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Drome: uma HQ que desafia a maneira de contar histórias (2026, QS Comics)


Drome
, de Jesse Lonergan, é uma daquelas histórias em quadrinhos que lembram por que ainda vale a pena falar em linguagem dos quadrinhos. Não apenas em boas histórias contadas através de desenhos, mas em obras que exploram aquilo que existe de particular na relação entre imagem, sequência, espaço e movimento.

Publicada originalmente nos Estados Unidos em 2025 e lançada no Brasil pela QS Comics, Drome acompanha uma espécie de mito de criação. A humanidade surge em um mundo ainda marcado pelo vazio e rapidamente revela sua natureza violenta. Para tentar controlar esse comportamento, uma poderosa semideusa é criada e enviada à Terra. A partir daí, Lonergan constrói uma narrativa que atravessa guerras, amor, morte, poder e civilização.

A premissa tem algo de primordial, quase como uma lenda perdida entre a mitologia e a ficção científica. Mas é na maneira de contar essa história que Drome realmente se destaca.

Lonergan utiliza pouco texto e, em vários momentos, nenhum. Quadros, cores, linhas de movimento e composição conduzem o leitor. Os acontecimentos não são explicados o tempo inteiro: precisam ser observados, interpretados e conectados. A página deixa de ser apenas o lugar onde a história está impressa e passa a fazer parte da própria narrativa.

O autor brinca com diferentes formatos de quadros e estruturas de página, criando ritmo, velocidade e sensação de movimento. Em determinadas sequências, elementos parecem atravessar os limites dos quadros, enquanto a composição conduz nosso olhar de maneira quase física.


As referências a Moebius e Jack Kirby fazem sentido, mas Drome não homenageia simplesmente seus antecessores. Lonergan utiliza influências da ficção científica, da fantasia e dos quadrinhos clássicos para construir uma experiência própria.

A história é relativamente simples e alguns mistérios permanecem sem explicação. E essa é sua grande força. A HQ não tenta apenas contar uma história: ela investiga o que os quadrinhos conseguem fazer.

O reconhecimento veio naturalmente. Drome venceu o Eisner de Melhor Álbum Gráfico – Novo em 2026 e também recebeu o Ignatz Award de Melhor História. Mais importante que os prêmios, porém, é a experiência proporcionada pelo livro.

Drome é uma HQ para ser observada com calma, relida e descoberta aos poucos. Uma obra em que Jesse Lonergan transforma a página em parte essencial da narrativa.

Trata-se de uma história que não precisa explicar por que os quadrinhos são uma linguagem tão particular. Ele simplesmente mostra tudo o que eles ainda são capazes de fazer.

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