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Ritual (2002): a estreia do Shaman, grandiosa, mística e muito além do Angra


Quando Andre Matos, Luís Mariutti e Ricardo Confessori deixaram o Angra, em 2000, a expectativa em torno do que fariam a seguir era enorme. Não era apenas o nascimento de uma nova banda, mas a continuidade de uma das formações mais importantes da história do metal brasileiro. Ao lado do guitarrista Hugo Mariutti, os três músicos formaram o Shaman e, dois anos depois, apresentaram Ritual, um álbum que poderia facilmente ter seguido pelo caminho mais óbvio. Em vez disso, a banda decidiu construir uma identidade própria.

Ritual (2002) preserva a base do power metal melódico que aqueles músicos ajudaram a consolidar, mas amplia consideravelmente esse universo. Elementos de música clássica, instrumentos étnicos, percussões tribais, coros e atmosferas místicas aparecem ao longo do disco, criando uma sonoridade grandiosa sem fazer o álbum parecer simplesmente uma continuação do Angra.

A produção de Sascha Paeth contribui muito para isso. O alemão, então um dos principais nomes por trás da sonoridade do metal melódico europeu, ajudou a transformar as ambições do Shaman em um disco poderoso e detalhado. A presença de convidados como Derek Sherinian, Marcus Viana, Tobias Sammet e o próprio Sascha Paeth também reforça a dimensão internacional do projeto.

"Here I Am" é uma abertura perfeita para apresentar essa nova fase de Andre Matos. A voz continua impressionante, mas existe uma segurança diferente na interpretação, enquanto a banda encontra espaço para explorar novas texturas. "Distant Thunder" e "For Tomorrow" seguem por caminhos igualmente fortes, equilibrando peso, melodia e arranjos elaborados. 

"Fairy Tale" acabou se tornando a música mais conhecida do álbum graças à inclusão na trilha sonora da novela O Beijo do Vampiro, levando o Shaman a um público muito maior. A exposição poderia ter transformado a banda em um fenômeno passageiro, mas Ritual tinha substância suficiente para sobreviver muito além daquele momento.

"Over Your Head" é uma das faixas que melhor representam a proposta do disco, incorporando elementos pouco comuns ao power metal, enquanto "Ritual", a faixa-título, funciona como o grande mergulho no conceito do álbum. A ideia de Andre de construir o trabalho como um livro, com cada música representando um capítulo, fica evidente na forma como as faixas se conectam e criam uma atmosfera própria.

É um álbum grandioso, por vezes excessivo, com todas as características que tornavam o metal melódico do início dos anos 2000 tão exuberante. Mas existe convicção por trás desse excesso. As orquestrações, os elementos tribais e a temática mística não parecem acessórios colocados para enfeitar as músicas. Eles fazem parte da identidade que a banda estava tentando construir.

Ritual permanece como um dos grandes discos do metal brasileiro. Não apenas pela história envolvendo seus integrantes, pelo sucesso comercial ou pelo impacto de "Fairy Tale", mas porque conseguiu transformar uma situação potencialmente limitadora — o fim de uma formação histórica — em ponto de partida para algo novo.

O Shaman não conseguiu escapar da sombra do Angra, e provavelmente nunca conseguiria. Mas em Ritual também não tentou. Preferiu acender a própria fogueira e criar seu próprio ritual. E é justamente por isso que o disco continua tão especial.

Em 2026, Ritual também ganhou uma nova edição em CD pela Voice Music, com áudio remasterizado, slipcase, OBI, material fotográfico e pôster. É uma ótima oportunidade de colocar novamente esse clássico do metal brasileiro na estante, agora em uma apresentação caprichada e atualizada. Além disso, é uma forma de manter disponível um álbum que ajudou a definir uma geração do metal nacional e que, mais de duas décadas depois, continua merecendo ser ouvido e descoberto.


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