24 de abr de 2010

Bill Graham Apresenta: Minha Vida Dentro e Fora do Rock

sábado, abril 24, 2010

Por Ricardo Seelig
Colecionador
Collector´s Room

A vida de Bill Graham é um capítulo importante na história do rock. Nascido em Berlim em 1931, em plena Alemanha efervecente pré-Segunda Guerra Mundial, emigrou para os Estados Unidos ainda criança, fugindo da perseguição e dos horrores do maior conflito do século XX.

Escrito a quatro mãos por Graham e por Robert Greenfield, ex-editor da
Rolling Stone entre 1970 e 1972 e autor de diversas obras dedicadas a contar a história da música popular do século XX, como A Journey Through America with the Rolling Stones, Dark Star: An Oral Biography of Jerry Garcia, Timothy Leary: A Biography e o relato digno de Sodoma e Gomorra de Exile on Main Street: Uma Temporada no Inferno com os Rolling Stones, Bill Graham Apresenta: Minha Vida Dentro e Fora do Rock, com suas quase 600 páginas, é uma leitura essencial não apenas para quem curte rock, mas também para quem admira as grandes trajetórias humanas.

Narrado sob o ponto de vista de quem estava lá - Greenfield entrevistou praticamente todo mundo que cruzou o caminho de Graham -, no olho do furacão, o livro é repleto de emoção e sinceridade. Desde o início, com Bill contando sua história e sua fuga do ódio nazista, ao lado de suas irmãs, por toda a Europa, até chegar a um ponto seguro nos Estados Unidos, o livro é rico na descrição das situações vividas pelos personagens da vida do lendário promotor de shows, compondo um mosaico tão diverso que não poderia ter a sua origem em outro ponto que não na sempre surpreendente aventura que nós, seres humanos, presenciamos todos os dias.

Mas é claro que o ponto principal de
Bill Graham Apresenta: Minha Vida Dentro e Fora do Rock
é a parte dedicada à criação e consequente desenvolvimento de suas casas de shows - primeiramente o Fillmore, que mais tarde recebeu a companhia do também mítico Winterland. Bill Graham esteve frente a frente com todo mundo que teve um papel relevante na história do rock. De Bob Dylan a Iggy Pop, passando por Grateful Dead e toda a cena psicodélica colorida e desbundada do verão do amor de San Francisco, a obra nos coloca lado a lado com nossos ídolos, quebrando os paradigmas que imaginamos, tirando músicos do pedestal e os colocando no mesmo patamar de quem consome suas músicas.

Além do apaixonante texto, o livro nos brinda ainda com belas fotos que falam por si só, eternizando momentos históricos que volta e meia são citados em toda e qualquer publicação séria de música, como a orgia infinita dos camarins dos Rolling Stones, os shows sempre únicos de Dylan, o cada vez mais inacreditável adeus da The Band em
The Last Waltz
, a fúria sem fim do The Who, os papos ao pé do ouvido com figuras como Francis Ford Copolla e Marlon Brando, e vários outros.

Ler é fundamental. Essa frase, por mais que seja um clichê, é cada vez mais verdadeira. Quando o objeto de leitura é uma obra tão cativante como
Bill Graham Apresenta: Minha Vida Dentro e Fora do Rock
, ela tem dois significados fortíssimos; para quem devora livros, um prazer sem tamanho; e para quem teima em continuar longe deles, um convite irrecusável para entrar de vez em dois dos universos mais apaixonantes que a cultura humana possui: a literatura e a música.

Ou seja: levante a bunda da cadeira e vá comprar o seu exemplar agora, rapaz!

Discos Fundamentais: Lou Donaldson - Everything I Play Is Funky (1970)

sábado, abril 24, 2010

Por Ricardo Seelig
Colecionador
Collector´s Room

Lou Donaldson é, talvez, o músico que mais se adaptou às mudanças ocorridas no jazz no final dos anos sessenta, quando o estilo Blue Note se transformou do pós-bop para o jazz funk, passando pelo fusion, incorporando elementos do pop, do soul e das sonoridades easy listening.

Donaldson, efetivamente meia geração mais velho que a maioria dos avantgardistas que estavam no meio daquele furacão sonoro que estava transformando o estilo em algo novo e inédito todos os dias, era originalmente um bebopper influenciado fortemente por Charlie Parker, o que torna a facilidade com que ele faz a transição para o funk, e a maneira como toca o gênero nesse álbum, algo ainda mais surpreendente.

Everything I Play is Funky pode ser colocado, fácil fácil, entre os seus melhores trabalhos, ao lado de Blues Walk (1958) e Alligator Bogallo (1967).

Contando com Lonnie Smith no órgão, Melvin Sparks na guitarra - acertando a mão em dezenas de licks certeiros, Donaldson passeia com absoluta autoridade, doçura e malícia pelo funk. "Hamp´s Hump" hipnotiza com seu andamento sexy, enquanto "West Indian Daddy" e "Donkey Walk" descem redondo e, acima de tudo, divertem o ouvinte com um som contagiante e muito alto astral.

A versão da clássica "Over the Rainbow", que a princípio parece perdida, revela-se um dos momentos altos do disco, com Lonnie Smith tendo uma performance primorosa no órgão, chegando a lembrar, devido ao timbre de seu instrumento, o não menos genial Booker T. Jones, do Booker T. & The MG´s.

Um disco muito em feito, e que garante horas e horas de ótima audição.


Faixas:
A1. Everything I Do Gonna Be Funky (From Now on) - 5:31
A2. Hamp's Hump - 6:40
A3. Over The Rainbow - 7:11

B1. Donkey Walk - 6:44
B2. West Indian Daddy - 6:30
B3. Minor Bash - 6:14

23 de abr de 2010

Rigotto's Room: Viciado em Morphine

sexta-feira, abril 23, 2010

Por Maurício Rigotto
Escritor e Colecionador
Collector's Room

No início da década de noventa – parece que foi ontem, mas já se vão quase vinte anos – aconteceu uma pequena revolução na forma de se ouvir música com o aparecimento do Compact Disc. O CD surgiu ainda nos anos oitenta, mas foi na virada para os noventa que passou a se popularizar, a ter preços acessíveis a quem não pertencia a classes elitizadas. A indústria fonográfica enxergou uma maneira de vender novamente os seus catálogos nessa nova mídia, criando um conceito de que o vinil da noite para o dia teria virado peça de museu e que o som digital e sem ruídos de CD seria infinitamente superior. Atraídos também pela praticidade de inserir um disquinho em uma gaveta e ouvi-lo de cabo a rabo sem a necessidade de virá-lo no meio da audição, a população engoliu o engodo e passou a substituir suas discotecas inteiras, se desfazendo dos discos de vinil em troca do moderníssimo disquinho prateado.


Como colecionador de discos, a principio me senti traído, ao imaginar que os próximos lançamentos de bandas que eu acompanho a carreira viriam apenas no novo formato, com suas capas e encartes reduzidos a ridículas miniaturas. Como esbravejar nada resolveria, tive que me aliar ao inimigo e descobrir os benefícios que a nova mídia traria. Uma das vantagens sem dúvida não era o som, que logo constatei ser bem mais pobre em definições que os bolachões. Gostei da prática do manuseio e de alguns recursos inovadores que os CD players ofereciam. Outra vantagem que logo constatei era que cada vez que eu comprava um vinil – e eu comprava-os compulsivamente – eu era recriminado ao chegar em casa, ao ser recebido com aquele olhar de censura como que a dizer: “Não acredito que ele comprou outro disco...” ou “Vai gastar todo o teu dinheiro em discos?” Com o CD, era só coloca-lo sob o casaco ao chegar e ele entrava em casa despercebido. Porém, o grande atrativo da novidade foi que começou a surgir títulos que era quase impossível de se encontrar em vinil. Artistas que nunca tiveram sua obra lançada no Brasil agora eram facilmente encontrados nas lojas de CDs, e havia catálogos em que poderíamos selecionar CDs importados e mandar vir. Não precisávamos mais depender do acaso, bastava encomendar e esperar uns vinte dias para ter o CD que quiséssemos em nossas mãos. Havia lojas de CDs com prateleiras inteiras dedicadas aos importados



Em uma dessas lojas, me deparei com vários títulos de CDs importados de bandas que eu nunca havia ouvido falar. Comprei muitos títulos por curiosidade. Alguns se revelaram grandes descobertas, e outros, frustrantes decepções. Um dos CDs era o da banda Treat Her Right e chamava-se Tied To The Tracks. Não sei o que me levou a comprá-lo, nem ao menos tinha uma capa atraente, mas ao colocá-lo para tocar, adorei a sonoridade blues rock da banda. Todo o disco é muito bom, com destaque para “Junkyard”, “Bad Medicine”, “Hank” e “King of Beers”. Li no encarte que a banda era formada por Mark Sandman e David Champagne nas guitarras, Billy Conway na bateria e Jim Fitting na harmônica. O grupo foi formado em 1984 em Boston e Tied To The Tracks era o seu segundo trabalho, de 1989. Fui atrás do disco anterior (de 1986) e do posterior What’s Good For You (1991), que é igualmente brilhante, incluindo ótimas covers como “From a Buick 6” (Bob Dylan), “Factory Girl” (Rolling Stones), “I Wish You Would” (sucesso dos Yardbirds) “Tease Me” (John Lee Hooker) e “The Same Thing” (Willie Dixon)


O Treat Her Right se separou após o lançamento de What’s Good For You, deixando como legado esses três ótimos discos. Aos curiosos, foi lançada em 1998 a coletânea The Anthology 1985-1990, e no ano passado saiu The Lost Album, com material inédito do grupo.



Em 1992 entrei em outra loja de discos e comprei mais uma dúzia de CDs de bandas novas, entre eles Glad You Weren’t There dos Screaming Iguanas of Love, Smoke ‘Em If You GotEm do The Reverend Horton Heat e Good do power trio Morphine. Coloquei Good para tocar e imediatamente fiquei maravilhado com a sonoridade exótica do grupo. O trio não tinha guitarra, era formado por saxofone, baixo e bateria e fazia um rock and roll com pitadas de jazz e blues empolgantes. Nos vocais e contrabaixo de duas cordas, estava Mark Sandman, o mesmo sujeito que havia sido o líder do Treat Her Right. Completavam a formação Dana Colley nos saxofones tenor e barítono (ex-integrante do grupo Three Colors) e Jerome Dupree na bateria. Sandman tocava com um slide um contrabaixo com apenas as duas cordas mais graves. “Só toco essas duas cordas, não tenho porque comprar as outras duas.”, dizia Mark Sandman, que além de bom músico, se revelava um ótimo poeta e letrista, com canções inspiradas em literatura beatnick como em “The Saddest Song”, “Have a Lucky Day”, “Claire” e “The Only One”.



No ano seguinte, o baterista Jerome Dupree deixa o grupo e é substituído pelo ex-Treat Her Right Billy Conway. Lançam o incrível Cure For Pain, com os clássicos “Dawna”, “Buena”, “All Wrong”, “Thursday”, “Candy”, “Sheila”, “Mary Won’t You Call My Name?” e “Miles Davis’ Funeral”.



Em 1995, o terceiro disco, Yes, trás a banda ainda mais entrosada e inovadora. Como se a sonoridade já não fosse suficientemente incomum e anti-convencional, Dana Colley passa a tocar um saxofone duplo, ou melhor, dois saxofones soldados um ao outro, com uma única boquilha em um dos sax e ligada ao outro através de um tubo. “Honey White” e “Super Sex” são os destaques do disco.



Com uma nova gravadora, a Rykodisc, o Morphine chega em 1997 ao quarto disco, Like Swimming, que mesmo mantendo a qualidade, mostrou-se um pouco inferior e menos inspirado que os três trabalhos anteriores do grupo. Mesmo assim, faixas como “”Early To Bed”, “Eleven O’Clock” e “Swing It Low” figuram entre as melhores já gravadas pela banda.



Poucos meses após lançar Like Swimming, o Morphine lança B-Sides & Otherwise, contendo lados B de singles, faixas incluídas em outros discos e muito material inédito, como as ótimas “Bo’s Veranda”, “My Brain” e “Kerouac”, que havia sido incluída em um disco-tributo ao escritor beatnick.



Entre 1998 e 1999, o Morphine trabalhou na gravação de seu quinto disco, o álbum que seria um divisor de águas na carreira da banda. Planejado para ser o mais ousado, bem arranjado e inovador trabalho do grupo, Mark Sandman tocou baixo de quatro cordas, guitarra, piano, órgão e trombone. Além de Billy Conway, o baterista original Jerome Dupree foi convocado e cada faixa teve duas baterias sendo tocadas simultaneamente. Além dos membros da banda, participaram das gravações Jane Scarpatoni (cello), Mike Rivard (contrabaixo acústico), Joseph Keller (violino) e um coro de vozes femininas.


No dia 03 de julho de 1999, o Morphine se apresentava ao vivo na cidade de Palestrina, perto de Roma, na Itália. Após as duas primeiras músicas da noite, Mark Sandman fala ao microfone, cumprimentando o público e anunciando “Super Sex”, que seria a terceira canção da noite: “Obrigado Palestrina! É uma linda noite! É ótimo estar aqui e quero dedicar uma canção super-sexy a todos vocês...”. Mark Sandman parou a frase pela metade e ficou imóvel por alguns segundos, em seguida caiu ao chão. Billy e Dana correram em sua direção e constataram, atônitos, que Sandman estava morto. Mark Sandman morreu no palco, durante um show, fulminado por um ataque cardíaco aos 46 anos.



Em 2000 é lançado The Night, o quinto álbum da banda. Belas canções como “Top Floor, Bottom Buzzer” e “Rope on Fire” apontavam um novo direcionamento para a música do Morphine, mas uma trágica fatalidade encerrou ali a carreira do grupo. Ainda em 2000 é lançado o sensacional CD ao vivo Bootleg Detroit, contendo dezoito músicas (muitas inéditas) de um show em Detroit em 1995, durante a turnê do álbum Cure For Pain.



A coletânea The Best of Morphine 1992-1995 é lançada no ano de 2003.



Mark Sandman viveu como um beatnick, sem nunca ter tido uma residência fixa. Abandonou seu emprego de taxista noturno em Cambridge (sua terra natal) para trabalhar em um pesqueiro no Alasca. Nos anos oitenta, morou por um ano no Rio de Janeiro, onde fez uma sólida amizade com o saxofonista brasileiro Leo Gandelman.



Dana Colley e Billy Conway se uniram a vocalista Laurie Sargent – uma fã declarada de Mark Sandman – e fundaram o Twinemen (nome inspirado em um quadro sobre gêmeos pintado por Sandman). O Twinemen já lançou os álbuns Twinemen (2002), Sideshow (2004) e Twinetime (2007).




Eu continuo cada vez mais viciado no som do Morphine, uma das melhores bandas surgidas nos últimos vinte anos. Aviso: Ouvir Morphine regularmente causa dependência.

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