É curioso ouvir Frehley's Comet hoje e perceber como Ace Frehley estava tentando encontrar seu lugar em 1987. Cinco anos haviam se passado desde sua saída do Kiss, o hard rock americano havia mudado radicalmente e o guitarrista que ajudara a definir a sonoridade de uma das maiores bandas dos anos 1970 precisava reconstruir sua carreira praticamente do zero. O resultado é um álbum que não tenta repetir o passado, mas também não consegue abandoná-lo completamente.
Frehley's Comet é o primeiro disco de Ace depois do álbum solo de 1978 e surgiu de um projeto que originalmente pretendia funcionar como uma banda. Ao lado de Tod Howarth, John Regan e Anton Fig, Ace encontrou uma formação capaz de ampliar suas possibilidades sem apagar sua identidade. Fig, aliás, já havia tocado no primeiro álbum solo do guitarrista, e a produção ficou novamente nas mãos de Eddie Kramer, responsável por aquele disco histórico.
A diferença de quase uma década entre os dois trabalhos, porém, é impossível de ignorar. Se o álbum de 1978 apresentava um Ace essencialmente conectado ao hard rock setentista, Frehley's Comet olha diretamente para o mercado de 1987. Teclados, refrões mais acessíveis, produção mais limpa e uma abordagem próxima do pop-metal aparecem em vários momentos. "Into the Night", composição de Russ Ballard, é o exemplo mais evidente dessa tentativa de aproximação com o som das rádios da época. "Calling to You" e "Dolls" também carregam essa preocupação.
Mas há uma qualidade importante em tudo isso: Ace continua soando como Ace. A guitarra permanece no centro da música, seus solos têm aquela mistura particular de simplicidade, melodia e personalidade e sua voz, tão pouco convencional quanto sempre foi, impede que o álbum se transforme em um produto genérico de 1987. Mesmo quando a produção tenta deixá-lo mais contemporâneo, existe algo essencialmente Frehley em suas músicas.
A abertura com “Rock Soldiers” é praticamente uma declaração de princípios. Ace transforma sua própria trajetória em música, revisitando os problemas pessoais, o acidente de carro e os anos turbulentos que marcaram o período posterior ao Kiss. Mais do que uma boa canção de hard rock, ela funciona como uma apresentação: Ace Frehley está de volta e tem uma história para contar.
"Breakout" também merece atenção especial. Sua origem remonta às sessões de Music from "The Elder" (1981), quando Ace trabalhou na composição com Eric Carr. Recuperada para seu novo projeto, a faixa ganha aqui um significado adicional, funcionando como uma ponte entre o passado no Kiss e a nova fase do guitarrista.
"Stranger in a Strange Land" segue por uma linha mais sombria e introspectiva, enquanto "We Got Your Rock" e "Love Me Right" recuperam a vocação mais direta e festiva do hard rock. E, no encerramento, "Fractured Too" retoma a tradição instrumental iniciada por "Fractured Mirror" no álbum de 1978. É uma maneira elegante de lembrar ao ouvinte que, por trás de todas as tentativas de atualização, continua existindo aquele guitarrista que fez história no Kiss.
Ace não estava mais em 1978, mas também não havia se tornado completamente um músico de 1987. O álbum fica no meio desse caminho. Há momentos em que os teclados e a produção denunciam sua época, enquanto outros preservam o espírito do hard rock que ajudou a construir. O retorno também foi comercialmente relevante. Frehley's Comet chegou ao 43º lugar da Billboard 200 e ultrapassou a marca de 500 mil cópias vendidas nos Estados Unidos. Ace ainda estava longe da dimensão comercial do Kiss, mas havia demonstrado que seu nome continuava tendo peso suficiente para sustentar uma carreira própria.
O problema é que o Frehley's Comet não encontraria uma identidade tão estável nos trabalhos seguintes. Second Sighting (1988) aprofundaria a aproximação com o hard rock melódico daquele período, enquanto Ace retomaria o controle do próprio nome em Trouble Walkin' (1989).
Visto em retrospecto o primeiro álbum do Frehley's Comet ocupa uma posição bastante particular na discografia do guitarrista. Não é o clássico absoluto que foi seu álbum solo de 1978, e seria injusto avaliá-lo sob essa sombra. Também não é simplesmente um disco datado de pop-metal. É o registro de um músico tentando reconstruir sua carreira em uma época que havia mudado enquanto ele estava fora.
Ao final do álbum, fica a sensação de que Ace não estava simplesmente tentando voltar ao lugar de onde havia saído. Estava tentando descobrir para onde poderia ir. E essa é uma das coisas que tornam Frehley's Comet um disco tão interessante dentro da história do hard rock dos anos 1980.
O álbum foi relançado pela Wikimetal em CD slipcase.


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