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By the Way (2002): o disco que provou que o Red Hot Chili Peppers podia ir além do funk rock


Depois de lançar um clássico, poucas bandas resistem à tentação de repetir a fórmula. Com o Red Hot Chili Peppers, seria perfeitamente compreensível. Californication (1999) havia vendido milhões de cópias, recolocado o quarteto entre os maiores nomes do rock mundial e demonstrado que o retorno de John Frusciante não apenas reunira a formação mais celebrada do grupo, como também reacendera uma criatividade que parecia perdida durante boa parte da década de 1990. O caminho mais seguro era fazer Californication II. Mas segurança nunca foi exatamente uma característica da banda.

By the Way (2002) talvez seja o disco mais elegante da carreira do Red Hot Chili Peppers. Não porque abandone completamente os elementos que definiram sua identidade, mas porque escolhe colocá-los em segundo plano para explorar algo que até então aparecia apenas de forma pontual em sua discografia: o prazer de construir grandes canções. Se Blood Sugar Sex Magik (1991) era movido pelo groove, pela tensão sexual e pela explosão de energia, e Californication encontrava um equilíbrio quase perfeito entre essa herança e uma escrita mais melódica, By the Way vai ainda mais longe. O funk permanece presente, mas deixa de ser o centro das atenções. Em seu lugar surgem harmonias vocais inspiradas, guitarras cristalinas, arranjos meticulosamente elaborados e uma atmosfera quase contemplativa.

É impossível analisar esse álbum sem reconhecer o protagonismo de John Frusciante. Embora o Red Hot Chili Peppers sempre tenha funcionado como uma banda de personalidades muito fortes, aqui o guitarrista se torna claramente o principal motor criativo. Fascinado pelo trabalho dos Beatles, Beach Boys, Byrds, Big Star e pelo pop sofisticado dos anos 1960 e 1970, Frusciante leva essas referências para o estúdio sem que elas soem como simples homenagem. Em vez de copiar seus ídolos, ele absorve a lógica por trás de suas composições: melodias inesquecíveis, harmonizações vocais ricas e guitarras que servem à música antes de buscar protagonismo.

Essa mudança alterou profundamente a dinâmica interna do grupo. Flea, tradicionalmente um dos principais compositores da banda, revelou anos depois que se sentiu frustrado durante as gravações por perceber que muitas músicas já chegavam praticamente prontas pelas mãos de Frusciante. O conflito existiu, mas acabou servindo para evidenciar uma verdade incontestável: naquele momento específico, o guitarrista atravessava um período criativo absolutamente extraordinário.

Rick Rubin teve a inteligência de perceber isso. Sua produção jamais tenta tornar o álbum grandioso pela força ou pelo volume. Pelo contrário. Há espaço entre os instrumentos. Cada guitarra respira. Cada linha vocal encontra seu lugar. Cada detalhe dos arranjos aparece com naturalidade. É uma produção sofisticada justamente porque evita excessos.

A faixa-título abre o disco quase como uma brincadeira com as expectativas do ouvinte. Seus versos acelerados e o baixo pulsante sugerem que o grupo seguirá o caminho conhecido, mas basta o refrão surgir para percebermos que algo mudou. A agressividade cede espaço a harmonias vocais exuberantes e uma melodia luminosa, estabelecendo imediatamente a identidade do álbum.

Na sequência, "Universally Speaking" praticamente elimina qualquer dúvida. É pop da melhor qualidade, construído sobre simplicidade aparente e enorme riqueza melódica. Anthony Kiedis nunca foi um cantor tecnicamente exuberante, mas poucos vocalistas sabem interpretar suas próprias limitações com tanta inteligência. Sua voz conversa perfeitamente com os backing vocals de Frusciante, que em muitos momentos funcionam quase como um segundo protagonista.

Essa relação entre os dois atinge o auge em "The Zephyr Song". Poucas músicas do Red Hot Chili Peppers transmitem tanta sensação de leveza. O refrão parece flutuar sobre guitarras limpas e discretas, enquanto Chad Smith demonstra uma qualidade frequentemente subestimada: sua capacidade de tocar exatamente o necessário para que a música cresça sem jamais chamar atenção para si.

Se existe uma obra-prima escondida em By the Way, ela atende pelo nome de "Dosed". Curiosamente, a música nunca alcançou a popularidade de alguns dos grandes singles do disco, mas sintetiza como poucas a nova personalidade da banda. São múltiplas camadas de guitarras entrelaçadas, harmonias vocais emocionantes e uma delicadeza raríssima para um grupo cuja fama foi construída sobre riffs pesados e grooves explosivos.

Isso não significa que o Red Hot Chili Peppers tenha perdido sua energia. "Can't Stop" continua sendo um dos grandes hinos da carreira da banda justamente porque demonstra que o groove ainda estava ali. A diferença é que agora ele aparece como parte de um repertório muito mais amplo, e não como seu elemento definidor.

Talvez o aspecto mais fascinante de By the Way seja justamente sua consistência. O disco não depende apenas dos singles. "This Is the Place", "Minor Thing", "Warm Tape", "Midnight", "Tear" e "Don't Forget Me" revelam novas camadas a cada audição, formando um conjunto coeso que convida o ouvinte a ouvir o álbum inteiro, e não apenas suas faixas mais conhecidas.

O encerramento com "Venice Queen" resume tudo aquilo que o disco construiu ao longo de pouco mais de uma hora. Dedicada a Gloria Scott, amiga próxima da banda e figura importante na recuperação de Anthony Kiedis, a música cresce lentamente, alternando momentos de introspecção e explosões emocionais até chegar a um final quase catártico. É um encerramento que transmite uma rara sensação de completude.

Na época de seu lançamento, parte da crítica e dos fãs sentiu falta do Red Hot Chili Peppers mais agressivo. Era uma reação compreensível. Afinal, poucas bandas haviam definido tão bem uma identidade baseada na fusão entre funk e rock. Mas o tempo costuma ser o melhor crítico, e duas décadas depois fica evidente que By the Way representa muito mais do que uma mudança de estilo. É o momento em que a banda demonstra que sua força nunca esteve presa a um gênero específico, mas à capacidade de escrever músicas memoráveis.

Talvez Blood Sugar Sex Magik continue sendo o álbum mais revolucionário do Red Hot Chili Peppers, assim como Californication permanece o disco que simboliza seu renascimento. Mas By the Way ocupa um lugar diferente dentro dessa trajetória. É o trabalho em que o grupo alcança sua maior maturidade como compositor, privilegiando emoção em vez de impacto, sutileza em vez de virtuosismo e beleza em vez de força.

Mais de vinte anos depois, By the Way continua sendo uma audição fascinante. Não porque represente o Red Hot Chili Peppers em sua forma mais conhecida, mas justamente porque mostra uma banda suficientemente confiante para desafiar a própria história. Em uma discografia repleta de grandes álbuns, By the Way permanece como um raro exemplo de evolução artística que não sacrifica identidade. Pelo contrário: amplia seu significado e revela facetas que poucos imaginavam existir.


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