Pular para o conteúdo principal

Thorgal Série Clássica Volume II – 1985 a 1990: oito histórias essenciais que mostram porque a série é uma obra-prima absoluta dos quadrinhos (2026, Pipoca & Nanquim)


Poucas séries dos quadrinhos europeus conseguem combinar fantasia, ficção científica, aventura e drama familiar com a mesma naturalidade de Thorgal. Criada por Jean Van Hamme e Grzegorz Rosinski, a saga alcança um de seus momentos mais inspirados em Thorgal Série Clássica Volume II, edição da Pipoca & Nanquim que reúne oito álbuns publicados originalmente entre 1985 e 1990. É um volume que não apenas amplia o universo do personagem, mas também evidencia por que a obra permanece como uma referência absoluta da banda desenhada franco-belga.

A edição da PN é dividida em dois momentos distintos. Os cinco primeiros álbuns formam o célebre Ciclo de Qâ, iniciado em Os Arqueiros. A aventura apresenta personagens fundamentais para o futuro da série, especialmente Kriss de Valnor, uma das figuras mais fascinantes criadas por Van Hamme. O que começa como uma competição de arqueiros rapidamente evolui para uma trama de intrigas, perseguições e alianças improváveis, estabelecendo as bases para uma saga muito maior.

Em O Reino de Qâ, Os Olhos de Tanatloc, A Cidade do Deus Perdido e Entre Terra e Luz, a série abandona os limites da fantasia medieval tradicional para mergulhar em uma narrativa que mistura civilizações perdidas, mitologia, ficção científica e aventura épica. O misterioso continente de Qâ, claramente inspirado nas culturas mesoamericanas, serve de palco para revelações importantes sobre as origens de Thorgal e para o confronto com Ogotaï, um antagonista que transcende o papel de simples vilão.

É impressionante como Van Hamme conduz essa longa narrativa sem perder o ritmo. Cada álbum acrescenta novas peças ao quebra-cabeça, alternando momentos de ação intensa, descobertas surpreendentes e conflitos pessoais. Ao mesmo tempo, o autor amplia a importância da família de Thorgal, dando mais espaço para Aaricia e Jolan, que deixam de ser meros coadjuvantes para assumir papéis cada vez mais relevantes.

Encerrado o arco de Qâ, o volume muda de tom sem perder qualidade. Aaricia oferece um olhar sensível para a personagem-título, explorando sua juventude e fortalecendo sua identidade dentro da série. Em seguida, O Senhor das Montanhas entrega uma das histórias mais emocionantes de toda a coleção ao abordar preconceito, medo e intolerância por meio de uma aventura aparentemente simples, mas carregada de humanidade. Já Loba inicia o desenvolvimento da filha de Thorgal, reforçando que o verdadeiro coração da série sempre esteve na família construída pelo protagonista.

Se Van Hamme impressiona pela consistência do roteiro, Grzegorz Rosinski alcança aqui um dos pontos mais altos de sua carreira. Seu desenho evolui visivelmente ao longo dessas histórias, com páginas repletas de cenários exuberantes, enquadramentos cinematográficos e uma narrativa visual extremamente fluida. As paisagens de Qâ, as sequências de ação e, principalmente, a expressividade dos personagens demonstram um artista em pleno domínio de sua linguagem.

A edição da Pipoca & Nanquim mantém o formato original em que os álbuns foram publicados na França, vem em capa dura e impressão em papel couchê, e traz excelentes textos adicionais que valorizam ainda mais um conjunto de histórias que merece tratamento editorial à altura de seu status de clássico.

Thorgal Série Clássica Volume II representa o momento em que a série atinge sua plena maturidade. O equilíbrio entre espetáculo, emoção e desenvolvimento dos personagens faz deste um dos pontos mais altos de toda a trajetória de Thorgal. Para quem já conhece a saga, trata-se de uma leitura indispensável. Para quem está descobrindo esse universo, é a confirmação de que poucos quadrinhos europeus conseguiram construir uma mitologia tão rica, envolvente e duradoura.


Comentários