Poucos artistas conseguem transformar desconforto em arte com a mesma habilidade de Suehiro Maruo. Em A Lagarta, adaptação do conto homônimo de Edogawa Ranpo publicada originalmente em 2009 e lançada no Brasil pela Pipoca & Nanquim, o autor entrega uma obra que vai muito além do horror gráfico associado ao seu nome. O mangá é uma reflexão perturbadora sobre guerra, poder, desejo e degradação humana.
A história acompanha o tenente Sunaga, militar japonês que retorna de uma campanha na Sibéria reduzido a um torso vivo. Sem braços, sem pernas, incapaz de falar ou ouvir, ele é recebido como herói nacional e colocado sob os cuidados da esposa, Tokiko. O que poderia ser uma narrativa sobre superação rapidamente se transforma em algo muito mais sombrio. Conforme os dias passam, a relação entre os dois mergulha em uma espiral de humilhação, ressentimento, dependência e perversão psicológica.
Embora a condição física de Sunaga seja o elemento mais chocante à primeira vista, o verdadeiro horror de A Lagarta está no comportamento humano. Maruo utiliza a mutilação do protagonista como símbolo da destruição provocada pela guerra, não apenas nos corpos, mas também na mente e na moral daqueles que sobrevivem. O herói celebrado pela sociedade torna-se um fardo escondido dentro de casa, enquanto Tokiko vê sua dedicação transformar-se gradualmente em obsessão e crueldade.
A adaptação preserva o caráter crítico do texto original de Ranpo, publicado em 1929. A obra questiona diretamente a glorificação do militarismo e expõe o custo humano dos conflitos armados. Não por acaso, o conto enfrentou censura no Japão durante os anos de expansão militar do país. Décadas depois, Maruo demonstra como seus temas continuam atuais e universais.
O traço refinado de Maruo cria um contraste constante entre beleza e repulsa. Cada página é construída com um detalhismo quase obsessivo, evocando tanto a elegância das ilustrações clássicas japonesas quanto o grotesco característico do movimento ero guro. O resultado é uma experiência visual fascinante e inquietante ao mesmo tempo.
A edição da Pipoca & Nanquim faz justiça à importância da obra. O acabamento caprichado valoriza a arte de Maruo e reforça a relevância de sua publicação no mercado brasileiro, que finalmente começa a receber de forma consistente alguns dos trabalhos mais importantes do autor.
A Lagarta não é uma leitura fácil e tampouco pretende ser. É uma obra que provoca, incomoda e desafia o leitor a encarar aspectos sombrios da natureza humana. Justamente por isso, permanece tão poderosa. Mais do que um mangá erótico e de horror, trata-se de uma crítica feroz à guerra e às máscaras sociais que insistimos em construir para esconder suas consequências.
Uma das leituras mais impactantes publicadas no Brasil em 2026 e uma excelente porta de entrada para o universo singular de Suehiro Maruo.



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