Mais de quatro décadas depois de surgir na linha de frente do thrash da Bay Area, o Testament segue desafiando expectativas. Para Bellum, lançado em outubro de 2025, funciona como uma síntese madura de tudo o que o grupo aprendeu ao longo do caminho — mas também como um passo ousado, que abraça novas texturas e amplia a paleta sonora dos californianos. A essa altura da carreira, poucas bandas do gênero ainda têm algo novo a dizer. O Testament, porém, se encontra no raro território em que a experiência não pesa: ela liberta. Para Bellum é resultado direto disso: um disco que honra a tradição, mas não se acomoda nela.
O álbum nasce em meio a um cenário global de tensão permanente: conflitos geopolíticos, debates éticos sobre tecnologias emergentes, explosão da inteligência artificial e uma sensação constante de que tudo pode sair dos trilhos. Não por acaso, Para Bellum (“preparado para a guerra”) carrega essa inquietação nas letras e na sonoridade. A produção reforça esse clima: o peso é seco, direto, mas com camadas sutis que revelam influências de black e death metal, especialmente nos riffs de Eric Peterson e em construções harmônicas mais sombrias. Há também passagens mais atmosféricas e quase cinemáticas que expandem o repertório tradicional da banda sem descaracterizá-la.
Se em Titans of Creation (2020) o Testament apostava num thrash afiado e técnico, Para Bellum adiciona densidade emocional. As composições são mais dinâmicas, variando entre explosões de agressividade e momentos calculados de tensão. Chuck Billy entrega uma performance imponente, combinando sua voz clássica com nuances mais graves e guturais, enquanto o instrumental exibe uma precisão cirúrgica que nunca soa fria. A bateria, sempre peça essencial na identidade do grupo, ganha nova vida aqui pelas mãos de Chris Dovas (Vital Remains, Seven Spires), que assumiu o post de Gene Hoglan em 2022. Mesmo não apresentando a técnica ímpar de Hoglan, Dovas, que é muito mais novo que os demais músicos, insere uma dose cavalar de energia e faz um trabalho excepcional conduzindo as músicas com agressividade, mas sem abrir mão de detalhes que enriquecem os arranjos. O resultado é um disco pesado, organizado e surpreendentemente variado.
“For the Love of Pain” abre o álbum com tudo aquilo que o Testament faz de melhor: riffs incisivos, viradas de bateria que pegam fogo e um refrão que se impõe. É o tipo de faixa que define o tom do disco e mostra a banda em plena forma, e que chega a assustar pela violência sonora entregue pela banda. “Infanticide A.I.” mergulha na temática da inteligência artificial sob um prisma brutal. É uma das faixas mais agressivas e contemporâneas do repertório, misturando velocidade, peso e um senso de urgência alinhado ao tema. “Meant to Be” une momentos acústicos com explosões de peso e melodia, e funciona como uma espécie de balada thrash, na melhor escola de clássicos como “Return to Serenity”, presente em Ritual (1992). A faixa-título amplia a ambição do disco. Com estrutura mais progressiva e atmosfera detalhada, ela funciona quase como um encerramento cinematográfico — denso, arrastado, grandioso e absolutamente coerente com o título.
A espinha dorsal continua sendo o thrash metal tradicional, mas o Testament não tem medo de deixar sombras de outros estilos atravessarem o caminho. Há ecos discretos de black metal nas harmonias, de death metal nas bases e de heavy tradicional nas melodias mais épicas. Nada disso soa artificial: é a evolução natural de uma banda que sempre dialogou com o lado mais pesado do metal, sem abandonar a clareza e o senso melódico que a tornaram influente.
Para Bellum vai muito além de ser apenas mais um capítulo da carreira do Testament: é um álbum que reafirma a relevância do grupo numa era em que muitas bandas clássicas soam previsíveis. É o tipo de disco que agrada os fãs de longa data, impressiona ouvintes novos e mostra que o Testament ainda tem munição, fôlego e criatividade para continuar avançando — mesmo quando o mundo inteiro parece à beira de um colapso.
Se a guerra é iminente, o Testament está mais do que preparado.
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