22 de jan de 2016

Dicas de HQs para quem quer começar a ler quadrinhos

sexta-feira, janeiro 22, 2016


Há muito tempo, as histórias em quadrinhos deixaram de ser uma mídia direcionada apenas para o público infantil e juvenil. O surgimento e a popularização dos super-heróis através das duas maiores editoras de HQs do planeta, a Marvel e a DC, fez com que o público leitor crescesse e se desenvolvesse junto com as histórias. Hoje, uma história dos X-Men, por exemplo, traz assuntos e tópicos que não fazem parte do universo de uma criança, e estão muito mais alinhados com o que acontece no mundo de maneira geral, discutindo preconceito, sexualidade, violência e discriminação. E esse caminho é facilmente percebido em outros títulos, que há muito deixaram de lado o universo de inocência e conto de fadas e exploram temas muito mais pesados e complexos.

Leio e coleciono quadrinhos desde sempre. A paixão pelas histórias é similar e surgiu mais ou menos na mesma época que o amor pela música. Ou seja, dá pra colocar aí na conta uns trinta anos lendo quadrinhos. E a transformação também foi semelhante, com o início nas antigas edições da Abril em formatinho, responsáveis por me formar como leitor, e a posterior migração para as edições encadernadas e de luxo lançadas pela Panini, Devir, Dynamite, Pixel e a própria Abril. Hoje, meu acervo de HQs é formado exclusivamente por edições encadernadas, que reúnem em um mesmo volume diversos números lançados originalmente de forma mensal, formando arcos fechados de histórias.

Abaixo, listei alguns títulos marcantes e de inegável qualidade, com o objetivo de apresentar a quem ainda não mergulhou no universo das HQs tramas inteligentes, criativas e indicadas aqueles que querem dar os seus primeiros passos por esse mundo cheio de aventuras e personagens apaixonantes.


Batman: A Piada Mortal

Publicada em março de 1988, Piada Mortal é uma das histórias mais emblemáticas e marcantes já lançadas. Escrita por Alan Moore e ilustrada por Brian Holland, apresenta em sua trama um Coringa não apenas enlouquecido, mas sedento por sangue e violência. O palhaço serial killer foca suas ações na família Gordon - no Comissário James e em sua filha, Barbara, também conhecida como Batgirl -, e literalmente quase enlouquece ambos, cometendo atos que marcariam para sempre o universo de Gotham City. A sequência final, quando Batman confronta o Coringa em um parque de diversões abandonado e macabro e se dá conta de que é mais parecido com o vilão do que gostaria de admitir, é um dos momentos mais clássicos das HQs contemporâneas. 


A Liga Extraordinária

Esqueça o filme lançado em 2003. Ainda que baseado na HQ, a aventura no não se comprara aos quadrinhos escritos por Alan Moore e ilustrados de maneira brilhante por Kevin O’Neill. Publicada a partir de 1999, A Liga Extraordinária traz personagens clássicos da literatura reunidos em uma equipe especial formada para combater grandes vilões. Já foram publicados sete volumes, sendo que seis deles saíram no Brasil: A Liga Extraordinária Volume I, A Liga Extraordinária Volume II, A Liga Extraordinária Século 1910, A Liga Extraordinária 1969, A Liga Extraordinária 2009 e A Liga Extraordinária - Nemo: Coração de Gelo. O único que ainda não ganhou edição nacional foi Black Dossier. Entre os personagens estão nomes como Allan Quatermain, Wilhelmina Murray, Orlando, Henry Jeckyll / Edward Hyde, Nemo e até mesmo um quase Harry Potter. Nos quadrinhos a violência é muito mais explícita, além de a história explorar bastante os problemas pessoais dos personagens, como o vício de Quatermain. O sexo é outro aspecto marcante, formando uma trama que difere muito, como já dito, daquela adaptação pasteurizada que foi levado aos cinemas. Os dois primeiros volumes são excepcionais, enquanto os demais apresentam oscilações mas, no final das contas, também valem a pena.


X-Men: E de Extinção

O inglês Grant Morrison é um dos mais respeitados autores de quadrinhos, e é conhecido por conceber mudanças e inovações drásticas nas tramas que escreve, que invariavelmente acabam refletindo de maneira marcante na mitologia dos personagens. Em E de Extinção, Morrison revolucionou profundamente o universo mutante, inserindo uma nova personagem que se transformou em uma grande ameaça para o futuro dos X-Men. A solução encontrada por Charles Xavier para proteger não apenas os seus alunos, mas o próprio futuro dos mutantes, foi sair das sombras e se revelar para o mundo, e a trama conta a história de tudo isso. Contendo violência e genocídio, E de Extinção é uma história genial, de cair o queixo, e que mostrou ao mundo os X-Men como nunca vistos antes.


Camelot 3000

Lançada em 1982, Camelot 3000 foi escrita por Mike W. Barr e ilustrada por Brian Polland. O enredo conta a história de uma Inglaterra ameaçada por uma invasão alienígena no futuro, e cujo retorno do lendário Rei Arthur e sua corte passa a ser a única solução possível. Muito bem escrita e com uma trama cativante, além de extremamente cinematográfica, é de se estranhar como Camelot 3000 ainda não tenha recebido uma adaptação para o cinema.


Watchmen

A obra maior de Alan Moore ao lado do ilustrador Dave Gibbons, Watchmen veio ao mundo em setembro de 1986 e mudou de maneira definitiva a forma como os quadrinhos passaram a ser vistos. A história traz heróis mais alinhados com o cotidiano, com medos, anseios e fraquezas, em contraste com os deuses de outrora. Isso deu origem a toda uma leva de histórias que começaram a investir em situações mais reais, humanizando os super-heróis de maneira definitiva. Watchmen virou filme em 2009, com direção de Zack Snyder.


Preacher

Escrita por Garth Ennis, Preacher conta a história de Jesse Custer, um pastor que possui o poder de fazer com que qualquer pessoa o obedeça. Desiludido com Deus, resolve sair em busca do próprio, em uma jornada por todo o território dos Estados Unidos, onde acaba cruzando com uma gama de personagens coadjuvantes irresistíveis. A série está sendo relançada no Brasil pela Panini, com diversos encadernados em capa dura nas bancas. Vale muito a pena.


O Reino do Amanhã

Influenciada pela impacto de Watchmen, a DC aplicou uma lógica semelhante em seus personagens clássicos, em uma história escrita por Mark Waid e ilustrada por Alex Ross. Em uma realidade dominada por toda uma nova geração de super-heróis, em que valores como ética e responsabilidade não são as maiores prioridades, é necessário o retorno de nomes emblemáticos como o Superman e sua turma para colocar tudo nos eixos novamente. As ilustrações de Ross, extremamente realistas, causaram um enorme impacto e fizeram escola.


Sandman

Neil Gaiman em sua obra clássica. Publicada entre janeiro de 1989 e março de 1996, traz a história de personagens como Destino, Morte, Sonho, Destruição, Desejo, Desespero e Delírio, contadas com imaginação soberba e textos inspirados. A história foi relançada recentemente aqui no Brasil, em longos sete volumes com acabamento de luxo. Um dos momentos mais altos e brilhantes da história dos quadrinhos.


Batman: O Cavaleiro das Trevas

Frank Miller dá a sua versão para o universo do Batman, em uma história cheia de violência e crítica social. Lançada no início de 1986, O Cavaleiro das Trevas é a referência maior para a construção da imagem moderna do Batman, deixando de lado o pitoresco personagem humorístico da série de TV dos anos 1960 e transformando-o em um homem profundamente sombrio e abalado pelos eventos de sua vida. Ao assumir o personagem nos cinemas, o diretor inglês Christopher Nolan baseou a sua versão nesta HQ e em Batman: Ano Um, também escrita por Miller, para redefinir Bruce Wayne e o Batman para toda uma nova geração.

Além destes, existem diversos outros títulos que podem servir de porta de entrada para quem quer descobrir toda a magia das HQs. Opções não faltam, e ao entrar em contato com esse universo cada pessoa irá descobrir as suas próprias histórias e personagens preferidos.



Grandes Produtores: Martin Birch

sexta-feira, janeiro 22, 2016

Poucos produtores tiveram um impacto tão profundo no desenvolvimento da sonoridade do hard rock e do heavy metal como o inglês Martin Birch. Seu currículo inclui álbuns clássicos de ícones como Deep Purple, Wishbone Ash, Rainbow, Whitesnake, Black Sabbath, Blue Öyster Cult e Iron Maiden, entre outros, discos esses que possuem o status de clássicos inquestionáveis e até hoje são referências.

O início da carreira de Martin Birch se deu através de trabalhos como engenheiro de som. Respeitado e admirado pelos resultados alcançados em discos como Beck-Ola (1969, Jeff Beck), Then Play On (1969, Fleetwood Mac), Long Player (1971, Faces) e Argus (1972, Wishbone Ash), Birch deu o passo seguinte assumindo o posto de produtor em uma rica e frutífera parceria com um dos maiores nomes da história do hard rock, o Deep Purple.

Martin já havia trabalhado com o Purple antes, como engenheiro de som dos LPs Concerto for Group and Orchestra (1969), In Rock (1970) e Fireball (1971). A estreia como produtor foi em grande estilo, assinando a produção de Machine Head (1972), um dos maiores clássicos da história do hard. Com um som cristalino, claro e límpido, o álbum elevou o Deep Purple ao topo e até hoje é a porta de entrada para quem quer dar os primeiros passos pelo universo do grupo. Ambos, Purple e Birch, marcariam de vez seus nomes na história com o ao vivo Made in Japan, lançado também em 1972 e que conquistou corações e mentes de maneira definitiva. A dobradinha com o Deep Purple rendeu ainda outros grandes discos como Who Do We Think We Are (1973, apenas como engenheiro de som), Burn (1974, também apenas como engenheiro), Stormbringer (1974), Come Taste the Band (1975), Made in Europe (1976) e Last Concert in Japan (1977).

Já uma espécie de integrante fixo da família Purple, Martin foi escolhido por Ritchie Blackmore para assinar os álbuns do Rainbow quando o guitarrista deixou a banda. Na nova empreitada do homem de preto, Birch manteve a limpeza característica do som do Purple, porém tornando-a mais áspera e pesada. A forma como captou o som da bateria de Cozy Powell em clássicos como Rising (1976) e Long Live Rock ‘n’ Roll (1978), fazendo o instrumento soar pesado, profundo e praticamente presente na sala do ouvinte, encontra parâmetro apenas na maneira com que Jimmy Page gravou e transpôs para os discos do Led Zeppelin a força da natureza que era John Bonham. Com o Rainbow, foi o responsável também pela produção de Ritchie Blackmore’s Rainbow (1975), On Stage (1977) e Finyl Vinyl (1986).

Ainda mantendo-se na área de abrangência púrpura, Birch relacionou-se profissionalmente durante muitos anos com David Coverdade. Os nove primeiros álbuns do Whitesnake foram produzidos por ele e apresentam um som mais grave e profundo, em uma sonoridade ideal para que as influências de blues e soul da primeira parte da carreira da banda aflorassem em toda a sua plenitude. Para a cobra branca, Birch produziu os discos Snakebite (1978), Trouble (1978), Live at Hammersmith (1978), Lovehunter (1979), Ready an’ Willing (1980), Live ... in the Heart of the City (1980), Come and Get It (1981), Saints & Sinners (1982) e Slide It In (1984). A parceria só teve fim quando Coverdale decidiu mudar a sonoridade do Whitesnake, deixando de lado suas raízes e apostando em um hard feito sob medida para conquistar o mercado norte-americano.

Mas Birch não ficaria sem trabalho com a decisão de David. Desde 1981, o produtor inglês estava ao lado de uma das bandas mais influentes e populares do metal britânico: o Iron Maiden. A parceria, iniciada no segundo disco do grupo, Killers, foi fundamental para tornar o Maiden um dos maiores nomes do rock durante a década de 1980. Sem sombra de dúvida, o trabalho de Birch com Steve Harris e companhia está no mesmo patamar de importância e influência que a sua parceria com o Deep Purple. O som que Martin produziu para o Maiden, metálico, cortante e com o baixo de Harris acima de todos os instrumentos, se tornou uma das marcas registradas do heavy metal. Para a banda, assinou os álbuns Killers (1981), The Number of the Beast (1982), Piece of Mind (1983), Powerslave (1984), Live After Death (1985), Somewhere in Time (1986), Seventh Son of a Seventh Son (1988), No Prayer for the Dying (1990) e Fear of the Dark (1992). O fim da relação de Martin com o Iron Maiden coincidiu com a saída do vocalista Bruce Dickinson do grupo, marcando o fim de uma era.

Além destas bandas, Martin produziu diversos discos marcantes para outros artistas. Entre os principais estão Heaven and Hell (1980, Black Sabbath), Mob Rules (1981, Black Sabbath), Cultösaurus Erectus (1980, Blue Öyster Cult), Fire of Unknown Origin (1981, Blue Öyster Cult) e Assault Attack (1982, Michael Schenker Group).

Birch se aposentou em 1992 e seu último trabalho foi Fear of the Dark, do Iron Maiden. Atualmente com 67 anos, Martin vive no interior da Inglaterra, onde goza o merecido descanso após moldar e influenciar profundamente o hard rock e o metal com suas produções antológicas.


Discoteca Básica Bizz #005: The Doors - The Doors (1967)

sexta-feira, janeiro 22, 2016


Venice, Califórnia, julho de 1965. Ray Manzarek, 30 anos, tecladista, encontra na praia seu amigo James Douglas Morrison, 21, estudante da Universidade da Califórnia, amante da poesia de Blake e da filosofia de Nietzsche. Jim diz a Ray que anda compondo poemas, e canta uma estrofe: "Vamos nadar para a lua / Vamos montar a maré / Penetrar no fundo da noite / Que o sono da cidade esconde." Ray perde a respiração. Conversam. E naquele dia, na praia, surge o conceito / ideia / banda The Doors, em cima de uma expressão de um poema de Blake e do livro de Huxley sobre a mescalina, As Portas da Percepção

Louvado seja aquele dia. E maldito. Porque com os Doors nasceu uma das mais espantosas viagens na história da música popular, em torno de temas perenes: medo, terror, pavor, violência, a culpa sem possibilidade de redenção, os desencontros do amor e a inevitabilidade da morte. O magnetismo animal e as manipulações do inconsciente coletivo de Morrison excitavam homens e mulheres à níveis da absoluta selvageria. Era uma atmosfera lisérgica, um eterno "retorno do reprimido", uma catarse ritualística, uma política carregada de eletricidade.

The Doors, lançado nos Estados Unidos em janeiro de 1967 com a psicodelia rachando os neurônios da garotada planetária, já continha todas as sementes da destruição posterior. Ainda hoje, pode ser considerado o grande álbum daquele ano mágico, mais devastador do que o antológico Sgt. Pepper's e um dos cinco maiores LPs de rock em todos os tempos.

O melhor álbum dos Doors é sempre o que está tocando na nossa cabeça, seja uma coletânea de hits, o clássico L.A. Woman (1971) ou um pirata australiano como The Doors Archive (o som é ruim, mas as performances são do balaco). A obra-prima de 1967, que fundiu todos os circuitos do produtor Paul Rothschild, tem o mérito de apresentá-los em estado bruto: a guitarra fluída de Robbie Krieger, a bateria segura - porém jazzística - de John Densmore, o teclado de fundo-de-garagem-cósmica em que Manzarek dedilha contrapontos, e os urros, gritos primais, deboche, sofrimento e poesia das esferas de Morrison. Tudo isso gravado em quatro canais!


O negócio dos Doors era hard rock com sobretons psicodélicos. Nos improvisos, viraram uma banda de blues elétrico que ficaria à vontade em qualquer madrugada de bar. Jim tirava algumas de suas letras de Nietzsche, o lúcido mais louco da história do pensamento humano. Combinava Nietzsche com um pouco de psicologia e uma série de grandes imagens - mar, sol, terra, morte. Esta era a terapia que recomendava ao público fascinado: vamos ser mais reais (uma de suas primeiras canções é "You Make Me Real"), cortar os laços com o establishment, nadar nas emoções, sofrer uma morte e renascimento simbólicos e prosseguir como novos seres, livres do pesadelo da história e dos traumas pessoais.

The Doors tem desde um feroz blues de homem branco ("Back Door Man") ao hino de uma geração inteira ("Light My Fire"), com seu imaginário baseado nos elementos vitais e a antológica progressão clássica do órgão de Manzarek, passando pelas intimações poéticas de "Moonlight Drive". Mas o bombardeio de napalm na psique é mesmo "The End". 

"The End" é o drama edipiano de Morrison expurgado em vinil. É o fim de todas as regras, planos elaborados, o fim da escuridão e das luzes suaves, quando Morrison toma uma carona no ônibus azul da psicodelia, mata o pai e transa com a mãe enquanto os Doors, no fundo, constróem uma paisagem sonora alucinógena orientalizante. 

Depois do fim, seu inferno. Morrison viveu o purgatório: caiu no álcool pesado, virou paródia de si mesmo, produziu outras obras-primas em flashes de lucidez, foi a Paris perseguir uma fantasia literária e acabou morrendo em uma banheira aos 27 anos. 

Triste final. Mítico final. Heróico final.

(Texto escrito por Pepe Escobar, Bizz#005, dezembro de 1985) 

21 de jan de 2016

Humor involuntário: as resenhas de discos publicadas pela Rock Brigade durante a década de 1980

quinta-feira, janeiro 21, 2016


Há muitos anos atrás, em uma terra que hoje parece muito distante, a cena heavy metal era marginalizada aqui no Brasil. Quem ouvia o chamado rock pauleira era visto com a cara torta. Que vestia uma camiseta preta com a estampa de uma banda era apontado como um desajustado que não queria nada com nada.

No Brasil da década de 1980 havia uma única revista dedicada ao heavy metal (ok, tivemos por um breve período carioca Metal, mas essa durou muito pouco). Com sede no principal centro consumidor do estilo, São Paulo, a Rock Brigade influenciou profundamente gerações de ouvintes, e seu impacto pode ser sentido até hoje - basta dar uma olhada nos Whiplashs da vida e seus milhares de leitores saudosistas e carregados de preconceito pra perceber isso.

Um dos pontos mais fortes da Rock Brigade eram os textos. Pérolas pseudo-eruditas, poesias da escuridão repletas de humor involuntário, que não economizavam metáforas para tentar colocar em palavras as sensações que um disco, uma música, uma banda, eram capazes de proporcionar.

Selecionamos abaixo várias dessas pérolas. Pra você que viveu a época, uma visita ao passado. Pra você que não conheceu a Brigade, uma amostra de como a revista se comunicava com os leitores nos seus primeiros anos. Em ambos os casos, diversão forte e garantida com textos dignos de figurar nos anais da Academia Brasileira de Letras - ou melhor, no Salão de Honra do Metáu Nassionau!

Divirtam-se!


Slayer - Show No Mercy
Os guitarristas do Slayer rasgam os seus dedos, destroçando as cordas do mais perfeito instrumento projetado pelo capeta. Power metal elevado à última instância, tempestuoso e corrosivo, feito somente para headbangers. Roncando e vomitando fogo, como se um cometa explodisse dentro de um vulcão em erupção! Misericórdia não existe! Não cabe na filosofia heavy, por isso que Dave Lombardo pulveriza as moléculas do ar com suas patadas letais na mesma medida em que o terremoto provocado pelo baixo de Tom Araya invoca Satanás para a destruição! Não tem música melosa! A mais lenta faz qualquer um sair por aí chamando urubu de ‘Meu Loro’ e Jesus de “Jenésio”.

Black Sabbath - Live Evil
Ronnie James Dio encarou o demônio de frente, galopou no cavalo da morte e dançou na propriedade do sobrenatural. A amarga gota de fel que é nódoa nos corações humanos e o desespero pela poder da força que arrasta todos às profundezas do inferno, foram por ele galhardamente cantadas, num heavy metal que Satanás não ensinaria nas escolas do inferno. A guitarra de Iommi ronca feio para o lado dos espíritos. Estremece túmulos. Os ventos soprados pelas cordas de Geezer assobiam gelado nas cumieiras da mente! Vinnie, o convidado macabro, cumpre o seguimento do ritual, possuído que foi pelo Black Sabbath.

O Sabbath resistiu e persistiu no caminho do pau-pesado que transcende a própria música. Pois na sua essência a estupidez do pesado é o repúdio encolerizado da própria condição “Filho da Puta”, pecaminosa e mortal em que vive o homem.

Na capa, um choque de nuvens carregadas de megatons anuncia fenômenos dantescos sobre o mar. O azul foi ao negro num abraço macabro, e o positivo foi ao negativo como que por encanto, precipitando na estampa perplexa do horizonte confuso a descrição geométrica de um relâmpago serpenteador. Desceu na rota dos elétrons como um raio sobre o oceano, que o acolheu em seu peito com tanta valentia e determinação, quão resoluto e furioso ele desceu. A natureza enxotou de seu reino as pernícies humanas que vagueiam nas entranhas de suas cores místicas e em seus fenômenos íntimos.

Sob a intolerância das forças naturais, elas deixam-se sair pelas portas do oceano, alcançando a praia, onde vagueiam as almas penadas a procura de um lar seguro e promissor. E encontram a mente humana, onde engendram, conquistam e dominam.

Deep Purple - In Rock
Paice mostra uma feroz sequência de hipnotizantes estrondos tirados de sua Ludwig rústica, mas resistente aos seus golpes certeiros. O baterista trata seus pratos como um escravo fugitivo enquanto Gillan solta um verdejante grito como um leão em seu mais duradouro período de cio.

Judas Priest - Unleashed in the East
"Tyrant" mexe tanto com a adrenalina do corpo que deve até dar um nó na espinha de quem tentar dançar ouvindo-a. É pau pra todo lado e faz essas cocotinhas da onda disco enroscarem-se em suas próprias abas cuzagonais!


Texto sobre Akira Takasaki, guitarrista do Loudness:
Guitarrista que nem o Akira Takasaki não se acha em qualquer esquina. O cara tem os dedos mais rápidos do que a eletricidade que corre em casa. Seus dedos lépidos dedilham com precisão impecável o braço de seu machado, fazendo-o cuspir notas milimetricamente encaixadas. O que esse japonês faz no palco é o que era de se esperar de um jovem nascido num país que tem a triste memória de ter levado duas bombinhas na orelha. Nem só de pastel vive japonês, mas também de lavanderia. A verdade é clara, é um povo muito esperto, não é como o português. País que no mapa tem apenas uma polegada, onde vivem milhões de japonezinhos de tudo quanto é jeito e modo diferente. Entre tantos outros existem também os japa-bangers. No show do Loudness a japonezada se masturba, grita, uma tamanha orgia. O vocalista canta como um raro galo japonês!

Texto sobre a banda canadense Exciter:
A tecnologia Marshall, Tama e Gibson ao alcance de bastardos excomungados! O Exciter mostra que morre esganiçado pela garganta, brotando sangue pelos buracos da cabeça mas não se entrega, não renuncia ao Deus Heavy! Soca Dan Beehler, soca! Soca essa porra de bateria e mostre porque você veste sua pele de couro negro e arrebites de aço, seu fucking bastard!

O final da resenha de At War With Satan, do Venom:
O play continua atendendo ao gosto musical de apenas um cidadão, o ágil e intrépido headbanger, cavaleiro de neon por dentro, o metal maníaco jurador. Porque para ele não importa o que o vizinho da direita diz, para ele não importa o que o vizinho da esquerda diz, não importa o que eles dirão. E se você é um desses headbangers que gosta do Venom, ame-o com toda a sua força. Faça-o ritual, anseie-o por ficar só na escuridão para headbanguear nos mistérios da imaginação. Decrete a sua maldição nos domínios do teu reino, rogue a sua praga e lute duro. Leve a nocaute seu opositor. Você não está sozinho. Você quer maior apoio do que deste seu amigo que vem de longe, ainda molhado pelo nevoeiro de Londres?

Accept - Restless & Wild
O acetato vermelho da fera alemã pelo visto é mais uma estilingada na orelha dos chucrutes! Numa terra de cidadãos que sentem o fogo de duas guerras nas costas, nêgo, que o mais burro anda brincando de pega-pega com um computador doméstico e o mais mal-educado cospe no pé do poste como ato de rebeldia, olha, entende na primeira orelhada o som dos branquelos! Aliás, fazer Metal na Alemanha deve ser algo de arrepiar os pelinhos pubianos da esposa do presidente de conselho de censura federal. Logo no início do álbum, Udo solta um berro tão paranóico e comprido que parece que vai morder a bunda de alguma garota que lhe negou uma dormidinha numa tarde chuvosa.

Manowar - Hail to England
Joey DeMaio lança maldições em cada nota executada, despedaça seu baixo em agonia mutiladora. Ross the Boss arrepia os recônditos mais profanos do corpo. Eric Adams vocifera tão afiado que choca-se em contato com a nossa era. A bateria parece ser tocada pelo próprio Lúcifer em êxtase! Scott Columbus detona a estrutura espaço-tempo com suas porradas sônicas.


Comentário sobre um disco do Voivod:
Letras obscuras e carnívoras, ácidas do tipo chupe-seus-ossos. Parece que não tem compromisso com porra nenhuma a não ser com sua Gangue de Aço, que são seus fãs sorrateiros por debaixo das cidades negras. Tocando a loucura das cidades modernas, são como uma sinfonia de filhos da puta! Seu peso é igual a dez elevado a nona potência!

High Power - Les Violons de Satan
Se Sherlock Holmes fosse um headbanger, certamente ele diria que por trás dessas hilariantes guitarras do conjunto estariam duas Gibsons. Quando o vocalista começa a cantar, você percebe que Napoleão Bonaparte, o primeiro anticristo a atingir o estrelato, falou aquela mesma língua. A maneira que escurraçam o metal é digna dos piores egopatas que chegaram ao auge, ao poder e à glória na França.

Tokyo Blade - Night of the Blade
Mas o que mais estraga o disco é o novo vocalista Vic Wright, que é muito americanizado e muito choroso. Ao gravar o LP, ele deve ter sentado no colo do produtor e deixado entrar até os bagos.

The Rods - Let Them Eat Metal
A música “She's Such a Bitch” é um rockaço daqueles de descer a calcinha de qualquer chacrete. Aliás, o tema da música é sobre puta mesmo. Até a capa entra na roda: que mulher gostosa botaram na capa, hein?!?!!

Dorsal Atlântica - Antes do Fim
O Dorsal é um chute certeiro bem no pé do saco do sistema apodrecido. É uma escarrada em cheio na cara da hipocrisia decadente. É uma vigorosa tentativa de mudança de padrões culturais impostos de cima para baixo. Das ondas serenas de Copacabana revolta-se um maremoto. Nas areias cristalinas de Ipanema brota um fruto mitigador. Das encostas verdejantes do Corcovado rolam pedras em avalanche.

Vulcano - Bloody Vengeance
Para um cego, um pingo no "i" passa despercebido. Para um advogado, um pingo no "i" pode significar o ganho de uma grande causa. O Vulcano é um grande advogado do metal com seu satanismo, sua força influenciadora, seus baixos, riffs e bumbos galopantes ao lado dos bramidos de Angel (o popular Uruca) nos vocais. Música pesada, agressiva, infernalmente energizada, garantindo um retorno ultra-satânico e poderoso aos consumidores de black metal hardcorizados, ávidos pela luz que vem das trevas.

Manowar - Battle Hymns
Tempos medievais. Mar turbulento, ondas açoitantes, céu nebuloso. Como que alheia, uma indestrutível embarcação singra a violência das águas, imponente, assustadora. Homens de guerra bradam o seu grito de vitória enquanto é alçada a bandeira do leão sagrado de sua majestade. Ao fundo navios pirata vão lentamente em chamas, a pique. Terra firme, solo montanhoso, aurora gélida. Os soldados da verdade suprema montados em seus corcéis bafejantes, cavalgando orgulhosos em oferenda ao soberano. No fundo do vale, agonizam os lacaios da maldição peçonhenta. Tempos modernos, 1982. Os altares sagrados do metal já estão sendo invadidos pela podridão. Ratos infestam as galerias, vermes proliferam aos montes. A viadice ronda esfomeada, a falsidade recrudesce. Os vingadores estão a postos, sua força herculana irá escurraçar os mentirosos, sua voz ameaçadora bastará para calar os fraquejantes usurpadores. Homens de guerra.




Discoteca Básica #004: The Rolling Stones - Exile on Main Street (1972)

quinta-feira, janeiro 21, 2016


Naquele tempo, eles já carregavam o título de A Maior Banda de Rock do Mundo, como um peso pesado que exibe seu cinturão de campeão. Não havia mais Beatles, não havia mais Jim Morrison, não havia mais Hendrix. A única competição real era o rock operístico do The Who e o então ascendente Led Zeppelin. E, mesmo assim, ao vivo os Stones eram imbatíveis - Jagger piruetando pelo palco, comandando um rugido rock and roll que era afiado e perigoso como o fio de uma navalha. 

Em disco, passavam por seu melhor período, parindo clássico após clássico - de "Brown Sugar" a "Street Fighting Man", de "Let It Bleed" a "Simpathy for the Devil". Embora o Sr. M. tivesse levado Brian Jones - que, enamorado demais pelas possibilidades místicas das drogas, já se mostrava incapaz de produzir um décimo de seu input habitual na banda -, os Stones da virada dos anos 1960 para 1970 progrediam, artística e popularmente, como uma bola de neve. Agora sob o comando de Mick Jagger e Keith Richards, mais do que nunca os Stones mereciam o título de A Maior.

Com a entrada do lírico Mick Taylor no lugar de Jones, os Stones saíam de uma trilogia de álbuns absolutamente brilhantes - Beggar's Banquet (1968, ainda com Brian), Let It Bleed (1969) e Sticky Fingers (1971), mas enfrentavam um novo/velho problema: as drogas. Desta vez era Keith quem flertava com a morte, via heroína. Escondera-se numa vila no sul da França, Nellcote, para poder injetar um pouco de sanidade em sua vida. Mas sanidade era difícil de se achar numa atmosfera rock e, ao invés dela, Keith acabou encontrando mais rock e mais heroína.

Como Keith não saía de Nellcote para coisa alguma, os Stones mudaram-se para lá para poder gravar seu novo disco, cujo título balançava entre Eat It e Jungle Disease. Chamaram o saxofonista Bobby Keys, o trompetista Jim Price e os tecladistas Nicky Hopkins, Billy Preston e Dr. John. Ficaram trancados em Nellcote de julho a novembro de 1971. Quando saíram de lá para Hollywood, onde complementaram e mixaram o disco, traziam nos braços material para preencher três álbuns. Acabaram optando por um álbum duplo e por um terceiro título - Exile on Main Street -, e ofereceram ao mundo o disco mais denso, mais pessoal, mais intrigante e mais controverso de toda a sua carreira.

 

Quem ouviu Exile em 1972 amou ou odiou o disco imediatamente. A maioria odiou, reclamou de falta de foco, mixagem lamacenta e encheção de linguiça. Erraram e acertaram. Primeiro, porque tudo isso era intencional - a massa sonora só podia ser penetrada a facão. Os vocais de Jagger foram enterrados mais do que o costume. Os agudos foram saturados. E, segundo, porque a maioria das músicas era uma sucessão de polaróides rock - imagens de decadência, dor, perigo, desilusão. E de sobrevivência.

Acima de tudo, Exile era um portrait dos Stones no topo de sua forma - faixas como "Tumbling Dice", "Rocks Off", "Soul Survivor" e "Rip This Joint" eram o testemunho de que, quando os Stones resolviam se reunir num estúdio para fazer rock and roll, faziam o melhor rock and roll. Jagger explodia suas tripas em vocais insuperáveis até mesmo por ele. Richards e Taylor trocavam riffs como guerrilheiros na selva. Bill Wyman e Charlie Watts sedimentavam uma construção crazy com uma argamassa indestrutível.

Após Exile on Main Street tornou-se impossível reunir todos os Stones num mesmo estúdio ao mesmo tempo. E os álbuns subsequentes retratavam este insidioso fracionamento. Depois de Exile, salvo faixas excepcionais como "Start Me Up" e "Undercover", os Stones eram um arremedo dos Stones. E Exile era seu melhor testamento, e o derradeiro epitáfio.

(Texto escrito por José Emilio Rondeau, Bizz#004, novembro de 1985)

20 de jan de 2016

Megadeth - Dystopia (2016)

quarta-feira, janeiro 20, 2016

Dystopia, décimo-quinto álbum do Megadeth, marca o início de um novo período na carreira da banda norte-americana. Após seis anos tendo Chris Broderick como companheiro nas seis cordas e uma década ao lado do baterista Shawn Drover, Dave Mustaine agora conta com Kiko Loureiro e Chris Adler ao seu lado (o baixista David Ellefson completa o line-up). E mexer em metade do time, logicamente, traz consequências.

Mesmo sendo um dos nomes pioneiros e mais influentes do thrash metal, o Megadeth mostra-se distante do gênero em seu novo álbum - aliás, como vem acontecendo há um bom tempo. Dystopia soa como um disco de heavy metal atual, contemporâneo e bem agradável aos ouvidos.

Alguns aspectos saltam aos ouvidos. O primeiro, e talvez mais marcante, seja a grande quantidade de trechos pautados pelo uso de guitarras gêmeas e solos, como se Mustaine e Loureiro se desafiassem de maneira constante durante todo o álbum. Isso faz com que Dystopia acabe se destacando em relação aos discos recentes do Megadeth, trazendo de volta a riqueza musical e técnica que sempre marcou a carreira de Dave Mustaine. Instrumentista de mão cheia, o líder da banda parece se sentir desafiado por Kiko Loureiro, sabidamente dono de imensa técnica - ouça “Post American World” e perceba isso que acabei de dizer. O resultado é um brinde pra quem curte a banda e um trampo afiado nas guitarras.

O outro ponto já não é positivo, principalmente no meu modo de ver. Em minha vã inocência, esperava ouvir em Dystopia a exuberância percussionista onipresente no Lamb of God, mas Chris Adler soa de maneira distinta no Megadeth. Isso me frustrou um pouco, porque acredito que o modo de tocar característico de Adler acrescentaria muita agressividade ao Megadeth, renovando ainda mais a sonoridade da banda. No entanto, mesmo com essa pequena decepção, é inegável que o baterista apresenta uma performance consistente, saindo de sua zona de conforto e mostrando uma nova abordagem, mais convencional, de seu instrumento.

Dystopia tem uma produção com timbres que me levaram de volta a Countdown to Extinction (1992). As guitarras soam um pouco saturadas, principalmente na execução das bases. Bateria e baixo constróem uma camada sólida e perfeitamente audível, que sustenta os vôos de Mustaine e Loureiro.

De um modo geral temos uma coleção de boas composições, com ideias interessantes durante todo o disco. O resultado final é um álbum forte, que vai muito além da simples curiosidade em ouvir como o Megadeth soaria com Kiko Loureiro e Chris Adler. A resposta é simples e direta: soa bem e rejuvenescido, com um foco maior nas guitarras, que são protagonistas durante todo o trabalho. Esse fato realça a tradição heavy metal da banda, e deverá agradar bastante os fãs.

Veredito: um bom disco, que proporciona uma audição gratificante.


Discografia Comentada: Baroness

quarta-feira, janeiro 20, 2016
Uma das grandes bandas surgidas no cenário metálico nos anos 2000, o Baroness produz uma música única e repleta de personalidade. Caminhando sobre a trilha do heavy metal na companhia de elementos do rock progressivo, alternativo, indie, sludge e psicodélicos, o grupo liderado pelo vocalista e guitarrista John Baizley anda a passos largos para se tornar uma das grandes referências nos próximos anos.

Formado na cidade de Savannah, na Georgia, em 2003, o Baroness nasceu da banda punk Johnny Welfare and the Paychecks e contava em sua primeira encarnação com Baizley, Tim Loose (guitarra), Summer Welch (baixo) e Allen Blickle (bateria), line-up esse que sofreu alterações até se estabilizar por um longo período.

Porém, durante a turnê de seu terceiro e até agora último disco, Yellow & Green (2012), o quarteto sofreu um sério acidente de ônibus no interior da Inglaterra no dia 15 de agosto de 2012. Havia dúvidas se a banda conseguiria seguir em frente devido à gravidade do ocorrido, e a resposta veio no primeiro semestre de 2013 com o anúncio de que o baixista Matt Maggioni e o baterista Allen Blickle haviam deixado o grupo devido ao acontecido. Para seus lugares a banda anunciou Nick Jost (baixo) e Sebastian Thomson (bateria). Atualmente o Baroness está em estúdio gravando o seu quarto álbum, que ao que tudo indica será produzido por Kurt Ballou (Converge) e deve ser lançado ainda em 2014.

Além de músico, John Baizley desenvolve também um prolífico trabalho como ilustrador. Seu estilo característico, além de estampar as capas dos álbuns do Baroness, está em discos de bandas como Kvelertak, Black Tusk, Kylesa, Torche, Pig Destroyer, Skeletonwitch e Darkest Hour, e mostra que, além do talento como músico, Baizley também é um mestre nas artes.

Duas curiosidades antes de entrarmos na discografia da banda: todos os álbuns lançados pelo grupo até hoje foram batizados com títulos alusivos a cores: as primárias vermelho, azul e amarelo, e a secundária verde (no caso do duplo Yellow & Green, além do roxo que faz alusão aos machucados sofridos pela banda no acidente sofrido pelo grupo em 2012 (Purple, seu mais recente disco). E todos os discos foram lançados em CD e LP pela mesma gravadora, a Relapse, detentora do passe do quarteto.


Red Album (2007)

A estreia do Baroness foi lançada em 4 de setembro de 2007 e impressionou pela alta qualidade apresentada. Produzido por Phillip Cope (vocalista e guitarrista do Kylesa), Red Album traz onze faixas de um heavy metal que alterna momentos pesados com outros mais atmosféricos e progressivos, tudo isso embalado com doses maciças de melodia e pitadas de melancolia em arranjos muito bem construídos. Contando com John Baizley, Brian Blickle (guitarra), Summer Welch e Allen Blickle, a banda mostra-se inspirada em composições fortes e maduras onde o principal destaque são as faiscantes guitarras de Baizley e Brian, que trocam harmonias e notas com entusiasmo e criatividade. Destaque para “Rays of Pinion”, “The Birthing”, “Isak”, “Wanderlust” e “O’Appalachia”. O disco foi bem aceito pela crítica, com a Metal Hammer colocando Red Album como o quarto melhor álbum de 2007 em sua lista de final de ano. Ótima estreia. (Nota 8,5)


Blue Record (2009)

Lançado em 13 de outubro de 2009, Blue Record trouxe duas novidades: a troca de Brian Blickle por Peter Adams e a assinatura de John Congleton (Swans, Okkervil River, The Roots) na produção. O som está mais encorpado e pesado que na estreia, e também menos atmosférico. Há longos trechos instrumentais onde as guitarras se complementam em melodias gêmeas quase celestiais - aliás, uma das marcas registradas do Baroness. “Swollen and Halo”, “Ogeechee Hymnal”, “War, Wisdom and Rhyme”, “The Gnashing” e a fenomenal “A Horse Called Golgotha” são destaques óbvios em um tracklist sólido como uma rocha vulcânica de milhões de anos. A aclamação da crítica foi intensa em relação a Blue Record. O disco recebeu nota máxima da influente revista norte-americana Decibel, que o elegeu álbum do ano em 2009. A não menos importante Metal Hammer colocou Blue Record na décima posição em sua lista de final de ano, enquanto o LA Weekly cravou o trabalho na vigésima posição em sua lista com os maiores discos de metal já gravados. Comercialmente a recepção também foi ótima, e Blue Record alcançou a primeira posição no Heatseekers da Billboard, chart destinado a novos artistas. O álbum recebeu uma edição especial ainda em 2009, com um disco bônus trazendo a performance da banda no Roadburn Festival daquele ano. Se a estreia já havia sido ótima, Blue Record conseguiu ir além. (Nota 9)


Yellow & Green (2012)

O terceiro registro do Baroness é um álbum duplo e foi lançado em 17 de julho de 2012. O mais completo trabalho da banda, Yellow & Green é, fácil, um dos melhores discos de heavy metal gravados nos últimos dez ou vinte anos. Desenvolvendo ainda mais a sua sonoridade particular, a banda deu ao mundo 18 músicas que trazem um metal adornado por características stoner, prog e alternativas. Instrumentalmente brilhante e com um trabalho exemplar de composição, Yellow & Green explora as diferentes facetas que formam a personalidade do Baroness, indo de faixas pesadas e agressivas como “Take My Bones Away”, passando por maravilhas progressivas como “Eula” e experimentações criativas como “Cocainium”. Com a melodia marcando forte presença por todo o álbum, encontramos destaque em outras faixas como “March to the Sea”, “Little Things”, “Foolsong”, “Collapse”, “Back Where I Belong” e nas etéreas “Twinkler” e “Stretchmaker”, esta última instrumental. Yellow & Green é um disco mais introspectivo que os dois primeiros, cuja audição possui o cada vez mais raro poder de transportar o ouvinte para outro lugar. Muito disso se dá através da estrutura das canções, a grande maioria com arranjos que vão se desenvolvendo em crescendos até chegarem aos seus clímax sonoros. Produzido novamente por John Congleton, o álbum foi gravado pelo trio John Baizley (que também assumiu o baixo), Peter Adams e Allen Blickle. A crítica recebeu o disco de braços abertos, com o trabalho recebendo uma nota 9 na Spin e no PopMatters e marcando presença em diversas listas de melhores do ano de 2012 - na da Metal Hammer, alcançou a 14ª posição. Yellow & Green é uma obra-prima, um disco incrível e que, passados quase dois anos do seu lançamento, segue soando excelente a cada nova audição. (Nota 9,5)


Purple (2015)


O Baroness quase acabou em 2012. Durante a turnê de Yellow & Green, o quarteto liderado pelo vocalista e guitarrista John Baizley sofreu um acidente de ônibus quase fatal no interior da Inglaterra, que colocou a carreira da banda em xeque e resultou na saída de dois integrantes. Três anos depois, Purple surge como um atestado de força, um documento de renascimento. Mais enxuto, mais conciso e mais pesado que Yellow & Green, o disco mostra o Baroness reafirmando suas qualidades - como as melodias que parecem criadas por um artesão e a onipresente capacidade de emocionar a cada canção - enquanto resgate elementos que foram deixados um pouco de lado em Yellow & Green, como os sempre criativos riffs. Purple é um álbum emocionante, tanto no sentido de comprovar a capacidade do Baroness em sobreviver a tudo que passou, quanto pela força, criatividade e feeling de suas faixas. Um disco formidável, mais uma vez! (Nota 9)


Além dos três discos de estúdio, o Baroness lançou quatro EPs: First (2004), Second (2005), A Grey Sigh in a Flower Husk (2007, split com o Unpersons) e o ao vivo Live at Maida Vale (2013). Os dois primeiros foram unidos em um só disco na reedição disponibilizada em 2008 e apropriadamente intitulada First & Second (2008). A discografia completa da banda tem ainda os singles A Horse Called Golgotha (2010) e Take My Bones Away (2012).

Steven Wilson - 4 ½ (2016)

quarta-feira, janeiro 20, 2016

Com pouco mais de 35 minutos, 4 ½, novo lançamento de Steven Wilson, é uma coleção de outtakes registrados nas sessões de gravação de seus últimos álbuns. São apenas seis faixas, sendo três delas instrumentais, todas oriundas do processo criativo que deu ao mundo os ótimos Grace for Drowning (2011), The Raven That Refused to Sing (And Other Stories) (2013) e Hand. Cannot. Erase. (2015).

Explicado o contexto, o que temos é Steven Wilson transitando pelo universo sonoro característico de sua carreira solo: o rock progressivo contemporâneo, rico em experimentações e marcado por performances instrumentais excepcionais de cada um dos músicos - incluindo aí feras de alto gabarito como o guitarrista Guthrie Govan e o baterista Marco Minnemann.

Logicamente, há ecos de canções já conhecidas, fato justificado pela natureza das faixas. “My Book of Regrets”, por exemplo, tem passagens que remetem à “3 Years Older”, música que está no último disco do artista. Ela, ao lado de “Don't Hate Me”, são as faixas mais longas e complexas do trabalho, ambas com mais de nove minutos de duração e as marcantes alternâncias de dinâmicas que tanto agradam Wilson e seus fãs. "Don't Hate Me", inclusive, é belíssima e teria lugar de destaque em qualquer um dos álbuns de Steven.

No outro lado da moeda, músicas como “Year of the Plague”, “Sunday Rain Sets In” e “Vermillioncore”, todas instrumentais, funcionam com paisagens sonoras que criam a trilha para os deslocamentos urbanos do dia a dia de cada um de nós.

Sem a pretensão e a profundidade de um álbum completo, 4 ½ traz boas ideias e faixas criativas (uma constante na carreira de Steven Wilson, é preciso frisar). Uma pequena joia, que levanta mais um alicerce na trajetória daquele que é o principal nome do rock progressivo atual.


Discoteca Básica Bizz #003: Elvis Presley - The Sun Sessions (1976)

quarta-feira, janeiro 20, 2016

Como quase tudo no rock, é uma história cercada de lenda. Sam Phillips, dono de uma gravadora em Memphis, queria "encontrar um branco com o som e o sentimento de um negro, para ganhar um milhão de dólares". Elvis Presley, um jovem aspirante a cantor, queria ter o melhor carro da cidade. O encontro dos dois assumiria uma dimensão mitológica, mas não aconteceu facilmente. 

Tudo começou numa tarde do verão de 1953. Elvis, 18 anos, chofer de uma firma de artigos elétricos, estacionou a caminhonete da companhia na sua hora de almoço em frente à Memphis Recording Service, uma subsidiária da gravadora Sun, de Sam Phillips. Ali, pagando quatro dólares, qualquer um podia gravar qualquer coisa num disco de acetato de dez polegadas. Quem cuidava do serviço para Sam era Marian Keisker, ex-Miss Rádio de Memphis, que ficou impressionada com a voz de Elvis. Marian pegou o endereço e o telefone do rapaz e o recomendou vivamente ao patrão, que acabou ouvindo Elvis. 

Os sentimentos de Phillips em relação a Elvis eram ambivalentes. Acreditava no seu potencial, mas não conseguia acertar com ele. Apresentou-o ao guitarrista Scotty Moore e ao baixista Bill Black e fez que iniciassem um verdadeiro laboratório Presley. Finalmente, foi marcada uma sessão para 5 de julho de 1954. Corria tudo morno, como de costume, até que, num dos intervalos, Elvis começou a brincar com uma versão envenenada de um blues de Arthur "Big Boy" Crudup, "That's All Right (Mama)". Sam sentiu aquele estalo e gritou da cabine: "Que é que vocês estão fazendo?". Um dos músicos respondeu: "Sei lá ...". Sam ordenou: "Então descubram. Vamos rodar de novo!". O resultado foi o que um crítico definiu como "a Pedra de Roseta do rock and roll".

A associação de Elvis com Sam Phillips durou 16 meses, até novembro de 1955, quando a Sun Records vendeu o cantor para a RCA por 40 mil dólares. Sam não conseguiu o seu milhão de dólares, mas teve a glória de figurar no centro de uma verdadeira revolução cultural. Já Elvis, com as luvas do contrato, comprou o primeiro de uma frota de Cadillacs. 


Desta breve e insólita colaboração nasceu este punhado de canções que a RCA, muito tempo depois, reuniria num LP com o título de The Sun Sessions. Está tudo ali. A fusão ideal das duas grandes correntes sonoras - a branca e a negra, o country & western e o rhythm & blues - num estilo único, o rock and roll. 

Estão ali o Elvis roqueiro, o Elvis caipira e o Elvis pop. O cantor romântico, às vezes até meloso, que arrebatava os corações carentes de todas as latitudes, de todas as idades. É curioso ouvir numa canção como "I'm Left, You're Right, She's Gone" os Beatles dos primeiros tempos. É intrigante captar, em "I'll Never Let You Go", a sensibilidade vocal lancinante do Lennon da fase pós-Beatles.

Como escreveu Albert Goldman: "Vinte anos antes, os músicos de jazz estavam fazendo o mesmo truque, tocando canções da maneira convencional e depois improvisando sobre elas. Vinte ou trinta anos antes do swing, o truque era o ragtime. O que Elvis fez nas sessões da Sun foi repetir instintivamente aquele processo de inovar a música recarregando o seu ritmo de um modo que tem caracterizado cada revolução estilística na história da música popular do século XX. É isso que dá às sessões da Sun sua qualidade arquetípica".

Uma faixa resume, particularmente, a vitalidade deste som que marcaria a nossa época. É "Good Rockin' Tonight", com o baixo na marcação do boogie e a guitarra já saindo de suas funções meramente rítmicas para se alçar aos solos que aliciariam toda uma geração, enquanto Elvis faz o anúncio: "Well, I heard the news, there's good rockin' tonight."

(Texto escrito por Roberto Muggiati, Bizz#003, outubro de 1985)

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