21 de jun de 2014

Mastodon: crítica de Once More 'Round The Sun (2014)

sábado, junho 21, 2014

Há 15 anos em sua trajetória rompendo cada vez de forma mais violenta e inesperada a burocrática e corruptível atmosfera da indústria musical, Troy Sanders, Brent Hinds, Bill Kelliher e Brann Dailor comandam o Mastodon de forma impressionante, tornando-os não apenas uma das mais intrigantes e criativas bandas da última década, como também uma das mais respeitadas dentro ou fora dos círculos do heavy metal.

Da marcha com o homem elefante montado nas formigas de fogo, até esculpir um monumento de madeira ao caçador da língua preta no vale dos ossos secos, passando por um capitão e sua obsessiva guerra contra um desconhecido deus dos mares, uma montanha banhada em sangue e um cordão de prata, o quarteto de Atlanta alcança finalmente uma volta completa em sua história. 

O fechamento e o início de um ciclo com Once More ‘Round The Sun, seu sexto disco de estúdio é o primeiro a contar com o produtor Nick Raskulinecz (o mesmo de Infestissumam e Shogun, por exemplo) e o artista Skinner, responsável pela espetacular capa. Com lançamento para o dia 24 de junho, o novo trabalho já se encontra disponível nas principais plataformas de streaming.

Se a ideia é que o álbum prossiga como uma continuação natural do anterior, “Tread Lightly” demonstra de forma perfeita a proposta: sem uma introdução exatamente marcante, ela soa como uma composição de meio de disco, cadenciada no tempo exato e assombrada pela mesma atmosfera flutuante e lisérgica de antes, uma sensação que representa tanto a fuga apressada por uma claustrofóbica floresta ou através do universo. “The Motherload”, em seguida, é um hard rock carregado por uma aura espacial gerada automaticamente por uma inteligência artificial presa em algum filme de baixo orçamento, robótica, mas sem perder o sentimento ou a consciência.

“High Road”, apesar do vídeo oficial de qualidade extremamente duvidosa (fala a verdade, vocês podem fazer melhor, caras), foi sabiamente escolhida para ser uma das primeiras faixas a serem divulgadas – básica, direta, pesadíssima e carregada de melodias mastodônicas até o osso, unindo a cadência de The Hunter com o poder absurdo de Blood Mountain. Essa identidade mantém-se na faixa título, totalmente dominada pela sempre característica e embriagada voz de Hinds (menos presente em Once More ‘Round The Sun do que nos álbuns anteriores, porém) sobre um ritmo galopante que se acelera até a borda do thrash metal em “Chimes At Midnight”.

O clima sci-fi é retomado com “Asleep In The Deep”, uma personificação mais eletrônica e artificial dos mais etéreos momentos em Crack The Skye, deixando-se carregar pela gravidade através do espaço. Interessante notar o jogo entre as vozes quase savatagiano (mas bem mais superficial), um artifício mais do que interessante a ser explorado pela banda e que contribui de forma significativa para o efeito hipnótico que a música causa. Ao mesmo tempo em que se olha para frente, “Aunt Lisa” relembra muito bem a época de sludge martelante e claustrofóbico intercalado com toques progressivos de alguns anos atrás. Não apenas isso, a banda The Coathangers retribui o favor que o Mastodon lhes fez no vídeo de “Follow Me” (de forma bem menos hilária, infelizmente) e contribui com seus gritos de torcida.

A imundice volta a se confundir com alucinações em “Ember City”, que mesmo com o seu leve odor de encheção de lingüiça espacial e repetição de passagens, traz uma das mais espetaculares viagens intermináveis de Hinds na guitarra, um saudável virtuosismo que permanece em “Halloween”, composição esquecida por quatro décadas em algum baú enterrado no porão e finalmente trazida à superfície com roupagem estranhamente moderna (mas efetiva). 

“Diamond In The Witch House”, por outro lado, pode ser considerado um híbrido entre duas personificações da banda: a fantasia soturna de Blood Mountain com a acidez palpável de Crack The Skye, porém de uma forma ainda mais sombria, arrastada e densa, resultante principalmente da presença de Scott Kelly, que faz mais do que a superficial participação costumeira e de fato atribui uma atmosfera neurótica ao encerramento do álbum.

Once More Round The Sun talvez seja o primeiro álbum do Mastodon que não traga grandes diferenças em relação ao seu trabalho anterior. E tampouco em relação ao restante de sua discografia (vide a quantidade de vezes que os trabalhos anteriores foram citados). Se por um lado isso mostra como a banda de fato amadureceu completamente a sua identidade musical, na contramão deixa lá no fundo da mente um ligeiro incômodo se ainda há algo a ser demonstrado.

Verdade seja dita, há sim uma aura mais próxima do hard rock em relação à The Hunter, assim como importante presença de bem encaixados sintetizadores, mas detalhes passageiros se compararmos com outros aspectos a serem considerados. Tanto os vocais de Troy Sanders quanto de Brent Hinds estão muito mais melódicos, limpos e afinados com as músicas (a voz do baixista parece estar em plena forma – vide o disco de estreia do Killer Be Killed -, enquanto o guitarrista traz alguns de seus mais inspirados solos em toda a carreira), na mesma proporção em que Brann Dailor tomou a frente e pode facilmente ser considerado o personagem principal do Mastodon aqui, seja no sempre intrincado e complexo trabalho percussivo ou predominando como vocalista nas músicas.

Por outro lado, algo definitivamente incomoda na produção de Raskulinecz. Parece haver um limiar pouco definido entre cada passagem (talvez causado por desnecessárias dobras nos instrumentos) que definitivamente tiram aquela fácil identificação com cada uma das composições. O álbum apresenta várias nuances, de excelentes composições acima da média, mas acabam sendo niveladas de forma homogênea pela produção, comprometedora em certos casos, principalmente no que diz respeito a criar uma experiência imersiva.

O Mastodon completa uma volta ao redor do Sol, e revisita suas personalidades já manifestadas, porém desta vez com experiência e maturidade que definitivamente fazem a diferença mesmo com alguns obstáculos na trajetória. A questão agora é: a banda permanecerá inerte, em translação na órbita ao redor do que ela mesma criou? Ou arriscará e deixará o seu planeta para trás em busca dos limites do universo, mesmo sob o risco de vislumbrar borboletas intergaláticas assassinas e ser sugado por ele?

A segunda opção, esperamos.

Nota 8

Faixas:
1. Tread Lightly
2. The Motherload
3. High Road
4. Once More ‘Round The Sun
5. Chimes At Midnight
6. Asleep In The Deep
7. Feast Your Eyes
8. Aunt Lisa
9. Ember City
10. Halloween
11. Diamond In The Witch House


Por Rodrigo Carvalho

20 de jun de 2014

Top Collectors Room: os 100 melhores discos de rock lançados durante a década de 1970

sexta-feira, junho 20, 2014
É tempo de Copa do Mundo, mas também sempre é tempo de ouvir música. Nas últimas semanas, entre um jogo e outro, dei uma mergulhada em um oceano de discos com um objetivo em mente: definir quais foram os melhores álbuns de rock lançados durante os anos 1970.

A viagem foi deliciosa, e na bagagem trouxe uma lista com aqueles que julgo serem os 100 melhores LPs daquela década. Você não vai concordar com vários, como sempre. Não tem problema: use os comentários para postar a sua lista. E, claro, ouça os títulos que, por algum motivo, você ainda não conheça.

Com vocês, os 100 melhores discos de rock dos anos 1970 segundo a Collectors Room:

100 UFO - Lights Out (1977)
99 Tom Petty & The Heartbreakers - Damn the Torpedoes (1979)
98 The Doors - Morrison Hotel (1970)
97 Neil Young - Harvest (1972)
96 Rush - 2112 (1976)
95 Scorpions - Lovedrive (1979)
94 Deep Purple - Burn (1974)
93 Van der Graaf Generator - Pawn Hearts (1971)
92 King Crimson - Lark’s Tongue in Aspic (1973)
91 Paul McCartney & Wings - Band on the Run (1973)
90 Black Sabbath - Vol 4 (1972)
89 Jethro Tull - Aqualung (1971)
88 Neil Young - Comes a Time (1978)
87 Bob Dylan - Desire (1976)
86 Lou Reed - Transformer (1972)
85 Judas Priest - Sad Wings of Destiny (1976)
84 Black Sabbath - Sabbath Bloody Sabbath (1973)
83 Yes - The Yes Album (1971)
82 Thin Lizzy - Bad Reputation (1977)
81 Janis Joplin - Pearl (1971)
80 ZZ Top - Degüello (1979)
79 Can - Future Days (1973)
78 Caravan - In the Land of Grey and Pink (1971)
77 David Bowie - Heroes (1977)
76 Genesis - The Lamb Lies Down on Broadway (1974)
75 Aerosmith - Toys in the Attic (1975)
74 T. Rex - The Slider (1972)
73 Wishbone Ash - Argus (1972)
72 Pink Floyd - The Wall (1979)
71 T/ Rex - Electric Warrior (1971)
70 Queen - A Night at the Opera (1975)
69 Thin Lizzy - Black Rose: A Rock Legend (1979)
68 David Bowie - Station to Station (1976)
67 Neil Young - Zuma (1975)
66 Rainbow - Rising (1976)
65 David Bowie - Alladin Sane (1973)
64 Deep Purple - In Rock (1970)
63 Elton John - Goodbye Yellow Brick Road (1973)
62 The Doors - L.A. Woman (1971)
61 AC/DC - Highway to Hell (1979)
60 Aerosmith - Rocks (1976)
59 George Harrison - All Things Must Pass (1970)
58 ZZ Top - Tres Hombres (1973)
57 Yes - Fragile (1971)
56 Motörhead - Overkill (1979)
55 Patti Smith - Horses (1975)
54 Led Zeppelin - Led Zeppelin III (1970)
53 Jethro Tull - Thick as a Brick (1972)
52 Can - Ege Bamyasi (1972)
51 Crosby Stills Nash & Young - Déjà vu (1970)
50 The Rolling Stones - Some Girls (1978)
49 Lynyrd Skynyrd - Second Helping (1974)
48 Sex Pistols - Never Mind the Bollocks Here’s the Sex Pistols (1977)
47 John Lennon - Imagine (1971)
46 Thin Lizzy - Jailbreak (1976)
45 Black Sabbath - Master of Reality (1971)
44 Bruce Springsteen - Darkness on the Edge of Town (1978)
43 Rod Stewart - Every Picture Tells a Story (1971)
42 The Who - Quadrophenia (1973)
41 Van Halen - Van Halen (1978)
40 The Allman Brothers Band - Idlewild South (1970)
39 Simon & Garfunkel - Bridge Over Troubled Water (1970)
38 David Bowie - Low (1977)
37 Led Zeppelin - Houses of the Holy (1973)
36 Iggy Pop and The Stooges - Raw Power (1973)
35 Bob Dylan & The Band - The Basement Tapes (1975)
34 King Crimson - Red (1974)
33 Lynyrd Skynyrd - (pronounced leh-‘nérd ‘skin-‘nérd) (1973)
32 Derek and The Dominos - Layla and Other Assorted Love Songs (1970)
31 Neil Young - Tonight’s the Night (1975)
30 Led Zeppelin - Physical Graffiti (1975)
29 Grateful Dead - American Beauty (1970)
28 Deep Purple - Machine Head (1972)
27 The Allman Brothers Band - Eat a Peach (1972)
26 Black Sabbath - Black Sabbath (1970)
25 John Lennon - Plastic Ono Band (1970)
24 Can - Tago Mago (1971)
23 Ramones - Ramones (1976)
22 The Clash - The Clash (1977)
21 Fleetwood Mac - Rumours (1977)
20 Bruce Springsteen - Born to Run (1975)
19 Van Morrison - Moondance (1970)
18 Neil Young - On the Beach (1974)
17 Santana - Abraxas (1970)
16 The Stooges - Fun House (1970)
15 Creedence Clearwater Revival - Cosmo’s Factory (1970)
14 The Rolling Stones - Exile on Main St. (1972)
13 Ramones - Rocket to Russia (1977)
12 Yes - Close to the Edge (1972)
11 The Clash - London Calling (1979)
10 Neil Young - After the Gold Rush (1970)
9 The Who - Who’s Next (1971)
8 Black Sabbath - Paranoid (1970)
7 David Bowie - Hunky Dory (1971)
6 The Rolling Stones - Sticky Fingers (1971)
5 Pink Floyd - Wish You Were Here (1975)
4 Bob Dylan - Blood on the Tracks (1975)
3 Pink Floyd - The Dark Side of the Moon (1973)
2 Led Zeppelin - Led Zeppelin IV (1971)
1 David Bowie - The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders From Mars (1972)

Por Ricardo Seelig

Velhas Virgens: crítica de Todos os Dias a Cerveja Salva a Minha Vida (2014)

sexta-feira, junho 20, 2014
Chega a ser, no mínimo, um contrassenso que o mais recente disco das Velhas Virgens, Todos os Dias a Cerveja Salva Minha Vida, seja justamente o mais irregular desde que a banda iniciou uma nova fase com o ótimo Cubanajarra, de 2006. Afinal, ele foi inteiramente financiado por seus fãs, via crowdfunding. Era de se supor que um disco feito com a ajuda dos fãs fosse totalmente dedicado ao que os fãs esperam da banda. Mas, infelizmente, não foi o que aconteceu.

Embora não seja, claro, um álbum metido a certinho e comportado como o fraco Com A Cabeça No Lugar (2003), ele também está anos-luz longe do poderio de Ninguém Beija Como As Lésbicas (2009), o lançamento anterior, melhor peça da sua discografia e cristalização do modus operandi do grupo.

Tá bom, a bolacha abre com a faixa-título, uma rendição ao personagem Charlie Harper, o boêmio bagaceiro e inveterado vivido por Charlie Sheen na série "Two and a Half Men". Legal, começamos bem. Logo depois, vem o refrão contagiante e pouco sutil de "Pau no meu Cu", questionamento sobre um relacionamento falido com uma mulher insuportável. Legal, estamos indo bem. Mas, eis que na sequência, a coisa começa a desandar, entre altos e baixos.

Antes, falemos dos altos. Em "Matadora de Aluguel", de sotaque quase mexicano, Juju ganha mais uma música só sua, na qual apresenta a letal mulher vingativa que será a sua persona de palco. O mesmo vale para "Kid Marreta", apresentação do novo personagem de Paulão em tom de poesia de cordel, com melodia tipicamente nordestina, a jornada de um boxeador que se mete com a pessoa errada e acaba se dando mal. Uma espécie de "Faroeste Caboclo" pessoal das Velhas, guardadas as devidas proporções.

Vale menção ainda a ótima "O que seria do rock", um ode das Velhas ao glam rock, à androginia, a nomes como David Bowie, Gary Glitter, Elton John ou o brasileiro Cornélius Lúcifer, numa pegada absolutamente contrária ao preconceito. Perfeito.

O grande problema? O nível não se mantém. E justamente porque as Velhas parecem querer insistir, nas canções menos inspiradas, num mesmo tema: o coração. Seja o camarada de "Eu era mais feliz" quando era triste, que teve o amor correspondido e não encontrou o que queria; seja o artista sofredor da balada rasgada "Uma lágrima no rosto"; seja no dueto de "Sexy Hot", revelando um casal repleto de mentiras. Esta última até que é engraçadinha, mas em dado momento acaba perdendo a mão, justamente quando recai nos estereótipos domésticos de todo casal. Nenhuma delas consegue entregar o que promete.

Em Todos os Dias a Cerveja Salva Minha Vida, quando as Velhas resolvem que vão falar sobre o coração, parece que não conseguem encontrar o tom certo, como foi na sensacional "Não vale nada", até hoje um de seus hinos e grande momento de suas apresentações. É mais do que ser romântico. É ser um romântico mais sujo, menos óbvio, mais centro da cidade e menos Vila Madalena.

No geral, faltou um pouco mais de sacanagem, de fuleiragem, do sabor politicamente incorreto que é a cara da banda, que caracteriza o tipo de música que se espera que só as Velhas consigam fazer e cantar. Em termos de sonoridade, senti um pouco de falta dos flertes com aquele blues mais sujo, meio velhaco. O blues-rock "Meus problemas com a bebida" até que é gostoso, mas resvala novamente neste tom de coração alquebrado, de reclamação, do homem insatisfeito com a dona patroa. O mesmo vale para "Você foi feita para mim", outro blues, uma declaração rasgada de um sujeito disposto a se jogar na lama, a se ajoelhar e se tornar alguém diferente apenas para ter o amor de uma mulher. Genérica. Caberia no repertório de qualquer banda. Mas o lance é que as Velhas não são, nem de longe, uma banda qualquer.

Em 2013, como parte de seu projeto Carnavelhas, eles lançaram Bebadoriso, terceiro álbum que mistura rock `n roll com marchinhas de Carnaval. Em cada uma das faixas, dedicada a homenagear um ícone clássico do humor na televisão (dos Trapalhões a Catifunda, passando pela Velha Surda e pelo mestre Zé Bonitinho, perigote das mulheres), é possível sentir claramente o espírito das Velhas que se esperava ouvir em Todos os Dias a Cerveja Salva Minha Vida. Eis que Bebadoriso, uma espécie de projeto-paralelo, é muito mais Velhas do que o novo disco da carreira “oficial” das Velhas.

Afinal, como diz a letra de Hino da "Eterna Bebedeira": Tem gente que faz música pra falar de amor / Tem gente que faz música pra tentar mudar o mundo / Tem gente que faz música porque dormiu na praça / A gente montou a banda pra transar e beber de graça.

Sacou? :)

Nota 7

Faixas
1. Balada para Charlie Harper
2. Pau no meu Cu
3. Meus problemas com a bebida
4. Matadora de aluguel
5. Dedo duro, puxa-saco e covarde
6. Kid Marreta
7. Uma lágrima no rosto
8. O que seria do rock
9. Eu era mais feliz quando era triste
10. Sexy Hot
11. Você foi feita pra mim
12. Rua da golada

Por Thiago Cardim

18 de jun de 2014

17 de jun de 2014

Os cinco melhores discos de heavy metal lançados em maio segundo o About.com

terça-feira, junho 17, 2014
Antes tarde do que nunca, aqui vai a lista dos cinco melhores discos de maio segundo Chad Bowar e a editoria de heavy metal do About.com. Desta vez, topo do pódio para os norte-americanos do Misery Index. Completam a relação: Eyehategod, Prong, Crowbar e High Spirits.

Concorda? Não? Quais, então, foram os destaques do último mês?

Para conferir as listas passadas, basta clicar: janeiro, fevereiro, março e abril.

1. Misery Index - The Killing Gods

The Killing Gods continua no mesmo caminho de seu antecessor, casando um death metal provocante com pitadas de grind. No entanto, há um contraste entre essa típica agressividade e um certo aumento de melodia, cada vez mais presente.

Como tem feito ao longo de sua trajetória, o Misery Index mais uma vez construiu um álbum matador. É o disco mais certeiro da banda até hoje e também o mais complexo, com riffs que alternam diferentes passagens quando menos se espera. The Killing Gods, talvez pela primeira vez na carreira do Misery Index, se apresenta com um trabalho que cativa. Mesmo com as audições repetidas que o mesmo demanda, é difícil prever tudo que ele tem para oferecer.

2. Eyehategod - Eyehategod

Com seu sludge de afinações baixas e encharcado de riffs pesados, o Eyehategod apresenta uivos de tortura e de longa data do vocalista Mike IX Williams e uma variedade de tempos e composições sérias que emanam da guitarra e do baixo de Jimmy Bower, Brain Patton e Gary Mader, respectivamente. Felizmente, as linhas do falecido baterista Joey LaCaze entraram por completo no álbum; um belo legado, com certeza.

Eyehategod é o sucessor de Confederacy of Ruined Lives (2000) que todos nós esperamos pelos últimos 15 anos. O Eyehategod está mais popular do que nunca e essa visibilidade deve só crescer com o novo disco, um clássico do gênero.

3. Prong - Ruining Lives

No fantástico Ruining Lives, o Prong tem êxito ao pegar os melhores elementos de seus oito álbuns de estúdio anteriores e misturá-los perfeitamente em uma grande agressão aos tímpanos.

Vocalmente falando, os sons de Tommy Victor são indiscutivelmente fortes, o que é fantástico considerando o fato de que ele tem gritado por 25 anos ou mais. Sua voz única não vacila uma só vez e aparece grande e mais potente do que nunca. Além de Victor, o backing vocal do baixista Jason Christopher é muito bem-vindo.

4. Crowbar - Symmetry in Black

Symmetry in Black é, em termos sonoros, um típico álbum do Crowbar. Kirk Windstein (guitarra/vocal) tem criado um som tão característico que não há dúvida do que está por trás do monstro envolto aos riffs batendo ar para fora dos pulmões.

Após 25 anos e dez álbuns, os velhos fãs do Crowbar sempre podem esperar certas coisas desses mestres e pioneiros do sludge: peso implacável e massivo o suficiente para induzir letargia, riffs memoráveis e entregues com dedicação, os vocais enrugados de Windstein e letras inteligentes e significativas sobre a vida. Symmetry in Black satisfaz em todos esses aspectos e com um nível de qualidade semelhante ao que a banda já fez de melhor.

5. High Spirits - You Are Here

You Are Here é um enorme soco na cara. Todos os instrumentos e vocais são executados pelo supertalentoso Chris Black, baterista da banda de power metal Pharoah e líder da igualmente incrível Dawnbringer. Apesar de não ter um grande alcance vocal, sua habilidade para escrever melodias ridiculamente atraentes compensa de sobra.

A banda foca em um hard rock melódico e acrescenta influências de NWOBHM. O fantástico vocal de Black e as melodias de guitarra são os destaques, e eles irão ficar gravados no seu cérebro muito tempo depois do álbum terminar.

Por Guilherme Gonçalves

16 de jun de 2014

Jack White: crítica de Lazaretto (2014)

segunda-feira, junho 16, 2014
John Anthony Gillis sofre de um delay temporal. Nascido em Detroit em 9 de julho de 1975, o vocalista e guitarrista de 38 anos que o mundo conhece como Jack White é um artista único, com um talento singular e uma maneira de ver a música que difere totalmente dos seus colegas de geração. E isso é uma qualidade gigantesca. Enorme. Decisiva.

Em uma conversa regada à música e algumas doses, um amigo levantou a questão: “Jack White é o único cara atual que poderia fazer a sua carreira durante os anos 1970 que não passaria vergonha com os artistas daquela época”. Não tive, e continuo não tendo, como fugir da resposta pura e simples: sim, concordo.

Mais uma vez, White surpreende com um trabalho primoroso, dono de uma personalidade hipnótica, com canções que trazem a própria vida para os sulcos, o sangue pulsando nas caixas de som. Assim como o sensacional Blunderbuss (2012), Lazaretto, seu segundo álbum solo (lançado dia 10 de junho pela Third Man Records, selo e gravadora do próprio White), é de cair o queixo. Arranjos inventivos, grandes melodias emoldurando excelentes canções, execução cheia de feeling: as onze faixas oferecem ao ouvinte um novo mergulho no universo imaginativo de Jack White, derramando doses maciças de dopamina direto na veia.

Como aconteceu em Blunderbuss, aqui vale o mesmo princípio: esqueça os tempos de Jack no White Stripes. As guitarras cheias de noise, os gritos descontrolados e a bateria monocórdica são coisas do passado. Em sua carreira solo, além de contar com músicos estupidamente melhores que a bela Meg White, Jack explora outros caminhos sonoros, ainda que com ocasionais olhadas para trás. Outra vez, o piano divide os holofotes com a guitarra, em um duo instrumental que acrescenta um terceiro ingrediente em Lazaretto: o violino. E a união entre as cordas, as teclas e o arco dão a característica própria e ao mesmo tempo peculiar do trabalho. As intervenções de violino imprimem, em algumas passagens, um agradabilíssimo tempero country, que soa ainda mais belo ao ser amparado e conduzido por arranjos que, em sua maioria, têm o piano como protagonista. A guitarra está sempre presente, com direito a alguns solos bastante inspirados e com uma abordagem que varia entre acordes sóbrios e ataques de fúria.

Com todos esses pontos, Lazaretto é um trabalho profundo e mais denso que Blunderbuss. A estreia solo de White agradava de imediato, apresentando uma sequência de faixas excelentes que impressionava logo de cara. Em Lazaretto a qualidade é similar, porém demanda mais do ouvinte. É preciso se acostumar com a abordagem própria, com a forma com que Jack White conduz as canções. É preciso abrir a cortina e penetrar nas trevas, na neblina, na escuridão. Mas, ao se acostumar com ela, tudo faz sentido, passando a soar de maneira tão intensamente bela quanto o disco anterior.

O vocalista e guitarrista entrega canções inspiradas, excelentes, boas mesmo - pra caramba, do caralho e afudê, pra deixar bem claro. Tudo é de alto nível, com detalhes capazes de colocar um grande sorriso no rosto de qualquer fã de música. A releitura desconcertante de “Three Women”, do bluesman Blind Willie McTell, que abre o disco. Os violinos na parte final da faixa-título, se alternando entre um canal e outro. O arrepiante coro feminino na linda “Would You Fight For My Love?”. As reviravoltas inusitadas da instrumental “High Ball Stepper”. A doçura deliciosa de “Alone in My Home”. E muitos outros, que se revelam a cada nova audição.

Lazaretto é um disco excelente de um artista sem igual. Um disco magnífico. Para a vida, para o ano, para sempre.

Obrigado, John. Longa vida, Jack.

Nota 10
Faixas:
1 Three Women
2 Lazaretto
3 Temporary Ground
4 Would You Fight For My Love?
5 High Ball Stepper
6 Just One Drink
7 Alone in My Home
8 Entitlement
9 That Black Bat Licorice
10 I Think I Found the Culprit
11 Want and Able

Por Ricardo Seelig

Santana: crítica de Corazon (2014)

segunda-feira, junho 16, 2014

Expectativa maior pelos convidados que pela mistureba musical a ser oferecida e que, cá entre nós, já deu uma senhora desgastada. O multiplatinado Supernatural (1999) mostrou a Carlos Santana o caminho de volta para a mídia. Puta disco, sem dúvidas, mas desde então, o guitarrista não fez nada além de repetir a mesma fórmula que se mostrou tão vitoriosa no passado. Em Corazon, seu mais recente trabalho, Santana volta a convidar Deus e o mundo para colaborações que nem sempre resultam em algo agradável de se ouvir — muitas vezes, a única coisa que salva é a sua guitarra de fraseados menores e timbre inconfundível.

A abertura não poderia ser pior, com o tenebroso Samuel Rosa cantando num espanhol à Vanderlei Luxemburgo o que se pode chamar de uma versão caribenha de "Saideira", hit do Skank de repercussão viral nos happy hours dos anos 1990. Numa virada de mesa digna do tricolor carioca, "La Flaca" dita o tom no que seria uma "Smooth" do novo milênio, com levada gostosa de ouvir e um refrão simplesmente irresistível. Além de contar com a voz de Juanes, uma das grandes vozes da música latina na atualidade.

O arroz de festa Pitbull chega junto para estragar a velha "Oye Como Va" (listada como "Oye 2014"), transformando-a no típico dance vazio de conteúdo que só faz a cabeça de quem já está todo cagado de lama no final de uma festa rave. Já em "Una Noche En Napoles", a receita inclui violão de nylon, vocais femininos em harmonia e percussão que remete à fase mais suave da carreira de Carlos, na segunda metade dos anos 1970, quando prevaleciam em seus discos composições lentas e de extremo bom gosto.

Pensando em garantir um espaço nas ondas do rádio, o mestre convida Romeo Santos e do encontro brota "Margarita", que é o tipo de lançamento que toda light fm adora debutar. Questão de tempo você ouvi-la numa JB FM da vida. O mesmo vale para "Feel It Coming Back", com participação de Diego Torres — ainda que aqui a vibe seja totalmente rock... ou balada-rock, se me permitem o uso deste rótulo. Pule a faixa que conta com Wayne Shorter sem medo. Faça o mesmo com as bonus tracks. Sério.

Com o álbum prestes a acabar, você repara: Corazon tem muito menos overdrive que seus antecessores — talvez, seja o disco mais "leve" de Supernatural até aqui. Por outro lado, é o disco com mais bolas fora de todos: metade das músicas não faria falta alguma à humanidade e insistir em convidar essa "tchurma" do hip-hop e eletrônico mais depõe contra que qualquer outra coisa. O gabarito foi dado, portanto, ouça somente o que presta e poupe seus ouvidos para lançamentos que valham a pena do início ao fim.

Nota: 5

01. Saideira (feat. Samuel Rosa)
02. La Flaca (feat. Juanes)
03. Mal Bicho (feat. Los Fabulosos Cadillacs)
04. Oye 2014 (feat. Pitbull)
05. Iron Lion Zion (feat. Ziggy Marley & ChocQuibTown)
06. Una Noche en Napoles (feat. Lila Downs, Nina Pastori & Soledad)
07. Besos de Lejos (feat. Gloria Estefan)
08. Margarita (feat. Romeo Santos)
09. Indy (feat. Miguel)
10. Feel It Coming Back (feat. Diego Torres)
11. Yo Soy la Luz (feat. Wayne Shorter & Cindy Blackman Santana)
12. I See Your Face

Bonus Tracks:
13. Saideira (feat. Samuel Rosa)
14. Beijo de Longe (feat. Gloria Estefan)
15. Amor Correspondido (feat. Diego Torres)

Por Marcelo Vieira

Rival Sons: crítica de Great Western Valkyrie (2014)

segunda-feira, junho 16, 2014
O Rival Sons chega ao seu quarto disco com o status - merecido, diga-se de passagem - de uma das melhores bandas de hard rock do planeta. E, ao final da audição das dez faixas de Great Western Valkyrie, o sentimento é de que estamos presenciando o nascimento, a evolução e os passos largos e decididos de uma das grandes bandas do nosso tempo.

O Rival Sons não brinca em serviço. O quarteto - que sofreu a sua primeira mudança de formação com a entrada do baixista Dave Beste no lugar de Robin Everhart - deixou de lado o flerte com o pop do último disco, Head Down (2012) - escancarado principalmente em “Wild Animal” e “Until the Sun Comes” - e intensificou a presença de elementos daquele hardão viciante e influente pra caramba produzido no início dos anos 1970. Great Western Valkyrie tem uma sonoridade áspera, cortante, que transborda influências de blues unidas ao DNA hard rock do grupo, característica que é uma das principais razões que fazem os californianos se destacarem tanto de seus pares.

Ao contrário do que se percebia nos registros anteriores, a onipresente influência do Led Zeppelin soa menos óbvia no novo disco. Ela persiste, e é ótimo que continue a pertencer à identidade claramente em evolução do Rival Sons, mas não é mais o ingrediente principal como foi, principalmente, em Pressure & Time (2011), e de maneira mais sutil, pero no mucho, em Head Down. A banda desce a cortina aos poucos e revela ao público a sua identidade própria, e ela é forte e cheia de estilo. A única canção onde a raiz zeppeliana do grupo fica evidente é “Open My Eyes”, espécie de filha de um insólito casamento entre “When the Levee Breaks” e “Your Time is Gonna Come”, presentes respectivamente no quarto e no primeiro LP da imortal banda de Jimmy Page.

O vocalista Jay Buchanan e o guitarrista Scott Holiday dividem os holofotes principais. O primeiro ousa mais em seus vocais, mostrando um avanço evidente em relação aos anos anteriores. E demonstra ser capaz de andar com as próprias pernas no que tange às composições, visto que “Good Things”, uma das melhores do álbum, é uma criação exclusivamente sua. Já Holiday mostra mais uma vez a criatividade e a inventividade percebidas nos discos anteriores, seja na criação de riffs pegajosos, no entrelaçamento de texturas sonoras ou nos vôos altos em que embarcamos em suas confortáveis seis cordas.

Um elemento pouco comentado do Rival Sons, mas essencial em sua sonoridade, é o baterista Michael Miley. Excelente músico e fissurado por John Bonham (vide o timbre de sua bateria, que em todos os álbuns é muito próximo ao som clássico perpetuado por Bonzo), Miley solta a mão com peso e técnica durante todo o disco, e mostra entrosamento instantâneo com Dave Beste, fato explicado pelo fato do novo baixista já estar na banda há um certo tempo e ter tocado em grande parte da turnê de Head Down.

Sem reinventar a roda, sem a pretensão de tentar soar único e, mais importante, sem abrir mão de suas convicções, o Rival Sons gravou aquele que é, muito provavelmente, o seu disco mais equilibrado até o momento. Consistente e repleto de grandes momentos (“Electric Man”, “Good Luck”, “Secret”, “Open My Eyes”, “Rich and the Poor”), Great Western Valkyrie ainda brinda o ouvinte com duas colossais faixas em seu encerramento, as longas “Where I’ve Been” e “Destination on Course” - a primeira uma linda balada repleta de fleeling com grande interpretação de Jay Buchanan e um ótimo solo de guitarra, e a segunda um sensacional blues nada ortodoxo, com coros spirituals e arranjo insólito que deixa claro o altíssimo nível alcançado pela banda.

O Rival Sons já tem lugar garantido no coração, nos ouvidos e na estante de quem gosta de rock. E com justiça.

Nota 8,5

Faixas:
1 Electric Man
2 Good Luck
3 Secret
4 Play the Fool
5 Good Things
6 Open My Eyes
7 Rich and the Poor
8 Belle Starr
9 Where I’ve Been
10 Destination on Course

Por Ricardo Seelig

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