Estreito, estreia do Rodox lançada pela Warner Music em fevereiro de 2002, chegou ao mercado em meio a expectativas, polêmicas e profundas transformações na vida de Rodolfo Abrantes. Mais do que apresentar uma nova banda, o álbum documenta uma ruptura decisiva: a saída do vocalista dos Raimundos, no auge da popularidade do grupo, e o início de uma fase marcada por mudanças pessoais e religiosas.
É impossível ouvir Estreito sem considerar esse contexto, mas reduzi-lo a um "disco gospel" seria injusto. O álbum é, antes de tudo, um retrato bastante fiel do rock pesado brasileiro do começo dos anos 2000. Hardcore, nu metal, rapcore, reggae, rock alternativo e elementos eletrônicos aparecem lado a lado, refletindo um período em que as fronteiras entre esses gêneros estavam cada vez mais fluidas.
Embora creditado ao Rodox, Estreito ainda não representa uma banda plenamente estabelecida. Rodolfo gravou vocais, guitarras e baixo nas 12 faixas, acompanhado por Fernando Schaefer na bateria e DJ Bob nos samples e programações, com produção de Tom Capone. O resultado é um disco essencialmente autoral, quase um documento individual transformado em projeto coletivo.
Musicalmente, há boas surpresas. "Olhos Abertos" mergulha no peso do nu metal, enquanto "Três Reis", com participações de Xis e Marcelo Falcão, aproxima rap e rock de maneira bastante natural. "Continuar de Pé" é uma das faixas mais fortes e acessíveis, e "Dia Quente" revela um Rodolfo mais melódico. "Estreito", "Cego de Jericó", "Ao Lado do Sol", "Quem Tem Coragem Não Finge" e "Quem Dá Mais" completam um repertório irregular, mas suficientemente variado para evitar que o álbum se torne previsível.
As letras são o elemento mais diretamente ligado à transformação vivida por Rodolfo. Fé, arrependimento, recomeço, conflito e a tentativa de abandonar o passado aparecem constantemente. Em alguns momentos, a abordagem é bastante explícita, mas há também algo universal nessa narrativa: Estreito é um disco sobre escolher um caminho e aceitar as consequências dessa escolha.
Essa dimensão explica a recepção dividida na época. Parte da crítica enxergou um trabalho excessivamente domesticado e condicionado pelas novas convicções do cantor, enquanto outros perceberam justamente a honestidade daquele momento. O interessante é que, mais de duas décadas depois, a distância histórica permite enxergar o álbum com mais clareza.
Estreito não é um disco perfeito. Sua produção denuncia bastante o início dos anos 2000, algumas composições são mais fortes que outras e determinados momentos podem parecer excessivamente presos ao contexto religioso que os originou. Mas exigir dele uma neutralidade que nunca esteve em sua proposta seria perder justamente o que o torna interessante. Porque Estreito é um disco de transição. Rodolfo estava deixando para trás os Raimundos, uma das maiores bandas brasileiras de sua geração, e tentando descobrir quem seria a partir dali. Essa tensão está presente em cada faixa.
O retorno do Rodox aos palcos em 2026 acrescenta uma nova camada à história. Mais de duas décadas depois, Estreito deixou de ser apenas o controverso primeiro passo de uma banda surgida após uma ruptura e passou a ocupar um lugar mais interessante: o de documento de uma época, de uma transformação pessoal e de um momento particularmente fértil do rock brasileiro. Hoje, talvez seja possível ouvi-lo sem a necessidade de escolher entre Raimundos e Rodox, entre rock e religião, entre passado e futuro. Estreito sobrevive justamente porque registra o instante em que todas essas coisas entraram em choque.
E, quando um disco consegue preservar tão bem as contradições do momento em que foi criado, ele deixa de ser apenas uma fotografia de sua época. Torna-se também um documento histórico.
O álbum foi relançado pela Warner/Wikimetal em CD slipcase, após passar anos fora de catálogo. Ótima oportunidade para ter na coleção um dos discos mais importantes do rock brasileiro dos anos 2000.
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