Em 1970, John Lennon estava sofrendo de um acúmulo de tudo ao mesmo tempo, agora. Com os Beatles reduzidos a ruínas após anos musicalmente brilhantes, mas que deixaram os quatro integrantes da banda marcados por um desgaste físico, psicológico e artístico de proporções inéditas no rock, Lennon via-se num momento de transição, no qual suas convicções pessoais, prioridades profissionais e emoções foram radicalmente reavaliadas. Recém-saído de sessões de terapia primal em Los Angeles com o doutor Arthur Janov, que pregava a libertação emocional através da exteriorização de sentimentos reprimidos desde a infância, John era um nervo exposto armado de uma metralhadora giratória apontada para tudo que ele havia construído até então – seu trabalho, sua obra musical, suas alianças pessoais – e para aquilo que, no seu entender, aprisionava-o: a idolatria, as drogas, a política e, sobretudo, os Beatles. Com a cabeleira raspada em um ato simbólico cheio de significados para a época, e...