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We’ve Come for You All (2003): a força do Anthrax na era John Bush


We’ve Come for You All
(2003) representa um dos momentos mais interessantes da fase de John Bush no Anthrax. Depois de cinco anos sem apresentar um álbum de estúdio, a banda retornou com um trabalho que recupera parte da agressividade de seus clássicos, mantém a sonoridade mais moderna desenvolvida durante os anos 1990 e mostra que ainda havia bastante combustível no tanque.

O intervalo entre Volume 8: The Threat Is Real (1998) e este disco foi marcado por dificuldades com gravadoras, mudanças na indústria musical e um cenário pouco favorável ao thrash metal tradicional. O Anthrax precisava reafirmar sua relevância, mas não fazia sentido tentar reproduzir Among the Living (1987) mais de quinze anos depois. A solução foi olhar para a própria trajetória e reunir diferentes elementos de sua identidade em um álbum que soa pesado, contemporâneo e bastante diversificado.

A formação traz John Bush nos vocais, Scott Ian na guitarra, Frank Bello no baixo e Charlie Benante na bateria, com Rob Caggiano assumindo a segunda guitarra. Sua presença é um dos diferenciais do trabalho. Depois de anos sem um guitarrista solo fixo, o Anthrax recupera a dinâmica de duas guitarras, com Caggiano acrescentando solos melódicos e uma abordagem que combina muito bem com os riffs de Scott Ian.

A abertura com “Contact” e “What Doesn’t Die” estabelece imediatamente as intenções do grupo. A segunda é uma declaração de princípios: riffs musculosos, velocidade, refrão marcante e a interpretação rasgada de Bush, que se mostra perfeitamente à vontade diante de um repertório que exige tanto agressividade quanto melodia. É uma das melhores composições do disco e uma demonstração de que o Anthrax não havia perdido a capacidade de criar faixas de impacto.

“Superhero” mantém a intensidade, enquanto “Refuse to Be Denied” está entre os grandes momentos do álbum. O groove, as mudanças de andamento e a combinação entre peso e dinamismo evidenciam uma banda que aprendeu a incorporar elementos mais modernos sem abandonar suas raízes. Scott Ian continua sendo um dos grandes arquitetos do thrash metal, mas aqui trabalha com uma abordagem que vai além da velocidade e da precisão características do estilo.

Essa diversidade aparece de maneira ainda mais evidente em “Safe Home”. Com uma construção melódica e um refrão amplo, a música representa o lado mais acessível do Anthrax e foi escolhida como single. É também um dos pontos que podem dividir opiniões. Sua estrutura se aproxima de tendências do rock pesado daquele período e se distancia da irreverência dos clássicos dos anos 1980. Ainda assim, a interpretação de Bush funciona muito bem, e a faixa demonstra que a banda não queria se limitar a uma única fórmula.

“Any Place but Here” parte de uma introdução mais delicada antes de ganhar peso, enquanto “Nobody Knows Anything” aposta em riffs densos e uma bateria particularmente agressiva de Charlie Benante. Já “Think About an End” explora uma sonoridade mais próxima do metal alternativo, reforçando a disposição do grupo para dialogar com outras vertentes sem perder a própria identidade.

Um dos momentos mais surpreendentes é “Black Dahlia”, que flerta com o death metal e utiliza blast beats, algo pouco habitual na discografia do Anthrax. A faixa evidencia que a banda ainda estava disposta a experimentar, mesmo depois de mais de duas décadas de carreira. Em vez de apostar exclusivamente na nostalgia, o grupo incorpora novas possibilidades ao seu vocabulário musical.


As participações especiais também merecem destaque. Dimebag Darrell, do Pantera, aparece em “Strap It On” e “Cadillac Rock Box”, acrescentando sua personalidade aos solos. A segunda é especialmente interessante por explorar um hard rock descontraído, com um balanço que foge da atmosfera predominantemente pesada do álbum. Já “Taking the Music Back” conta com Roger Daltrey, vocalista do The Who, em uma colaboração inusitada que aproxima gerações diferentes do rock.

A faixa-título encerra o álbum reafirmando o espírito de resistência que atravessa o disco. O título funciona como uma declaração de intenções de uma banda que enfrentou dificuldades, atravessou mudanças e permaneceu ativa em um período no qual o thrash metal estava longe de ocupar o centro das atenções comerciais.

A produção favorece essa proposta. O som é encorpado, as guitarras têm presença e a bateria de Benante ganha o destaque necessário sem comprometer a clareza do conjunto. O resultado é um álbum que combina a agressividade tradicional do Anthrax com o peso e o groove desenvolvidos durante a era Bush. Nem todas as composições possuem a mesma força, e alguns momentos poderiam ser mais concisos, mas a variedade do repertório impede que o trabalho se torne previsível.

A capa de Alex Ross, conhecido por seu trabalho nos quadrinhos de super-heróis, também merece menção. Sua estética combina com a proposta do álbum e estabelece uma conexão visual interessante entre o universo dos quadrinhos e o imaginário do heavy metal

Embora não tenha alcançado grande sucesso comercial, We’ve Come for You All recebeu avaliações positivas de diversas publicações especializadas. Com o passar do tempo, o disco ganhou importância como um dos trabalhos mais consistentes da fase John Bush e como um registro que ajudou a preparar o terreno para o renascimento artístico que viria com Worship Music (2011). Este seria o último álbum de estúdio do Anthrax com Bush nos vocais. O retorno de Joey Belladonna aconteceria nos anos seguintes, abrindo outro capítulo na trajetória do grupo.

We’ve Come for You All não tem a relevância histórica de Among the Living nem a mesma força de composição de Sound of White Noise (1993). Tampouco reproduz a personalidade irreverente que tornou o Anthrax uma das bandas mais singulares do thrash metal oitentista. Seu mérito está em mostrar uma banda veterana que compreendeu as transformações pelas quais passou e encontrou uma maneira convincente de seguir em frente.

Em 2003, o Anthrax ainda tinha riffs poderosos, boas ideias e disposição para experimentar. E isso, por si só, já faz de We’ve Come for You All um capítulo importante de sua discografia.


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