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Tex Gigante nº 36: Indian Carnival transforma o Velho Oeste em um pesadelo fascinante (2021, Mythos Editora)


Ao longo de mais de sete décadas de publicações, Tex Willer já enfrentou todo tipo de ameaça. Bandidos, militares corruptos, políticos inescrupulosos e até forças que parecem desafiar a lógica fazem parte da trajetória do ranger. Em Indian Carnival, porém, Mauro Boselli leva o personagem para um terreno pouco explorado, construindo uma aventura em que o western clássico se funde ao horror gótico e ao suspense psicológico com resultados memoráveis.

A história começa de forma tradicional. Tex e seus companheiros seguem a trilha dos violentos irmãos Fortune, mas a perseguição rapidamente os conduz até a misteriosa Indian Carnival, uma feira itinerante composta exclusivamente por artistas indígenas. Cercado por figuras excêntricas, crimes ritualísticos e acontecimentos aparentemente sobrenaturais, o quarteto se vê diante de uma conspiração cuja origem remonta a um passado marcado por injustiça, vingança e culpa.

Embora exista bastante ação, o verdadeiro motor da história é o mistério. Cada página amplia a sensação de inquietação, enquanto pistas falsas e revelações graduais mantêm o leitor constantemente envolvido. Boselli demonstra grande habilidade ao equilibrar elementos típicos de Tex com referências ao chamado weird western, gênero que mistura faroeste, terror e fantasia sem descaracterizar seus protagonistas.

Outro aspecto que merece destaque é a forma como o roteiro trata a violência contra os povos originários. Boselli utiliza o passado de Cedar Grove para refletir sobre culpa coletiva, preconceito e as cicatrizes deixadas pelo extermínio indígena. Esses temas conferem densidade emocional à trama e fazem com que o horror nunca seja apenas um recurso narrativo.


Se o roteiro impressiona, a arte de Massimo Carnevale eleva Indian Carnival a outro patamar. Seu domínio absoluto do preto e branco cria uma atmosfera pesada e quase opressiva. O artista trabalha magistralmente com luz e sombra, produzindo páginas que lembram o expressionismo cinematográfico e o terror clássico. As figuras do circo ambulante surgem envoltas em mistério, enquanto paisagens, interiores e sequências noturnas ganham um impacto visual raro até mesmo entre os álbuns da linha Tex Gigante.

Essa proposta visual também explica por que a obra divide opiniões entre alguns leitores mais tradicionais. O ritmo é deliberadamente mais lento do que o habitual e a atmosfera sobrenatural ocupa espaço maior do que nas aventuras convencionais do personagem. Para quem espera apenas um faroeste de ação, a leitura pode parecer incomum. Já para quem aprecia histórias que expandem os limites da série, Indian Carnival representa uma das experiências mais ousadas da fase moderna de Tex.

Mauro Boselli e Massimo Carnevale entregam uma obra que demonstra como um personagem clássico ainda pode surpreender sem abrir mão de sua essência. É um Tex diferente, mais sombrio, mais atmosférico e mais inquietante, mas igualmente fiel aos valores que transformaram o ranger em um dos maiores ícones dos quadrinhos europeus.

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