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Ganeshu (2025): novo álbum mostra que, trinta anos depois, o Uganga continua evoluindo


Poucas bandas brasileiras conseguiram construir uma identidade tão particular quanto o Uganga. Desde o início dos anos 1990, o grupo mineiro liderado por Manu "Joker" Henriques jamais se limitou aos códigos tradicionais do thrash ou do hardcore. Em vez disso, fez da mistura sua principal marca registrada, aproximando o peso do metal de elementos do punk, do reggae, do rap e da música brasileira, sempre embalados por letras de forte conteúdo social. Em Ganeshu, décimo álbum de estúdio da banda, essa personalidade atinge um novo patamar.

O título sintetiza a proposta do disco ao unir Ganesha, divindade hindu associada aos novos começos, e Exu, entidade das religiões afro-brasileiras ligada aos caminhos, à comunicação e à transformação. A ideia vai muito além do simbolismo: representa uma banda disposta a abrir novas portas sem abandonar a essência construída ao longo de mais de trinta anos de carreira.

Ganeshu continua apoiado na combinação explosiva entre thrash metal, hardcore e groove, mas expande consideravelmente seu universo sonoro. Há riffs que remetem ao peso clássico do Slayer e do Sepultura, grooves de inspiração noventista, ecos do Black Sabbath e incursões por dub, reggae e rap. Tudo faz sentido dentro da proposta do álbum, conferindo dinamismo a uma audição que surpreende faixa após faixa.

A abertura com "A Profecia" já deixa claro que o Uganga continua afiado. Os riffs são agressivos, a cozinha trabalha com precisão e Manu Joker entrega uma interpretação intensa, equilibrando revolta e consciência. "Confesso" mantém o impacto com um groove marcante, enquanto "Tem Fogo!" surge como um dos momentos mais diretos e explosivos do trabalho.

Mas é em "Exu Não Passa Pano" que o conceito do álbum ganha sua expressão mais contundente. A música confronta preconceitos religiosos e reafirma a defesa da diversidade cultural e espiritual brasileira, tema recorrente nas letras do disco. Em tempos de discursos simplistas e intolerância crescente, o Uganga provoca reflexão sem abrir mão da contundência.

Outro destaque é "Psicoraio Dub", talvez a experiência mais ousada do álbum. Ao incorporar elementos do dub jamaicano sem perder o peso característico da banda, a faixa demonstra maturidade artística e disposição para explorar novos territórios. Já a música-título reúne praticamente todas as características do trabalho, funcionando como uma síntese da proposta musical e conceitual apresentada durante a audição.

A produção é seca, pesada e orgânica, privilegiando a força dos instrumentos sem sacrificar a clareza. As guitarras soam encorpadas, o baixo ocupa espaço importante nos arranjos e a bateria imprime energia constante às composições. O resultado evita tanto o excesso de polimento quanto a crueza artificial que frequentemente compromete discos do gênero.

Ganeshu reafirma o compromisso histórico do Uganga com temas sociais e políticos, mas amplia seu campo de atuação ao abordar espiritualidade, ancestralidade, preservação ambiental e identidade cultural. A banda constrói reflexões que dialogam diretamente com a diversidade brasileira, tornando o álbum relevante também pelo conteúdo que apresenta.

O maior mérito de Ganeshu talvez seja justamente demonstrar que ainda existe espaço para evolução depois de três décadas de carreira. Enquanto muitas bandas acabam reféns da própria fórmula, o Uganga escolhe correr riscos. E acerta. Sem perder a agressividade que sempre definiu sua música, o quarteto entrega um de seus trabalhos mais ambiciosos, diversos e conceitualmente consistentes.

Ganeshu reafirma o Uganga como uma das bandas mais criativas e inquietas do cenário pesado brasileiro. É um álbum que honra o passado, dialoga com o presente e aponta novos caminhos para o futuro.

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