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Lavô Tá Novo (1995): o momento em que os Raimundos descobriram até onde podiam chegar


O álbum de estreia dos Raimundos, lançado em 1994, havia colocado a banda de Brasília no centro do rock brasileiro com uma combinação que parecia improvável: hardcore, punk, forró, letras escrachadas e uma energia que não cabia facilmente em nenhuma classificação. Já o segundo disco do grupo, Lavô Tá Novo (1995), seria o responsável por transformar aquela explosão inicial em fenômeno nacional.

Produzido pelo inglês Mark Dearnley, que já havia trabalhado com nomes como AC/DC, Black Sabbath e Def Leppard, Lavô Tá Novo apresenta uma banda mais pesada, precisa e consciente das possibilidades de sua própria música. A produção é mais robusta, as guitarras ganharam definição e os arranjos ficaram mais elaborados, mas sem domesticar a personalidade dos Raimundos. A impressão é de uma banda que descobriu como ampliar sua sonoridade sem deixar de ser ela mesma.

“Eu Quero Ver o Oco” resume muito bem essa evolução. O riff é pesado, direto e memorável, enquanto a estrutura transforma uma composição agressiva em um dos grandes hinos do grupo. “Tora Tora” abre o álbum estabelecendo esse novo patamar de peso, e “Esporrei na Manivela” leva a mistura de hardcore e música nordestina para um território ainda mais particular, com participação de Zenilton, uma das referências do forró que ajudaram a moldar a identidade dos Raimundos.

A diversidade também aparece em “Opa! Peraí, Caceta”, “Cabeça de Bode” e na irresistível “I Saw You Saying (That You Say That You Saw)”. Esta última, com sua história envolvendo um encontro imaginário com Madonna e seu refrão imediatamente reconhecível, mostra como a banda conseguia ser acessível sem abandonar o peso. É uma das músicas que explicam por que os Raimundos ultrapassaram rapidamente os limites do público do rock pesado.

Mas existe algo ainda mais importante em Lavô Tá Novo: por trás das letras absurdas e do humor escrachado, havia uma banda musicalmente muito competente. Os Raimundos nunca foram apenas uma banda engraçadinha. As guitarras, a bateria, os arranjos e a maneira como elementos do forró, do punk e do hardcore são combinados mostram um grupo com identidade própria e grande domínio de sua linguagem.

O curioso é que o título do álbum sugere continuidade, como se bastasse lavar para deixar tudo novo. Musicalmente, entretanto, os Raimundos haviam mudado bastante. Lavô Tá Novo preserva a essência do primeiro disco, mas amplia suas possibilidades e transforma uma fórmula que poderia facilmente se esgotar em algo muito mais abrangente.

Três décadas depois, o álbum permanece como um dos documentos mais fortes da renovação do rock brasileiro dos anos 1990. Não apenas porque contém alguns dos maiores sucessos dos Raimundos, mas porque registra o momento exato em que uma banda essencialmente underground descobriu como falar com um público gigantesco sem precisar abrir mão de sua identidade.

O primeiro álbum apresentou os Raimundos ao Brasil. Lavô Tá Novo mostrou até onde eles poderiam chegar.

O álbum acabou de ser relançado pela Warner em CD slipcase.


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