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O peso da impunidade: O Desaparecimento de Josef Mengele transforma horror histórico em narrativa inquietante (2026, Pipoca & Nanquim)


Adaptar o romance de Olivier Guez não era uma tarefa simples. O livro já carregava em si uma abordagem rigorosa e incômoda ao reconstruir a vida de Josef Mengele após a queda do Terceiro Reich. Nas mãos de Matz e Jörg Mailliet, essa história ganha uma nova dimensão: mais visual, mais direta e não menos perturbadora.

A HQ acompanha a trajetória de Mengele a partir de 1949, quando desembarca na Argentina sob identidade falsa. O que se desenrola a partir daí não é uma narrativa de perseguição tradicional, mas sim o retrato de uma fuga sustentada por redes de proteção, silêncio e conveniência política. A América do Sul surge como cenário ambíguo: ao mesmo tempo refúgio e prisão psicológica.

O roteiro de Matz opta por uma construção fragmentada, alternando o presente da fuga com lembranças de Auschwitz. Esses retornos ao passado não buscam aprofundar os crimes — já conhecidos —, mas reforçar o contraste entre o monstro e o homem que tenta desaparecer. A escolha é eficaz porque evita qualquer risco de dramatização excessiva: o horror está na frieza, não na encenação.

Um dos aspectos mais inquietantes da obra é a recusa em oferecer qualquer traço de redenção. Mengele é retratado como alguém que jamais abandona suas convicções, mesmo quando sua realidade se deteriora. Ao longo dos anos, o personagem passa de figura relativamente confortável na Argentina para um fugitivo paranoico, isolado e consumido pelo medo. Essa transformação é conduzida com precisão, revelando uma decadência que é tanto física quanto mental.


O trabalho de Mailliet chama atenção pelo equilíbrio entre elegância e sobriedade. O traço limpo, econômico e com forte uso de sombras, evoca a tradição franco-belga e remete, em alguns momentos, ao estilo de Hugo Pratt. Essa abordagem funciona como contraponto ao tema: a beleza estética nunca suaviza o conteúdo, mas cria um distanciamento que torna tudo ainda mais incômodo.

Outro ponto forte está na ambientação histórica. A HQ evidencia, sem didatismo excessivo, a rede de apoio que permitiu a fuga de nazistas para a América do Sul, além da complacência de setores políticos da época. Não há discursos longos ou explicações detalhadas: a narrativa confia na inteligência do leitor para preencher as lacunas.

Publicada no Brasil pela Pipoca & Nanquim em formato europeu, capa dura e 196 páginas, a valoriza a experiência de leitura, reforçando o caráter quase documental da obra.

O Desaparecimento de Josef Mengele não é uma leitura fácil, e nem pretende ser. Ao evitar espetacularização e apostar em uma abordagem contida, a HQ constrói um retrato perturbador da impunidade. Mais do que revisitar o passado, a obra expõe uma ferida histórica que permanece aberta: a de um criminoso que conseguiu escapar e viver décadas à sombra de seus próprios crimes.


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