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Music, Fashion, Film (2026): Charli XCX e a arte de desafiar o próprio sucesso


Suceder um álbum que alcançou sucesso absoluto sem cair na tentação de repetir a fórmula vencedora é um desafio que poucos artistas conseguem superar. Depois do impacto cultural de Brat (2024), disco que consolidou Charli XCX como um dos principais nomes do pop contemporâneo, o caminho mais previsível seria entregar uma continuação recheada de refrões explosivos e batidas feitas para dominar as pistas de dança. Em Music, Fashion, Film (2026), ela escolhe seguir na direção oposta.

O oitavo álbum da cantora britânica é curto, direto e surpreendentemente introspectivo. Em pouco mais de meia hora, Charli troca boa parte dos sintetizadores que marcaram seus trabalhos recentes por guitarras, uma produção mais enxuta e canções que refletem sobre criatividade, fama e o peso de viver constantemente sob os holofotes. O título resume bem a proposta: explorar a conexão entre diferentes formas de arte e o impacto que elas exercem sobre sua identidade como artista. E a capa, com o música John Cale, o estilista Marc Jacobs e o cineasta Martin Scorcese reunidos, amplifica ainda mais o conceito do trabalho.

A produção mantém o caráter experimental que acompanha a carreira de Charli, mas desta vez a eletrônica divide espaço com elementos de indie rock e pop alternativo. O resultado não tem o impacto imediato de Brat, pelo contrário: exige atenção e funciona melhor quando ouvido do início ao fim, revelando novos detalhes a cada audição.

Entre os destaques estão "Rock Music", que estabelece rapidamente a nova direção sonora, "Card Declined", uma das composições mais vulneráveis do disco, "Camera", que discute a relação entre imagem e exposição pública, e "2007", uma viagem nostálgica às origens da artista. Já "I'm Afraid" aprofunda o tom confessional do álbum, enquanto "No One Lasts Forever", com participação do cineasta David Cronenberg, encerra o trabalho de forma melancólica e reflexiva.

Naturalmente, uma mudança tão radical divide opiniões. Muitos fãs e críticos elogiaram a coragem de Charli XCX em evitar uma continuação previsível de Brat, classificando Music, Fashion, Film como uma evolução artística consistente. Já outros sentiram falta da energia contagiante que transformou o disco anterior em um fenômeno global, considerando este novo trabalho mais contido e menos memorável.

Independentemente da recepção, Music, Fashion, Film reafirma uma das principais características de Charli XCX: a inquietação. Em vez de perseguir fórmulas de sucesso, ela prefere desafiar as expectativas e colocar sua evolução artística acima da segurança comercial. Talvez este não seja o álbum mais imediato de sua discografia, mas certamente é um dos mais pessoais e sinceros. É justamente essa disposição para correr riscos que faz de Charli uma das artistas mais interessantes do pop atual.


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