03/04/2009

As Aventuras do Bolha: em busca de um novo lugar para colocar os seus CDs


Por Ricardo Seelig
Colecionador

A Collector´s Room agora tem um mascote, criado pelo nosso colaborador Professor Borges, cartunista e, é claro, colecionador de discos. Seu nome não poderia ser outro: Bolha.

De tempos em tempos iremos publicar suas aventuras aqui no site. 

Mas é muito importante que você participe, dizendo se gostou do personagem, do seu nome, dando palpites, enfim, fazendo aquilo que você sempre fez: participando ativamente da Collector´s Room.

Longa vida ao Bolha, e ao rock and roll!!!



Discos Fundamentais: Beatles - Sgt Peppers´s Lonely Hearts Club Band (1967)


Por Marcos A. M. Cruz
Colecionador
Editor do Whiplash! Rock e Heavy Metal


Normalmente na vida passa-se por três estágios bem definidos: a infância, quando a grosso modo somos inocentes, ingênuos, sem nenhuma preocupação maior a não ser satisfazer nossos instintos primários; a idade adulta, quando ampliamos de forma descomunal nosso campo de percepção, nos deparando com inúmeras coisas que sequer sonhávamos existir, mas, em contrapartida, os problemas e preocupações atingem níveis muito mais profundos (juntamente com nossa capacidade de entender e solucioná-los); e por último a velhice, que de modo geral, além de contar com todas as características da idade adulta, ainda vem acompanhada do temor da morte, problemas físicos, etc (estes infelizmente até hoje sem solução).

Quando se passa de uma fase à seguinte, há períodos de transição, no qual ainda não somos nem uma coisa nem outra. No caso específico da infância e idade adulta, há entre elas a adolescência, período no qual mantemos características de ambas simultaneamente; nesta época geralmente nos tornamos rebeldes e contestadores, ao mesmo tempo em que vamos absorvendo tudo que acontece ao nosso redor.

Pois bem, se considerarmos o rock como algo de certa forma orgânico (face tratar-se de uma manifestação artística, e como tal refletir nossas sensações), podemos estabelecer uma analogia com a existência humana, inclusive de forma cronológica!  Afinal, nascido no início da década de cinquenta, nos primeiros anos vamos encontrar apenas características, digamos, “infantis” em sua expressão, pois inicialmente seu objetivo único era a diversão pura e simples, tal qual uma criança que literalmente
vive para brincar.

Porém, com o passar do tempo, da mesma forma que uma pessoa vai crescendo e tomando contato com experiências diferentes e se vê despertando para o mundo que a cerca, o rock foi aos poucos incorporando elementos sérios em sua arte, além de absorver cada vez mais as vibrações correntes no mundo.

Aliado à isto há o fato da década de sessenta ter sido especial, pois naqueles anos ocorreram profundas mudanças, principalmente comportamentais, que mexeram com praticamente toda a população ocidental do planeta, notadamente os jovens, que naturalmente estão mais abertos a mudanças. E o rock, à época praticado de/e para a juventude, consequentemente foi uma das manifestações artísticas que mais refletiram este estado de espírito, onde todo e qualquer experimentalismo era válido em busca de uma alternativa ao que era considerado tradicional.

Até meados da década (quando o rock teria algo em torno de 13, 14 anos de idade) de modo geral não havia uma preocupação maior com a arte em si, pois seu objetivo era apenas o entretenimento; as letras raramente iam além do “rapaz ama garota” e suas variações, e a parte instrumental, com raras exceções, servia apenas como mero acompanhamento para alguém que estivesse cantando. Eis que por volta de 1965/1966 começaram a surgir alguns artistas que ansiavam romper esta barreira, ora discursando sobre temas mais profundos, ora imprimindo um pouco mais de virtuosismo, ou mesclando diversos elementos na parte musical.

Embora as mudanças de uma fase à outra não ocorram de forma brusca, geralmente há algum fato ou acontecimento que marca esta transição, pois o ser humano tem a necessidade de estabelecer determinadas datas ou acontecimentos para melhor situá-los; sendo assim, sempre há algo que fica marcado em nossas vidas como um marco da transição para a fase adulta: pode ser o primeiro beijo ou ato sexual, o primeiro porre, ou algo totalmente insignificante visto sob o prisma de quem está do lado de fora, mas que marca profundamente quem o vivenciou. Tanto que em algumas culturas existem certos ritos de passagem para a idade adulta; entre nós há o baile de debutantes para as meninas e o serviço militar para os meninos.

E o rock, naturalmente, também tem os seus marcos. Um dos maiores deles, que selou definitivamente esta passagem da infância para a fase adulta, foi o lançamento, no primeiro dia do mês de junho de 1967, de
Sgt Pepper´s Lonely Hearts Club Band pelos Beatles.

A própria banda já vinha ensaiando uma ruptura com o padrão
yeah yeah yeah desde Rubber Soul, de 1966, contudo foi nesse trabalho que o quarteto expandiu até o limite do imaginável o caráter experimentalista e ousado que marcou a produção artística deste período, graças a uma série de fatores. Em primeiro lugar, na época eles já eram os "Beatles", portanto qualquer coisa que fizessem teria venda certa e garantida; em segundo, dinheiro era o que não faltava, portanto qualquer loucura podia ser levada a cabo, além de que isto possibilitava acesso a todos os recursos técnicos disponíveis, e por outro lado possibilitava o acesso às drogas, principalmente as alucinógenas, que embora, obviamente, tenham como efeito colateral após algum tempo a total inapetência do usuário para qualquer tipo de atividade, no início ajudam a expandir a mente e desbloqueá-la de todos e quaisquer conceitos pré-estabelecidos; por fim, impossível negar a grande capacidade dos cabeludos de Liverpool de misturar tudo isto, reciclar e nos devolver em forma de música!

No início daquele mesmo ano os Beatles haviam lançado um compacto com “Penny Lane” e “Strawberry Fields Forever”, que em suas tinturas psicodélicas antecipavam um pouco do conteúdo do que estava por vir, pois foram gravadas nas mesmas sessões de
Sgt Pepper’s, sessões estas que se iniciaram em dezembro de 1966 e terminaram em abril de 1967, totalizando mais de 700 horas de estúdio!

Já foram escritos vários livros sobre o álbum, portanto será impossível descrever em detalhes neste curto texto os meandros técnicos que o tornaram revolucionário. Mas vamos a alguns fatos: o disco foi um dos primeiros trabalhos conceituais da história do rock, ou seja, as canções se interligam e formam um único tema; a arte gráfica é um caso à parte: concebida por Peter Blake a partir de colagens sugeridas pelo Fab Four, reúne cerca de cinquenta personalidades diversas, além dos próprios Beatles em duas versões – numa em sua fase bons moços de terninhos representados por bonecos de cera oriundos do museu de Madame Trussaud, e noutra os quatro em pessoa metamorfoseados em membros da Banda do Sargento Pimenta; além disso, foi o primeiro LP a vir com as letras impressas na contracapa, e no encarte vinham alguns
souvenirs, como uma insígnia e bigodes para que o ouvinte interagisse com a obra, se transformando também em mais um membro da fictícia banda.

O disco abre com “Sgt Pepper’s Lonely Hearts Club Band”, que serve como uma introdução à Banda do Sargento Pimenta; ao final, há a apresentação de um tal de Billy Shears, representado por Ringo, que entra cantando “A Little Help From My Friends”, faixa que acabou sendo banida das rádios inglesas à época pelo verso “
I get high with a little help from my friends”, pois muitos viam nestes versos uma alusão às drogas (“ficar alto com uma mãozinha de meus amigos”). 

Depois temos a polêmica “Lucy in the Sky with Diamonds”, que de acordo com Paul foi inspirada por alguns desenhos feitos por Julian, filho de John. Polêmicas à parte, o fato é que além de suas iniciais formarem o termo L.S.D., esta faixa se tornou um clássico do psicodelismo pela sua letra e arranjos surreais. 

Prossegue com “Getting Better”, canção com clima e letra bastante otimistas. Depois vem “Fixing a Hole”, na qual Paul faz uma analogia com “o buraco na sua estrutura que impede sua mente de seguir em frente”, e segue com “She’s Leaving Home”, que relata de forma triste o conflito de gerações, pois conta a história de uma jovem que abandona a casa dos pais por sentir falta de atenção e carinho, ao que estes ficam perplexos pois "nós lhe demos tudo que o dinheiro pode comprar”. Para encerrar o lado A temos “Being for the Benefit of Mr Kite!”, canção que serve de contraponto à melancolia da anterior, devido à atmosfera meio circense recriada pela banda.

O lado B começa com “Within You, Without You”, composição de George Harrison que segue a linha de seus trabalhos da época, com influências indianas. Depois temos quatro faixas bem divertidas e descompromissadas: a primeira é “When I’m Sixty-Four”, no qual Paul canta as alegrias de ter 64 anos(!) de idade – de acordo com ele, esta canção foi feita em homenagem ao seu pai; a segunda é “Lovely Rita”, dedicada às moças que cuidavam do parquímetro (aparelho utilizado para controlar o tempo em que um carro permanecia estacionado nos Estados Unidos e Inglaterra naquela época). Após o canto de um galo temos a terceira faixa – “Good Morning, Good Morning”, canção animadíssima que serve de prenúncio à despedida da Banda do Sargento Pimenta em "Sgt Pepper’s Lonely Hearts Club Band (Reprise)”. 

Mas, enquanto a banda vai se despedindo, começam os primeiros acordes de “A Day in the Life”, intrigante canção que forma um verdadeiro painel sonoro, ao mesmo tempo em que trata de problemas existenciais de uma forma totalmente inédita até então! Ao final dela temos um longo acorde (cerca de 40 segundos) produzido por três pianos, e em seguida um som emitido em 20 mil hertz – audível somente para cães(!).

Nas edições em vinil o sulco central do disco traz uma série de ruídos desconexos, gravados durante uma festa após as gravações de “A Day in the Life”, no qual havia uma orquestra contratada por George Martin, que ao invés de tocar algo mais ortodoxo se limitou a tocar uma série de notas graves e agudas conforme instruções do lendário produtor. Muitas pessoas se debruçaram sobre estes ruídos, tocando-os em diferentes rotações e de trás para frente, com o objetivo de descobrir algum significado oculto neles. Obviamente vários foram encontrados, desde alguém sussurrando “
Paul is dead”, o que corroboraria a hipótese de sua morte, até “we’ll fuck you like Superman” e muitas outras coisas.

Descrito assim através de palavras é impossível se ter uma idéia da riqueza dos arranjos e da variedade das nuances obtidas, em grande parte, graças ao primoroso trabalho de produção de George Martin, aliado à dedicação de Geoff Emerick e Richard Lusch, engenheiros de gravação que conseguiram a proeza de registrar em parcos quatro canais vocais, instrumentos normais (baixo, guitarra, bateria, piano, órgão), outros atípicos para uma banda de rock (harpa, cravo, acordeão, cítara), ruídos de todas as espécies (galos cantando, despertador), além de uma orquestra de trinta músicos!

Embora tenham lançado outros grandes trabalhos após o
Sgt Peppers, este foi o último que manteve uma certa unidade entre os músicos – notadamente John e Paul, pois logo após seus interesses começaram a tomar rumos bem distintos e os atritos atingiriam proporções imensas, culminando na separação da banda em 1970.

É difícil dissociar os Beatles de todas as revoluções ocorridas naquela época, pois sua influência não se resumiu apenas à música, mas também a atitudes e comportamentos, mesmo se não houvessem lançado este álbum ou encerrado as atividades em 1966. Com este disco então a coisa se torna covardia, pois com ele o rock foi elevado à categoria de arte e o mundo nunca mais foi o mesmo.

Faixas:
A1. Sgt Pepper's Lonely Hearts Club Band - 2:02
A2. With a Little Help From My Friends - 2:44
A3. Lucy in the Sky With Diamonds - 3:30
A4. Getting Better - 2:49
A5. Fixing a Hole - 2:38
A6. She's Leaving Home - 3:37
A7. Being for the Benefit of Mr Kite! - 2:39

B1. Within You Without You - 5:07
B2. When I'm Sixty-Four - 2:39
B3. Lovely Rita - 2:44
B4. Good Morning Good Morning - 2:43
B5. Sgt Pepper's Lonely Hearts Club Band (Reprise) - 1:18
B6. A Day in the Life - 5:33



Discoteca Básica Bizz#045: Soft Machine - Third (1970)


(Arthur G. Couto Duarte, Bizz#045, abril de 1989)

A saga do Soft Machine iniciou-se por volta de 1961, ao redor da Simon Langton School, em Canterbury, no norte da Inglaterra. Lá, um grupo de estudantes das mais diversas áreas costumava reunir-se nos fins de semana para ouvir as novidades do jazz (John Coltrane, Charles Mingus, George Coleman) e discutir suas predileções nos campos das artes plásticas (Jackson Pollock, Mark Rothko), literatura (todos os beats) e música contemporânea (Stockhausen e Luigi Nono principalmente).

Entre os papos, a turma tocava informalmente, dando o nome de Wild Flowers à flutuante formação que, segundo a lenda, mudava a cada semana. Entre os mais assíduos dessas jams estavam Mike Ratledge (teclados), Robert Wyatt (bateria, voz) e Kevin Ayres (baixo, voz). Certa noite, um amigo os apresentaria ao guitarrista Daevid Allen, um
freak australiano que por sua vez os iniciou na técnica dos tape-loops (que ele desenvolvera originalmente com o então desconhecido Terry Riley) e no uso do LSD. Pronto. Nascia assim o Soft Machine (uma homenagem ao romance homônimo de William Burroughs), um grupo fundamental para a eclosão do chamado art rock - ou progressivo, como queiram - não só em seu país como em toda a Europa. 

Em 1966, já fixado em Londres, o grupo, junto ao Pink Floyd, lançaria as bases da psicodelia local, participando de happenings em casas noturnas como a Roundhouse e a UFO. Nessa primeira fase - que se estendeu até 1969 -, as composições do quarteto estavam banhadas de vibrações ácidas, introduzindo um clima burlesco salpicado de citações dada no sisudo universo sonoro britânico. Musicalmente, tais temas esbateriam de vez as fronteiras existentes entre o jazz e o rock, além de - ousadia maior - privilegiar os timbres de teclados, em pleno reinado da guitarra elétrica. Entretanto, isso não impediu que Andy Summers circulasse pela banda e que Jimi Hendrix tocasse em "Feelin', Reelin', Squealin' ", o lado B do primeiro e único single deles para a Polydor. 

Após dois LPs de canções curtas pelo selo Probe (um fiasco comercial) e mudanças que quase o exterminam prematuramente (saíram Allen e Ayers, com a entrada do baixista Hugh Hopper e do saxofonista Elton Dean), o Soft Machine parte para o seu projeto mais ambicioso: o álbum duplo Third. Vale lembrar que, no mesmo ano de 1970, Miles Davis gravaria Bitches Brew. No trabalho em questão, o grupo foi reforçado por uma excepcional seção de metais: Nick Evans (trombone), Lyn Dobson (flauta, sax) e o vetefore Jimmy Hastings (clarineta, flauta), mais o violino de Rob Spall. Third dividiu-se em quatro faixas, cada uma ocupando o lado inteiro de um disco. Eram temas complexos, altamente improvisados, que fluíam às custas do virtuosismo dos músicos. Frases e linhas pessoais independentes umas das outras, mas que em momentos-chave se coagulavam em núcleos de puro êxtase.

Jazz, nova música ou o que? A beleza atemporal de Third conseguiu desafiar os rótulos fáceis. A verdade é que "Facelift", Slightly All the Time" e "Out-Bloody-Rageous" e, principalmente, a insana fantasia de "Moon in June", permaneceram à parte de tudo que foi criado no período. Um vórtice de colagens radiantes, breaks violentos, espasmos, fugas de órgão, clusters de sax e devastações rítmicas que confluíam para um incandescente oceano sônico de basalto e lava vulcânica.

Ao lado de
Ummagumma, do Pink Floyd, e In the Court of the Crimson King, do King Crimson, Third foi a derradeira pá de cal despejada sobre o esquife dos Beatles. A partir dele, nomes já esquecidos, como Henry Cow, Faust, Matching Mole, Caravan, Centipede, Gong e Hatfield and the North realizaram apaixonantes exercícios no gênero, sem encontrar, todavia, a coesão e o impacto dos modelos originais.

Faixas:
A1. Facelift - 18:54

B1. Slightly All the Time - 18:14

C1. Moon in June - 19:18

D1. Out-Bloody-Rageous - 19:17


02/04/2009

poeiraCast: o podcast da poeira Zine


Por Ricardo Seelig
Colecionador

Mais uma ótima opção para quem gosta de música. Acaba de ser lançada a primeira edição do poeiraCast, o podcast da poeira Zine, a única publicação brasileira dedicada ao melhor da música do melhor dos tempos.

Ao lado do editor da poeira, Bento Araújo, estão Ricardo Alpendre (âncora do programa e vocalista das bandas Tomada, Black Sheep Rules e Little Queenie, além de ser um dos proprietários da loja Jardim Elétrico), seu irmão Sérgio Alpendre (crítico de cinema e o outro dono da Jardim Elétrico) e José Damiani (colecionador de discos e proprietário da lendária e saudosa Nuvem Nove, considerada por muitos a melhor loja de discos que São Paulo já teve).

Nessa primeira edição o quarteto fala sobre mais uma passagem do Kiss pelo Brasil, sobre aqueles discos duplos que poderiam ser simples e curiosidades sobre música, tudo recheado com opiniões polêmicas e conversas pra lá de divertidas.

São exatos trinta e dois minutos e trinta e um segundos que passam rapidinho, sem a gente ver, já que o papo é muito legal. Segundo o Bento, a idéia é fazer um podcast por semana, e, assim que sair o novo eu aviso vocês aqui.

Se você gosta de música, baixe, grave um CD e ouça em casa e no carro, porque vale muita a pena!



Anvil: The Story of Anvil


Por Ricardo Seelig
Colecionador

No Sundance Festival de 2008 muita gente estava falando bem de um documentário sobre uma banda obscura de heavy metal dos anos oitenta: os canadenses do Anvil. Só que para quem é da minha geração, o Anvil não era obscuro. Na verdade, os caras eram considerados pioneiros do thrash e do power metal, admirados pela galera do Metallica, Slayer, Motorhead, entre outros.

O documentário 
Anvil: The Story of Anvil pega os caras no Canadá de hoje. O guitarrista/vocalista Lips e o batera Rob Reiner, cinquentões, ficando carecas, entregando merendas escolares durante o dia para sobreviver, mas ainda insistindo na busca pelo estrelato. E o mais triste é que eles ainda acreditam que podem, sonham e lutam.

O documentário segue as tentativas - todas frustadas - do grupo de chegar lá. Mas claro, ocorrem diversas situações no estilo
Spinal Tap. Quem viu diz que é hilário. E trágico. E de partir o coração. E emocionante. Você ri tanto quanto chora.

Confiram o trailer:



Discos Fundamentais: Riot - Fire Down Under (1981)


Por Ricardo Seelig
Colecionador
Collector´s Room

O dia 09 de fevereiro de 1981 deveria ser lembrado como uma data especial pelos apreciadores de hard rock e heavy metal, pois marca o lançamento de um dos melhores trabalhos que ambos os estilos já conheceram:
Fire Down Under, terceiro álbum do grupo americano Riot.

Nascido na cidade de Nova York em 1976, o Riot já havia lançado dois bons discos (
Rock City em 1977 e Narita em 1979), mas foi com Fire Down Under que a banda conquistou um espaço eterno na memória de quem curte boa música.

O LP é um álbum emblemático de uma época que, infelizmente, não existe mais. Suas dez faixas entregam um heavy metal tradicional e empolgante, que muitas vezes se mistura ao hard rock, nos levando de volta a um tempo onde os dois estilos andavam quase juntos. Riffs em profusão, cozinha altamente técnica e um vocal cheio de energia fazem com que faixas como "Swords & Tequila", "Fire Down Under", "Outlaw", "Altar of the King", "No Lies" e "Run For Your Life" estejam entre as melhores composições do som pesado dos anos oitenta, e isso não é nenhum exagero. 

Musicalmente, apesar de natural dos Estados Unidos, o Riot soa como as primeiras bandas da New Wave Of British Heavy Metal, movimento que redefiniu o heavy metal na virada dos anos setenta para os oitenta.

É um clichê, mas é a pura verdade: esse disco é um clássico definitivo, uma obra-prima que é obrigatória em qualquer coleção que se preze.

Faixas:
A1. Swords and Tequila - 3:14
A2. Fire Down Under - 2:27
A3. Feel the Same - 4:46
A4. Outlaw - 4:16
A5. Don't Bring Me Down - 2:57

B1. Don't Hold Back - 3:13
B2. Altar of the King - 4:39
B3. No Lies - 4:15
B4. Run for Your Life - 3:12
B5. Flashbacks - 3:58



Discoteca Básica Bizz#044: Gang of Four - Entertainment! (1979)


(Celso Pucci/Alex Antunes, Bizz#044, março de 1989)

"
Se os membros do Clash eram os guerrilheiros urbanos do rock'n'roll, os da Gang of Four eram teóricos do movimento revolucionário", já dizia o Truser Press Record Guide, com acerto. Uma primeira leva do pós-punk britânico - que trouxe essas duas bandas e o PIL, entre outras - se atirava com a mesma fúria contra os fundamentos da sociedade burguesa, fossem eles destrutíveis ou não. Não eram. Mas isso só se soube depois.

As marcas da artilharia ainda estão aí. Uma das mais eloquentes é
Entertainment!, primeiro LP da Gang, que viria a ser chamado pelo Melody Maker de "guia jovem para sobrevivência em tempos de recessão" (!). 

O grupo surgiu em 1977 na cidade portuária e industrial de Leeds. O baterista Hugo Burnham, o guitarrista Andy Gill e o vocalista Jon King - todos egressos da universidade local - recrutaram Dave Allen (esse, o único proletário de verdade da banda) para o baixo. E em poucos meses já lançavam um primeiro LP, Damaged Goods, pelo selo independente Fast Products. O sucesso de crítica do disco e o furor que as apresentações ao vivo sempre causavam em clubes ou escolas deixaram a EMI interessada no grupo. A "camarilha dos quatro" (xingamento cunhado pelo governo chinês para o grupo político da viúva de Mao Tse Tung, expurgada do poder tempos depois da morte do marido) se garantiu, exigindo da gravadora - a mesma que rompeu com os Sex Pistols em 1976 - controle total sobre o produto: repertório, capa, produção e divulgação. A EMI pagou para ver.

O aperitivo já causou encrenca: o single "At Home He's a Tourist" esbarrou na censura do programa de TV
Top of the Pops, por uma referência, na letra, a camisinhas. O LP confirmou a porrada. Numa espécie de lapidação do diamante cristalizado no carvão punk, o som da Gang não é mero suporte para textos de agitação. Ele é político: sintético, reduzindo ao mínimo essencial, valorizando cada elemento musical e não fazendo concessões a fórmulas ou estilos convencionalmente aceitos - ainda que seja perfeitamente rock. A base sonora das faixas resume-se praticamente a baixo e bateria - uma cozinha que conseguiu juntar de forma única simplicidade, criatividade e peso -, e é apenas pontuada pela guitarra de Gill, pelos vocais e por uma eventual escaleta (monocórdica) de King. Apesar das intervenções brutais dos instrumentos, o silêncio também é ostensivamente usado na texto musical, criando climas inusitados a partir da formação mais tradicional do rock.

Gill, o guitarrista, uma das promessas da década (não realizada desde que ele se afastou para tratar de um câncer), mantém-se nos acordes - ao contrário dos próximos discos da banda, onde predominariam riffs e notas. Musicais como "Natural's Not in It" e "Damaged Goods" (regravada), por incrível que pareça, resumem-se a dois acordes básicos de guitarra - todo o clima se baseia na dinâmica dos instrumentos. 

Mas Gill também tinha outras cartas na manga (ou entre os dedos). Basta observar suas intervenções insólitas no (anti) funk "Not Great Men" ou o puro noise que encerra "Guns Before Butter", numa dissonância que também aparece em "Ether" e "Glass". No início de "Anthrax", parece que iremos escutar a versão de "Star Spangled Banner" de Jimi Hendrix, tal a brilhante manipulação do feedback. Mas logo surge um beat tribal de Allen e Burnham, seguido da dupla vocalização de King e Gill (à maneira de "The Murder Mistery", do terceiro LP do Velvet Underground).

Um perfeito veículo para a visão (eminentemente marxista) da banda, a da "política em microcosmo" das relações humanas em uma sociedade capitalista: o casamento como posse, o trabalho alienado, a tortura como rotina (nas prisões políticas) e a rotina como tortura, lá e cá. 

Num lampejo de incorformismo: that's not entertainment!

Faixas:
A1. Ether - 3:50
A2. Natural's Not in It - 3:07
A3. Not Great Men - 3:05
A4. Damaged Goods - 3:27
A5. Return the Gift - 3:02
A6. Guns Before Butter - 3:48

B1. I Found That Essence Rare - 3:07
B2. Glass - 2:28
B3. Contract - 2:41
B4. At Home He's a Tourist - 3:33
B5. 5.45 - 3:43
B6. Anthrax - 4:20


01/04/2009

Você é um Bolha?



Por Bento Araújo
Jornalista e Colecionador
Editor da Poeira Zine

Você é um "Bolha"? Não tenha medo de assumir essa faceta! Você será apenas mais um dos nossos.

Desde quando comecei com o hábito de ouvir música e comprar discos, minha mãe criou um jeito carinhoso de me apoiar: "
Filho, deixa de ser Bolha!". O engraçado é que ela também batizou de "Bolha" todos aqueles meus amigos que também tinham como hábito ouvir e colecionar discos.

Discretamente conversando com ela a respeito, e travando contato intenso com a espécie, descobri algumas características dos Bolhas:

- um Bolha, apesar de ter cara de besta e de solitário, é feliz e se contenta com pouco; para ele, uma noite perfeita de sábado é apenas o fato dele se sentar em casa (sozinho, é lógico) e ouvir os discos que adquiriu, já que passou o dia inteiro vasculhando em sebos e feiras;

- um dos momentos de maior prazer do Bolha é, antes de ouvir esses discos recém adquiridos, lavar os mesmos com sabão de côco, e durante a limpeza ele também vai prestando atenção no estado e na conservação da peça;

- Bolha faz "homenagem" à sua banda favorita. A "homenagem" consiste em ouvir todos os discos de tal grupo em sequência, expondo pela casa as capas, e se possível colocando algum vídeo ou show do grupo homenageado para rolar na TV. O dito cujo senta e fica se deleitando com o espetáculo, que às vezes pode durar um fim de semana inteiro;

- em níveis mais avançados, tem Bolha que até rouba. Isso é verídico, e aconteceu numa famosa loja que existiu em São Paulo: um Bolha fez um assalto a mão armada e ao ser ofertado com dinheiro pela dona do estabelecimento, ele exclamou: "
Não quero dinheiro, eu quero o LP 'Italianíssimo' do Jerry Adriani!";

- isso também aconteceu; o Bolha vai viajar com a namorada para Florianópolis, e lá se encontra casualmente com outro "Bolha" (solteiro) já velho conhecido aqui de São Paulo. Resultado: a maioria do passeio o cidadão abandona a gata na praia e vai com seu amigo "Bolha" fazer um tour em todos os sebos da cidade!

- tem Bolha que compra uma pancada de CDs por mês e acaba arranjando confusão com a esposa, pois a coitada não se conforma de o mané gastar tanta grana com aquilo tudo. Como a coleção é enorme, ele entra em casa com os discos escondidos para a esposa não ver, e quando ela vai dormir ele simplesmente junta com o restante da coleção. O problema é que de tanto fazer isso, o espaço na estante vai ficando cada vez menor, a patroa começa a desconfiar e aperta o cerco pra cima do Bolha;

- para driblar esse tipo de problema, o Bolha arranja uma simples e eficaz saída. Isso realmente aconteceu com um Bolha conhecido meu. Ele costumava ouvir seus CDs na sala; sempre sentado em seu confortável sofá. O cidadão percebeu que embaixo das almofadas, e daquela madeira que sustenta tais almofadas, caberia vários CDs, e com certeza sua esposa jamais descobriria o esconderijo. Pois bem, o cara passou a guardar todas suas recentes aquisições naquele local, na parte oca do sofá. Caso ele estivesse ouvindo os discos e sua mulher chegasse de repente, bastava ele levantar e tacar os CDs lá dentro, e agir como se nada estivesse acontecido. O problema é que ele acabou enchendo demais o sofá com os CDs, e quando sua esposa foi fazer a tradicional faxina ela não conseguiu mover o sofá do lugar. Resultado: o Bolha precisou ficar horas se explicando;

- outro Bolha também sofria com esse tipo de problema de ter que esconder os discos da esposa. Ele passava o sabadão comprando LPs pela cidade, e voltava pra casa somente na hora do jantar. Pra compensar ele trazia uma pizza para eles jantarem, e debaixo da embalagem da pizza escondia os discos. Enquanto sua mulher trancava a porta, o Bolha corria para seu quarto e escondia os LPs, para depois ir jantar com a coitada, que nem desconfiava de nada;

- se você que estiver lendo esse texto for esposa de algum Bolha, fique tranquila. Pense no lado positivo, num sábado em vez de seu marido estar no clube, no shopping ou na praia olhando as menininhas, pode ter certeza que ele vai estar metido numa loja ou em um sebo, cheio de marmanjos em sua volta;

- existem basicamente dois grupos de Bolhas: um é o grupo dos Bolhas solteiros que ainda moram com a mãe (o pai já se mandou, pois não aguentava mais sustentar o vício fonográfico do filho), e o outro são os Bolhas desquitados. Se você é Bolha, é casado e não está encaixado em nenhum desses grupos, fique atento, pois mesmo sem você desconfiar sua esposa pode pedir a separação a qualquer momento, e pode ter certeza que sua mamãe vai recebê-lo de braços abertos;

- quando Bolha se separa, ele se contenta em ficar só com os discos, ainda mais se der para ele arrastar para sua coleção alguma coisinha da coleção da esposa (que ele até gostava), como um Rod Stewart, um James Taylor, um Elton John e por aí vai;

- o Bolha não se importa de perder os filhos, o apartamento, o carro, os móveis, etc. Se ele conseguir ficar com sua coleção de discos já está ótimo, ainda mais que na casa de sua mãe tem espaço suficiente para guardá-los. Sem contar que sua coleção vai aumentar consideravelmente quando ele voltar a morar com a mãe, pois seus LPs velhos estão todos lá esperando por ele;

- tem Bolha que quando arranja uma coitada para casar vende sua vitrola e deixa os discos na casa da mãe, pois não cabe toda aquela velharia no apartamento. Quando acontece a separação, e o Bolha volta ao seio materno, e também para sua coleção de LPs anteriormente abandonada, ele anuncia aos amigos: "
Estou voltando ao vinilzão";

- também tem Bolha que passa trinta anos de sua vida atrás de um compacto;

- Bolha lembra exatamente o lugar e o ano onde comprou cada disco que marcou a sua vida;

- eu conheço Bolha que tem vários CDs ainda lacrados na coleção, e quando você pergunta o porque daquilo tudo ele responde: "
Pô, isso aí eu já conheci na época do vinil, para que vou ouvir agora?";

- essa também aconteceu: um Bolha de São Paulo, como não tinha nada mais o que fazer, resolveu ligar para uma famosa loja do Rio de Janeiro e perguntar sobre um LP. No dia seguinte, bem cedo, o Bolha foi para rodoviária e pegou o "cometão" (ônibus de viagem da Viação Cometa) com destino à Cidade Maravilhosa. Seis horas de viagem depois o coitado chegou no Rio, indo direto para a loja de discos. Comprou aquele único LP, e encarou mais seis horas de volta para São Paulo. Agora pergunta se ele conheceu a cidade, ou alguma garota carioca? Encarar doze horas de viagem por causa de um LP é dose, hein!;

- Bolha costuma também fazer lista das "próximas aquisições". Esse tipo de lista varia de Bolha pra Bolha. Alguns listam apenas dez num papelzinho qualquer e andam com ele no bolso; outros preparam uma lista enorme arquivada no computador, e a cada ida em alguma loja ele imprime alguns títulos da lista para mostrar para o lojista (provavelmente ele imprime aqueles mais raros e quase impossíveis de se conseguir, só para ficar rindo da cara do lojista);

- tem Bolha que, não contente em deixar a namorada sozinha na praia uma vez, volta a cometer a mesma mancada, só que dessa vez em cidades diferentes;

- Bolha compra um LP bem antigo, raro pacas, e como era comum na época, o disco vem com o nome assinado de um dos antigos donos da bolacha. O Bolha senta, ouve o disco, e fica tentando imaginar como era esse antigo dono. Que outras bandas ele gostava, aonde ele morava, quando que ele comprou aquele disco, e principalmente, se ele tinha outras raridades em sua discoteca;

- o mesmo tipo de "pesquisa" acontece quando o Bolha vê no seu LP algum carimbo ou selo de alguma das lojas em que a bolacha foi comercializada. O pior é que o coitado anota o endereço e vai pessoalmente atrás da bendita loja, para ver se consegue achar mais algumas "boiadas". É claro que a loja já fechou há alguns bons anos, e o imbecil fica lá com cara de besta e ainda pensa com ele mesmo: "
Porra aqui funcionava uma bela loja...".

Aposto que você, assim como eu, se identificou com várias dessas situações listadas pelo Bento, certo?  Deixe a sua história nos comentários e vamos nos divertir juntos com a nossa maior obcessão: comprar discos e mais discos e mais discos!


Discos Fundamentais: Stanley Clarke - School Days (1976)


Por Ricardo Seelig
Colecionador
Collector´s Room

Ao lado do baterista Tony Williams, Stanley Clarke foi um dos grandes prodígios do jazz no século XX. O que pouca gente sabe é que, apesar de ter se tornado um dos maiores e mais conhecidos baixistas do mundo, Stanley deu os seus primeiros passos na música estudando outros instrumentos, no caso o violino e o cello.

Aos dezoito anos nosso herói já estava dividindo o palco com Horace Silver, uma das grandes lendas do gênero. Mais tarde, fez parte do fenomenal Return to Forever, combo liderado pelo tecladista Chick Corea nos anos setenta, e um dos agrupamentos seminais do jazz rock.

Stanley Clarke iniciou sua carreira solo em 1973 com o disco
Children of Forever, uma clara alusão ao seu grupo anterior. Como curiosidade vale citar que nesse álbum ele se apresentou como Stan Clarke, alcunha que seria substituída pela que conhecemos nos trabalhos posteriores. Em seguida vieram Stanley Clarke (1974), Journey to Love (1975) e School Days (1976), marcando a primeira fase de sua carreira como artista solo.

School Days é um disco com a cara daquela metade dos anos setenta. A sonoridade de suas seis faixas nos leva de volta no tempo. Tendo o baixo de Clarke à frente, as composições transbordam melodias, energia e lirismo, em um tempo onde um trabalho solo de um instrumentista não era sinônimo de auto-indulgência.

A bolacha abre com "School Days", um funkão contagiante que se desdobra em riquíssimas passagens instrumentais, unindo com maestria os dois gêneros musicais negros que comandam o álbum: o jazz e o funk. A belíssima "Quiet Afternoon" vem na sequência, e nela somos tocados por melodias angelicais saídas do baixo de Clarke. Sua beleza é absoluta, construída pelos detalhes cuidadosamente pensados de cada instrumento.

Uma batida tipicamente brasileira dá início à "The Dancer", groove hipnótico que hoje seria classificado apenas com o rótulo exdrúxulo world music, mas que na verdade se revela um grande exercício de como unir gêneros musicais a princípio díspares em uma mesma composição.

O mago John McLaughlin bate o cartão na arrepiante "Desert Song". Nela, o líder da Maravishnu Orchestra é acompanhado por Stanley Clarke, que toca um contra-baixo acústico. Clarke alterna o uso do arco e dos dedos para executar o instrumentos, criando passagens e harmonias que transportam o ouvinte para outras dimensões. O brilhantismo minimalista de McLaughlin com o seu violão é a cereja do bolo da canção, fazendo com que sua audição seja uma experiência quase espiritual.

Fechando o play, a rápida "Hot Fun" é o que o seu título antecipa: uma animada e festiva jam em estúdio. Já "Life is Just a Game" é a única composição a contar com passagens vocais, e mesmo assim brevíssimas, de Clarke. Com um arranjo orgásmico e apoteótico, repleto de metais e grooves alucinógenos, é um dos momentos mais altos do disco. Um final perfeito para um álbum excepcional.

Se você conhece, sabe do que eu estou falando. Se você nunca ouviu, vá atrás agora mesmo.

Faixas:
A1. School Days - 7:50
A2. Quiet afternoon - 5:05
A3. The Dancer - 5:23

B1. Desert Song - 6:53
B2. Hot Fun - 2:50
B3. Life Is Just a Game - 9:00


Discoteca Básica Bizz#043: Arnaldo Baptista - Loki? (1974)


(Fernando Naporano, Bizz#043, fevereiro de 1989)

No pop brasileiro, são raros os que driblaram a barreira linguística e edificaram trabalhos fundamentais. Em meio às síndromes progressivas, à invasão da Nordésia e do rockão pauleira, no início de 1974 o LP em questão surgiu não apenas como antídoto a essas tendências, mas também como uma obra única e radical do rock brasileiro.

Gravado em terríveis condições emocionais - Arnaldo havia perdido Rita Lee para sempre -, após sua saída dos Mutantes, o disco conta, além da participação de três ex-integrantes (o baterista Dinho, o baixista Liminha e Rita nos backing-vocals), com arranjos de Rogério Duprat. A gravação, feita às pressas, proporcionou um
punch inigualável e, dado o seu estado emocional, Loki? acabou por ser o maior tratado existencial do rock brasileiro, algo digno do desespero suicida da nouvelle vague, da dolorosa raiva incontida dos angry young men ingleses e de poetas visionários que enxergaram o lado obscuro da realidade.

Arnaldo demonstrou o que significa amar até perder o nome, buscar os paraísos artificiais a partir da desintegração da alma e percorrer os porões proibidos dos sentimentos, dando vazão aos abismos da vida e anunciando esboços da morte tateada, ainda que não consumada. Nessas antevisões, ele já parecia estar ciente das amargas metamorfoses que delineariam seu destino tatuado por uma tentativa de suicídio em 1980, após ter criado a alucinada Patrulha do Espaço. 

Se, textualmente, provou genialidade, em nível musical nada deixou a dever; ou seja, a partir de sua voz arrancada do âmago e de um sensível piano de concepção clássica, ele percorre o tecido rock com eclética maestria, indo das mais tristes baladas até progressive rocks, passando por tons de bossa, jazz, funk e blues.

A primeira faixa do LP, a linda rock'n'roll ballad "Será Que Eu Vou Virar Bolor?", usando o título como mote, traça ironicamente um paralelo entre o futuro de seu amor e o do rock'n'roll, ambos ameaçados de extinção. A seguinte, "Uma Pessoa Só", arranjada por Duprat, remonta os lindos sonhos dourados de 71/72, quando os Mutantes viviam em comunidade na Serra da Cantareira, numa
trip coletiva em que era possível ser "uma pessoa só". 

"Não Estou Nem Aí" é uma beat-ballad pulverizada por tons bluesísticos/jazzísticos em que, sombreado pela (im)possibilidade de esquecer os "males", ele desafia a morte de forma sarcástica. Em "Vou Me Afundar na Lingerie", um bluesy-popster de primeira linha, instala a evasão absoluta do mundo real "deslanchando bem embaixo" e propondo afogar as mágoas no deslumbre da natureza e na relatividade das pequenas. A instrumental "Honky Tonky" é um delicioso mergulho ao piano.

A segunda fase traz a memorável "Cê tá Pensando Que Eu Sou Loki?", esmerado exercício bossístico que desbanca a loucura, mas não exime o prazer pelas viagens. Na baladaça "Desculpe", penetra na angústia passional, um "Jealous Guy" à brasileira, que sentindo "o pulso de todos os tempos" exige o amor a qualquer custo. Na fragmentada "Navegar de Novo", desvenda sua particular "passagem das horas" e as dimensões (im)possíveis do tempo. 

"Te Amo, Podes Crer", uma balada de amour fou, encarna o pranto de um abandonado que revela: "Dentro de algum tempo eu paro de tocar /espero o apocalipse de então eu te encontrar", um verso que resumiria profeticamente seu futuro. Fechando, a folk-psicodélica "É Fácil", microssíntese do amor absoluto.

Se hoje sua obra é mítica, saiba que Arnaldo pagou muito caro por toda essa paixão levada às últimas conseqüências. "Já leu todos os livros" e sabe que "a carne é triste".

Faixas:
A1. Será Que Eu Vou Virar Bolor? - 3:52
A2. Uma Pessoa Só - 4:01
A3. Não Estou Nem Aí - 3:22
A4. Vou Me Afundar Na Lingerie - 3:25
A5. Honky Tonky (Patrulha do Espaço) - 2:14

B1. Cê Tá Pensando Que Eu Sou Lóki? - 3:25
B2. Desculpe - 3:11
B3. Navegar de Novo - 5:33
B4. Te Amo Podes Crer - 2:54
B5. É Fácil - 1:56


31/03/2009

Castiga! - Nas pegadas do groove de Melvin Sparks


Por Marco Antonio Gonçalves
Colecionador

Se a pedida for soul-jazz ou jazz-funk, nada mais estiloso do que dar um mergulho de cabeça na discografia deste guitarrista norte-americano que atende pelo nome de Melvin Sparks. Um dos pioneiros do acid-jazz, Sparks se tornou um dos grandes guitarristas do estilo, figurando seu nome ao lado de feras como Cornell Dupree, Kenny Burrell, George Benson ou Grant Green.

Um obstinado pelo jazz, r&b e blues que aos onze anos de idade já tocava guitarra e se beneficiava do tradicional ensino musical das escolas americanas. Nessa fase de aprendizado, passou pela doutrina do visionário educador musical Conrad O. Johnson (o homem por trás do combo negróide Kashmere Stage Band) e seu talento foi lapidado tal qual um diamante. Sua habilidade com a guitarra, aliás, era medida em performances com a banda do colégio, em companhia de dois parceiros que se tornariam constantes no decorrer de sua carreira: Leon Spencer e John Manning. 

Em 1963 abandonou a high school para tornar-se músico profissional, ingressando no Upsetters, uma banda de rhythm and blues que acompanhava nomes de peso como Little Richard, Sam Cooke, Marvin Gaye e The Supremes. Depois de deixar o Upsetters, Sparks trabalhou em várias sessões, gravando ao lado de alguns dos gênios responsáveis pela evolução da música negra, como Charles Earland, Sonny Stitt, Lou Donaldson, Rusty Bryant, Lonnie Smith, Sonny Phillips e Johnny “Hammond” Smith, dentre outros.

Ao longo de seus mais de quarenta anos de carreira, gravou 12 discos solo (
Groove On Up de 2006 foi o último) e participou de outros 100 álbuns de artistas diversos. Também desenvolveu projetos paralelos bem interessantes, como o Mooreshiva Project, carregando no sotaque groove, só pra variar.


E aproveitando o embalo, agora mesmo estou escutando sua maravilhosa estréia como
band-leader. O disco Sparks! foi lançado em 1970 pela Prestige Blue Note Records e já mostrava com louvor o estilo musical que o guitarrista empregaria em seu trabalho solo: uma combinação ácida de jazz, funk e soul, repleta de grooves dançantes.

A banda contava com alguns dos antigos camaradas do liceu e o entrosamento demonstrado neste registro é potente. Estavam presentes nas sessões de gravação os seguintes músicos: Melvin Sparks (guitarra), Leon Spencer (órgão), Idris Muhammad (bateria), Virgil Jones (trompete), Houston Person (sax tenor) e John Manning (sax tenor). Contendo apenas cinco músicas, o álbum apresenta uma concepção harmônica e melódica daquelas, mostrando quem é que domina o pedaço quando o assunto é el groove terrible

Destaque para as versões instrumentais das clássicas “Thank You” de Sly & The Family Stone, “Charlie Brown” dos Coasters e “Spill the Wine” de Eric Burdon & War, com Sparks esmirilhando com sua praticidade e desenvoltura na guitarra e Leon Spencer comprovando ser um organista completo. “I Didn’t Know What Time It Was” e “The Stinker” completam o álbum, evidenciando toda a riqueza técnica de Sparks, que faz improvisos e alterna fraseados maravilhosos, lembrando, e muito, Grant Green, provavelmente o seu mais imediato precursor. Um primor! 


Outro brilhante registro do guitarrista é Akilah! de 1972, seu terceiro trabalho solo, e que tive a felicidade de encontrar o LP na loja Disco 7 do grande Carlinhos, no centro de São Paulo. Mais uma vez fui dominado pelo jazz ácido e pelo groove contagiante de Sparks e sua banda.

Obra instrumental impecável, que oferece uma seção rítmica vibrante, tendo à frente um time bem parecido com aquele do seu primeiro álbum: Sparks na guitarra, Leon Spencer no órgão, Idris Muhammad na batera e Buddy Caldwell na percussão. Para acompanhar a turma, nada melhor que uma seçãozinha de metais maneira: Sonny Fortune, George Coleman, Frank Wess e Dave Hubbard nos saxofones, Hubert Laws na flauta e Virgil Jones e Ernie Royal nos trompetes … é tudo o que eu gosto!

O disco abre com uma composição do Kool and the Gang, a funkeada “Love the Life You Live” num instrumental contaminado de suingue. Outras preciosidades são os temas “On the Up”, “All Wrapped Up” e a faixa título, que escancaram arranjos mais sólidos que os notados no disco de estréia, com o naipe de metais em maior evidência. A salientar o trabalho impecável da dupla Sparks e Spencer, que mais uma vez rouba a cena. Pra cair no suingue sem dó nem piedade. E se o lance é dar um relax para recuperar o fôlego, “Blues for J.B.” e “The Image of Love” estão aí para completar o serviço. Uma gema!


Outros discos como
Spark Plug (1971), Texas Twister (1973) ou Melvin Sparks (1975) são para matar neguinho do coração de tão bons. É o groove pulsando a milhão. Divirtam-se!