta se inicia com o início de “Agitation! Propaganda!”, muito mais próxima do hardcore de tendências punk do que o esperado. O ritmo começa a ser estraçalhado apenas em seus momentos finais, carregando para a densidade arrastadíssima de “Trying To Crack the Hard Dollar” e seu groove de violência constante, e assim como “Parish Motel Sickness”, são calcadas em riffs largados que só poderiam brotar de alguém nascido e criado em New Orleans.


Mais próxima do que poderíamos chamar de hard rock, “Quitter’s Offensive” boia vagarosamente no lodo que se forma quando doom e blues se encontram, a mesma imundice na qual os destroços de hardcore e Black Sabbath de “Nobody Told Me” se mostram mergulhados quase que totalmente. Por falar em blues, “Worthless Rescue” traz imediatamente à mente a imagem de empoeirados bares ao lado de encruzilhadas em alguma decadente pequena cidade no sul dos Estados Unidos, enquanto “Framed to the Wall” resgata mais uma vez a aceleração descontrolada da faixa de abertura e se mostra uma martelada extremamente bem encaixada.


A lentidão é retomada na claustrofobia quase palpável do ditatorial tempo de “Robitussin and Rejection”, uma velocidade que deixa a sensação de estar paralisado e sendo sugado pelo pântano, até o afogamento ao longo dos mais de sete minutos de “Flags and Cities Bound”, aonde a veia mais experimental e drone do Eyehategod entra lentamente em seu organismo e entope as vias aéreas (seria um resquício do Corrections House?).


Em “Medicine Noose”, porém, o caos se manifesta em outra de suas variadas formas, como o desespero de uma velha corda sendo apertada em seu pescoço enquanto a voz se esvai, impossibilitando qualquer pedido de ajuda. Os sentidos se apagam com o encerramento de “The Age of Bootcamp”, uma massa quase disforme de groove e sludge regurgitada por alguma besta fossilizada da Louisiana.


E exatamente como uma entidade adormecida durante incontáveis eras (er... ok, 14 anos) que se ergue das profundezas dos mais poluídos e fétidos lamaçais de New Orleans, o Eyehategod apresenta uma fúria intocada. Agressividade e vontade que se mantém intactas desde o início de suas atividades, mostrando que mesmo o tempo e seus inúmeros problemas não foram suficientes para corroer as engrenagens responsáveis pelo turbilhão de riffs e melodias densas e massacrantes.


As linhas instrumentais de Bower e Patton permanecem no meio termo entre o hardcore e o sludge assombrado pelo blues sulista e pelo doom sabbathico sobre o brutal trabalho final de LaCaze, da mesma forma que Williams continua cuspindo, praguejando e esgoelando as misantrópicas letras. Alie tudo isso a uma produção empoeirada, distorcida e lamacenta nos níveis corretos, equilibrados e suficientemente ruidosos para incomodar os ouvidos mais frágeis e deixar um rastro de sujeira por onde passa.


Tenha certeza de ter uma esponja de aço em mãos. Você precisará para se limpar depois de se encontrar com Eyehategod.


Nota 9


Faixas:
1. Agitation! Propaganda!
2. Trying to Crack the hard Dollar
3. Parish Motel Sickness
4. Quitter’s Offensive
5. Nobody Told Me
6. Worthless Rescue
7. Framed to the Wall
8. Robitussin and Rejection
9. Flags and Cities Bound
10. Medicine Noose
11. The Age of Bootcamp


Por Rodrigo Carvalho

21 de mai de 2014

Killer Be Killed: crítica de Killer Be Killed (2014)

quarta-feira, maio 21, 2014
(Super) Projeto envolvendo integrantes do Soulfly, Mastodon, The Dillinger Escape Plan e The Mars Volta (respectivamente Max Cavalera, Troy Sanders, Greg Puciato e Dave Elitch), o Killer Be Killed lançou o seu disco de estreia em 9 de maio pela Nuclear Blast. Musicalmente, trata-se da união das principais características das bandas principais de Max, Troy e Greg, ou seja, uma amálgama entre o Soulfly (e algumas pitadas do som clássico do Sepultura da década de 1990), Mastodon e The Dillinger Escape Plan.

A princípio, e apenas aparentemente, indigesta, essa junção de elementos distintos faz surgir um som poderoso e cativante. Pródigo em riffs e melodias - além de agressividade e peso -, o debut do Killer Be Killed caminha entre o groove e o thrash metal, com algumas pitadas de hardcore e punk espalhadas aqui e ali. O resultado é uma música não apenas poderosa, mas também em total alinhamento com o principal mercado a que o trabalho se destina: os Estados Unidos.

Os vocais são divididos entre Max Cavalera, Troy Sanders e Greg Puciato, em um ataque constante e ininterrupto que se renova a cada segundo. Nesse aspecto, a bela voz de Sanders se destaca das demais, principalmente por ser a protagonista das passagens mais melódicas. Max olha muito mais para o seu passado no Sepultura do que para o Soulfly - seguindo o que tem feito nos últimos discos do segundo, como foi possível perceber no excelente Enslaved (2012). Por essa razão, o poderoso thrash groove que a banda deu ao mundo em álbuns hoje clássicos como Chaos A.D. (1993) ressurge alinhado com a realidade atual, devidamente turbinado pelas forças criativas de Sanders e Puciato.

É fácil perceber, por essa razão, o quanto o Sepultura foi influente e mudou o rumo do metal nos anos 1990, ao lado de outro grupo também inovador e bastante popular no período: o Pantera. Assim, há espalhados pelo disco alguns exemplos de como poderia soar, por exemplo, uma hipotética e utópica junção de forças entre o Mastodon e o Machine Head, duas das mais importantes bandas do metal atual. Isso se dá com o groove aditivado pelo experimentalismo, pela inquietude embalada pelo peso. E, quando nos damos conta, percebemos de novo e mais uma vez o quanto o papel de Max e do Sepultura/Soulfly foi fundamental na história da música pesada.

No auge dos seus poderes, Sanders e Puciato trazem para o projeto a inventividade e a cara do metal dos anos 2000, formando um conjunto de forças que não faz feio quando comparado aos grupos principais do quarteto.

Produzido por Josh Wilbur e contando com onze faixas, Killer Be Killed, o disco, é uma das boas surpresas de 2014. Com faixas empolgantes como “Wings of Feather and Wax”, “Face Down”, “Curb Crusher”, “I.E.D.”, “Dust Into Darkness” e “Twelve Labors”, garante uma audição muito prazerosa. Consistente e inspirador, o disco de estreia do Killer Be Killed é a convergência perfeita das influências de seus integrantes.

Dos melhores do ano, até agora.

Nota 9

Faixas:
1 Wings of Feather and Wax
2 Face Down
3 Melting of My Marrow
4 Snakes of Jehovah
5 Curb Crusher
6 Save the Robots
7 Fire to Your Flag
8 I.E.D.
9 Dust Into Darkness
10 Twelve Labors
11 Forbidden Fire

Por Ricardo Seelig

20 de mai de 2014

Playlist Collectors Room: jazz-funk

terça-feira, maio 20, 2014
Nascido na virada dos anos 1960 para os 1970, o jazz-funk se popularizou com o grande sucesso do álbum Head Hunters, lançado em outubro de 1973 por Herbie Hancock, pupilo de Miles Davis e um dos maiores talentos do jazz. Indo fundo na união dos dois gêneros, Hancock pariu o disco definitivo do estilo, exemplificado à perfeição nos mais de 15 minutos da clássica “Chameleon”.

Head Hunters foi influente até dizer chega, e, ao lado dos experimentos de Miles em trabalhos como On the Corner (1972) e Get Up With It (1974), serviu de inspiração e base para o desenvolvimento da união entre o groove e o balanço do funk e o requinte instrumental e técnica onipresente do jazz.

Através de uma seleção de 37 faixas e 4 horas de duração, apresentamos um panorama sobre o jazz-funk nessa playlist. Além de Hancock e Davis, trazemos também sons de outros artistas que enveredaram pelo caminho, como Billy Cobham, Idris Muhammad, Donald Byrd, Marc Moulin, George Benson e por aí vai.

Para ouvir e entrar no embalo, clique aqui.

Esperamos que você goste!

Por Ricardo Seelig

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