Harem End, de Shintaro Kago, parte de uma das fórmulas mais reconhecíveis da cultura pop japonesa para fazer exatamente o que se espera do autor: desmontá-la, distorcê-la e levá-la para um território em que romance, humor, erotismo e horror corporal passam a ocupar o mesmo espaço.
A premissa parece saída de uma comédia romântica convencional. Itou Seita, um universitário, passa a viver cercado por cinco garotas que representam praticamente um catálogo dos arquétipos dos mangás de harém: a amiga de infância, a tsundere, a noiva, a irmã mais nova e até uma garota que afirma ser uma alienígena. É o tipo de situação construída para alimentar a fantasia do protagonista masculino.
Só que estamos falando de Shintaro Kago. E a fantasia rapidamente começa a apodrecer. O grande mérito de Harem End está justamente em utilizar as convenções do gênero contra ele próprio. O leitor reconhece os personagens, as situações e a lógica daquele universo, mas Kago remove progressivamente o conforto proporcionado por esses clichês. O que normalmente seria apresentado como desejo passa a ser encarado pelo prisma do grotesco, da violência e do absurdo.
O ero-guro do autor não funciona apenas como provocação visual. Sangue, mutilações e transformações corporais fazem parte da linguagem usada para questionar uma indústria que transforma personagens, especialmente femininas, em produtos de consumo. Quanto mais a história avança, mais evidente fica que Kago está interessado em discutir os mecanismos que sustentam esse tipo de fantasia.
Isso fica ainda mais claro quando a narrativa passa a acompanhar Hirahara Aya, uma antiga dubladora que recebe a oportunidade de participar de uma misteriosa produção de anime. A partir daí, Harem End amplia seu alvo e começa a satirizar também a indústria de animação, os dubladores e a própria fabricação de personagens e histórias.
É nesse ponto que a obra se torna particularmente interessante. Kago cria uma espécie de jogo entre ficção e realidade, fazendo com que aquilo que acontece dentro da história dialogue com os processos responsáveis por construir esse tipo de entretenimento. A violência deixa de ser apenas uma ferramenta de choque e passa a funcionar como uma maneira de revelar o quanto existe de artificial na fantasia que estamos consumindo.
Nem tudo funciona com a mesma força. A excelente premissa perde parte do impacto conforme a história avança, e algumas soluções parecem mais focadas no absurdo por si só do que em desenvolver plenamente as ideias apresentadas. Para quem espera uma narrativa tão engenhosa quanto o conceito inicial sugere, o desfecho pode soar menos surpreendente do que o restante da jornada.
Ainda assim, Harem End é uma obra que encontra sua identidade justamente no desconforto. Kago não quer simplesmente contar uma história de harém diferente. Ele quer mostrar o que acontece quando os clichês desse gênero são retirados de seu contexto habitual e levados até suas últimas consequências.
A edição Pipoca & Nanquim traz ainda cinco histórias extras e representa mais uma oportunidade de conhecer a produção de um dos autores mais particulares do mangá contemporâneo.
Harem End não é necessariamente a obra mais sofisticada de Shintaro Kago, mas é uma demonstração bastante eficiente de sua capacidade de pegar algo familiar e transformá-lo em algo profundamente estranho. Entre o humor negro, o horror corporal e a sátira da cultura pop japonesa, o mangá encontra sua melhor qualidade justamente onde seus personagens encontram seu pior destino: na desconstrução de uma fantasia que parecia confortável demais.



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