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Addiction (1996): o álbum mais pesado e pessoal de Glenn Hughes


Glenn Hughes estava atravessando um período muito particular de sua vida quando gravou Addiction. Depois de anos convivendo com problemas relacionados à dependência química, o baixista e vocalista havia retomado sua carreira e vinha construindo uma sequência de bons discos. Em 1996, porém, resolveu olhar para uma parte bastante dolorosa de seu passado e fez um de seus trabalhos mais pesados.

O curioso é que Hughes não estava particularmente interessado em gravar um álbum de hard rock naquele momento. Depois da versatilidade de Feel (1995), Addiction representou uma mudança brusca de direção. Guitarras pesadas, riffs agressivos e uma atmosfera sombria tomaram conta do disco, produzido ao lado de Marc Bonilla e com Joakim Marsh nas guitarras.

Mas o peso aqui não está apenas nos instrumentos, está também nas letras. A faixa-título, “Addiction”, estabelece o tom, enquanto “Down” recupera um pouco mais do blues e do groove que sempre fizeram parte da identidade de Hughes. “I'm Not Your Slave” mergulha de vez no hard rock pesado, e “Cover Me” introduz a dimensão espiritual que acompanha boa parte do álbum.

O grande momento, porém, está no encerramento. “I Don't Want to Live That Way Again” é uma das composições mais pessoais de Hughes e resume o espírito do disco: não existe romantização do passado, apenas a certeza de que ele não quer voltar para aquele lugar. É isso que faz Addiction funcionar tão bem três décadas depois. Hughes não está tentando parecer mais pesado do que realmente é. Ele está usando o peso como ferramenta para traduzir uma fase específica de sua vida.

nova edição brasileira, lançada pela Melômano Discos em parceria com a Voice Music, torna essa revisita ainda mais interessante. O CD duplo em digipack recupera o álbum original com três faixas ao vivo como bônus — “Way Back to the Bone”, “Touch My Life” e “You Fool No One” — e acrescenta um segundo disco com um show realizado na Holanda em 14 de julho de 1995. E é justamente esse segundo CD que dá um charme especial ao lançamento. O repertório passa por Deep Purple, Trapeze e carreira solo, com músicas como “Stormbringer”, “This Time Around”, “Gettin' Tighter”, “You Keep on Moving”, “Burn”, “The Liar” e “You Are the Music”. Ouvir esse registro ao lado de Addiction cria um interessante retrato de Hughes naquele período: de um lado, o músico revisitando sua história no palco, e de outro transformando parte dela em material autobiográfico no estúdio.

Addiction talvez não seja o disco mais representativo de Glenn Hughes, mas é um dos mais reveladores. É um álbum de transição, pesado, por vezes desconfortável e bastante pessoal. E justamente por não soar como uma tentativa de repetir seus trabalhos anteriores, continua tendo algo a dizer. Esta nova edição brasileira oferece uma boa oportunidade para redescobri-lo e, para quem já conhece o álbum, para reencontrar um Glenn Hughes em um dos momentos mais intensos de sua trajetória.


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