15 de jul de 2016

Ozzy dá seu veredito pessoal sobre o julgamento do Led Zeppelin

sexta-feira, julho 15, 2016

Em entrevista à Rolling Stone, Ozzy Osbourne falou sobre a recente vitória de Jimmy Page e Robert Plant nos tribunais. A dupla do Led Zeppelin era acusada de ter plagiado a banda Taurus, na composição de “Stairway To Heaven”. 

O Madman discorda. “Isso nunca deveria ter chegado aos tribunais. Ouvi a original e há uma leve similaridade. Mas não dá para dizer que qualquer música é uma cópia por conta de uma parte de guitarra. Se você ouvir ‘All Right Now’, do Free e depois ‘Rock n Me’, de Steve Miller, constatará que é o mesmo riff. Mesmo assim, ninguém processou ninguém. Conheci John Bonham e todos os outros. Era uma banda fenomenal, não precisaria plagiar alguém”.



Leitores da Rolling Stone elegem a “banda brasileira ideal"

sexta-feira, julho 15, 2016

A última quarta, 13, marcou o Dia do Rock de 2016. Para celebrar a data, a Rolling Stone Brasil organizou uma eleição com os leitores e internautas que nos acompanham nas redes sociais, a fim de montar a “banda brasileira ideal”.

Foram abertas quatro enquetes: a de “baixista ideal”, “guitarrista ideal”, “vocalista ideal” e “baterista ideal”, com alguns dos melhores músicos nacionais de todos dos tempos. A ideia era não ter barreiras: aposentados ou na ativa, vivos ou não, todos foram elegíveis para a formação dos sonhos.

O resultado final evidenciou uma esperada característica. Apesar de ícones em seus ofícios, os vencedores não necessariamente têm relação musical entre si (além de fato de estarem englobados no gênero rock). E era este justamente o intuito da enquete: juntar grandes roqueiros distintos para imaginar o que sairia deste “caldo” heterogêneo.

Abaixo, veja quem foram os eleitos para formar o quarteto “ideal” do rock nacional. Para ver como os derrotados foram ranqueados nas enquetes, clique aqui para baterista, aqui para guitarrista, aqui para vocalista e aqui para baixista.

Apesar de o resultado ser definitivo, ele deve gerar discordância entre os leitores. Portanto, sinta-se à vontade para comentar qual seria a sua banda ideal no fim da postagem. 

Vocalista: Lucas Silveira (Fresno)
Guitarrista: Edgard Scandurra (Ira!)
Baixista: Champignon (Charlie Brown Jr.)
Baterista: João Barone (Paralamas do Sucesso)




Renato Russo: vocalista ganha álbum tributo com bandas indie

sexta-feira, julho 15, 2016

As bandas Far From Alaska (de Natal - RN), Molho Negro (de Belém - PA), Selvagens à Procura de Lei (de Fortaleza - CE) e Vespas Mandarinas (de São Paulo - SP) integram o elenco indie do disco idealizado por Giuliano Manfredini em tributo a Renato Russo (1960-1996), cuja morte vai completar 20 anos em 11 de outubro. Filho do cantor e compositor carioca projetado como vocalista e compositor da banda brasiliense Legião Urbana, Giuliano quer conectar a obra do pai ao universo do indie rock brasileiro.

Intitulado Viva Renato Russo - 20 Anos, o tributo também traz no elenco as bandas Codinome Winchester (de Campo Grande - MS), República (do Rio de Janeiro - RJ), Supercordas (de Paraty - RJ) e Uh La La! (de Curitiba - PR). Integrante da extinta banda brasiliense Finis Africae, Ronaldo Pereira também cuida da produção do disco, feito sob a direção artística de Giuliano.

O álbum chega ao mercado fonográfico em outubro e vai ter edição física em CD distribuída gratuitamente a algumas instituições e fãs-clubes. Já a edição digital vai estar disponível em plataformas de streaming.




Black Sabbath: show em Moscou completo e em HD

sexta-feira, julho 15, 2016

Em seu último show na Europa para todo o sempre, forever and ever, o veteraníssimo grupo “europeu” Black Sabbath, entidade do rock que se despede do Brasil em novembro, se apresentou terça-feira passada no estádio olímpico de Moscou, na Rússia. 

Considere Europa sem contar a Inglaterra brexit, porque o final dessa história acontece meeeeesmo em fevereiro do ano que vem na cidade britânica de Birmingham, terra natal do grupo de Ozzy Osbourne, Tony Iommi e Geezer Butler, quando o Sabbath faz os dois concertos derradeiros depois de um giro inglês. E fim.

O show russo desta semana, para 75 mil pessoas e que mostrou um ex-vida loka metal Ozzy afiadíssimo, embora quase se desintegrando (67 anos com corpinho de 76), teve 14 músicas e pouco mais de 1 hora e meia de duração. O vídeo da performance toda está aí embaixo, junto com o setlist.

Agora, o Black Sabbath volta aos palcos apenas daqui um mês, meados de agosto, para uma enorme despedida de shows nos EUA, e despenca para a América do Sul no finalzinho do ano para shows em Porto Alegre, Curitiba, Rio e São Paulo. O show do Morumbi está marcado para 4 de dezembro.

Jack White: músico publica carta aberta em defesa da igualdade de gênero

sexta-feira, julho 15, 2016

Jack White foi designado pela prefeita de Nashville, Megan Barry, a integrar um conselho formado por 45 pessoas, que irá discutir novas políticas visando a igualdade de gênero no mercado de trabalho. Após aceitar a nomeação, o músico publicou uma carta aberta sobre o assunto.

“Obrigado à prefeita Barry pelo convite para integrar o conselho. Todos os seres humanos merecem ser tratados com igualdade em suas vidas sociais, financeiras e profissionais. Em minha vida artística, sempre considerei injusto um baterista ganhar menos que um cantor nas gravações que produzi, simplesmente por um ter empresário melhor que o outro. Ambos estão criando, independente de função ou tempo de experiência. Deveriam receber o mesmo valor. E quanto a um flautista ganhar mais por ser homem? Considero isso ridículo.

É constrangedor que, em pleno 2016, ainda vejamos diferenças de benefícios e salários por conta de gêneros. É algo que deveria ter sido resolvido ainda no século passado. Fico triste por termos que agir contra a situação a essa altura. Se alguém faz um trabalho, o benefício deve ser o mesmo para qualquer ser humano. Como proprietário da gravadora Third Man Records, localizada desde 2013 em Nashville e Detroit, tenho orgulho de dizer que pago o mesmo valor a qualquer empregado, independente de gênero. 15 dólares por hora a todos. Encorajo que todos os pequenos negócios façam o mesmo. Você não vai quebrar por conta disso. Não é certo que uma pessoa precise de dois empregos para ter o que comer e onde morar. Se uma micro empresa como a minha pode fazer isso, as bilionárias, como o Walmart, também podem.

Desde 2015, todos os meus funcionários possuem benefícios como plano de saúde, algo que fico feliz em oferecer, por considerar um direito básico à sociedade, não uma maneira de empresas capitalizarem. Também ofereço seis meses de licença-maternidade, além de três no caso de paternidade, ambos remunerados. Nada é mais importante que uma nova vida e alma sendo trazida ao mundo. Os pais não devem se preocupar com nada além do bem estar da criança neste momento. Se minha pequena companhia pode fazer isso, McDonalds e General Motors também conseguem.

Também quero ressaltar que as questões relacionadas à sexualidade dizem respeito apenas ao indivíduo, não a quem o emprega ou ao governo. Se alguém nasceu em determinada realidade ou com diferenças físicas, não deve ser tratado de forma degradante por conta disso. Ao escolherem se representar como transgêneros ou de gênero neutro, isso não deveria afetar seus salários, benefícios ou a maneira como são tratados por outros seres humanos. Muito obrigado”.




Discoteca Básica Bizz #060: The Who - The Who Sell Out (1967)

sexta-feira, julho 15, 2016


Na definição de Pete Townshend, eles eram no começo "meramente caras com narizes grandes e genitais pequenos tentando estar nas manchetes". OK, mas eram mods, com suas roupas impecáveis e ar invocado, membros de um grupo da juventude britânica que afirmava sua personalidade através de um modo estilizado de se vestir, de um comportamento intempestivo, das gírias e, é claro, das preferências musicais - o soul da Motown e Stax.

Foi nesse ambiente onde circulavam no final de 1963, ainda com o nome The High Numbers, que foram descobertos pelos então cineastas Kit Lambert e Chris Stamp. A dupla decidiu empresariar a banda e, para isso, trocou seu nome pelo que usavam anteriormente - The Who. O próximo passo foi realçar a aura da rebeldia e violência que impregnava suas apresentações. Assim, Townshend - que já impressionava por suas incríveis peripécias no palco - passou a deixar um rastro de guitarras destruídas por onde o grupo tocava, assim como Keith Moon literalmente demolia o seu kit de bateria após cada show. O complemento ideal era garantido pela técnica calculada do baixista John Entwistle e a presença e voz potente de Roger Daltrey.

Ao longo de 1965 surgiriam os primeiros compactos da banda, clássicas composições de Townshend, como "I Can't Explain", "Anyway, Anyhow, Anywhere" e "My Generation", que, ao lado do álbum de estreia - My Generation -, os consolidaria como uma das sensações do rock britânico. No ano seguinte uma nova sucessão de compactos, o segundo LP - A Quick One - e uma arrasadora tour pelos EUA projetaram definitivamente o nome daquele bando de malucos que tocavam incrivelmente alto, detonando os equipamentos e mesmo os hotéis por onde passavam. Eles estavam nas manchetes.



De volta à Inglaterra, o Who começou a preparar o terceiro LP, com a principal preocupação de abordar o relacionamento entre sua música e os meios de divulgação e consumo a ela associados. O resultado foi The Who Sell Out, que já revelava suas intenções a partir da capa: os quatro membros do grupo em anúncios (Pete com um desodorante, Roger mergulhado em feijão enlatado, Keith com um creme antiacne e John promovendo um curso de musculação). A banda assumia que era só mais um produto à venda.

Musicalmente, o LP foi concebido como se fosse um dos programas das rádios piratas que na época proliferavam em solo inglês, com as canções intercaladas por jingles e anúncios diversos. Desde a abertura, com o psicodelismo de "Armenia City in the Sky" (composta por Speedy Keen) até a longa canção final, "Rael (1 and 2)" - que prenunciava as óperas-rock que se seguiriam -, ficava claro que Townshend direcionava o Who para outras aventuras sonoras, além de suas obsessões mod. Músicas como "Tattoo", "I Can See For Miles" e, especialmente, a etérea "Our Love Was, Is" mostravam uma natural expansão da musicalidade do grupo, sem nunca perder contato com suas raízes.

Esse processo alcançaria a consagração popular com Tommy (1968) - um fantasma que iria acompanhar a banda pelo resto de seus dias - e resultaria em mais dois álbuns essenciais: Who´s Next (1971) e Quadrophenia (1973), este um derradeiro tributo à geração mod. A partir daí, apenas mais dois LPs menos expressivos até a morte de Keith, em 1978. Os discos e comebacks realizados desde então só serviram como um triste e interminável epitáfio para uma carreira tão gloriosa. Uma pena.

(Texto escrito por Celso Pucci, Bizz #060, julho de 1990)

14 de jul de 2016

Documentário conta a história da revista Valhalla

quinta-feira, julho 14, 2016

"A Valhalla sempre foi muito fiel aos leitores e aos fãs do metal!" Essas são as palavras de Rafael Bittencourt, guitarrista do Angra, a respeito da revista Valhalla, uma das principais publicações impressas especializadas em rock e heavy metal editadas no Brasil de 1996 a 2007.

Intitulado VMM - Valhalla Metal Magazine, o curta reúne entrevistas com pessoas que fizeram parte da equipe da revista, como o fundador e editor Eliton Tomasi, o fotógrafo Flávio Hopp, o colunista Amyr Cantusio Jr, além de personalidades do rock nacional, como o já citado Rafael Bittencourt, o proprietário da Die Hard Records, Fausto Mucin, entre outros.

Fundada em julho de 1996 ainda no formato fanzine, a Valhalla teve um total de 42 edições publicadas ao longo de 11 anos de atividades. Nesse período, chegou a fazer parte do rol de publicações da editora HMP, também responsável por outras revistas de destaque do mercado editorial voltado a música como a Cover Guitarra, Cover Baixo, Batera e Percussão, etc, e nos dois últimos anos de atividades, passou a ser lançada no Brasil como a versão nacional da revista alemã Rock Hard, sendo então chamada Rock Hard-Valhalla.

Para o diretor Lucas Gervilla, que também chegou a ser colaborador da Valhalla, trabalhar neste documentário foi um desafio. "O formato cinema documentário é sempre um desafio, pois cada filme apresenta suas particularidades. No caso do VMM o desafio foi contar em 15 minutos uma história de mais de uma década e que envolveu um número enorme de pessoas, inclusive eu. Ser colaborador da Valhalla foi meu primeiro trabalho dentro da área de comunicação, isso faz com que eu tenha um carinho especial pela revista. Hoje, mais de dez anos depois, poder fazer um filme sobre a revista é muito gratificante. Também foi muito legal ouvir as pessoas entrevistadas falarem sobre suas experiências e lembranças da Valhalla".

Ainda de acordo com o diretor, a ideia do filme foi não ter uma pauta pronta, mas permitir que os entrevistados falassem livremente sobre suas memórias da revista. "A partir dessas bate-papos fomos pensando em como construir uma narrativa que contemplasse esses 11 anos de Valhalla. O resultado foi bastante satisfatório. O público pode esperar um filme que resgata o espírito do faça-você-mesmo que a Valhalla sempre teve. Esperamos que isso traga boas lembranças aos antigos leitores e instigue as pessoas que não chegaram a conhecer a Valhalla a procurarem por uma crítica especializada e sem papas na língua".

Com produção executiva de Vinicius Vieira Tomasi, o projeto foi beneficiado com recursos da LINC - Lei de Incentivo a Cultura - da cidade de Sorocaba, onde a revista foi fundada e sempre manteve sua redação. "O apoio da LINC e de toda sua equipe técnica foi fundamental", declara o produtor. "Na verdade a LINC tem o maior papel na realização deste projeto. Através dela, não só esse, mas muitos outros projetos tem sido beneficiados e assim tanto a classe artística como a população da cidade em geral tem ganhado com essa expansão e enriquecimento cultural que vive Sorocaba.

VMM - Valhalla Metal Magazine
Direção: Lucas Gervilla
Direção de Produção: Marta Schneider
Produção Executiva: Vinicius Tomasi

Mulher, negra e feminista: Betty Davis, a fagulha que inspirou o jazz fusion e revolucionou o funk

quinta-feira, julho 14, 2016


A história oficial é contada pelos vencedores. Por isso, se sacudirmos a memória do mundo, descobriremos sempre algum herói ou heroína que injustamente acabou deixado pra trás. Num momento como o atual, no qual a afirmação da força feminina e o protagonismo da mulher cada vez mais é justamente exigido e sublinhado, parece ser o timing perfeito para redescobrirmos ou enfim tomarmos conhecimento de uma dessas figuras notáveis, que permanece soterrada sob o racismo, o ostracismo, a sombra de outros homens e o peso da própria história: é preciso, antes tarde do que tarde demais, dar a devida atenção à obra e à vida de Betty Davis.

Se a apresentássemos como simplesmente a segunda mulher de Miles Davis, estaríamos cometendo uma tremenda injustiça, ainda que a informação esteja correta. Se disséssemos que ela foi responsável pela virada do maior trompetista de todos os tempos na direção do fusion, misturando o jazz com o rock e o funk, seria a mais pura verdade. Ainda assim, não estaríamos nem de longe sendo justos com a história de Betty.

Podemos chamá-la de um ícone histórico ainda a se descobrir. Uma desbravadora, presa na vanguarda da música negra do final do início dos anos 1970, uma força feminina em um universo masculino. Nas palavras do próprio Miles, registradas em sua autobiografia de 1989: “Se Betty estivesse ainda cantando hoje, ela seria como Madonna, ou como Prince, mas como uma mulher. Ela deu início a tudo isso. Ela simplesmente estava a frente de seu tempo”.

A referencia à Madonna e Prince é precisa, afinal, tudo na musicalidade e na própria vida de Betty vinha de sua força sexual. Mais de uma década antes de Like a Virgin ou Purple Rain – e pouco mais de uma década depois de Elvis trazer a provocação sexual para a ribalta da música popular – Betty cantava, sentia, oferecia e ilustrava a sexualidade direta, provocadora, explicita e feroz sobre a qual Madonna e Prince construiriam os artistas que foram.

A mesma sexualidade explicita que, aliada ao seu talento como compositora (sim, ela escrevia a maioria das suas canções), sua voz rasgada e seu balanço, forjou sua personalidade, foi também a força que a impediu de ser reconhecida como artista. Nem os EUA nem o mundo estavam prontos para, em 1973, aceitar uma personagem tão desafiadora e explícita quanto Betty Davis foi. Muitos de seus shows foram boicotados por grupos religiosos e até cancelados, e sua estrela acabou nublada pela controvérsia que provocou.

A verdade é que Madonna, perto de Betty, soa mais como uma adolescente descobrindo o sexo (mais como uma virgem) do que propriamente com o furacão erótico de Betty. E nem falem em Lady Gaga: é mais fácil pensarmos em alguma dama do funk carioca para uma comparação mais possível com a força provocadora de uma cantora como Betty Davis.



Ainda assim e apesar de tudo isso, é impossível não falar de sua influência sobre a carreira de Miles, tão grande que não seria exagero dizer que, sem ela, o maior nome da história do jazz haveria permanecido soterrado sob os escombros de seu próprio êxito. Feito um fóssil de um gigante do passado, quando Miles e Betty, então uma modelo de 23 anos, se conheceram em 1967, o trompetista vivia um momento bastante difícil em sua carreira. Desde que havia revolucionado o jazz diversas vezes ao longos da década de 1950 com clássicos como Birth of the Cool, Sketches of Spain, e principalmente Kind of Blue (indiscutivelmente o maior disco da história do jazz), tanta coisa havia acontecido a partir do surgimento do rock que, por maior que Miles fosse, sua música se encontrava resignada a certo ostracismo anacrônico a que os clássicos estão sempre sujeitos. Foi preciso que Miles conhecesse e se apaixonasse por Betty para que pudesse realizar a maior transformação estética de sua carreira – e voltar a revolucionar o jazz, sob influência principalmente de Jimi Hendrix e Sly Stone, ambos apresentados tanto pessoalmente quanto musicalmente a ele por sua segunda mulher.

Betty conhecera Hendrix e Sly durante seu período como modelo, e viu em seus jovens e geniais amigos músicos a faísca possível para reacender o barril de pólvora que havia em Miles e seu trompete. As guitarras distorcidas e cósmicas de Hendrix e o forte funk experimental de Sly & The Family Stone levaram Miles a criar o seminal álbum Bitches Brew, de 1970, um disco elétrico, misturando sonoridades diversas e orientando o jazz na direção de um rock solto e improvisado, que viria a se tornar seu primeiro disco de ouro, e peça essencial para a fusão entre rock, funk e jazz. Em suma, quem quiser fique à vontade para afirmar que Betty Davis também inventou o fusion.

O casal se separou em menos de um ano, com Miles acusando Betty de ter tido um caso com Hendrix (fato negado por ela até hoje) e, ainda que tivesse realizado já uma série de maravilhosas gravações no final dos anos 1960 (algumas inclusive produzidas por Miles) foi só em 1973 que a carreira de Betty de fato começou – com seu disco de estreia, batizado com seu nome. Até então, ela era conhecida como a dona do rosto na capa do disco Filles de Kilimanjaro, lançado por Miles em 1968.


A maioria das faixas no disco Betty Davis foi escrita por ela mesma, tratando de sexo, poder, frustração e desejo feminino com uma franqueza radical e forte. Se o disco é até hoje considerado fundamental para o funk rock, e formador de muito do que viria ser a música negra da década de 1970 e a música pop da década de 1980, a atitude abertamente erótica e provocadora de Davis era demais para a época. A ideia de uma furiosa rainha do funk, uma indomável pantera negra com um microfone na mão, cabelo afro, roupas coloridas, botas vertiginosas e uma beleza singela e agressiva, elevando o funk a extremos e liderando uma banda formada por homens, definitivamente não era algo fácil de se digerir no inodoro cenário cultural americano do início da década de 1970.

Apesar disso, em 1975 Betty assinou com a lendária gravadora Island Records, para lançar o disco planejado para fazer decolar de ver sua carreira: Nasty Girl (Garota Perversa, Má, Suja). O disco é, na mesma medida, de qualidade impecável e conteúdo bastante arriscado. Destaca-se a espetacular balada "You and I", escrita em parceria com Miles (já seu ex-marido) e com arranjos assinados por ninguém menos que o maestro Gil Evans. Apesar da dedicação de Betty e da enorme promoção feita pela gravadora, Nasty Girl não alcançou o sucesso esperado, e a resposta para o enigma parece ser a mesma que perseguiu Betty ao longo de toda sua carreira: sua música era pesada demais para as rádios negras, e funky demais para as rádios brancas (e sua temática avançada demais para todo mundo).

O fracasso comercial de Nasty Girl foi demais para Betty, que enfim desistiu da carreira e se mudou para Pennsylvania, onde vive até hoje, reclusa e misteriosamente silenciosa a respeito de seu passado. Seus discos e sua postura, porém, desde o início dos anos 2000 voltaram a ser reconhecidos pelo público e crítica. Um documentário sobre ela está sendo preparado, e aparentemente enfim seu lugar no Olimpo da música negra parece estar sendo garantido.

Há quem diga que a imagem de Betty se sobrepunha a sua música. Outros afirmam que ela não conseguiu carregar o fardo do hype criado ao redor de seu nome pela sombra de outros nomes. O que parece se comprovar, com o início da justa (ainda que tardia) retomada de sua importância, é que ela era simplesmente uma dessas artistas que ia ao limite, a fim de expandir nossas noções do que é possível, superando barreiras e provocando a todos num solitário desafio musical, pessoal, emocional, racial e feminista – que teve de esperar por quarenta anos o mundo correr atrás para enfim sentir sua própria força como artista.



Discoteca Básica Bizz #059: Sly and The Family Stone - Stand! (1969)

quinta-feira, julho 14, 2016


Eram duas da manhã do dia 17 de agosto de 1969 quando Sly Stone - usando uma veste branca de franjas longas e imaculadas luvas de pelica - subiu ao palco de Woodstock para detonar a mais selvagem e extasiástica celebração comunitária jamais vista na história da música pop. Ao comando da palavra mágica "higher", uma horda de quatrocentas mil pessoas dançou e suou sobre um mar de lama, só permitindo que seu xamã - já completamente afônico - a deixasse após o quarto bis! Congeladas pelas lentes do cineasta Mike Wadleigh, parte dessas imagens ganhou o mundo, tornando Sly Stone uma das grandes celebridades do final dos anos 1960.

Só que ele era muito mais do que uma overnight sensation. Praticamente sozinho modificaria radicalmente a estrutura do soul, injetando nele cores e sons da nascente psicodelia. O resultado era algo totalmente diferente para a época: "a whole new thing", como ele mesmo orgulhosamente anunciaria no título de seu LP de estreia, de 1967. 

As origens de Sly, ou Sylvester Stewart, foram essenciais para o ineditismo de sua música. Embora nascido no Texas (onde, aos cinco anos, já tocava guitarra e bateria), foi num subúrbio de San Francisco que ele se criou, o que o levou a envolver-se desde cedo com o emergente rock da costa oeste.

Na Autumn Records, por exemplo, Sly compôs e produziu hits para grupos como Beau Brummels e o Great Society, de Grace Slick. Como DJ da KSOL, a segunda rádio black da área, ele dinamitaria a segmentação da emissora ao intercalar singles da Motown e Stax com canções dos Beatles e Bob Dylan. Todavia, foi no intervalo destas funções que ele criou seu projeto-mor: a banda The Stoners, mais tarde rebatizada The Family Stone. No line up, seus irmãos Freddie (guitarra) e Rose (voz, piano), o primo Larry Graham Jr (baixo), Cynthia Robinson (trompete), Jerry Martini (sax) e Greg Errico (bateria).



A partir desta base intersexual, interracial (além de primos, Martini e Errico eram brancos) e consanguínea, a família de pedra urdiu - junto aos subestimados Chamber Brothers - a fusão acid/soul/rock. Se é verdade que o primeiro álbum apenas sugeriu o que viria a seguir, os subsequentes Dance to the Music e Life (ambos de 1968) souberam preparar as massas para a explosão de Stand!

Gravado em Nova York e Hollywood, o disco alterou definitivamente o curso da música negra, batendo recordes de vendas durante os dois anos em que permaneceu nas paradas. Incrustadas em seus sulcos, estavam as faixas que edificaram o nome da banda: a intoxicante "I Want to Take You Higher", a anti-racista "Everyday People" (que consagrou a expressão "different strokes for different folks"), a fluída e ritmicamente complexa "Sing a Simple Song" e o suingue politizado de "Stand!", logo adotada pelos Black Panthers como hino do partido.

No entanto, foi no longo tema instrumental "Sex Machine" que Sly and The Family Stone anteciparam os sons que, no correr dos anos, desdobraram-se em funk, hip hop, rap e até mesmo no rock mimético de bandas como Dan Reed Network, MDMA, Fishbone e Stone Roses (vide "Fool´s Gold"). Lógico que George Clinton, Prince e seus acólitos também não ficaram imunes à tamanha influência. 

Com o fim da era hippie, o recrudescimento do racismo, o massacre no presídio de Attica e a capitulação de seu mentor à cocaína, Sly and The Family Stone despencariam em queda livre ao longo dos anos 1970. Mesmo assim, o seu legado musical já estava irremediavelmente consolidado.

(Texto escrito por Arthur G.Couto Duarte, Bizz #059, junho de 1990)

13 de jul de 2016

The Baggios: banda lança mini doc mostrando turnê pelo México

quarta-feira, julho 13, 2016

A banda sergipana The Baggios é um dos nomes mais bacanas do Brasil e já rodou o país levando seu blues rock poderoso por aí.

Entre os dias 03 e 12 de Dezembro do ano passado, a dupla, que está finalizando um novo disco de estúdio, foi até o México e por lá fez nove shows além de ter dado entrevistas e divulgado a música brasileira no país da América do Norte. Para mostrar ao mundo como foi esse rolê por terras mexicanas, a banda produziu um mini documentário e é com muito prazer que promovemos hoje, no Dia do Rock, a estreia dos bastidores do The Baggios em turnê pelo México.

Você pode assistir ao vídeo logo abaixo, com cenas de shows, bastidores, e uma música em parceria com a banda local Los Daniels.


Guns N’ Roses: confirmados oficialmente cinco shows no Brasil

quarta-feira, julho 13, 2016

Através de postagem em seu Facebook, a produtora Mercury Concerts confirmou a perna brasileira da Not is This Lifetime Latin America Tour/2016, que trará o Guns N’ Roses de volta ao Brasil no mês de novembro.

Serão cinco shows no país, nas cidades de Porto Alegre (no Beira Rio), São Paulo (no Allianz Park), Curitiba (na Pedreira Paulo Leminski), Rio de Janeiro (em local a confirmar) e Brasília (no Estádio Nacional).

Mais informações e respostas para dúvidas na página da Mercury Concerts.


Dia Mundial do Rock: relembre 10 obras-primas que completam 50 anos em 2016

quarta-feira, julho 13, 2016

O ano de 1966 foi o princípio de um sonho e o início de um pesadelo. Há exatos 50 anos o movimento hippie ganhava corpo e vivia seu momento mais florido e idealista. Se o auge de popularidade do movimento viria a ser no ano seguinte e até o fim da década (com os festivais e o surgimento de grandes artistas como Jimi Hendrix e Janis Joplin), foi em 1966 que o amor primeiro se opôs à guerra, e o sonho de uma realidade jovem e nova em mentes expandidas melhor se levantou contra o sistema e o velho establishment.

De 1967 até 1970 a situação política não só nas Américas e na Europa como na África e na Ásia se agravaria de tal forma que o que era puro sonho rapidamente se tornaria um confuso e assustador pesadelo. Mas em 1966, tudo ainda eram flores, de um sonho contundente e verdadeiramente questionador. O movimento hippie foi, afinal, o último grande levante popular que quis realmente transformar o mundo, para além das artes e das comunidades, em um projeto jovem, novo e radicalmente livre. Foi nesse contexto e ano que se deu uma sucessão de discos revolucionários, que viriam a transformar para sempre nossas noções do que a música pop e jovem poderia alcançar. 

Os 50 anos dessa lista de obras primas lançadas em 1966, portanto, não poderiam passar em branco, ainda mais no dia do Rock. A ordem dos discos nessa lista é meramente cronológica.


Sounds of Silence – Simon & Garfunkel (lançado em 17/01/66)

O segundo disco da dupla Simon & Garfunkel, Sounds of Silence é a primeira grande reunião de repertório de Paul Simon, um dos maiores compositores da música americana. O disco traz canções como "I Am a Rock" e "Kathy’s Song", além, é claro, da imbatível "The Sound of Silence", um dos grandes clássicos da década e uma das mais icônicas canções folk de todos os tempos. Não por acaso, o disco foi incluído entre as obras a serem preservadas pela biblioteca do congresso americano, por sua relevância “cultural, histórica e estética”.


If You Can Believe Your Eyes and Ears – The Mamas and The Papas (lançado em março de 1966)

Além de trazer os dois grandes clássicos da banda, "Monday, Monday" e "California Dreamin", o disco de estreia do The Mamas and The Papas tem como destaque não só o talento vocal dos quatro membros, a figura estelar de Mama Cass, a produção fonográfica e estética impecável de Lou Adler, mas principalmente uma visão um pouco mais sombria da ensolarado e idílica Califórnia. Misturando soul, folk, rock e pop, o disco nasceu para ser o que ainda é: um clássico.


Aftermath – The Rolling Stones (lançado em 15/04/66)

O quarto disco dos Rolling Stones é um marco na carreira da banda por pela primeira vez reunir um repertório composto inteiramente de canções escritas por Mick Jagger e Keith Richards. Além disso, Aftermath significou um salto estético dentro da sonoridade dos Stones, graças principalmente ao gênio de Brian Jones. Dois anos antes de morrer, o guitarrista decidiu, sob influência do que os Beatles estavam fazendo, introduzir no disco instrumentos como a cítara, a marimba, o órgão e o koto. O disco deu à luz a clássicos como "Lady Jane", "Under My Thumb" e "Out of Time", e se destaca como primeiro grande álbum de uma carreira tão grandiosa quanto a própria história do rock.


Blonde on Blonde – Bob Dylan (lançado em 16/05/66)

A disputa pelo título de melhor disco do ano é dura, mas certamente Blonde on Blonde, de Bob Dylan, está no pódio. O sétimo disco do bardo do folk rock significa a imersão absoluta de Dylan em um universo urbano, elétrico, drogado e agudamente moderno, fechando com puro ouro sua trilogia de obras primas de rock dos anos 1960 (depois de Bringing It All Back Home e Highway 61 Revisited, ambos de 1965). Como em todos os discos desse período na obra de Dylan, o repertório é inteiro composto por grandes canções, e impressiona que aos 25 anos Dylan reunisse em um mesmo disco músicas do quilate de "Just Like a Woman", "I Want You", "Visions of Johana" e "Rainy Day Woman #12&35".


Pet Sounds – The Beach Boys (lançado também em 16/05/66)

Não fosse por Revolver, dos Beatles, e o título de melhor disco do ano de 66 (e um dos melhores de todos os tempos) estaria facilmente garantido a Pet Sounds, dos Beach Boys. Revolucionário em tudo, o disco foi inteiro concebido e criado, aos 24 anos, por Brian Wilson, um dos grandes gênios da história do rock. Sua proposta estética, ornamental e de arranjo impressiona, e basta dizer que sem Pet Sounds não haveria Sgt. Pepper’s, dos Beatles (disco pensado por Paul McCartney para superar o trabalho de Brian em Pet Sounds). Como se não bastasse, o repertório é de uma qualidade e beleza poucas vezes alcançado, e tem seu auge em "God Only Knows", uma das mais belas canções de amor de todos os tempos.


Freak Out! – The Mothers of Invention (lançado em 27/06/66)

Reconhecido como um dos primeiros discos conceituais da história do rock, o trabalho de estreia do Mothers of Invention é inteiramente construído ao redor da visão crítica sobre a cultura pop americana do lendário líder da banda Frank Zappa. Inovador em tudo, Freak Out! é um dos primeiros discos duplos da história do rock (e provavelmente o primeiro disco duplo de estréia de uma banda). Indo do blues às colagens sonoras de vanguarda, o disco é verdadeiramente singular, como um trabalho um tanto surrealista e experimental, apontando para o universo de profunda invenção, intensa produção e criatividade que marcaria a carreira de Zappa dali em diante.


Revolver – The Beatles (lançado em 05/08/66)

Há quem diga que Revolver é o melhor disco dos Beatles. Há quem diga que Revolver é o melhor disco de todos os tempos e ponto final. Seja como for, junto de seu antecessor, Rubber Soul, e de seu sucessor, o imbatível Sgt. Pepper’s, esse disco solidificou a posição dos Beatles como a melhor banda de todos os tempos. Um dos mais arrojados e inovadores discos em todos os sentidos (das técnicas de gravação ao repertório, passando pelos arranjos, o estilo e as experimentações sonoras e temáticas), Revolver é o grande passo além da música pop de então. Seu repertório impecável traz "Eleanor Rigby", "Taxman", "For no One", "Here There and Everywhere", "Yellow Submarine", "She Said She Said" e "Tomorrow Never Knows", entre outras. Um disco para se mergulhar de cabeça e nunca mais sair.


The Psychedelic Sounds of the 13th Floor Elevators – The 13th Floor Elevators (lançado em 17/10/66)

Roky Erickson tinha somente 19 anos quando lançou The Psychedelic… com sua banda, 13th Floor Elevators, em 1966, e inventou o rock psicodélico (foi nesse disco inclusive que a palavra foi usada pela primeira em um título). Sua música ajudou a formar um estilo de vida, advogando pelo uso de drogas alucinógenas como meio para expandir a mente e alcançar verdadeira liberdade espiritual. Para ele, a psicodelia não era simplesmente uma capa estética interessante, mas sim uma força de transformação social, musical e mental. O que faz desse disco um marco inesquecível não é sua filosofia é seu som: os enlouquecidos vocais de Erickson, a sonoridade melodicamente perfurante da guitarra, e os ruidos alucinantes de Tommy Hall soprando um jarro (!) formam uma banda de intensidade rara, que ajudou a dar o pontapé inicial da sonoridade que tomaria o mundo no ano seguinte.


Fresh Cream – Cream (lançado em 09/12/66)

Reunindo três dos maiores instrumentistas de todos os tempos, o Cream é o primeiro supergrupo da história do rock. Com Eric Clapton na guitarra, Jack Bruce no baixo e Ginger Baker na bateria, o primeiro disco do Cream dá origem não só a meteórica carreira da banda, mas à própria noção de power trio. O peso então inédito do disco faz de Fresh Cream um gesto instrumental na fundação das bases do que viria a se tornar, por exemplo, o heavy metal e qualquer outro rock realmente pesado. Os apontamentos psicodélicos na feitura das canções, ornamentados pela impressionante cozinha heavy jazz de Baker e Bruce, e com nada menos que a guitarra de Clapton para construir a liga desse som fez do Cream um violento acontecimento fundador.


Roberto Carlos – Roberto Carlos (1966)

O disco de 1966 de Roberto Carlos é o único brasileiro na lista por motivos evidentes: o rock, então incipiente por aqui, ainda não produzia tantos artistas de destaque, e ainda mais grandes discos de rock propriamente (vale lembrar que o Tropicalismo só daria as caras no ano seguinte). Esse o primeiro disco “sério” do próprio Roberto, que começa nele a abandonar exclusivamente o universo adolescente e das temáticas originais da Jovem Guarda, para começar a expandir sua atuação. "Negro Gato", "Querem Acabar Comigo", "Nossa Canção", "Eu Te Darei o Céu", "Namoradinha de um Amigo Meu" e "É Papo Firme" fazem parte do repertório do cantor que cada vez mais se tornava o rei.




Discoteca Básica Bizz #058: Chuck Berry - The Chess Box (1988)8)

quarta-feira, julho 13, 2016


Esta é a história que se conta: Charles Edward Anderson Berry - um guitarrista, cantor e cabeleireiro de 29 anos - e seu amigo pianista Johnnie Johnson apareceram nos estúdios da gravadora de Leonard Chess, em Chicago, num dia de 1955. Vinham munidos de um bilhete de apresentação escrito por Muddy Waters e uma tosca fitinha demo com duas músicas: um blues tradicional ("Wee Wee Hours") e uma "novidade", como Berry a definiu. Uma fusão de R&B e country saltitante intitulada "Ida Red", adaptada de cançonetas anônimas da região de St Louis, terra natal de ambos. Chess torceu o nariz para o blues, mas adorou a "novidade". Pediu que Berry arredondasse a música, que a deixasse dançante, escrevesse uma letra nova com um nome de mulher mais interessante e, sobretudo, polisse sua voz de tenor de forma que não parecesse mais tão negra.

Assim nasceu "Maybellene", e o passo seguinte de Chess foi dar uma misteriosa "parceria" ao DJ Alan Freed, garantindo assim uma massiva execução naquele que era um dos programas mais quentes do rádio americano, Moondog Matinee. "Maybellene" foi um sucesso estrondoso e esta história, que a memória hoje elíptica e seletiva de Berry não confirma nem desmente, é absolutamente exemplar tanto de sua carreira - uma mistura diabólica de gênio e oportunidade - quanto de toda a gênese do rock and roll. Ali estava o talento intuitivo de um artista popular negro compreendendo a oportunidade histórica de misturar estilos brancos e negros, confrontando-se com a argúcia dos intermediários brancos em adaptar sua descoberta às necessidades do mercado. Chess entendeu o que o indignado Johnnie Johnson se recusava a ver: que Berry era um bluesman medíocre, mas um genial inventor de "novidades". E que a América branca, a que tinha dinheiro para comprar discos e vontade de consumir "novidades", estava pronta para elas.



Quem explorou quem? A audição desta The Chess Box revela o óbvio: que no rock, como na vida, não há respostas simples. A coleção de faixas selecionadas nos arquivos da Chess Records tem a desigualdade fulgurante da carreira de Chuck Berry. Estão aqui todos os momentos em que seu talento "novidadeiro" conjurou todos os demônios certos. O repertório de meia dúzia de fraseados de guitarra com o qual ele escreveu o glossário do rock para o instrumento, a ser decorado por Beatles, Stones e depois ampliado por Hendrix. A fusão perfeita de quase todos os estilos populares americanos, brancos, negros e mestiços, numa argamassa ao mesmo tempo sólida e flexível que se chamou rock and roll.

Sua absoluta, genial capacidade de contar longas histórias em poucos versos firmemente amarrados à batida, seu vocabulário ao mesmo tempo precioso e alucinado, escorreito e gauche, suas cápsulas de um universo sobre o qual escrevia de fora como um observador curioso e oportunista - o universo branco juvenil, de carros, bailes e ginásios. De Dylan a Bruce Springsteen, não houve poeta rock que não fosse tributário de Berry, da longa saga de "Havana Moon" aos diálogos interiores de "Little Queenie".

Mas aqui também estão os esboços e diluições de cada um desses momentos: uma série de fillers e bobagens com que Berry enchia compulsivamente o vinil, na sede de capitalizar mais uma necessidade de seu público. Uma polca? Um bolero? Quem sabe uma balada? Mas - Berry, rock and roll - esta é a sua vida: luzes e desvãos, genialidade e diluição, explorados e exploradores num só abraço. No final, saímos todos ganhando.

(Texto escrito por Ana Maria Bahiana, Bizz #058, maio de 1990)

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