19/09/2009

Minha Coleção: Marcelo Danzig - "Em 2005 saí da Amoeba Music, em Los Angeles, com exatos 133 CDs!"


Por Daniel Sicchierolli
Colecionador

Apaixonado por música, o novo entrevistado da Collector´s Room abriu a sua casa para outro apaixonado pelos discos, nosso correspondente Daniel Sicchierolli. Acompanhe o papo entre Daniel e Marcelo abaixo, e curta com a gente mais uma incrível viagem pelo mundo maravilhoso dos discos!

Para começar, muito obrigado por ter aceito o convite para participar da Collector´s Room. Antes de mais nada, apresente-se aos nossos leitores.


Primeiro agradeço pelo convite, é sempre um prazer compartilhar esse maravilhoso hobby. Meu nome é Marcelo, tenho 33 anos, trabalho em uma multinacional norte-americana da área química e sou apaixonado por hard rock/heavy metal há mais ou menos uns 20 anos.

Você lembra como foi o seu primeiro contato com a música, e como descobriu e se apaixonou pelo rock pesado?

Tudo começou quando vi pela primeira vez o vinil do Aces High do Iron Maiden. A capa já me fascinou, e na sequência, quando ouvi o play, aí descobri o que queria dali para frente. Detalhe: ouvi o play em uma vitrolinha da Turma da Mônica fajuta, quebrada e emprestada (risos).

Como é composta sua coleção? Quantos discos você tem?

Como esse hobby já tem mais de 20 anos, então posso falar que tenho uma quantidade um pouco assustadora, mas quem curte vai entender! Tenho, pela última contagem, 2.720 CDs, sendo 99% originais, tudo catalogado em Excel; 1 LP e 121 DVDss, fora revistas e livros.

Você tem mais de dois mil CDs e apenas um LP. É impossível não perguntar: que disco é esse?

Alguém pode estar pensando: como é que o cara tem 2.720 CDs e 1 LP? Um único LP??? Que cacete é esse??? (risos) Bom, é um picture disc do Sarcófago (INRI), edição especial da Cogumelo, que comprei há uns anos atrás para futuramente vender para algum true-black-vomit-from-hell da Noruega ou Suécia!! E não será barato! (risos)

Discos do Danzig

Qual foi o primeiro álbum que você comprou?


Tenho quase certeza absoluta que foi um LP do Metallica, Ride the Lightning, comprado com o dinheiro economizado nos recreios do colégio (risos). Eu passava fome, mas não deixava de comprar o vinil que queria! Depois do primeiro começou o vício, que uma hora transformou-se em CDs, e eu me arrependo até hoje de ter trocado/feito rolo dos LPs por CDs.

Qual o item mais legal da sua coleção?

Creio que os box sets. Tenho um do Danzig, o caixão do Misfits, o box do Bathory, além da caixa de ferro do Iron Maiden, Eddie’s Archives.

Itens do Firewind

Qual disco você ouviu recentemente e pensou "como que eu vivi tanto tempo sem conhecer isso!?" - ou seja, um disco que você, hoje, não vive sem?

Poderia citar uma banda de cada estilo, mas para facilitar acho que o Firewind, que conheci quando já estavam no quarto álbum, e depois fui atrás de tudo o que eles já lançaram. Os dois últimos são perfeitos!

De quais bandas você possui mais material?


Na verdade eu sou um pouco diferente do colecionador clássico, que tem centenas de versões de um mesmo álbum e tal. Claro que fico impressionado quando vejo uma coleção dessas, mas pessoalmente eu prefiro ter a discografia completa das bandas ditas obrigatórias e, somente em alguns casos, vou atrás de bootlegs, singles, promos, etc. Creio que as maiores quantidades são de grupos clássicos (Black Sabbath, Deep Purple, Iron Maiden) e aquelas que sou muito fã, como Danzig, Samhain, Misfits e Monster Magnet.

Alguns grupos costumam lançar muitos singles em diferentes versões, além de diversos CDs promos. Você curte e vai atrás disso ou prefere novas bandas e itens diferentes?

Singles e promos apenas daquelas bandas que integram meu top#10, sabe? Agora, das outras bandas normalmente apenas pego as edições oficiais, vamos dizer assim, e eventualmente um box set, se conseguir ($$$).

Um colecionador e seus discos

Qual item você considera o mais valioso da sua coleção?


Bom, considero a coleção toda valiosa (risos), mas tenho alguns álbuns de bandas stoner do começo dos anos 90 que hoje estão fora de catálogo, como Kyuss, Acrimony, Low Rider, que valem uma boa grana no eBay ou Mercado Livre!

Qual foi o maior número de álbuns que você comprou de uma única vez?

Essa é fácil. Em 2005 saí da Amoeba Music de Los Angeles, um dos maiores sebos de CDs da costa oeste norte-americana, com 133 CDs (risos), todos com preços excelentes. Paguei tudo isso aí entre 99 cents os usados na promoção até 7,99 dólares o mais caro, novo, lacrado, e de qualquer maneira, no geral, saiu muito mais barato que o preço normal. Negócio da China!

Quantos álbuns em média você compra por mês?

Hoje me controlo mais, e a quantidade varia de mês a mês, mas vamos dizer que em média uns 5/6 CDs por mês.

Tem algum item que, só de alguém chegar perto, você já gela e morre de ciúmes, tem um carinho especial e não venderia de jeito nenhum?

Não dá para separar agora, tenho um ciúme pela coleção completa, incluindo aí os livros sobre rock que tenho também, como aqueles do Martin Popoff e as biografias.

Entre tudo o que você possui, quais foram os itens que deram mais trabalho para conseguir?

Singles do Danzig e do Monster Magnet, alguns álbuns de stoner, o Intuition do TNT.

Qual é o CD mais estranho da sua coleção?

De estranho acho que não tenho nada. Talvez os promos que eu ganho de alguns contatos, com músicas pela metade!

Álbuns do Monster Magnet

A sua coleção tem um limite? Você acha que, algum dia, vai parar de comprar discos porque acha que, enfim, tem tudo o que sempre quis ter? Você acha que esse dia chegará, ou ele não existe para um colecionador?


O limite é o tamanho da parede, e depois o tamanho do quarto (risos). Um ponto final acho que não existe para nenhum colecionador, já que creio que existem mais de 50 mil bandas de rock por aí e por mais que você tente conhecer tudo, você sempre vai encontrar uma novidade.

Já parou para pensar com quem os seus discos ficarão quando você estiver mais velho? Quem será o herdeiro da sua coleção no seu futuro? Se não tiver ninguém, posso guardar para você (risos).

Boa pergunta! Não sei se terei filho ou filha, mas na pior hipótese deixarei no testamento todas as regras! (risos)

Qual o futuro da música em geral na sua opinião?

Hoje em dia existe tamanha facilidade e recursos tecnológicos para compor, gravar e produzir um álbum, que acho que o mercado está saturado de novas bandas, e poucas poderão fazer carreira e viver disso. Boa parte dos integrantes de bandas undergrounds que conheço, nacionais e estrangeiras, tem que manter seus trabalhos diários cotidianos, pois não conseguem viver só da música. Creio que 10% das bandas, dentro de um cenário geral de rock, conseguirão chegar em um segundo álbum.

Vamos supor que você fosse escolhido para montar o cast do Wacken Brasil. Escolha oito bandas que estão em atividade para compor o festival.

Oito bandas? Posso dividir em 2 dias?

Dia 1: Chrome Division, Firewind, Lacuna Coil e Mago de Oz

Dia 2: Legion of the Damned, Monster Magnet, Randy Piper’s Animal e Spiritual Beggars

Se isso fosse realidade, eu gastava até 500 reais em uma pista vip!!!


Todo colecionador tem as suas manias. Alguns mais, outros menos, mas todos tem as suas. Como você guarda e conserva os seus CDs?

Bom, todos os CDs estão em suas caixas de acrílico originais, e além disso coloco um plástico reforçado em cada caixinha. Como todo colecionador, não empresto, não permito nenhum tipo de "vou levar e já te devolvo" e não gosto de mão-cheia-de-dedos alheia indo na direção deles!

Eu gostaria que você fizesse agora um top#5 com os itens do seu acervo que você mais curte.

Bom, se fosse criar um ranking por estilo já iria demorar, então escolher apenas cinco será mais difícil ainda, logo, vou colocar os 5 primeiros nomes que me vêm a cabeça:

Danzig
Monster Magnet
Black Sabbath (fases Tony Martin e Dio)
Motorhead
Iron Maiden

Discos do Spiritual Beggars e Atomic Bitchwax

Todo colecionador tem as suas listinhas. É a tal síndrome de “Alta Fidelidade”. É uma curiosidade minha, mas tenho certeza de que você já fez esta relação inúmeras vezes. Quais são, para você, os dez melhores álbuns de todos os tempos?


Vou colocar os dez melhores, mas não necessariamente numa ordem:

Danzig II – Lucifuge
Kyuss – Blues for the Red Sun
Motley Crue – Dr Feelgood
Black Sabbath – Headless Cross
Spiritual Beggars – Ad Astra
Monster Magnet – Monolithic Baby
Talisman – Genesis
Tyketto – Don’t Come Easy
Whitesnake – Slide It In
The Cult - Electric

Como apreciadores de música, sempre temos a tendência de idolatrar o que foi feito no passado. Vamos fazer o caminho inverso. De 2009 para trás, faça a lista dos discos que você considera de excelentes a perfeitos, basicamente aqueles que serão considerados clássicos no futuro. Concentre-se até o ano de 2000, nada antes disso, ok?

2009 – Sunstorm - House of Dreams
2008 – H.E.A.T. - Heat
2007 – Pink Cream 69 - In10sity
2006 – Chrome Division - Doomsday Rock’n’Roll
2005 – Gamma Ray - Majestic
2004 – Astral Doors - Evil is Forever
2003 – Shakra - Rising
2002 – Running Wild - The Brotherhood
2001 – Nashville Pussy - High As Hell
2000 – Lizzy Borden - Deal with the Devil

O que você está ouvindo ultimamente e destacaria para os leitores da Collector´s Room?

Estou ouvindo de umas semanas para cá uma banda sueca de hard rock chamada H.E.A.T. – o álbum de estréia é nota 10, não tem música ruim, até as baladas são boas!

Marcelo, qual é o item mais estranho da sua coleção, e também que álbum as pessoas ficariam surpresas em saber que você possui?

Creio que o Shiva in Exile, que é uma mistura de metal/ambient com música étnica indiana/árabe (projeto do Stephan, do Darkseed), e um CD chamado Misfits Club Lounge, que contém clássicos do Misfits tocados por uma banda de jazz - o resultado ficou sensacional!

E tenho quase todos os álbuns do Marilyn Manson. Ele pode ser um puta-embusteiro-de-mídia, mas tem dia que eu gosto de acordar com o mais pop dos anticristos! (risos)

Stoner é o que não falta na coleção de Marcelo

Qual item você tem que é apenas para completar a coleção? Ou seja, um disco que você acha ruim mas não vende para não deixar a coleção incompleta.

Iron Maiden – Virtual XI
Megadeth – Risk
Helloween – Chameleon
Judas Priest – Nostradamus
Nightingale – White Darkness
Sepultura - Nation


Se você tivesse que indicar algumas bandas e alguns discos para uma pessoa que nunca teve contato com o rock, o que indicaria?

Ih , ferrou (risos):

Danzig II – Lucifuge
Deep Purple – Stormbringer
Talisman – Genesis ou Humanimal
AC/DC – Back in Black
Lynyrd Skynyrd – Qualquer álbum


O rock já está aí a mais de cinquenta anos, e passou por diversas fases neste tempo todo. Sendo assim, eu gostaria que você indicasse aos nossos leitores os álbuns que você recomenda das décadas de sessenta até hoje.

Por álbum eu não termino isso aqui (risos), então vou me concentrar nas bandas:

60’s - Blue Cheer e Black Sabbath;

70’s - Deep Purple, T.Rex e Kiss;

80’s - Iron Maiden, Judas Priest e Metallica;

90’s - Kyuss, Monster Magnet, Paradise Lost e Danzig;

00’s - Darkseed, Cathedral e Bad Religion.


Nestes anos todos esta paixão pela música certamente propiciou a você diversas experiências interessantes e curiosas, como contato com os seus ídolos. Conta aí alguma história legal que você viveu por causa do seu envolvimento com a música.

Se me compararem com os outros membros da Collector’s Room, eu não tenho contato nenhum. Falei apenas com o Scott Ian do Anthrax em Los Angeles, durante uma conexão, em 2005.

Vamos fazer um bate e volta rápido: Deep Purple ou Black Sabbath?

Black Sabbath!!!

Ozzy ou Dio?

Dio.

Dickinson ou Di´Anno?

Bruce, sem a menor dúvida.

Belladona ou Bush?

Belladona.


Sammy Hagar ou David Lee Roth?

Sammy Hagar.


Brian Johnson ou Bon Scott?

Dúvida ... Bon Scott!

Venom ou Stryper?

In Nomine Satanas!!!! Sempre!!!!


Los Angeles ou Bay Area?

L.A. nos anos 80, Bay Area nos 90.


Thrash norte-americano ou thrash alemão?

Thrash alemão nas décadas de 80 e 90. Hoje em dia fico com o thrash revival americano.

Mais uma vez muito obrigado por ter participado da Collector´s Room. Este espaço é seu.

Daniel, muito obrigado pela oportunidade! E vendo as outras entrevistas eu percebi que sou um cara normal!! (risos)


18/09/2009

California Jam: os 35 anos do festival que reuniu Deep Purple e Black Sabbath


Por Vitor Bemvindo
Colecionador e Historiador

Transporte-se para meados da década de 1970! O que seria preciso para se fazer um grande festival de música naquela época? Que tal duas bandas da tríade sagrada do hard rock? Acha pouco? Então vamos somar a eles um dos maiores nomes da história do rock progressivo. Ficaria perfeito, não!? Pois bem, esse festival existiu, e foi realizado em Ontario, nos Estados Unidos, há 35 anos, reunindo grupos do naipe do Black Sabbath, Deep Purple e Emerson Lake & Palmer.

Em 06 de abril de 1974 duzentas mil pessoas se aglomeraram no circuito oval Ontario Motor Speedway para assistir algumas das grandes bandas daquele momento. O espaço, normalmente utilizado para corridas da Nascar e da Fórmula Indy, foi utilizado para o festival California Jam. Idealizado por Sandy Feldman e Lenny Stogel, o evento tinha clara inspiração na onda de festivais de verão de fins dos anos 1960, como o Monterey Pop, o Miami Pop Festival e até mesmo o Woodstock.

Porém, diferentemente de seus antecessores, o California Jam possuía um forte teor comercial, ausente nos anteriores, que tinham como lema a paz e o amor hippies. É verdade que o movimento hippie naquele momento não era mais tão forte e a onda de festivais tinha esfriado, principalmente após os acidentes ocorridos no Altamont Free Concert. No festival em Altamont, organizado pelos Rolling Stones, ocorreram diversas confusões devido à ingerência na segurança do evento de um grupo de motociclistas conhecido como Hell's Angels. Houve diversos confrontos entre os seguranças e o público, ocasionando uma morte e algumas vítimas feridas.

Com isso, os festivais entraram em descrédito e poucos se aventuraram a organizar eventos de grandes proporções, temendo incidentes semelhantes. Porém, em 1974, os produtores supracitados viram em um evento musical uma grande possibilidade de alavancar a indústria musical da época. O California Jam foi grandioso e, apesar de ter sido mais curto que seus antecessores, contou com um grande aparato tecnológico, não só para a melhor qualidade de áudio possível, mas também para a transmissão ao vivo para todo o país.

Pela primeira vez um festival de rock contava com o apoio institucional de uma grande rede de televisão norte-americana, a ABC, e com grandes patrocinadores, como a Goodyear. O evento foi transmitido por diversas emissoras de rádio e, algumas partes, pela televisão. A estrutura do festival foi tão grandiosa que contava, entre outras extravagâncias, com um helicóptero que levava as bandas de Los Angeles ao circuito, além de um dirigível que fazia tomadas áreas e 54 mil watts de potência de áudio.

O festival seria o segundo grande espetáculo musical a ser transmitido via satélite, ao vivo, para todo os Estados Unidos, somando aos milhares de presentes milhões de telespectadores. Experiência semelhante só havia acontecido em 1973, com a apresentação de Elvis Presley mais tarde lançada como o álbum Aloha From Hawaii.

Um grande palco foi montado na pista de corridas. Nele foi feito um cenário com um gigantesco arco-íris, que viraria o símbolo do festival. As imagens das bandas tocando à frente do arco-íris se transformariam em clássicas, graças à grande disseminação de fotos e vídeos do evento. Não é raro encontrar essas imagens em encartes de discos ou vídeos dos grupos que participaram do California Jam.

Seriam doze horas quase ininterruptas do melhor do rock, com o máximo da tecnologia disponível na época. Todo o elenco de bandas tinha boa aceitação do público norte-americano, apesar de algumas delas ainda não serem um sucesso absoluto de audiência.

Os responsáveis por abrir os trabalhos foram os detroitianos do Rare Earth, grupo conhecido por misturar o rock característico da cidade do motor com levadas swingadas influenciadas pelo soul e o funk. O grupo havia lançado, no ano anterior, o seu mais bem-sucedido álbum, Ma, lançado pela Motown (gravadora especializada em música negra, mas que dera espaço para os branquelos de Detroit). O público presente foi ao delírio com o maior clássico da banda, "I Just Want to Celebrate", que ocupou o topo das paradas em 1971.

Em seguida veio mais um ícone da Motown, o Earth Wind & Fire. O grupo liderado por Maurice White vinha de um estrondoso sucesso após o lançamento de Head to the Sky, em 1973. A apresentação do grupo no California Jam foi responsável por aumentar ainda mais o alcance da banda, que possuía a simpatia tanto de negros quanto de brancos, por misturar funk, soul e jazz, com alguns componentes de rock.

A primeira banda mais ligada ao rock a se apresentar foi o Eagles. Apesar de ainda estar distante do estrelato alcançado com Hotel California, em 1976, o grupo tinha grande aceitação junto ao público local, pois eram de Los Angeles. A levada folk da banda agradava em cheio aos californianos, que acolheram muito bem artistas do gênero, como a The Band. A transmissão do festival para todo os EUA ajudou a banda a angariar fãs para além da costa oeste.

O sucesso da balada "Summer Breeze", lançada no álbum de mesmo nome, de 1970, levou a dupla Jim Seals e Dash Crofts (que formavam o Seals & Crofts) a ser conhecida em todo o país. Por isso, eles fizeram parte do California Jam. O estilo soft rock da dupla destoou um pouco do restante do elenco do festival, porém os texanos foram bem recebidos pelo público.

O southern rock (estilo de rock feito por bandas do sul dos EUA, que mistura raízes do country e blues com a distorção do rock) foi representado no festival pelo Black Oak Arkansas. O estilo performático e a voz rasgada de Jim "Dandy" Mangrum foi responsável por levantar o platéia, que participou ativamente da apresentação. Em "Mutants of the Monster", a introdução do baixo arrastado foi incessantemente acompanhada pelas palmas dos presentes.


O show do Black Oak Arkansas serviu para esquentar o clima para a apresentação mais pesada do dia, a do Black Sabbath. Para muitos a banda encontrava-se no auge, mas a apresentação divide a opinião dos fãs. Tony Iommi e seus companheiros já haviam lançado cinco grandes álbuns, sucessos absolutos de crítica e público, e estavam excursionado para a divulgação do excelente Sabbath Bloody Sabbath, de 1973.

A turnê iniciou-se no mês de lançamento do álbum, dezembro, e o combinado era que ela se estenderia até final de fevereiro. Depois disso a banda entraria em recesso até meados de maio, tentando amenizar o estresse de cinco turnês consecutivas, que eram sempre emendadas, sem intervalos, nas sessões de gravações de discos. O Sabbath começava a apresentar seus primeiros sinais de estafa e problemas de relacionamento. As férias seriam fundamentais para assentar os ânimos.

O acordo entre os membros do grupo acabaria rompido pelo produtor/empresário Patrick Meehan, conhecido pela ganância e atitudes impositivas. Sem consultar a banda, Meehan assinou um contrato com a produção do festival, que previa uma multa de cem mil dólares caso o Sabbath não se apresentasse. Assim, Ozzy, Iommi, Butler e Ward foram obrigados a interromper suas férias para se apresentar no California Jam.


Mesmo assim, a banda se apresentou com honestidade e energia, apesar de alguns críticos da época destacarem somente a confusão de alguns arranjos. Esse aspecto é ressaltado no título do bootleg que registrou o show, encontrando no mercado negro com o nome de Cannabis Confusion. A referência à "erva mardita" parece ser apenas alegórica, já que não há nenhum registro que ligue a apresentação da banda no festival ao consumo de maconha.

A verdade é que o Sabbath fez um barulho ensurdecedor em Ontario e assustou aqueles que não estavam acostumados com a banda no palco. O set apresentou algumas canções já clássicas, como "War Pigs" e "Paranoid", mas foi focado em faixas dos dois álbuns mais recentes da banda, Vol. 4 e Sabbath Bloody Sabbath. Em "Supernaut", Tony Iommi fez uma longa e barulhenta introdução, acompanhada pela nervosa bateria de Bill Ward, que encerrou a canção com um nervoso solo.

A voz de Ozzy Osbourne na apresentação parecia um tanto quanto esganiçada, um pouco mais do que o habitual, mas o vocalista demonstrou toda a sua presença de palco, deixando a platéia bastante entusiasmada. O show do Sabbath foi um dos mais aplaudidos e entrou para os anais da banda. Além disso, a dobradinha com o Black Oak Arkansas seria repetida na retomada da turnê, na Europa, com o BOA abrindo os concertos.

Apesar de toda a organização do festival, ocorreu um fato inusitado. A programação dos shows, que normalmente atrasa em eventos desse porte, ficou adiantada em quase uma hora. Isso fez com o Sabbath entrasse no palco às quatro da tarde e finalizasse a sua apresentação ainda com o sol brilhando intensamente (durante a primavera na costa oeste dos EUA costuma anoitecer entre 6 e 7 horas da tarde). Com isso, a banda subsequente, o Deep Purple, teria que subir ao palco ainda sob a luz do dia.


Esse motivo foi o suficiente para tirar o excêntrico guitarrista Ritchie Blackmore do sério. Segundo alguns relatos, o músico, conhecido pelos seus hábitos noturnos e as roupas pretas, se trancou em seu quarto e se recusou a se apresentar enquanto o sol não se pusesse. Eram então por volta de cinco e meia da tarde e todos teriam que esperar no mínimo uma hora para que o ambiente ficasse propício para que o "morcego" saísse da caverna.

Os organizadores do evento e os diretores de TV ficaram possessos e exigiram uma postura profissional do grupo. Os mais lúcidos da banda, Ian Paice e Jon Lord, tiveram que intervir e levaram o guitarrista praticamente à força para o palco. As confusões de Blackmore estavam apenas começando ...

O Deep Purple em 1974 estava em um radical momento de transformação. Após a saída de Ian Gillan e Roger Glover, com quem a banda havia gravado quatro conceituados álbuns de estúdio, havia uma enorme expectativa para a apresentação da nova formação. Eles foram substituídos pelo baixista/vocalista do Trapeze, Glenn Hughes, e pelo vocalista David Coverdale, um inexperiente garoto com apenas 23 anos.

Eles haviam lançado o disco Burn menos de dois meses antes do California Jam, mas já vinham se apresentando com a nova formação desde finais de 1973. O show em Ontario fazia parte de uma turnê norte-americana iniciada antes mesmo do festival. O Purple chegou aos Estados Unidos com o status de banda mais lucrativa do mundo, e seria a grande presença do evento.

O quinteto britânico apresentou cinco das oito faixas do álbum recém-lançado, executando apenas três canções da antiga formação. Isso fez com que o público se mostrasse um pouco contido, já que mais da metade das músicas ainda eram pouco conhecidas.

O show foi a primeira apresentação de David Coverdale para um grande público, e no vídeo pode-se notar a sua timidez. Ele pouco se movia pelo palco, se limitando a cantar parado e com uma das mãos apoiadas no pedestal do microfone. A atuação nem de longe lembra o Coverdale performático dos anos 80, quando, no Whitesnake, usava o pedestal para demonstrar o seu sex appeal.

Ao contrário do vocalista principal, Glenn Hughes demonstrava grande desinibição, exibindo uma nova característica do Deep Purple: a forte presença de backing vocals. Em alguns momentos, o baixista assumia, até mesmo, o papel de voz principal, protagonizando duetos memoráveis com Coverdale. A inquietação de Hughes saltava aos olhos, já que o seu antecessor se limitava a tocar comportadamente, sem se aventurar cantando. Em certos pontos da apresentação, essa postura beirava ao exagero.

Jon Lord e Ian Paice demonstravam a habilidade de sempre, mas as atenções se voltaram quase que exclusivamente para o guitarrista da banda. Mostrando-se contrariado, Blackmore se desentendeu diversas vezes com a produção do evento, reclamando incessantemente da presença de uma câmera que estava ao seu lado. A antipatia característica contrastava com seu talento, evidenciado em longo solos, improvisações e duelos com o órgão Hammond de Lord.

No fim do show, quando os músicos executavam improvisações entremeadas por "Space Truckin'", Blackmore, após um belo solo, começa a fazer uma de suas famosas performances, arremessando sua guitarra para o alto, pisando sob as cordas e fazendo um barulho ensurdecedor. A primeira Fender Stratocaster (na cor creme, como a maioria que o Homem de Preto empunhava) se perdeu quando o guitarrista resolveu sustentá-la apenas pelo cabo, deixando-a cair no fosso que separava a platéia do palco. Logo ele apanhou um novo instrumento, idêntico ao anterior, e continuou o espetáculo de destruição. Após esfregar as cordas no corpo, Blackmore inesperadamente começou a bater com a guitarra na câmera que o acompanhou durante o show. A Strato ficou completamente destruída e o prejuízo com a câmera foi orçado em oito mil dólares. Alguns dos destroços foram atirados em alguns jornalistas que estavam junto ao palco. O corpo do instrumento foi lançado para o público.


Depois disso, com ajuda do staff do grupo, Blackmore ateou fogo em um conjunto de amplificadores, causando uma grande explosão. O fogo se alastrou pelo palco e por muito pouco não atingiu o músico, que saltou rapidamente. Uma segunda explosão aumentou o fogo, que logo foi contido por extintores. A sandice do guitarrista causou um belo espetáculo visual, mas por pouco não acarretou um acidente de proporções graves.

Foi o ato final de uma apresentação que entrou para a história mais pelas confusões de Ritchie Blackmore do que pela qualidade do espetáculo. O show ficou marcado na história do Deep Purple, sendo lançado em vídeo e posteriormente em DVD. O áudio foi lançado em um bootleg nos anos 90, relançado pela Purple Records, e mais tarde remasterizado e lançado com o set completo da apresentação.


A noite foi fechada pelos papas do rock progressivo Emerson Lake & Palmer. No final do ano anterior o trio havia lançado o seu álbum de estúdio mais bem-sucedido comercialmente, Brain Salad Surgery, e a apresentação no California Jam marca o auge da banda.

O novo álbum foi privilegiado, mas o trio executou canções de discos anteriores, como "Lucky Man", do seu primeiro trabalho, de 1970. O destaque foi para o desempenho de Keith Emerson, que em seu órgão Hammond e no piano demonstrou todo seu talento em improvisações hipnotizantes. A performance do tecladista rendeu-lhes elogios de grandes nomes da música, como Count Basie – lendário pianista de jazz –, que ao ver a apresentação pela TV ligou para Emerson para felicitá-lo pelo talento.


Recentemente, a banda lançou um box de DVDs chamado From the Beginning, que compila algumas apresentações clássicas. Entre elas, está o show na íntegra do ELP no California Jam.

Uma versão de "Great Gate of Kiev", parte da suíte clássica "Quadros de uma Exposição", do compositor russo Modesto Mussorgsky, fechou um dia histórico para o rock and roll. Doze horas seguidas da nata das bandas dos anos setenta, num evento que combinou a magia do clima paz e amor com o máximo de tecnologia e qualidade sonora. Um evento que aliou arte de primeira linha com uma organização grandiosa, entrando para história como um dos maiores acontecimentos já televisionados.

O
California Jam teria uma nova edição em 1978, mas sem o mesmo brilho e energia. Mesmo assim, o novo evento contaria com bandas de peso, como Aerosmith, Foreigner, entre outros. Mas isso é assunto para um próximo artigo.

O
Mofodeu celebra os 35 anos do California Jam com um programa especialíssimo, só com gravações originais do festival. O melhor do que aconteceu naquele mágico 06 de abril de 1974. Para ouvir, basta acessar o site e buscar pelo programa de número #58.

Leia também: Deep Purple - Stormbringer (1974)


Curso de Jornalismo Musical


Por Ugo Medeiros
Colecionador e Jornalista
Coluna Blues Rock

A partir do dia 02 de outubro ministrarei um curso de Jornalismo Musical na PUC-Rio. A realização é do Centro Acadêmico de Comunicação Social (CACOS). As aulas serão às sextas e segundas, das 15 às 17h. Todos que tenham interesse na área de comunicação e música podem participar. Valor do curso: R$10.

Justificativa

A música tem importante papel na sociedade, pois ela representa uma manifestação que ultrapassa apenas a esfera cultural. A música, independente do estilo ou nacionalidade, aponta para as características de um dado lugar, é uma forma de investigação. Desde o aparecimento de uma cultura pop e estilos mundialmente conhecidos e consumidos, o jornalismo teve relações com o cenário musical. Entretanto, com o crescimento da indústria fonográfica e a explosão dos meios de comunicação de massa, falar sobre música transcendeu textos técnicos (resenhas e críticas). Falar e escrever sobre música é ter uma profunda leitura sobre cultura, comunicação de massa, história, relações econômicas e choques de identidade, todos temas de largo interesse ao estudante de comunicação social.

Objetivo

Capacitar o aluno, com uma visão crítica, a entender o que representa, de fato, a música. Dá-lo ferramentas técnicas (padronização de textos e dicas jornalísticas) e teóricas (leituras e exercícios de reflexão). Ao final do curso, o aluno entenderá como se dá a relação músico/mercado/consumidor.

Conteúdo

1ª aula – Abertura. Algumas técnicas de escrita a partir de leitura de reportagens. O que era o jornalismo musical e o que ele é hoje em dia;

2ª aula – Apresentação de vídeos de diferentes épocas, desde o blues, jazz, samba e rock. Exercícios;

3ª aula – Exposição de trabalhos dos alunos. Apresentação de vídeos. Introdução ao debate sobre o mercado fonográfico;

4ª aula – O que é o espetáculo? A música como mercadoria. Exercícios;

5ª aula – Debate: Jornalismo musical e as perspectivas da indústria musical. Exercício final: resenha de um show realizado CACOS;

Carga horária: 10h.

Horário: Segundas e sextas, das 15h às 17h.

Local: Centro Acadêmico de Comunicação Social, CACOS.

Turma: Entre 10 e 15 alunos.

Professor

Ugo Medeiros – Geógrafo formado em Geografia pela PUC-Rio, licenciatura e bacharelado. Ex-editor do site Rio Rock & Blues, editor do blog Coluna Blues Rock, colaborador do site da revista Blues’n’Jazz, colaborador do blog Collector´s Room e da revista Poeira Zine. Participou da cobertura de festivais, como o 3º Festival Nacional de Blues (2007) e Rio das Ostras Jazz & Blues Festival (2007, 2008 e 2009).

Bibliografia Básica

• CANCLINI, Néstor Garcia.
Consumidores e Cidadãos – Conflitos Multiculturais da Globalização. Editora UFRJ. 2008, Rio de Janeiro;

• DEBORD, Gui.
A Sociedade do Espetáculo. Editora Contraponto. 1997, Rio de Janeiro;

• CLAPTON, Eric.
Eric Clapton: A Autobiografia. Editora Planeta. 2007, São Paulo;

• WENNER, Jann S. e LEVY, Joe (Orgs).
As Melhores Entrevistas da Revista Rolling Stone. Editora Larousse. 2008, São Paulo;

• HARRIS, John.
The Dark Side of the Moon: Os Bastidores da Obra-Prima do Pink Floyd. Jorge Zahar Editor. 2005, Rio de Janeiro;

• BANGS, Lester.
Reações Psicóticas. Editora Conrad. 2005, São Paulo;

• DIMERY, Robert (Org).
1001 Discos para Ouvir Antes de Morrer. Editora Sextante. 2007, Rio de Janeiro;

• Artigos das revistas
Rolling Stone, Poeira Zine e Blues’n’Jazz.

Bibliografia Complementar

• MARCUS, Greil.
A Última Transmissão. Editora Conrad. 2006, São Paulo;

• RIBEIRI, Helton.
Blues. Editora Abril. 2005, São Paulo;

• FRIEDLANDER, Paul.
Rock and Roll – Uma História Social. Editora Record. 2006, Rio de Janeiro;

• CHACON, Paulo.
O Que é Rock. Editora Brasiliense. 1982, São Paulo;

• LAWRENCE, Sharon.
Jimi Hendrix – A Dramática História de Uma Lenda do Rock. Jorge Zahar Editor. 2008, Rio de Janeiro;

• MEDEIROS, Ugo.
Um Brinde à Farsa de Woodstock. 2009, Rio de Janeiro.


Uncut traz The Who na capa de sua nova edição


Por Ricardo Seelig
Colecionador

A revista britânica Uncut estampa um dos maiores nomes da história do rock inglês, o The Who, na capa de sua nova edição. A publicação elegeu as 30 maiores canções compostas pelo grupo, com a participação de Pete Townshend e Roger Daltrey em pessoa, além de uma trupe de amigos do grupo, como Peter Buck do R.E.M., Eddie Vedder do Pearl Jam e Bill Wyman e Mick Taylor, ambos ex-Stones.

Além do Who, a Uncut traz matérias e textos bem interessantes sobre os Beatles, com uma análise detalhada sobre o relançamento dos álbuns do grupo; um ensaio especial com fotos inéditas do Led Zeppelin no Bath Festival de 1970; uma entrevista exclusiva com Levon Helm, baterista e vocalista da lendária The Band; discografia comentada do Kraftwerk; um papo com Daevid Allen, do Gong; uma geral no retorno dos Mutantes; e várias outras matérias legais, além do costumeiro CD de brinde, que dessa vez dá uma geral na nova cena psicodélica, com bandas como White Denim, Wooden Shjips, Ganglians e outros.

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