Rever Paris, de Benoît Peeters e François Schuiten, parte de uma ideia tão simples quanto fascinante: como é possível sentir saudade de um lugar onde nunca estivemos? É a partir dessa contradição que a primeira obra da dupla responsável por As Cidades Obscuras publicada no Brasil constrói uma história de ficção científica que fala menos sobre o futuro do que sobre a maneira como inventamos o passado.
Estamos em 2156. Kârinh nasceu na Arca, uma colônia espacial formada por descendentes de pessoas que abandonaram a Terra. Ela nunca esteve no planeta, mas passou a vida fascinada por Paris, cidade que conhece através de livros, imagens e registros antigos. Quando finalmente parte em direção à Terra, leva consigo uma ideia de Paris construída inteiramente pela imaginação. O problema é que a cidade que ela sonhou não existe e talvez nunca tenha existido daquela maneira.
É nesse ponto que Rever Paris encontra seu melhor tema: a diferença entre conhecer um lugar e conhecer a imagem que construímos dele. Kârinh não sente exatamente nostalgia. Ela sente nostalgia de uma memória que herdou. Sua Paris é formada por monumentos, fotografias, desenhos, projetos arquitetônicos e fantasias de diferentes épocas, misturados até que realidade e imaginação se tornem indistinguíveis. A própria ideia de “rever” Paris ganha um sentido irônico: para Kârinh, trata-se de ver pela primeira vez aquilo que ela acredita já conhecer.
Peeters e Schuiten transformam essa questão em uma reflexão sobre as cidades e nossa relação com elas. A arquitetura nunca funciona apenas como cenário nas obras da dupla. Em Rever Paris, ela é praticamente uma personagem. Schuiten imagina uma capital em que diferentes tempos parecem coexistir, combinando referências históricas, projetos arquitetônicos que nunca saíram do papel e uma visão retrofuturista profundamente marcada pelo imaginário de artistas como Albert Robida. O resultado é uma Paris simultaneamente familiar e impossível, reconhecível e estranha.
Artisticamente, a HQ é extraordinária. Schuiten desenha edifícios, monumentos, máquinas e espaços urbanos com uma precisão que transforma cada página em uma espécie de projeto arquitetônico de uma cidade que não existe. É justamente aí que a obra encontra sua maior força: você não apenas lê sobre aquela Paris, mas tem a sensação de percorrê-la junto com Kârinh.
A narrativa, porém, não acompanha sempre a mesma potência. O roteiro de Peeters é deliberadamente misterioso e revela suas informações aos poucos, mas algumas passagens parecem mais focadas em conduzir o leitor de uma imagem monumental à seguinte do que em aprofundar seus personagens. Kârinh é uma figura interessante como conceito, mas sua personalidade por vezes fica em segundo plano diante da cidade que está descobrindo. É como se Schuiten, fascinado pela própria Paris que criou, acabasse roubando a cena do roteiro.
E talvez isso seja menos um problema do que uma característica inevitável de uma obra como esta. Rever Paris é, acima de tudo, uma história sobre o poder das imagens. Sobre como fotografias, livros, monumentos e relatos podem construir uma cidade dentro da nossa cabeça e sobre a inevitável decepção quando o lugar real não corresponde àquilo que imaginamos. No fundo, Kârinh não está apenas procurando Paris: ela está procurando uma versão ideal de um lugar que possa finalmente chamar de seu. E é justamente aí que a HQ deixa de ser apenas uma ficção científica arquitetônica e se transforma em algo mais universal: uma história sobre pertencimento, memória e a nossa permanente vontade de encontrar, em algum lugar, aquilo que já construímos dentro de nós.
Rever Paris talvez não tenha um roteiro tão memorável quanto a arquitetura de Schuiten, mas poucas HQs conseguem transformar uma cidade em objeto de desejo, memória e fantasia com tamanha beleza. Ao terminar a leitura, fica uma pergunta incômoda: quando sonhamos com um lugar que nunca conhecemos, estamos desejando aquele lugar ou a versão dele que inventamos para nós mesmos?
A edição da QS Comics vem em capa dura, formato europeu e papel especialmente escolhido pelos autores. A parte final inclui diversos textos sobre a história de Paris e as transformações arquitetônicas que a cidade vivenciou ao longos dos séculos, um complemente que deixa a leitura ainda mais completa.
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