O UFO estava no auge quando entrou em estúdio para gravar Obsession (1878). Depois de Phenomenon (1974), Force It (1975), No Heavy Petting (1976) e Lights Out (1977), a banda havia construído uma sequência que a colocava entre os grandes nomes do hard rock britânico dos anos 1970. Ao mesmo tempo, porém, as relações internas estavam cada vez mais complicadas, especialmente entre Phil Mogg e Michael Schenker. O paradoxo é que, enquanto o grupo se aproximava do seu ponto de ruptura, sua música continuava encontrando novas possibilidades.
Obsession é o quinto e último álbum de estúdio da formação clássica com Schenker. Produzido novamente por Ron Nevison, apresenta um UFO um pouco diferente daquele ouvido em Lights Out. O peso continua presente, mas há mais espaço para melodias, arranjos sofisticados e uma sonoridade acessível. Não é um disco tão imediatamente esmagador quanto Force It, nem possui a atmosfera épica de faixas como “Love to Love”, mas encontra sua própria identidade ao equilibrar hard rock, elementos de arena rock e momentos mais experimentais.
“Only You Can Rock Me” abre o álbum da maneira mais eficiente possível. O riff é direto, o refrão gruda na cabeça e Michael Schenker acrescenta uma das suas características linhas de guitarra. Não por acaso, a música se tornou um dos grandes clássicos do UFO e chegou ao 50º lugar nas paradas britânicas em 1978.
A sequência mostra imediatamente que Obsession não pretende ficar preso a uma única fórmula. “Pack It Up (And Go)” é muito mais agressiva, com Andy Parker arrebentando na bateria e Schenker despejando riffs e solos sobre a cozinha formada por Pete Way e Paul Raymond. É uma das músicas que melhor preservam o lado pesado do UFO, enquanto “Arbory Hill” faz uma curva completamente inesperada: um pequeno instrumental acústico com flauta que funciona quase como um interlúdio dentro do álbum.
Essa diversidade é justamente uma das características mais interessantes do disco. “Ain’t No Baby” trabalha com uma pegada mais lenta e pesada, enquanto “Lookin’ Out for No. 1” introduz arranjos de cordas e uma dimensão quase grandiosa. O UFO não estava abandonando o hard rock, mas começava a explorar uma linguagem capaz de dialogar com um público maior. A produção de Nevison ajuda bastante nesse processo, combinando polimento e peso sem retirar da banda sua personalidade.
“Hot ’N’ Ready” recupera a urgência do início do disco e aparece como uma das grandes representantes do UFO mais direto e pesado. “Cherry”, por outro lado, segue uma direção mais melódica e atmosférica, com Schenker novamente brilhando. “You Don’t Fool Me” mantém a alternância entre peso e melodia, enquanto “One More for the Rodeo” devolve ao álbum o espírito de estrada que sempre esteve associado ao grupo.
O grande personagem de Obsession, naturalmente, é Michael Schenker. Sua guitarra está espalhada por todo o disco, mas o mais interessante é perceber como ele não funciona apenas como um solista. As melodias, os riffs e as pequenas intervenções instrumentais ajudam a definir a identidade das composições. Em “Born to Lose”, que encerra o álbum, essa característica fica especialmente evidente. O guitarrista transforma a música em uma espécie de despedida involuntária de uma das formações mais importantes do hard rock setentista.
Obsession ganha uma dimensão ainda maior quando se conhece o que aconteceria em seguida. A banda partiria para uma extensa turnê, registrando apresentações que posteriormente dariam origem a Strangers in the Night (1979). Durante o processo de preparação e mixagem do álbum ao vivo, porém, Michael Schenker deixaria o UFO, encerrando a trajetória de uma formação que havia ajudado a redefinir os caminhos do hard rock nos anos 1970. Por isso, é difícil separar Obsession de Strangers in the Night. Se o álbum de estúdio registra o UFO no momento em que aquela formação começava a chegar ao fim, o clássico trabalho ao vivo funciona quase como sua consagração definitiva. Músicas como “Only You Can Rock Me”, “Hot ’N’ Ready” e “Pack It Up (And Go)” ganham no palco uma energia e uma contundência que revelam todo o potencial da banda em seu ambiente mais natural. Ouvir os dois discos em sequência é acompanhar, praticamente em tempo real, o último grande capítulo da era Michael Schenker no UFO.
Obsession
é o retrato de uma banda tentando avançar enquanto começava a se desfazer por
dentro. É um álbum de transição, mas não de indecisão. O UFO ainda tinha riffs
poderosos, grandes melodias e Michael Schenker em uma de suas fases mais
criativas, ao mesmo tempo em que experimentava novas texturas e procurava
ampliar seu alcance.
O resultado não é o disco mais perfeito da fase clássica do UFO. É, porém, um dos mais reveladores. Quando os créditos finais chegam, fica a sensação de que estamos ouvindo não apenas o último álbum de estúdio de uma formação histórica, mas o momento exato em que uma era chegava ao fim. E poucas bandas conseguiram transformar tanta tensão interna em música tão boa.
O álbum foi relançado no Brasil pela Wikimetal, em uma edição slipcase com três faixas extras ao vivo.
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