Pouco conhecido no Brasil, o quadrinista espanhol Victor Santos nunca escondeu sua paixão pelo cinema, pela literatura pulp e pelos quadrinhos noir. Desde Polar, obra que o projetou internacionalmente e ganhou uma excelente adaptação pela Netflix, o espanhol demonstra um domínio impressionante da narrativa visual e uma capacidade rara de transformar histórias de ação em experiências cinematográficas. Em Moon Eaters, lançado no Brasil pela Poptopia em uma bela edição em capa dura, com 192 páginas e tradução de Lielson Zeni, o autor leva essa proposta um passo adiante ao fundir thriller policial, horror sobrenatural e mitologia nórdica em uma HQ que funciona como uma verdadeira carta de amor à cultura pulp.
A trama acompanha Tommy Blackfoot, um ex-presidiário que deixa a prisão após quatro anos decidido a reconstruir a vida ao lado de June, mulher com quem manteve contato durante o período em que esteve encarcerado. O reencontro do casal, porém, dura pouco. Fantasmas do passado voltam para acertar contas e Tommy acaba envolvido em uma guerra contra os Filhos de Hati, uma seita violenta que acredita descender de criaturas da mitologia nórdica e busca despertar forças ancestrais por meio de rituais sangrentos. O que começa como um noir criminal logo se transforma em uma história de cerco, sobrevivência e horror.
Embora Tommy seja o protagonista, é June quem muitas vezes domina a narrativa. Victor Santos evita transformá-la na tradicional companheira que precisa ser resgatada e constrói uma personagem cheia de personalidade, inteligência e iniciativa. Ela possui seus próprios objetivos, guarda segredos importantes e participa ativamente dos acontecimentos, tornando-se muito mais do que um interesse amoroso. A dinâmica entre os dois funciona justamente porque o relacionamento é permeado por afeto, desconfiança e revelações que alteram constantemente o equilíbrio da história.
A maior qualidade de Moon Eaters, entretanto, está na forma como Victor Santos mistura referências sem jamais parecer refém delas. Há ecos de Frank Miller, Darwyn Cooke e Mike Mignola nos enquadramentos e no uso expressivo do preto e branco. O clima remete ao cinema de John Carpenter, Robert Rodriguez e Quentin Tarantino, enquanto o horror sobrenatural dialoga tanto com H. P. Lovecraft quanto com a tradição dos filmes B. Todas essas influências são absorvidas pelo estilo de Santos, que imprime identidade própria a cada página.
Essa personalidade também aparece na narrativa gráfica. Trabalhando exclusivamente em preto e branco, o autor utiliza sombras profundas, contrastes marcantes e uma composição de páginas extremamente dinâmica. Os enquadramentos mudam de acordo com a intensidade das cenas, os flashbacks são incorporados de forma natural e a ação permanece sempre clara, mesmo nos momentos mais caóticos. É um quadrinho que demonstra absoluto domínio da linguagem visual e que confirma Victor Santos como um desenhista dono de um estilo próprio e prá lá de marcante.O ritmo acelerado é outra marca da obra. Depois que a história ganha impulso, quase não há espaço para respirar. A violência cresce continuamente, os confrontos se sucedem e a sensação de urgência nunca desaparece. Alguns leitores podem sentir falta de um desenvolvimento mais aprofundado para determinados personagens secundários, mas essa velocidade faz parte da proposta de Moon Eaters. A HQ entrega uma narrativa intensa, direta e cinematográfica, em que cada capítulo conduz rapidamente ao próximo, sem perder a tensão.
Moon Eaters funciona como porta de entrada perfeita para o trabalho de Victor Santos. Não apenas pela excelência da arte ou pela eficiência da narrativa, mas pela maneira como consegue equilibrar ação, suspense, horror e emoção em uma história coesa e envolvente. É uma HQ que dialoga com décadas de cultura pop sem abrir mão de personalidade própria. Para quem aprecia noir, violência estilizada, criaturas sobrenaturais e quadrinhos visualmente sofisticados, trata-se de uma leitura altamente recomendável e de mais um acerto da Poptopia, que vem construindo um catálogo com títulos excelentes.



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